Maria Felisberta Trindade: pioneira nas lutas sociais, defensora da escola pública


Em 1946, aos 16 anos, influenciada por colegas do grêmio estudantil do Colégio Pedro II, Maria Felisberta Baptista da Trindade ingressava no Partido Comunista Brasileiro (PCB), iniciando uma trajetória de lutas políticas. O engajamento por causas sociais, como os direitos das mulheres, acabou levando-a para as instituições de ensino, onde percorreu um caminho em defesa da educação pública de qualidade, igualitária.

Pioneira do Partido Comunista em Niterói, atuou nas lutas pela nacionalização do Petróleo; na criação das Ligas Femininas; e na resistência contra a Ditadura Militar, instalada após o Golpe de 1964, tendo sido presa diversas vezes. Mesmo sob pressão, trabalhou de forma arrojada por 17 anos no Instituto de Educação Clélia Nanci, em São Gonçalo. Também lecionou na Universidade Federal Fluminense (UFF) onde, em 1975, foi impedida permanecer de modo efetivo no corpo docente em função de sua “folha corrida”.

Com redemocratização do país, conseguiu ingressar, por concurso público, na Faculdade de Educação da UFF, onde coordenou o curso de Pedagogia e foi eleita para a direção geral. Hoje, é professora emérita da mesma universidade e acumula uma série de títulos e congratulações, como o de Personalidade Educacional (2004), Medalha Tiradentes, entre outros.

Entre 2003 e 2005, devido à sua vasta experiência na área educacional, exerceu, conjuntamente, os cargos de Secretária Municipal de Educação e de Presidente da Fundação Municipal de Educação de Niterói. Atualmente, Maria Felisberta Trindade integra o Conselho Municipal de Educação de Niterói, no cargo de primeira vice-presidente. A educadora também faz parte do Comitê Científico Sênior da Secretaria de Ciência e Tecnologia de Niterói e da diretoria da Associação de Professores Aposentados da UFF (Aspi/UFF).

No final de maio, a ativista social recebeu a Medalha Darcy Ribeiro — comenda concedida pelo Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro (CEE/RJ) a educadores de destaque no cenário fluminense. Na entrevista, a professora conta sua trajetória no magistério, defendendo uma prática democrática e crítica do ensino. “Aprendi que nada se esgota: é preciso reformular sempre. Somente aquilo que permanece igual se esgota”, explicou a docente.


Folha Dirigida - Recentemente, a senhora recebeu a Medalha Darcy Ribeiro, concedida pelo Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro (CEE/RJ). O que essa homenagem representou para a senhora?

Maria Felisberta Trindade - Recebi a Medalha Darcy Ribeiro com muita emoção. Na minha fala, deixei claro que não esperava receber essa bela homenagem. As pessoas concedem muitas homenagens quando ocupamos algumas função de destaque nas esferas municipal e estadual. Na época em que fui diretora da Faculdade de Educação da UFF, por exemplo, já em final de carreira, recebi muitas homenagens. Por isso, a Medalha Darcy Ribeiro tem um significado especial. 

Por que a senhora escolheu o magistério? Como ingressou nessa carreira?

Eu queria ser advogada. Éramos cinco irmãos. Fizemos o primário na Escola Joaquim Távora, em Niterói. E, depois, ingressamos todos no Colégio Pedro II. Fiz o ensino secundário clássico. Participava do Grêmio, da União Nacional dos Estudantes (UNE). Meu pai pensava que eu estava apenas ajudando a criar a Associação Metropolitana de Estudantes Secundaristas (Ames), envolvida no movimento estudantil. E ele adorava isso, pois acreditava que toda essa articulação política contribuiria para o meu bom desempenho como advogada. Mas, quando eu estava no segundo ano do clássico, ele descobriu que eu havia ingressado no Partido Comunista Brasileiro (PCB). Comecei minha militância em 1946, eu tinha apenas 16 anos. Ajudei a criar a Associação Feminina Fluminense. À época, havia poucas mulheres, mas criamos uma base feminina no PCB quando ainda estava no primeiro ano do ensino secundário. E o PCB estava em plena legalidade. E, ao final do segundo ano do secundário, ele me transferiu para o Liceu Nilo Peçanha, em Niterói, onde terminei os estudos. Lá, disputei eleições no Grêmio Estudantil. Depois, fiz o curso de Pedagogia na UFF, que, à época, era a Faculdade Fluminense de Filosofia. Concluí o meu curso em 1961. Dava aulas particulares em casa e, posteriormente, ainda na faculdade, comecei a lecionar em escolas de Curso Normal, e na rede privada, em Niterói.

