Imaginação que parte das páginas da literatura para as telas do cinema


Construir uma casa no topo de uma árvore, pilotar o protótipo de um avião, fazer encontros secretos, espionar familiares e vizinhos. Esses são sonhos que povoam o imaginário de muitas crianças. E que podem — por que não? — servir também de combustível para atividades nas escolas, enriquecendo o repertório de linguagens dos estudantes.

Neste ano, chegou às telas de todo o Brasil o filme “O menino no espelho”, do diretor Guilherme Fiuza Zenha. Baseada no romance homônimo de Fernando Sabino, a obra narra episódios da infância do escritor em Belo Horizonte (MG), na década de 20. E, a partir dessa produção, alunos dos 8º e 9º anos do ensino fundamental da Escola Municipal Eunice Weaver vão desenvolver, ainda este ano, atividades acadêmicas. Isto porque eles estudam em uma das dez unidades inscritas na II Mostra Cine Literário. No último dia 30, um grupo acompanhou a exibição do filme, seguida de debate com Guilherme Fiuza Zenha, André Carreira, roteirista, e Daniel Moutinho, professor de Língua Portuguesa.

Na visão de Daniel Moutinho, que leciona no Colégio Miguel Couto e no Sistema de Educação Interativo (SEI), os filmes podem e devem fazer parte do trabalho em sala de aula. No entanto, ele defende que as produções não sejam utilizadas para “ilustrar” alguns temas, mas que se transformem em uma ferramenta de apresentação de novas linguagens aos estudantes, alargando assim, os horizontes de sua formação.

“Acredito que o máximo de linguagens que mostrarmos aos nossos alunos é enriquecedor. Em sala de aula, lemos o livro didático e o livro literário. E o cinema vai se fortalecer como mais uma ferramenta e uma linguagem para trabalharmos. Cada vez mais, em Língua Portuguesa, ensinamos linguagens. Na matriz de referência do Enem, por exemplo, o termo usado é ‘Linguagens, Códigos e suas Tecnologias’. Procuramos trabalhar com fotografias, animações e com o cinema”, esclareceu o docente.

Na adaptação do romance para o cinema, alguns episódios da obra “O menino no espelho”, como “Galinha ao molho pardo”, por exemplo, foram suprimidos. A opção estética agradou Daniel Moutinho, que atribui as mudanças à diferença entre as linguagens cinematográfica e literária. “A adaptação é muito boa. Muita gente costuma reclamar quando o filme não se torna muito ‘fiel’ ao livro. Na verdade, a fidelidade que ele deve à obra original não é reconstruir todos os episódios e sim reconstruir o espírito da obra. O que, nesse caso, é a valorização da infância. E isso está pleno no filme. Achei a adaptação muito feliz”, observou o educador.

Responsável pelo roteiro da obra, André Carreira revela que as diferenças entre o livro e o filme, em um primeiro momento, geraram grande expectativa na equipe, especialmente com relação à apreciação que seria feita pela família do escritor. “Nosso maior receio era com relação à família. Mas, quando mostramos o filme, eles vibraram, ficaram emocionados. Trabalhamos, também, para divulgar a obra de Fernando Sabino. A família leva sua obra para diversas cidades, montando estandes, encenando peças nas escolas. E acreditamos que esse filme será o carro-chefe desse projeto. Espero que o filme também sirva como instrumento para ser usado nas salas de aula e como formação de plateia”, salientou o roteirista.

Segundo André Carreira, o aspecto mais rico de uma adaptação para o cinema é promover a integração entre as duas expressões artísticas. E, o fato de “O menino no espelho” ter como foco a infância, torna a obra mais especial ainda, principalmente ao se considerar as demandas por incentivo à leitura no país.
“Nos debates, quando conseguimos abrir esse horizonte, as pessoas percebem que o livro pode complementar o filme e que o filme pode complementar o livro. Não é porque a pessoa viu o filme que não vai ler o livro e vice-versa. São duas expressões distintas. Cada uma tem o seu encanto, a sua magia. Desse modo, o filme acaba se tornando um incentivo à leitura”, concluiu o roteirista.

Já Guilherme Fiuza Zenha sublinha que um dos diferenciais de “O menino no espelho” é o fato de ele apresentar elementos novos e distantes do cotidiano da maior parte de crianças e adolescentes dos grandes centros. Em tempos de universalização do uso do celular, eles veem crianças usando um telefone feito com lata de metal e barbante.

