Capital Humano: O mais importante fator de desenvolvimento


Prêmio Nobel de Economia nos anos 70, o americano Theodore Schultz concluiu através de pesquisas que a educação torna as pessoas mais produtivas. Além disso, prestar atenção na saúde aumenta o retorno do investimento também na educação. A este conceito ele nomeou "Capital Humano".

Quando a teoria foi criada, o professor Roberto Boclin estudava no Instituto de Desenvolvimento e Pesquisa, na França. Na época, escreveu uma pequena apostila de trabalho sobre o Capital Humano, que resultou no livro "Resgatando o Capital Humano", lançado no final de 2015, pelo educador. "No conjunto de equações, o economista mostrou que os investimentos realizados influenciam no Produto Interno Bruto (PIB) dos países. O fecho do livro é mostrar que ao investir em educação, por exemplo, o PIB do país aumenta", destacou Roberto Boclin.

Para o educador, que é membro da Academia Brasileira de Educação e da Associação Brasileira de Educação, o resultado colhido pelos países ao colocarem em prática ações capazes de valorizar o Capital Humano é razão de ser de sua obra. Como exemplo, Roberto Boclin citou duas nações asiáticas. "O Japão saiu do analfabetismo total para chegar a ser, hoje, uma das nações mais desenvolvidas do mundo. Há 20 anos atrás, a China era um país de analfabetos. Ninguém acreditava em um progresso tão acelerado", comentou.

Doutor em Educação, o ex-presidente do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro (CEE-RJ) também já esteve à frente do Serviço Nacional de Aprendizagem  Industrial (Senai-RJ). Referência na área da educação profissional, Roberto Boclin considera preocupante o cenário do ensino técnico no Brasil. De acordo com o especialista, um dos erros é colocar o ensino profissional depois do ensino médio. "São currículos distintos que não foram contemplados dos anos 70 até hoje. Continuamos em uma situação deprimente. Enquanto o ensino profissional não tiver currículo independente e equivalência ao ensino médio, a situação do Brasil não se modifica."

Nesta entrevista, Roberto Boclin comenta ainda sobre o perfil de um sistema educacional que valoriza o Capital Humano e fala sobre outra publicação de sua autoria: "Educação à Deriva". "Esse livro reúne artigos sobre educação, planejamento educacional, desenvolvimento econômico. Resolvi criá-lo porque ao revê-los, e apesar deles terem oito, dez anos, constatei que são extremamente atuais. Não se fez nada nesse período", conclui o professor Roberto Boclin.


FOLHA DIRIGIDA - O senhor lançou recentemente o livro "Resgatando o Capital Humano". Pode apresentar, para nossos leitores, os principais pontos que o senhor destaca na obra?

Roberto Boclin - O Capital Humano foi um estudo feito por um economista chamado Theodore Schultz. Todo investimento em educação, saúde e alimentação significa investir no Capital Humano. É como se uma pessoa comprasse uma máquina. Ao adquirir um torno mecânico, precisamos de um torneiro, porque, do contrário, ele não funciona. O investimento neste torneiro, o Theodore Schultz denominava Capital Humano. No conjunto de equações, o economista mostrou que os investimentos realizados influenciam no Produto Interno Bruto (PIB) dos países. E é fundamental para o crescimento deles. Na época da criação do conceito, inúmeros outros economistas fizeram estudos semelhantes. Na ocasião, eu estava na França onde aprendi toda essa teoria e escrevi uma espécie de apostila de trabalho sobre o Capital Humano. Junto com ela, introduzi as ações de planejamento da educação que foram feitas. Não só as brasileiras como as estrangeiras. Encerro o livro mostrando que, ao investir em educação, por exemplo, o PIB do país aumenta. Acho que o resultado que os países colheram ao realizar o Capital Humano é o melhor exemplo e a razão de ser do trabalho.

Qual o perfil de um sistema educacional que valoriza o capital humano?

Não existe propriamente um perfil. O que há é um planejamento que envolve identificação das grandes demandas, o que os países pretendem fazer para desenvolver o PIB. A educação, a alimentação e a saúde vêm em função do investimento que tem sido feito.

