Como fazer de seu filho um estudante de sucesso


Todos sabem que o papel da escola é educar. Porém, a educação também vem do berço. Os pais podem (e devem!) auxiliar no processo ensino-aprendizagem. Acompanhar cotidianamente as tarefas e dar autonomia para incentivar a responsabilidade e a adequação comportamental são detalhes fundamentais para que os pais cumpram seu papel de orientador dos filhos em idade escolar. “Uma boa educação é o resultado de um trabalho bem feito pela escola e pela família”, defende a doutora em Educação pela PUC-Rio Andrea Ramal, autora do livro Depende de Você: Como fazer de seu filho uma história de sucesso.

A ideia de que o envolvimento dos pais constitui um fator de sucesso escolar parece constituir um consenso social. Mas no seu reverso encontra-se um conjunto de críticas, relativas à relação que os pais estabelecem com a escola, bem como ao próprio funcionamento da família. Na cultura ocidental, os pais de hoje demitem-se muitas vezes das suas funções paternais. Atitude que se deve, em parte, à própria concepção do mundo moderno e, por outro prisma, aos condicionamentos da sociedade, a que muitos pais estão também sujeitos.

Nesta entrevista, Andrea Ramal aborda algumas questões desse difícil relacionamento, dá algumas dicas para os pais - que em seu livro divide em dez tópicos - e ainda orienta as duas partes para que se contorne os problemas e a educação funcione como uma sinfonia tocada por uma grande orquestra bem ensaiada.

FOLHA DIRIGIDA — No livro “Depende de Você: Como fazer de seu filho uma história de sucesso”, a senhora apresenta orientações práticas e seguras para os pais acompanharem o desempenho escolar dos filhos. Qual a contribuição mais importante que os pais podem trazer para o aprendizado dos filhos? Por quê?
Andrea Ramal - Se os pais desejam que seus filhos sejam pessoas de sucesso, isto é, pessoas competentes, que se relacionam bem com os demais, com equilíbrio pessoal, autoconfiantes, bem resolvidas e felizes, eles precisam entender que isso tem a ver com a educação que se recebe. Uma boa educação é resultado de um trabalho bem feito pela escola e pela família. Quanto maior o envolvimento dos pais com o estudo dos filhos, melhores são os seus resultados na escola e também ao longo da vida. O mais importante é a qualidade da presença: o diálogo com o filho, com interesse sobre o que acontece na escola, atenção para ver se ele aprende tudo o que deveria, e a intervenção junto à escola nos momentos de dificuldade.

Além da orientação que a senhora considera a principal, quais outras acredita que são importantes?
Os pais devem exigir compromisso dos filhos com os estudos e, ao mesmo tempo, apoiá-los quando surgem problemas, porque ninguém aprende por cobrança, e sim por estar interessado nos conhecimentos novos. Os pais precisam ajudar a organizar a agenda diária dos filhos, colocando o estudo no horário nobre, quando a criança e o jovem estão bem dispostos. Verificar se os deveres estão feitos, se a matéria não está se acumulando para estudar só na véspera da prova. Participar de todas as reuniões de pais e acompanhar o trabalho da escola, para ver se ela oferece um ensino de qualidade, com aulas interessantes, materiais e recursos atualizados e bons professores. E mostrar ao filho que estudar é importante e vale a pena.

A senhora defende que uma das razões para os alunos brasileiros não aprenderem o que poderiam é a falta de acompanhamento da vida escolar dos filhos, por parte dos pais. Por quê?
Uma educação de qualidade é o resultado do trabalho de uma equipe: a escola e a família. Para nenhuma delas, educar é fácil, porque os desafios de hoje são diferentes dos de outras épocas. Para formar uma pessoa completa, com as competências necessárias para viver bem no mundo de hoje, e com todas as suas dimensões desenvolvidas (intelectual, afetiva, física, social, cidadã...) a escola e a família precisam atuar em conjunto, uma reforçando o trabalho da outra. O problema é que muitas famílias entregam a responsabilidade de educar quase totalmente para a escola. Outras gostariam de acompanhar os estudos, mas não sabem como fazer isso.

A senhora também ressalta que nos países com sistemas educacionais mais avançados, a parceria escola/família funciona de forma eficaz. Como essa relação é incentivada pelas escolas, nesses países?
Na Coreia do Sul, cujos estudantes estão entre os mais bem colocados do mundo, as escolas oferecem cursos das matérias principais, para que os pais acompanhem o que os filhos aprendem. Ao mesmo tempo, existem países em que funcionam “Escolas de Pais”, nas quais o colégio ensina às famílias como acompanhar os estudos e também dá orientações sobre problemas de hoje, como uso da internet, bullying, drogas, afetividade e educação sexual, preconceito, consumismo.

Uma das alegações mais comuns dos responsáveis é a falta de tempo, pelo fato de, hoje em dia, pais e mães trabalharem. Ainda assim, é possível acompanhar, de forma efetiva, o trabalho escolar dos alunos? Como driblar essa dificuldade?
Isso é uma questão de prioridade. O filho precisa caber no planejamento dos pais. Dos dois, não só da mãe. Crianças e jovens cujo pai se envolve no acompanhamento da vida escolar, além da mãe, têm resultados ainda melhores e gostam mais de estudar. Isso não tem nada a ver com os pais morarem com os filhos ou em casas diferentes, e sim com a qualidade da presença, do diálogo e do interesse pelo que os filhos estudam e aprendem.

