Uma história de 40 anos de sucesso


O ano de 2016 é marcante para professores e alunos do Colégio Pentágono. Em março, a instituição comemorou 40 anos de existência, com as atenções voltadas para o que há de mais moderno no ensino, mas sem deixar de lado a tradição e o ensino pautado nos valores humanos, como ressalta diretor geral da instituição, professor Paulo Armando Areal.

Nesta entrevista, o educador fala sobre momentos marcantes da trajetória do Colégio Pentágono, entre eles, o surgimento da escola e a criação do "Pentaguinho", unidade que atende ao primeiro segmento do ensino fundamental e que permitiu à instituição atuar ao longo de toda a educação básica. O professor também explica porque entende o Pentágono como "uma escola de ar livre" em todos os sentidos.

"Só entendo educação com liberdade", ressaltou Paulo Armando, destacando que propiciar essa liberdade não significa abdicar do dever que uma escola tem de orientar jovens e crianças para que possam tornarem-se capazes de realizar, ao longo da vida, as escolhas que os façam realmente felizes e realizados do ponto de vista profissional e humano.

Um desafio permanente para qualquer instituição de ensino, em especial nos dias de hoje, é lidar com a tecnologia. Diante de uma geração que está conectada com os mais novos recursos da informática cada vez mais cedo, não há como abdicar disso. No entanto, Paulo Armando Areal ainda vê no professor o principal agente do processo educacional.

"Não seria inteligente rejeitar a tecnologia. Realmente, do início até agora, passamos por muitas evoluções, que já ficaram obsoletas e foram substituídas. Mas, sinceramente, acredito mesmo é no professor. Eu acho que é impossível você prescindir da figura humana do professor", salienta o educador.

FOLHA DIRIGIDA — O Colégio Pentágono completou 40 anos em 2016. O que tem sido fundamental para a escola manter-se forte no mercado por tantos anos?

Paulo Armando Areal — O Colégio Pentágono surgiu mais precisamente em 1976 por iniciativa e participação muito efetiva do professor Norbertino Bahiense Filho, que na época era diretor do colégio e do curso Bahiense. Foi o momento em que surgiu o vestibular unificado e, por conta dessa modificação, o curso Bahiense se uniu ao curso Miguel Couto, na época duas potências. Nos anos 60, 70 e 80, tinham uma participação muito forte na formação dos alunos aspirantes à universidade. Eu era professor do Colégio Bahiense e, em um determinado dia, ele convocou em seu gabinete e pediu que eu procurasse uma área na região que, hoje, é a zona oeste. Ele queria criar uma instituição de ensino em uma área que não era contemplada com escolas. Eu na época, além de professor, era  coordenador do cursinho Miguel Couto/Bahiense de Madureira. Então, andei, procurei, selecionei esse imóvel aqui, que por coincidência tinha sido uma escola, o Colégio Santa Lúcia. Então, meio caminho estava andado. Você não precisava criar uma escola nova com todas as exigências naturais de implantação. E por que escolhemos o nome Pentágono? O professor Bahiense, que era engenheiro civil e lecionava Geometria na UFRJ, convidou quatro professores da confiança dele, que se dedicavam à escola. Eu os levei ao gabinete e ele imediatamente deu a notícia e brincou: "pronto! Aqui está formado um Pentágono". No princípio era uma brincadeira, quem era o Pentágono? Ele e mais os quatro professores.

Pode nos falar um pouco sobre como a escola começou?

Começamos com 300 alunos. Em 1979, o prédio original, que abrigava seis turmas, passou por obras, teve sua capacidade ampliada e logo atingimos a marca de 1.500 estudantes. E logo adiante, em 1982, alugamos o terreno aqui ao lado e passamos de 5 mil metros quadrados para 14 mil metros quadrados. Nesse primeiro ano, em 1983, já chegamos a 2.400 alunos. O sucesso foi meteórico, primeiro porque, como o próprio professor Bahiense disse, faltava na região um colégio de qualidade. E segundo, porque montamos aqui uma seleção de professores de primeira linha, os mesmo professores do Miguel Couto e do Bahiense, que eram altamente qualificados. Conseguimos conquistar a confiança da comunidade, a coisa foi se estendendo e houve um diretor do departamento pessoal que em uma ocasião, de brincadeira, fez um levantamento para identificar de onde eram os alunos, a origem deles. Dos 2.400 da época, apenas 800 residiam em Vila Valqueire. Tínhamos alunos do Meier para cima, até a Baixada, Recreio dos Bandeirantes, Barra, a Zona da Leopoldina. O Pentágono deixou de ser um colégio de bairro e passou a ser um celeiro de talentos. Para você ter uma ideia em 1981, o Pentágono, com cinco anos de vida, foi o primeiro colégio no vestibular da UFRJ.

