Jovem Alerta: oportunidades para a geração ‘nem, nem’


Presidente do Centro de Integração Empresa-Escola do Rio de Janeiro (CIEE/Rio), Arnaldo Niskier apresenta a jovens uma oportunidade de ingresso no mercado de trabalho: o programa Jovem Alerta. Criada neste ano, a iniciativa envolve ações de qualificação para o mundo do trabalho, orientação educacional e seleção de estudantes para atuar em corporações no estado do Rio de Janeiro.

O esforço de intermediação desenvolvido pelo CIEE-Rio, explica Niskier, um dos nomes mais conhecidos da Academia Brasileira de Letras (ABL), tem seu foco na geração “nem, nem”, formada por jovens que não estudam e nem trabalham. O programa, que atende a estudantes com idade entre 17 e 24 anos incompletos, está presente no Rio de Janeiro, em Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Japeri e, em breve, iniciará suas atividades em São João de Meriti.

“A ação envolve, basicamente, um conjunto de oito palestras de orientação, incluindo a parte vocacional. Quando o jovem termina essa etapa com frequência total, recebe um certificado com o qual pode se apresentar nas empresas por nós designadas. Com o certificado, ele automaticamente passa a ser o aprendiz legal: ganha o salário mínimo local, que hoje é R$800, no Rio de Janeiro, além dos direitos trabalhistas. E eles devem estudar todo o tempo. Quem para de estudar, perde os seus direitos”, explicou Niskier.

Secretário estadual de Educação do Rio de Janeiro em duas oportunidades, Niskier, que já publicou dezenas de livros sobre educação, ressalta a necessidade de transformação da ensino oferecido nas escolas. Para o especialista, um dos problemas fundamentais do setor é a baixa qualidade verificada nos cursos de formação docente. “Os professores, atualmente, são muito mal formados. Os cursos de Pedagogia estão falidos porque têm estruturas ultrapassadas e não se renovam”, ressalta o acadêmico, cobrando a modernização das práticas pedagógicas nas escolas e também a adoção do ensino em tempo integral.

Ainda em seu depoimento, Niskier alerta para a necessidade de qualificação dos gestores em educação e comenta as três recentes perdas ocorridas na ABL
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FOLHA DIRIGIDA - O CIEE/Rio coloca em prática o projeto Jovem Alerta, destinado à chamada geração “nem nem”. Em que consiste este projeto?
Arnaldo Niskier - Ele é voltado para a geração “nem, nem”: são jovens que não estudam e nem trabalham. Se deixarmos os jovens ociosos, com aquele dinamismo próprio da idade, com saúde, com energia, eles se tornam presas fáceis do desvio. Neste ano, vamos treinar 500 desses jovens. E já existe uma previsão orçamentária no CIEE/Rio para dobrar esse número em 2015. No próximo ano, teremos mil jovens sendo assistidos em educação e na procura do primeiro emprego.

Qual é a importância do primeiro emprego na trajetória profissional de um jovem?
Esse programa paga uma bolsa auxílio. O estudante recebe o seu primeiro salário. Para participar, ele precisa ter entre 17 e 24 anos incompletos de idade e estar matriculado em uma escola regular, em qualquer série.

De que modo as pessoas atendidas pelo Jovem Alerta encontram o seu primeiro emprego?
Os jovens escolhem sua ocupação conforme a sua propensão. Fazemos uma combinação entre as oportunidades que existem no mercado, que conhecemos muito bem, e as tendências do jovem. Alguns tendem para as ciências humanas; outros para a área de tecnologia. Não forçamos o jovem a fazer aquilo que não quer; caso contrário, ele desiste. Nossas especialistas verificam quais são essas tendências e os encaixam em um banco de empregos, oferecendo-lhes as oportunidades devidas.

Que tipo de orientação é oferecida pelo programa?
No projeto Jovem Alerta, desenvolvemos uma ação múltipla. Trabalhamos com os jovens e também com 3.500 empresas no Rio de Janeiro. As oportunidades oferecidas são todas informatizadas. Temos um banco de dados e fazemos essa intermediação entre o jovem e a empresa.

O que o programa Jovem Alerta oferece aos estudantes?
A ação envolve, basicamente, um conjunto de oito palestras de orientação, incluindo a parte vocacional. Quando o jovem termina essa etapa com frequência total, recebe um certificado com o qual pode se apresentar nas empresas por nós designadas. Com o certificado, ele automaticamente passa a ser o aprendiz legal: ganha o salário mínimo local, que hoje é R$800, no Rio de Janeiro, além dos direitos trabalhistas. E eles devem estudar todo o tempo. Quem para de estudar, perde os seus direitos. O CIEE-Rio faz esse acompanhamento.

Quando esse projeto Jovem Alerta começou?
Começamos essa atividade neste ano e vamos dobrar nossa oferta em 2015.

Onde as ações são realizadas?
Estamos na comunidade da Providência. Cumprimos um convênio com a Secretaria Estadual de Trabalho e Emprego do Rio de Janeiro. Atuamos também em Caxias, Nova Iguaçu e em Japeri. E ainda neste ano, devemos iniciar as atividades em São João do Meriti. Esse programa é uma bola de neve. Esses números podem se multiplicar na medida em que a garotada perceber que esse é um projeto genial. A necessidade pode nos obrigar a ampliar a oferta; e nós temos estrutura e vontade para fazer isso.