“Quase tudo o que se faz para crianças, hoje em dia, são animações. E viemos com o ‘Live-Action’ que tem uma capacidade de identificação mais profunda. Partimos de um universo muito próximo deles, mas que eles nunca viram retratado. É quase como criar uma peça exótica, lançando um olhar diferenciado para o nosso filme”, explicou o diretor, informando que trabalhou no projeto do filme durante sete anos.

Além disso, prossegue Guilherme Fiuza Zenha, a exploração do ambiente lúdico e de um certo “mundo mágico”, amparado nas potencialidades da infância, fez com que a produção atingisse várias gerações.
“Tentamos, desde o início, fazer um filme que falasse com o pai, com o avô e com o neto; que fosse uma experiência para toda a família. A ideia é que esse filme possa marcar a infância de quem o assistir”, apontou o diretor.

Ponto Cine: uma sala para a alfabetização do olhar
- Unir o cinema e a literatura à proposta de alfabetizar o olhar de estudantes da rede pública e de moradores da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Esse é um dos propósitos do projeto Cine Literário: mostra apresentada pelo Ponto Cine — a primeira sala popular de Cinema Digital do Brasil.
 
A inspiração surgiu em 2004, quando Adailton Medeiros, diretor executivo do Ponto Cine, visitava uma feira de livros, em Duque de Caxias. Naquele instante, o produtor percebeu que poderia reunir essas duas expressões artísticas em um único evento. “Naquela oportunidade, resolvi fazer algo casado entre literatura e cinema. Durante algum tempo, realizamos o projeto esporadicamente. Porém, há três anos, conseguimos chegar ao formato do que é hoje o Cine Literário”, revelou Adailton Medeiros.

O formato do Cine Literário compreende o envio de 100 midiotecas a 100 escolas públicas, contendo kits de exibição com TV Full HD de 47” e Blu-Ray Player, 50 títulos de filmes e dos livros brasileiros que originaram os filmes – todos duplicados, ou seja, 100 livros e 100 DVDs. Dentre esses 50 títulos, dez integram a Mostra Cine Literário, que, entre os últimos dias 27 e 31, teve a sua segunda edição. Todas as informações sobre os filmes do evento foram entregues às escolas participantes por meio de um catálogo.

Em uma sala com 73 lugares, localizada no Guadalupe Shopping, em Guadalupe, Zona Norte do Rio, alunos da rede pública e moradores das imediações acompanham as exibições de filmes, seguidas de debates com diretores, escritores, atores e pesquisadores. Todos os eventos foram filmados e serão compilados em um programa com dez episódios. Esse material, posteriormente, será enviado às unidades escolares.

O projeto Cine Literário envolve ainda oficinas catalogação, que incentivam as escolas participantes, com a ajuda dos estudantes, a organizarem e sistematizarem todo o acervo, tecnicamente. “Os professores são nossos grandes parceiros. Fazemos um treinamento com eles para não corrermos o risco de que, logo após a leitura de um livro ou da exibição de um filme, seja aplicada uma prova ou uma redação. Queremos atrair essa garotada para o cinema e para a literatura, desenvolvendo o seu protagonismo. Após a exibição, fazemos uma roda com os alunos e cada um traz as suas experiências. Depois, fazemos uma tradução desse material para a linguagem deles”, acrescentou Adailton Medeiros.

A II Mostra Cine Literário marcou, também, a estreia de uma tecnologia inédita no país. O Ponto Cine disponibilizou um aplicativo que coloca na tela de tablets e smartphones um intérprete de libras e legendas, além de emitir audiodescrição via fones de ouvido.  “Hoje, o Cine Literário acontece no Rio de Janeiro, Brasília, Recife e Florianópolis. Nosso sonho é que esse projeto se torne uma política pública. Quando falamos de alfabetização, ainda estamos em Gutemberg. Temos de partir para a alfabetização do audiovisual. Hoje, a leitura do audiovisual é super necessária. Em todos lugares temos sinais, imagens. E temos trabalhado nesse sentido com a garotada”, completou o diretor executivo do Ponto Cine.

O Cine Literário foi vencedor do Prêmio de Cultura do Estado do Rio de Janeiro em 2014. E o Ponto Cine concorre, também, na edição deste ano do Prêmio Brasil Criativo, cuja votação está aberta.

Serviço
www.pontocine.com.br/cineliterario/
http://fb.me/7POHPDlEN
 

Por: Tainara Silva - [email protected]
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