Apae: 60 anos em busca da inclusão


No dia 11 de dezembro de 2014 serão comemorado os 60 anos da fundação da primeira Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) no Brasil. O primeiro passo para o chamado "Movimento Apaeano", responsável pela criação daquela que é considerada a maior rede de atenção à pessoa com deficiência intelectual e múltipla do país, com 2.130 unidades em todo o território nacional, foi dado no Rio de Janeiro. O objetivo da instituição é melhorar as condições de educação, saúde, assistência social, formação para o trabalho, na perspectiva da inclusão de seus assistidos na sociedade.

Tal desafio demanda dedicação por parte dos envolvidos e, obviamente, recursos financeiros. Uma das prioridades da Apae-Rio, atualmente, é conseguir apoio para a reabertura do Centro Integrado de Educação e Trabalho (Cinet), localizado em Benfica, zona norte da cidade, e fechado há cerca de dois anos por problemas estruturais. O local é considerado perfeito para as atividades pedagógicas promovidas pela instituição filantrópica. Atualmente, o trabalho acontece de maneira adaptada na sede na Tijuca. "O atendimento já é muito bem feito, mas só chegaremos ao ideal quando voltarmos para Benfica", afirmou Arianna Helena Ferreira Siqueira, coordenadora pedagógica da Apae-Rio.

Segundo Elizabeth Morgado, diretora da Apae-Rio, a busca por parceiros já dura um ano e meio. Para facilitar, a instituição dividiu a obra em cotas. "Para que ninguém corra risco, levamos todo mundo para a Tijuca, mas o objetivo é retornar ao Cinet para oferecermos um atendimento bem melhor. Por isso, pedimos parcerias de empresas de grande porte que possam ajudar na reforma", falou, revelando que, neste ano, a instituição conquistou o direito de oferecer educação infantil e pretende abrir uma creche já em 2015.

FOLHA DIRIGIDA — Pode nos falar um pouco sobre a Apae: quando surgiu e quais os seus principais objetivos?
Elizabeth Morgado —
A Apae foi criada em 1954, por uma mulher que tinha um filho com Síndrome de Down. Ela era dos Estados Unidos, onde já existia esse trabalho. Ao chegar no Brasil, ela percebeu que não tinha ninguém para receber sua filha de 11 anos. Então, com essa experiência, criou a associação de pais. É bom frisar que a Apae não é uma ONG, mas sim uma instituição filantrópica. Hoje, aqui no Rio de Janeiro, atendemos 148 pessoas. Mas já tivemos épocas, como quando estávamos no Cinet, que fechou totalmente há dois anos, que chegamos a cuidar de 800 a 900 alunos.

Em 2014, a Apae completa seis décadas de existência. Qual tem sido o impacto do trabalho realizado pela instituição na vida das pessoas atendidas?
Arianna Helena Ferreira Siqueira —
O público atendido na parte educacional hoje é de adultos. A parte pedagógica é iniciada aos 14 anos até quando permanecerem conosco. O impacto é o fato de ser o ambiente de socialização deles. Esses adultos, principalmente os que têm mais de 30 anos, não estavam incluídos na sociedade. Eram excluídos e ficavam em casa. A Apae era o único ambiente de desenvolvimento. Com isso, criam laços que tornam a instituição uma casa para eles. Para essa faixa etária, principalmente, a Apae é primordial. Hoje, os mais novos já podem desfrutar de algumas políticas de inclusão. Porém, a parcela de 14% da população com deficiência não aumentou, sempre foi assim. O problema é que estavam em suas residências. Nossa luta é justamente para que eles possam sair de casa. É basicamente o que tentamos fazer. O jovem já tem essa vantagem, mas os mais velhos não. Temos alunos de 60 anos, ou seja, desde quando a Apae existe, que a instituição era o único lugar para ficarem. Então, o impacto pode ser explicado como o único ambiente formador e de preparação para o mundo la fora.

Como está a situação da Apae hoje? Tem recebido o apoio necessário para funcionar plenamente?
Elizabeth Morgado —
Como somos uma instituição filantrópica, temos associados. As pessoas dizem o que podem doar, seja R$10 ou R$10 mil, em sua proposta de associação, a Apae faz o boleto e manda para as residências mensalmente. Também temos parceiros, como Piraquê, Serviço Social do Comércio (Sesc) e Centrais de Abastecimento do Estado do Rio de Janeiro S/A (Ceasa), por exemplo, para angariarmos dinheiro ou produtos como biscoitos, alimentos, etc. Além disso, trabalhamos com convênios, como o que temos com a prefeitura do Rio, que paga um determinado valor por aluno matriculado. Portanto, vivemos basicamente dos sócios, parceiros e conveniados que conquistamos. Inclusive, precisamos de mais pessoas e instituições dispostas a ajudar.