Em um dos capítulos, a senhora fala da sinergia entre família e escola. Qual a importância dessa sinergia? Pais e educadores, de forma geral, entendem a importância dela?
Quando a família e a escola educam com os mesmos critérios, as diferenças entre os dois ambientes se reduzem, e quem ganha com isso são as crianças e os jovens. É como uma orquestra: cada instrumento tem sua parte, e seu som é bonito. Mas quando todos tocam juntos, numa emocionante sinfonia, a soma dos esforços é muito mais poderosa do que as partes. Isso é sinergia. Da mesma forma, quando a família e a escola trabalham alinhadas, podem atingir resultados melhores do que a soma de seus esforços isolados. No livro eu explico como se faz isso na prática.

A senhora também apresenta dicas para os pais escolherem a escola de seus filhos, em todos os segmentos. Quais os aspectos mais importantes a serem levados em conta?
São dez critérios, aqui vou destacar três deles. Em primeiro lugar, o projeto pedagógico, que indica o modelo de educação de cada escola. Os pais precisam avaliar se eles se identificam com esse modelo. Além disso, o espaço físico e os recursos da escola: os alunos precisam se sentir confortáveis no espaço de aprender, que hoje vai além da sala de aula, e inclui laboratórios, salas de leitura, ambientes digitais, atividades ao ar livre. Os pais precisam ver ainda se a escola investe na formação continuada dos professores e se estes aplicam uma didática atual, com aulas interessantes, que funcionem como desafios e levem o aluno a pensar e criar. No livro tem muitas dicas sobre como perceber isso.

Naturalmente, todo estudante tem momentos de sucesso (quando obtém bons resultados) e de dificuldade (quando é reprovado, por exemplo) em seu dia a dia na escola. Como os pais devem lidar com essas situações tão distintas?
Os bons resultados merecem ser comemorados. Não precisa dar presente a cada nota boa, mas sim demonstrar alegria com o sucesso do filho. Já as dificuldades são momentos para dar apoio. Não adianta, antes de uma prova difícil, colocar pressão, dizendo “vamos ver se agora você acerta pelo menos uma questão”. É preciso exigir compromisso com o estudo, mas conscientizando sobre isso ao longo de todo o ano. E quando o aluno é reprovado, quer dizer que, no parecer da escola, ele ainda precisa desenvolver um conjunto de competências que serão necessárias mais à frente. É hora de respirar fundo, conversar com a escola e se planejar em conjunto para que o ano que vem tudo funcione melhor. Eu questiono alguns processos de reprovação, mas esse é outro assunto.

No Brasil, em especial no setor público, ainda falta a cultura de as famílias exercerem uma cobrança maior das instituições, pela qualidade da educação de seus filhos. Por que isso acontece e de que forma essa cobrança contribui para melhorar a educação dos alunos?
A cultura de cobrança precisa ser construída. Todo cidadão brasileiro em idade escolar tem direito a uma educação de qualidade. Mas para exigir qualidade, os pais precisam entender como funciona uma boa escola hoje. Por exemplo, precisa ter espaço físico adequado, ambientes de aprendizagem diversificados, recursos como mídias e tecnologias, materiais didáticos atuais, currículo amplo (com conteúdos de música, idiomas, e outros), professores bem preparados e comprometidos com o sucesso de cada aluno. Os pais precisam ver: a escola do meu filho é assim? Se não é, exigir mudanças, começando por apresentar as questões nas reuniões de pais. Isso vai estimular as escolas a melhorar e a cobrar das autoridades mais condições para fazer um bom trabalho. Importante também acompanhar o Ideb da escola do seu filho.

Sem dúvida, é importante que os pais procurem participar da educação dos filhos. Mas, na melhor das intenções, eles também podem atrapalhar, em vez de ajudar? Como?
Sim, existe esse risco! Imagine, por exemplo, um pai que faz as tarefas de casa pelo filho, manda decorar tudo, dá castigo se o filho se esforça, mas não aprende, e tira a autonomia do aluno. Fazer os deveres pelo seu filho é passar a ele a ideia de que, para você, ele é incapaz. Também não é bom criticar a escola e os professores na frente dele, nem contar com orgulho as notas baixas que os pais tiravam quando crianças, nem falar que estudar é chato. Isso não é ajudar, é atrapalhar.

A senhora defende que, em casa, também é possível implantar um modelo de educação capaz de desenvolver as competências que crianças e jovens precisam para ser adultos bem preparados para o mundo de hoje. Que dicas práticas a senhora daria, aos pais, para atingir esse objetivo?
Uma educação completa vai além dos conteúdos do currículo escolar tradicional. Ela inclui atividades culturais, como ir ao museu, cinema, teatro, apresentações de música. Implica desenvolver o hábito da leitura, o gosto por uma alimentação balanceada, por um estilo de vida que preserva o bem estar físico e mental, e que não agride o meio ambiente. Educar envolve valores, como o respeito pelos demais, a tolerância, a capacidade de conviver com as diferenças, o compromisso desconstruir um mundo em que todos, e não só alguns, possam viver felizes. É esse modelo de educação que pais e escolas precisam construir juntas.

É importante também os pais estarem atentos a que tipo de informações os filhos acessam na internet? Como fazer esse monitoramento sem invadir a privacidade do jovem ou da criança?
Que pai deixaria seu filho pequeno sozinho em outra cidade, para ele andar por ruas desconhecidas, com milhões de pessoas circulando, sem saber onde está e com quem está falando? A internet é parecida com isso, então, é preciso que os pais monitorem o seu uso. Quando se trata de uma criança, os pais precisam saber que sites ela frequenta, a que redes sociais está vinculada. Os pais também podem escolher alguns sites previamente e sugerir para a criança navegar. Depois, quando ela ganhar autonomia, discernimento e capacidade de crítica, aos poucos, pode navegar sozinha.

Por: Diego Da - [email protected]
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