Que experiências bem sucedidas em outros países o Brasil poderia seguir, no campo da educação profissional?

Dou o exemplo da França, que é um país altamente desenvolvido historicamente. Nos últimos 20 anos, a França promoveu reformas extraordinárias no sistema educacional dando ao ensino profissional uma parcela preponderante. A União Européia (UE), com o Processo de Bolonha, mexeu com a educação básica e o ensino superior. Foi uma grande reforma iniciada pela França, pela Inglaterra e estendida a mais de 40 países. O Japão saiu do analfabetismo total para chegar a ser, hoje, uma das nações mais desenvolvidas do mundo. Há 20 anos atrás, a China era um país de analfabetos. Ninguém acreditava em um progresso tão acelerado. Feito em cima de quê? Do Capital Humano.

Como o senhor vê o cenário da educação profissional no Brasil? Quais avanços são necessários nessa área?
O cenário da educação profissional do país está há mais de 40 anos extremamente prejudicado. O Brasil não deu importância à educação profissional. Nos anos 40, Gustavo Capanema criou as escolas técnicas e associou o currículo do ensino profissional, tornando-a equivalente ao ensino médio. Nesta época, houve um grande movimento a favor do ensino técnico. Foi um período de muitas realizações com a criação do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac). A partir dos anos 70, os educadores lamentavelmente entenderam que o ensino profissional deveria passar pela formação profissional após o ensino médio. Foi um fracasso completo e é até hoje.

Por quê?

Porque o ensino profissional não tem grandes relações com o ensino médio. A formação do currículo, do cidadão trabalhador, tem outras conotações. Se uma pessoa oferece um curso em que a vocação do aluno é o Direito, é muito importante a escrita, conhecer História, Economia. Nada disso deve ser objeto do curso profissional em Eletricidade, Eletrotécnica. Estes precisam de conhecimentos de Matemática, Física e Química mais apurados. São currículos distintos que não foram contemplados dos anos 70 até hoje. Na Lei de 1993/1994, a educação profissional ganhou um espaço reservado, porém, não foi regulamentada a contento. Continuamos em uma situação deprimente. Enquanto o ensino profissional não tiver currículo independente e equivalência ao ensino médio, a situação do Brasil não se modifica. As pessoas que querem trabalhar precisam fazer um curso profissional que, em menos de dois, três anos, já as coloque no mercado. Não precisam cursar o ensino médio e depois mais um ou dois anos de ensino profissional.

De que forma a diretriz da educação para o trabalho poderia ser inserida na formação educacional dos estudantes brasileiros?

A educação no trabalho é voltada imediatamente para que as pessoas, segundo suas vocações, integrem-se ao mercado de trabalho e ganhem dinheiro. Mais adiante é até possível fazer um curso superior. O preconceito contra a educação profissional causa um grande prejuízo e nós estamos diante de uma situação, ao meu modo de ver, lamentável. A legislação ainda é muito arcaica ao obrigar o ensino técnico a ser dependente do ensino médio.

O senhor também lançou o livro "Educação à Deriva", que traz artigos publicados de 2008 a 2015. O que os leitores podem encontrar nessa obra? Quais temas foram predominantes e que o senhor considerou ao eleger os artigos publicados?

Esse livro reúne artigos sobre educação, planejamento educacional, desenvolvimento econômico. Resolvi criá-lo porque ao revê-los, e apesar deles terem oito, dez anos, constatei que são extremamente atuais. Não se fez nada nesse período. Por exemplo: metade dos alunos matriculados no ensino médio já não estão mais no terceiro porque abandonaram. É uma perda lamentável de investimento. E por que abandonaram? Porque esse ensino médio composto não leva a nada. O aluno chega ao final dele, não sabe nada e não tem identificação com nenhuma atividade profissional. Só alguns realmente privilegiados socialmente ingressam nas universidades. De cada 100 estudantes que entram no primeiro ano do ensino fundamental, só três ingressam em uma universidade pública. O livro fala sobre isso tudo.

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