O que mudou, ao longo de todo esse tempo?

Eu digo que a escola se modernizou, mas não abandonou os padrões tradicionais da família, que hoje em dia está, infelizmente, um pouco afastada da formação das pessoas. Hoje em dia já não é só o pai que trabalha. A mãe também está no mercado de trabalho e, com isso, a criança está ficando um pouco sem a atenção de 20, 30, 40 anos atrás. Eu estudava com minha mãe sentada do meu lado. Os pais viviam a formação dos filhos, muito diferente do que ocorre hoje em dia. De lá para cá, modéstia à parte, só colhemos conquistas e vitórias. Participamos por três vezes da Olimpíada Mundial de Matemática. Fomos ganhadores da olimpíada brasileira e tivemos o passaporte para disputar a mundial, uma vez nos Estados Unidos, outra na França e uma vez na Bulgária.

Quais os princípios que nortearam a diretriz didático pedagógica do colégio, ao longo dessas quatro décadas?

No segmento que antigamente chamava-se 1º grau e agora é denominado ensino fundamental I, era um colégio rigorosamente acadêmico, que preparava para a formação ampla. Mas inegavelmente, no primeiro ano do ensino médio, deixávamos um pouco o aspecto formativo de lado e entrávamos com um processo informativo, um processo todo voltado para o modelo de vestibular. O que o cursinho Miguel Couto/ Bahiense fazia em um ano, a gente passou a fazer em três. Aí obviamente a qualidade, os resultados passaram a ser os melhores. Então, trata-se de uma filosofia voltada para o ensino acadêmico. Pode até ser uma distorção, mas o Colégio Pentágono era o colégio dos doutores. Aqui era o espaço para as pessoas que iriam buscar uma universidade. Também nunca nos envolvemos com concursos militares; nossa praia sempre foi o vestibular. Hoje, temos um site que se chama "Pentagonais pelo mundo". Ano passado eu recebi um email de um aluno que agradecia tudo que ele tinha conseguido na vida, por tudo que ele tinha aprendido aqui, não só de conhecimento, mas de valores. Ele me escreveu para dizer que, naquele momento, acabava de ser nomeado embaixador do Brasil na Coreia do Norte. Temos milhares e milhares de alunos espalhados pelo mundo que realmente nos dão muitas alegrias. Nós já estamos chegando em nossa terceira geração de formados e, em 2010, eu consegui cumprir uma promessa que me fiz. Eu abri o único segmento que eu não tinha. Tínhamos um espaço de 1.200 metros e pedi um arquiteto para projetar um colégio naquela área. Ele fez um projeto maravilhoso, para dez turmas, e em uma semana a escola estava cheia. Só o Pentaguinho tem 1.200 alunos. Então, o filhote caçula nasceu já com a marca do colégio ao longo de todos esses anos.

O senhor define o Colégio Pentágono como "uma escola de ar livre em todos os sentidos". Por quê?

O conceito de escola ao ar livre surgiu logo no início. Só entendo educação com liberdade. Liberdade obviamente dirigida porque os jovens estão ainda muito afastados da realidade de mundo. Em uma turma do terceiro ano do vestibular, metade dos alunos não sabem o que vão fazer em termos de carreira. Eles leem pouco, escrevem pouco. Agora, bem ou mal, a redação é obrigatória, mas houve um período em que o vestibularnão tinha redação e infelizmente a estrutura de ensino no Rio de Janeiro se orientava pelo programa do vestibular Unificado, da Fundação Cesgranrio. O aluno criou o sentimento do "se não cai no vestibular, deixa para lá". Desenho, que era uma matéria tradicional, morreu. Então, a escola oscilava em função do vestibular determinado pela fundação. Uma parte do terreno da escola era composto por uma terra árida. Esse pátio era cheio de pedra de brita. E quando peguei aquela imensidão de 8 mil metros quadrado de brita pensei "Como eu vou fazer uma escola onde essas crianças vão brincar e correr em brita?" Não ia dar. Foi quando eu comecei a campanha de arborizar a escola. Eu plantei mais de 20 árvores. E passadas décadas, estamos com várias árvores no pátio. Essa filosofia de escola ao ar livre é também porque eu sempre valorizei muito o esporte. Eu tinha, modéstia à parte, a melhor educação física colegial do Rio de Janeiro. Minha equipe era de primeira linha, todos da UFRJ, que desenvolviam esportes como atletismo, ginásticas e outros. Era quase uma academia. Também eram realizadas gincanas e muitas atividades intelectuais.