Quem deseja contribuir com a instituição, como pode fazer?
Arianna Helena Ferreira Siqueira —
Podem fazer contato conosco pelo telefone, indo à instituição ou pelo email. Para nós, é muito importante. As parcerias, em todos os níveis, são fundamentais. Além disso, aceitamos gente disposta a realizar trabalhos voluntários. Só na área pedagógica, são sete voluntários, fora as outras repartições da instituição. Aceitamos esse tipo de ajuda com o coração aberto, sempre tentando conciliar o que o voluntário tem a oferecer e o que nós precisamos.

Qual é a filosofia pedagógica que norteia o trabalho da Apae atualmente?
Arianna Helena Ferreira Siqueira —
Nesse semestre, implantamos as oficinas de desenvolvimento, nas quais estimulamos todas as potencialidades das pessoas com deficiência. A de atividades da vida diária, por exemplo, é voltada para os grupos mais comprometidos de deficiência intelectual, onde trabalhamos higiene, corte de unha, etc. Para nós são comportamentos naturais mas, para eles, é ensino e precisamos lembrá-los todos os dias de coisas simples. Temos a oficina de atividades de vida prática, que é o passo seguinte. Aprendem que se beberam um copo d'água e deixaram na mesa, depois precisam tirá-lo de lá. Na oficina de estética, descobrem que cortar a unha, além de higiênico, também faz bem para a auto estima. É mais fácil ser inserido na sociedade com uma aparência tratada. Aprendemos isso na vida de uma forma quase inconsciente, mas eles precisam ser direcionados. Então, cada conquista que pode parecer pequena, como vestir as meias sozinho, é uma vitória. Passando para grupos com comprometimento moderado, temos oficinas de fotografia, de corpo e movimento, nas quais trabalhamos expressão, identidade, reconhecimento espacial, história e interpretação, artes plásticas, educação artística, reciclagem, pintura, recreação educativa e informática. Temos ainda o reforço escolar e os jogos pedagógicos. Alfabetização, leitura, escrita e matemática entram nas próprias oficinas. O importante é desmistificar que a aprendizagem não se dá apenas sentado com lápis e papel, mas pode ocorrer de diversas formas muito mais significativas.

Elizabeth Morgado — Acrescentando um pouco sobre o nosso trabalho, conseguimos a aprovação para começarmos a atender também a educação infantil. Como foi aprovado este ano, pretendemos iniciar a montagem do trabalho para que já tenhamos uma creche em 2015. Além da parte pedagógica,
temos a parte das terapias, com fonoaudióloga, psicóloga e terapeuta ocupacional. Nosso atendimento vai da infância até a idade adulta. Neste momento, por algumas dificuldades que passamos, é como se tivesse a terapia e a pedagogia separadas, mas a ideia é promover a junção. Já que passamos a poder oferecer creches, vamos trabalhar com esses bebês que estão com os psicólogos na estimulação precoce e montar a educação infantil e a educação formal especializada.

Na Tijuca, funciona o Centro de Estimulação do Desenvolvimento Global. Que tipo de atividades para o estudante são desempenhadas neste espaço?
Arianna Helena Ferreira Siqueira —
A sede da Tijuca é onde deveria ficar a parte terapêutica e a administrativa. Porém, por motivos financeiros e estruturais, o Cinet, onde deveria ficar a parte pedagógica, está fechado. Por isso, tivemos que concentrar todos na Tijuca, um prédio sem a estrutura
ideal para a parte pedagógica, como tinha o Cinet. Temos deficientes com comprometimentos graves de locomoção, então se o elevador quebra, por exemplo, não conseguimos movimentá-los, pois são seis andares. Já o Cinet é amplo, linear e tem os espaços apropriados. No Centro de Estimulação, tivemos que adaptar da melhor maneira possível. Nosso principal foco é voltar para Benfica. Os próprios alunos perguntam quase que diariamente quando será o retorno. Nosso trabalho pedagógico hoje é muito bom. Um questionamento que costumam fazer é que a Apae exclui, pois argumentam que só ficam na instituição e não saem. Mas é justamente o contrário. Estamos ali para prepará-los para serem incluídos. Para que sejam ainda melhor trabalhados, precisamos voltar ao Cinet. O atendimento já é muito bem feito, mas só chegaremos ao ideal em Benfica.

Elizabeth Morgado — Eles já estão acostumados com o Cinet, porém não há condições de voltarmos enquanto não fizermos obras. E não são coisas simples como uma pintura; precisamos mexer na parte estrutural, elétrica, esgoto, etc. Para que ninguém corra risco, levamos todo mundo para a Tijuca, mas o objetivo é retornar ao Cinet para oferecermos um atendimento bem melhor. Por isso, pedimos parcerias de empresas de grande porte que possam ajudar na reforma. Até o momento, não conseguimos nenhum apoio. Estamos há aproximadamente um ano e meio procurando. Para não ficar muito caro, dividimos em orçamentos diferentes, um para a elétrica, outro para estrutura e assim por diante. Isso possibilita que aqueles que não podem arcar com os cursos da obra inteira possam contribuir em alguma parte.