Como tem sido a receptividade ao Jovem Alerta?
Muito boa. É uma pena que tenhamos limitações. Não podemos substituir o governo. O objetivo do CIEE/Rio é ajudar. Operamos com o Jovem Alerta, que vai se ligar muito rapidamente a um projeto muito maior que é o Pronatec. Esse projeto é uma espécie de vestibular para o Pronatec, que hoje alcança 12 milhões de jovens. Estamos sendo sóbrios em um começo passo a passo e, à medida em que formos crescendo, desaguaremos no Pronatec. Além disso, o CIEE/Rio desenvolve, há quatro anos, o projeto Aprendiz Legal que, hoje, atende mais de sete mil alunos no Rio de Janeiro.

Que avaliação o senhor faz do Pronatec?
Esse é um projeto muito bem sucedido do Governo Federal. É um sucesso. Mas o Pronatec não pode nascer no quinto andar de um edifício. É preciso que haja uma base. E essa base é o Jovem Alerta, que fornece uma orientação fundamental, preparando o estudante para o próximo passo: a educação profissional. Com esse progresso, ele consegue um emprego de nível intermediário. E aquela bolsa de R$800 pode crescer; há empregos de nível técnico que pagam mais de R$3 mil.

A que se deve, na sua avaliação, o surgimento desta geração “nem, nem”?
Creio que há um desinteresse pelo tipo de educação que está sendo dada. E aí falo como educador. Essa é uma educação superada, ultrapassada, com conteúdos desinteressantes. O jovem não se sente ligado à escola porque o ensino não tem ligação com a sua vida e nem apresenta grandes perspectivas. Esse ensino preguiçoso, que é o mesmo do século XIX, precisa ser reformulado. O ensino deve ser mais atraente para despertar o interesse do jovem. Ele precisa se interessar não apenas pelo emprego, pelo dinheiro, mas deve se envolver com o ensino propriamente dito. Hoje, o ensino médio demonstra uma evasão de quase 50% porque o estudante ingressa na escola e não tem interesse por aquilo que é ministrado. No passado, havia poucas vagas e nem todos conseguiam cursar o ensino médio. Hoje, as vagas sobram. Anteriormente, quem não conseguia prosseguir com os seus estudos, ingressava diretamente no mercado de trabalho. Havia os jovens que estudavam e aqueles que iam trabalhar. Mas, atualmente, para quem não tem estudo, o mercado é muito estreito. Sem estudo, as pessoas encontram apenas atividades secundárias ou terciárias. Nosso mercado de trabalho está preparado para receber pessoas qualificadas.

Falta qualificação aos jovens que ingressam no mercado de trabalho?

Sim. Há grandes empresas estabelecendo-se no Rio de Janeiro e falta mão de obra especializada. Quando começamos a construir a Companhia Siderúrgica do Rio de Janeiro, contratamos 600 técnicos chineses que ocuparam lugar de cariocas que são da geração “nem, nem”. Então, os empregos existem. Há empresas instalando-se no estado. Há obras do governo estadual. Essa área de Petróleo e Gás apresenta grandes perspectivas. Mas para todas essas atividades é necessário que haja mão de obra qualificada. E é isso que a garotada ainda não percebeu. Eles acham que vai acontecer um milagre de repente, que um gênio vai arrumar um excelente emprego para eles. Esses estudantes serão condenados a um emprego de quinta categoria se não tiverem estudo. É um ciclo vicioso. Nessas oito palestras, mostramos que as oportunidades estão abertas àqueles que se qualificam.

E como deve ser a preparação para o mundo do trabalho no ensino médio?
No mês passado, o presidente Barack Obama prometeu recursos apreciáveis para o sistema de ensino dos EUA. Recomendou que os professores ensinassem a seus alunos um segundo idioma e História. Ele acha que o sistema norte-americano está deficitário nessas duas áreas. Esse é um exemplo extraordinário. Precisamos insistir com os nossos alunos. Eles devem aprender um segundo idioma, que seria o inglês, e um terceiro idioma, no caso o espanhol, ou até mesmo o francês — há condições para isso. Outra recomendação é sobre História, disciplina importante para os alunos se situarem no mundo. Os jovens, hoje em dia, vivem uma realidade diminuta, pequena, que é só deles. E, desse modo, suas perspectivas ficam diminutas também. O jovem deve estar com a mente aberta para o mundo que cresce e se desenvolve e do qual ele está apartado.

Nesse ano, o número de jovens com idade entre 16 e 17 anos que tiraram o título de eleitor caiu para 26%. Ou seja, apenas um entre quatro jovens nessa faixa etária estão aptos a votar. O que esse índice revela?