A senhora é conhecida pela intensa defesa da educação pública. Quais foram as suas experiências mais marcantes na rede pública?
A primeira função pública que eu tive foi na rede estadual, onde tive matrículas importantes. Atuei durante 17 anos no Instituto de Educação Clélia Nanci, em São Gonçalo. Passei em uma seleção pública para ser professora de Matemática. Terminei o curso de Pedagogia em 1961. Mas, naquela época, de acordo com o velho currículo, os pedagogos podiam lecionar Matemática e História no Ginásio, em função da carência de docentes. Havia um ano de Matemática em nosso currículo. Pouco antes, havia feito um concurso para o estado, para lecionar Sociologia da Educação no Instituto de Educação de Niterói. Fui aprovada. Obtive o segundo lugar, mas não fui convocada por questões políticas. Na realidade, sequer tive acesso à minha prova. Eu e meu marido éramos membros do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e, após o Golpe de 1964, fomos perseguidos. Fui saber disso muito depois. Embora tenha ingressado por meio de uma seleção de títulos, mais tarde, houve um decreto que efetivou todos os docentes contratados, inclusive eu.

E como foi a sua experiência no Instituto de Educação Clélia Nanci?

Foi maravilhosa. Depois de ter ingressado na instituição, retornei à UFF para fazer a pós-graduação latu sensu de Orientação Educacional. Em 1967, lecionei Matemática. Em 1968, passei para a equipe de Prática de Ensino. E, em 1969, fiquei com Didática Especial e Prática de Ensino. Em 1970, já trabalhava como Orientadora Educacional. Em 1971, saiu a Lei 5.692/1971, que colocou em evidência a Orientação Educacional e a formação profissional. Eu já tinha feito seleção para o Senac e por isso entendia de formação profissional. Em seguida, criamos o Serviço de Orientação Educacional, o SOE. Oferecíamos assistência do ponto de vista de formação ocupacional. E os alunos faziam oficinas de serviços manuais, como carpintaria, jardinagem, eletricidade, entre outras atividades. Eram oito setores diferentes. Os alunos eram estimulados a pensar, refletir sobre a sua prática. E durante as antigas 5ª e 6ª séries do ensino fundamental, eles passavam por todas essas áreas de formação. Durante as 7ª e 8ª séries, eles escolhiam uma dessas áreas e se especializavam. Quando concluíam seu curso, eles eram uma espécie de “operários especializados”. Eles não recebiam o título, mas despertavam o seu interesse e, em seguida, muitos ingressavam no Senai ou no Senac.

Como Orientadora Educacional, que ações a senhora conseguiu realizar, apesar do regime autoritário?