Os jovens excepcionais enfrentam muitas dificuldades para a inserção no mercado de trabalho atualmente? Quais?
Elizabeth Morgado —
Nossa proposta é a da inclusão. Inclusive, existe uma lei que reserva uma cota para deficientes nas empresas. Então, às vezes, recebemos algumas ligações oferecendo vagas. Durante as atividades da Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla, houve uma palestra sobre educação especial e inserção no mercado de trabalho com a participação de dois alunos nossos que trabalham na White Martins. Temos alunos que são contratados, mas vão uma ou duas vezes para lá e cumprem o resto da jornada de trabalho na Apae. Não temos ligações fortes com as empresas. Geralmente, elas vêm nos procurar para indicarmos algumas pessoas com deficiência. Nosso trabalho mesmo é a inclusão, ou seja: preparar os que têm cognitivo um pouco melhor para a trabalhar. Por outro lado, também existem os que trabalham dentro da própria instituição. Em época de Natal, produzem cartões. Temos quadros maravilhosos pintados por eles e pretendemos organizar uma exposição. Mesmo aqueles que não vão para o mercado, são capazes de produzir coisas maravilhosas.

Arianna Helena Ferreira Siqueira — Um problema comum que costumamos conversar é que portadores de outras deficiências, como a surdez, são mais fáceis de serem incluídos, porque fisicamente não há nada que cause estranhamento. Não falam ou escutam, mas te compreendem, não há deficiência cognitiva; então não é precisa explicar algumas vezes até conseguirem se adaptar. Para os deficientes intelectuais, já é mais complicado, porque existe preconceito com termos chulos e falta de paciência. E a cota que a Elizabeth falou não especifica qual deficiência, o que causa ainda mais dificuldade. Só trabalhamos com deficientes intelectuais e percebemos que existe uma diferença de tratamento em função da idade por parte das pessoas. Quando são bebês, acham lindos e fofos. Quando são idosos, as pessoas andam na rua e viram o rosto. Portanto, precisamos trabalhar esse tipo de coisa na sociedade como um todo. É importante frisar que queremos prepará-los para a inclusão, mas que o restante da população esteja pronta para encará-los sem repulsa. Alguns não conseguem ser tão bem incluídos, mas também podem ser funcionais. Temos oficinas de trabalho informal, então mostramos que tudo que fazem pode ser útil. Isso é fundamental para eles.

Um tema debatido com frequência no meio educacional é como deve ser feito o atendimento escolar as pessoas com deficiência. Na sua opinião, o que é mais recomendável: o acesso às escolas com profissionais especializados e infraestrutura específica ou o ingresso em turmas regulares nas escolas?
Arianna Helena Ferreira Siqueira —
Sou a favor da inclusão, desde que seja benéfica. O aluno que está sendo incluído, a turma e toda a estrutura precisa ter ganhos. Se tenho um autista que tem problemas graves, que se mutila, por exemplo, não será bem incluído. Um com Síndrome de Down leve, em uma sala com 40 alunos, sem mediação e sem sala de recursos, também não será bem estimulado. Por isso, a inclusão precisa ser bem feita e na idade correta. Só será bom para os alunos, se a escola fornece as ferramentas e estruturas necessárias e se a família pode participar, será ótimo e dará certo. Contudo, a educação especializada, mesmo com a inclusão nos padrões ideais, nunca poderá ser abandonada, nem que seja no contraturno. É ali que será o aluno estimulado em todas as suas potencialidades. Falar de inclusão é fantástico e existem ótimas ideias, o problema é trabalhar um processo mal feito goela abaixo e denegrir o trabalho das instituições de educação especial. É fácil falar em inclusão, colocar a criança em sala e deixar lá. Mas isso não é incluir. Se ficar em sala regular sem assistência, não acontecerá nada com ela.

Como avalia a atuação do governo federal em relação às políticas voltadas para a educação especial? Este segmento tem sido visto como prioritário no país ou tem sido relegado a segundo plano?
Elizabeth Morgado —
Infelizmente, tem sido relegado a segundo plano, em parte, por conta da inclusão obrigatória. Acabam dizendo que instituições como a Apae são excludentes e distorcem o que a gente faz. Passamos por essa luta para provar que sempre desempenhamos esse papel, antes mesmo do governo. Há 60 anos promovemos um trabalho que nunca foi prioridade. Continuamos firmes e fortes, mostrando que nossa instituição é séria e composta por profissionais bem preparados para desenvolver as pessoas com deficiência e aí sim incluí-las, não excluí-las.

Serviço
www.riodejaneiro.apaebrasil.org.br
Telefones: 3978-8800 e 3978-8831
Endereço: Rua Bom Pastor, 41, Tijuca
Email: riodejaneiro.rj@apaebrasil.org.br
Banco: Itaú
Agência: 0842
Conta: 03333-4

Por: Renata - renataevora@gmail.com
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