Revela que eles estão pouco interessados na eleição; pouco interessados na escola; pouco interessados no emprego. Isso faz parte do fenômeno. Os educadores precisam traçar um quadro para corrigir tudo isso. Por isso, o nome do nosso projeto é “Jovem Alerta”. Nosso trabalho é alertar os jovens para as possibilidades que existem, desde que eles estudem e sejam bons cidadãos. Votar é um ato de cidadania. Como uma pessoa fala mal da política, se ela não exerce o seu direito de votar?

Que tipo de políticas públicas o senhor espera que o próximo presidente da república coloque em prática para que o país não tenha tantos jovens que não trabalham e nem estudam?
Fiz uma palestra na Confederação Nacional do Comércio em que mostrei algumas das deficiências da nossa educação. Por exemplo, a falta da educação em tempo integral nas escolas. Hoje, o jovem fica duas ou três horas na escola e aprende muito pouco. Na educação básica, que começa no fundamental e vai até o ensino médio, os estudantes deveriam estudar das 7 às 17h, com o intervalo para o almoço. A garotada deveria ser apreendida para ficar na escola. Esse é um aspecto fundamental. E outro ponto importante são os cursos de formação de professores, que precisam ser aprimorados. Os professores, atualmente, são muito mal formados. Os cursos de Pedagogia estão falidos porque têm estruturas ultrapassadas e não se renovam. A formação de professores e especialistas precisa melhorar.

Por que os cursos de Pedagogia não se renovam?
Porque eles não querem se renovar. Quando integrei o Conselho Federal de Educação (CFE), tentei insistentemente fazer com que eles se reunissem para que eles próprios propusessem uma reforma ampla nos cursos de Pedagogia. Isso foi há 20 anos. E eles resistiram. Eles são corporativos, fechados, não querem mudar nada.

No final de 2005, o Conselho Nacional de Educação (CNE) emitiu novas Diretrizes Curriculares para os cursos de Pedagogia. Essas mudanças não foram suficientes para aprimorar a formação docente?

Essas mudanças não chegaram à escola. Se observarmos, hoje, a biblioteca de um curso de Pedagogia, verificaremos que é uma pobreza. Os poucos livros que existem são estrangeiros. O professor está assoberbado, trabalha muito, não tem tempo para estudar. E quando ele vai a uma biblioteca, encontra somente livros estrangeiros. Essa é uma das razões de toda essa deficiência no ensino.

E o que deve ser feito para aprimorar os cursos de Pedagogia?

Os cursos de Pedagogia precisam se modernizar. Os cursos de Pedagogia fazem parte da sociedade do passado e eles deveriam fazer parte da sociedade do futuro. Precisamos formar adequadamente os professores para que eles formem melhor os seus alunos. Esse é um ciclo vicioso que precisa ser quebrado: maus professores geram maus alunos.

Essa resistência à mudança nos cursos de formação de professores é uma peculiaridade aqui do Brasil?

Sim. Eu fui à Escandinávia e visitei três países. Em todos eles, a formação do magistério é um dos cursos mais importantes das universidades, superando carreiras como Medicina, Direito e Engenharia. Estamos atrasados. Os cursos de Pedagogia são os menos procurados porque são os mais fáceis de passar.

No campo da educação, qual deveria ser prioridade do próximo presidente da república?
Temos um piso nacional do magistério baixo que não é cumprido em vários estados. Há professores trabalhando apenas para pagar o INSS ou para ter direito a um plano de saúde. Eu imagino que a educação é uma preocupação de primeira ordem para todos aqueles que disputam a presidência. Com a aplicação dos 10% do Produto Interno Bruto (PIB) na educação, a desculpa da falta de recursos não vai mais colar. O Brasil vai ter recursos financeiros, mas não terá recursos humanos para gerir esse dinheiro. O Plano Nacional de Educação trará recursos financeiros mas não haverá recursos humanos para utilizar esse dinheiro de forma adequada. Ou seja, mais uma vez, vamos perder tempo.

O senhor acredita que dinheiro pode escoar pelo ralo e não se refletir no aprimoramento da qualidade do ensino?
Do jeito que as coisas estão, é o que vai acontecer. Há gestores que compram computadores, colocam na escola e não os usam ou usam apenas em atividades burocráticas. É um dinheiro público. Podemos comprar milhões de tablets, distribuir para todo mundo, mas em que isso vai melhorar a qualidade da educação? Ninguém sabe. Não houve e nem está havendo preparo para isso.

Recentemente, o Brasil perdeu três grandes escritores: Ivan Junqueira, Ariano Suassuna e João Ubaldo Ribeiro. Qual a dimensão destas perdas para a cultura nacional?
Foi uma perda muito grande. Eles são insubstituíveis, todos os três. A vida segue. A Academia Brasileira de Letras (ABL) é dinâmica. Eles não serão substituídos porque todos os três são insubstituíveis. Eles cederam suas vagas para outros três nomes de expressão cultural. Praticamente, sabemos qual o nome desses três: Ferreira Goulart, nosso grande poeta; Evaldo Cabral de Melo, um grande historiador; e Zuenir Ventura, que é um grande escritor e jornalista. Perdemos três nomes insubstituíveis, mas virão outros três que irão enriquecer a ABL com o seu conhecimento.
 

Por: Tainara Silva - [email protected]
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