Eu coordenei o SOE. Em 1971, resolvi fazer o mestrado em Educação na UFF. Como coordenadora do SOE, sugeri que os alunos tivessem um papel participativo na escola. Inventei o projeto do “autogoverno” em 1971, que inicialmente foi aplicado somente aos alunos do Curso Normal, durante a “Semana da Normalista”. Depois, o projeto foi estendido a todos os estudantes do segundo grau. Na primeira edição, os alunos do Curso Normal dirigiram o SOE e tiveram atuação na escola anexa, onde havia a prática de ensino. Nas demais edições, o projeto cresceu e os estudantes eram eleitos para assumir as funções de comando da escola, como direção, secretariado, coordenação geral, coordenação do Curso Normal, coordenação do SOE. Os candidatos eram apenas os alunos do segundo grau, mas crianças de todas as séries participavam da experiência. Eles chegaram a receber o secretário estadual de Educação na porta da escola. O “autogoverno” foi o tema da minha dissertação de mestrado na UFF. Tenho toda a documentação desse projeto, que foi lindo e implementado até 1975. Nessa época, a coordenação da escola foi avaliar o projeto e decidiu que ele já havia se esgotado, que não era mais necessário. No entanto, mais tarde, fui saber que a direção foi pressionada para acabar com aquele projeto, muito inovador para a época. Não era um projeto pessoal, era um projeto coletivo e as decisões eram tomadas em conjunto, com toda a equipe. Esse episódio ficou marcado na minha vida. Quando usam, em qualquer reunião, o termo “esgotado”, desconfio. Aprendi que nada se esgota: é preciso reformular sempre. Somente aquilo que permanece igual se esgota. Entendi o que realmente aconteceu, quando fui chamada a depor no Dops, em 1977.

E como foi esse depoimento?
Participava de reuniões clandestinas do PCB e fui delatada, provavelmente por algum companheiro, sob tortura. Ia esporadicamente a reuniões em locais distantes. Tinha sempre alguém que me levava em casa, de carro. E eles perguntaram sobre uma reunião que eu teria participado, em Pendotiba. Eu tive vários codinomes: Sara, Isa e vários outros. E, durante esse depoimento, fui questionada sobre o projeto do “autogoverno”. Na ocasião, expliquei que o projeto envolvia campanha eleitoral, debates, eleições e ato solene com posse dos alunos, que desempenhavam as posições de comando na escola. Disse que, na verdade, era uma proposta de integração de Moral e Cívica e de Organização Social e Política Brasileira (OSPB). E o inspetor considerou o projeto uma coisa bonita, dentro dos princípios da Moral e Cívica. E ele ficou indeciso e não fui mais incomodada.

De que forma o Golpe de 64 impactou a sua carreira acadêmica?

No momento do Golpe de 1964, eu estava de resguardo. Minha filha caçula havia nascido no dia 10 de março daquele ano. Meu marido era advogado, Manoel Bittencourt Jardim, e era secretário do Comitê Municipal de Niterói do PCB. Naquela época, já havia a divisão entre o PCB e o PC do B. Ele era advogado trabalhista. E conseguiu fugir para Araruama e, depois, para São Paulo. Depois, ele foi enviado para Europa: foi para a França e, em seguida, para a Rússia. Depois, ele retornou ao Brasil. Eu não cheguei a ser presa após o Golpe de 1964. Porém, fui chamada a prestar esclarecimentos no Dops. E, desde 1964, fui extremamente vigiada, nas instituições de ensino e, até, por meus vizinhos. Minha casa era vigiada constantemente. Ingressei no mestrado em 1971. Não conclui o curso no tempo regular. Em 1974, ainda no mestrado, fiz um contrato para lecionar na Faculdade de Educação da UFF. Inicialmente, comecei a dar aulas de História da Educação. Observaram as minhas aulas: fazia grupos de debates, levava textos, dava uma aula rica. Então, fui transferida para outra cadeira, a de Psicologia da Educação. E aí encontrei alunos de Sociologia, Geografia e de História. E eles pediam mais; realizamos vários trabalhos de grupo sobre a Lei 5.692/1971, o papel do jovem naquela época, os adolescentes, a relação entre pais e filhos. Conseguimos discutir muita coisa sem entrar necessariamente em temas políticos. Para continuar na UFF, em 1975, pediram atestado ideológico e não pude assumir a vaga devido à minha folha corrida. Já havia sido presa quando jovem, durante a “Campanha do Petróleo é Nosso” e também em lutas pelos direitos das mulheres.

De que forma a senhora ingressou definitivamente no corpo docente da UFF?
Ingressei em 1985, por meio de concurso público. Fui a primeira colocada para a cadeira de Orientação Vocacional. Eu já tinha concluído o curso de mestrado. Fiz o concurso em janeiro e ingressei somente em outubro.