O uso da tecnologia é colocado, por muitos especialistas, como uma necessidade no ambiente educacional. Na sua opinião, qual o papel da tecnologia para a qualidade do ensino?

Não seria inteligente rejeitar a tecnologia. Realmente, do início até agora, passamos por muitas evoluções, que já ficaram obsoletas e foram substituídas. Mas, sinceramente, acredito mesmo é no professor. Eu acho que é impossível você prescindir da figura humana do professor. O colégio está todo antenado com as novidades da Informática, mas mantem a humanização.

Como é utilizada a tecnologia, na proposta pedagógica do Colégio Pentágono?


Nós temos quatro laboratórios: um para Física, um para Química e um para Ciências e Biologia. E inauguramos esse ano um um laboratório para o Pentaguinho. É um sucesso. Se dependesse dos alunos eles queriam todo dia. Então, a parte de laboratório vai do 1º ano do fundamental até o vestibular, e com grande aceitação pelos alunos. Meus professores dizem que têm muita faculdade, que por aí não há um laboratório como o nosso, do modelo do nosso. Toda a parte de informática aqui é muito valorizada.

Qual o maior desafio para uma escola, nos dias de hoje, no campo da gestão?


A maior dificuldade está em conciliar a qualidade do trabalho com o poder aquisitivo, especialmente, da minha a região. Modéstia à parte, o meu trabalho não deixa a desejar absolutamente em nada para colégios da Barra da Tijuca e outras regiões, mas o poder aquisitivo é diferente.

E no campo pedagógico?


No campo pedagógico, diria que eu tenho uma equipe altamente harmoniosa com professores muito bem preparados, muito bem qualificados. O professor quando vem trabalhar conosco se adapta. Às vezes, quando um professor nos deixa, por qualquer motivo, reconhecem que aprenderam muito com nosso trabalho harmonioso. Priorizamos muito também o aspecto formativo da criança. Ela precisa ser orientada. Antigamente eles diziam que aqui era um exército, porque o uniforme é obrigatório. Em 90% das escolas. o uniforme é uma calça jeans e camisa. Eu repúdio isso. Um uniforme com calça jeans é a melhor maneira de desuniformizar porque virá um de calça preta, outro azul, outra rasgada no joelho. Então, no Colégio Pentágono, até a 3ª série do ensino médio, tem que usar uniforme. Muito antes de ser proibido fumar na escola aqui já era proibido. São valores que eles às vezes rejeitam, mas entendem que são importantes para a formação.

As mudanças no Enem, ocorridas em 2009, certamente influenciaram no trabalho da maioria das escolas. Essa influência, a seu ver, é positiva ou negativa?

Inegavelmente o Enem é conduzido por técnicos, por especialistas, por gente que efetivamente conhece os critérios de avaliação. Não tenho nada a reclamar do Enem como prova. Agora, considero uma temeridade colocar um jovem com 16, 17 anos de idade fazendo 90 questões em um só dia. Tenho a impressão de que o cérebro dessas crianças deve balançar lá dentro. O jovem sai de uma prova de História e passa para Física, depois vai para Geografia. Então, essa é uma das maiores restrições que eu faço.

Como o senhor avalia o uso do Enem como instrumento de seleção para vagas nas universidades públicas? É adequado?

Acho que poderia haver um vestibular com duas fases. A primeira cobrando conhecimentos básicos com todas as disciplinas do eixo comum e depois uma fase mais específica das áreas, como o da Uerj.

Muitos educadores ressaltam a importância de aproximar a família da escola. O que é fundamental para que essa parceria aconteça?

Eu entendo que cada vez mais é importante que a relação escola/família tenha uma característica de parceria. Esta, para mim, é a palavra correta. Você tem notícias, quase que diariamente, de aluno batendo em professor, desrespeitando o professor. Lembro-me do meu tempo em que estudava no Colégio Pedro II: o professor entrava, nós nos levantávamos e só sentávamos quando determinava. Pior do que a remuneração ridícula do professor é o desrespeito e a falta de reconhecimento.

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