Como era a formação dos professores naquela época e como a senhora avalia os cursos de hoje em dia?

Acredito que os cursos de hoje estão melhores. Temos a liberdade para discutir sobre a questão das pessoas com deficiência, sobre os afrodescendentes, sobre vários temas. Acredito que há falhas sérias na Língua Portuguesa. O pessoal se acostumou com o computador, tudo se abrevia; e os estudantes não desenvolvem mais as redações. Sinto que os universitários têm dificuldades de desenvolver os textos acadêmicos.

Muitos setores atribuem a queda da qualidade do ensino no país à má formação do magistério que, em grande parte, é oriundo das camadas populares da sociedade. A senhora concorda com essas proposições?

Realmente, boa parte daqueles que atuam nas escolas, atualmente, vêm das camadas populares. Mas precisamos entender como a mulher se libertou no país; não podemos fazer uma análise fria e isolada. Antigamente, o magistério era uma profissão majoritariamente feminina. Tive uma irmã que se formou médica, o que era raro. Quando meu irmão se formou em Engenharia, só havia uma mulher em sua turma. Até mesmo em Direito, havia poucas mulheres. E, hoje, temos mulheres em todas as áreas: na aviação, no Exército, na Polícia Militar. Porém, nas camadas mais populares, o trabalho feminino sempre existiu. Nas fábricas de tecidos, por exemplo, a maior parte do trabalho era feito por mulheres. E as mulheres da classe trabalhadora sempre atuaram como domésticas, em serviços braçais. As mulheres que não trabalhavam eram as mulheres de classe média, que viravam donas de casa. Algumas delas insistiam em estudar e se transformavam em professores de Línguas, de Música. Hoje, temos uma disciplina eletiva sobre a história da libertação feminina na Faculdade de Educação da UFF.

A senhora é favorável à adoção cotas nas universidades públicas para afrodescendentes, alunos carentes e da rede pública?
Sim, mas acredito que estas ações devem ser temporárias. Elas são necessárias pois as mudanças demoram muito para acontecer. As comemorações do “Dia da Mulher” custaram a acontecer no Brasil. Hoje em dia, a data é incentivada, inclusive, para vender perfumes. Por isso, é preciso que haja medidas legais. Quando a universidade leva a sério essas ações, há medidas complementares que ajudam muito os cotistas, como aulas complementares de Língua Portuguesa. Os problemas com a linguagem acadêmica são comuns também entre os estudantes de classe média. Na realidade, a qualidade do ensino caiu tanto na rede pública quanto na rede particular.

Que tipo de deficiências o ensino privado apresenta?
As escolas particulares que trabalham em um regime de 40 horas, com um ensino integral, em geral, oferecem um ensino melhor. Mas naquelas em que os estudantes frequentam apenas um turno, muitas vezes, os alunos precisam de aulas particulares, no contraturno, para complementar a assimilação de conteúdo. Ou seja, a qualidade do ensino também não está boa. Algumas mães ficam em casa estudando com os filhos, mas outras precisam trabalhar.

E como foi a sua experiência à frente da Secretaria Municipal de Educação e da Fundação Municipal de Educação de Niterói?

Ser secretária de Educação não é fácil. Em Niterói, tivemos a gestão da Lia Faria, que avançou bastante, e outras boas gestões. Na época em que estive na FME, fiz a consulta eleitoral. Depois, na outra gestão, não houve consulta à comunidade acadêmica. As consultas voltaram agora, nessa atual gestão. A realização da consulta à comunidade escolar é fundamental. Muitas vezes, as pessoas encaram os diretores de escolas como parte de uma elite intelectual, de caráter técnico. A consulta escolar tem o sentido do resgate de nossa luta histórica. Acredito, também, que hoje essa prática deve passar por uma avaliação substantiva. Um prazo adequado é o da gestão de dois anos. A merenda escolar é um grande problema. Ela deve ser descentralizada e as compras feitas pelas escolas.

 

Por: Tainara Silva - [email protected]
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