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O futuro do livro

“O fracasso evidente do e-book ou do CD-room como meios de divulgação textual em massa, comparado à expansão inestancável do velho códice, do livro como o conhecemos e usamos desde os latinos”
Marcos Vinicios Vilaça é Presidente da Academia Brasileira de Letras

Marcos Vinicios Vilaça*
 

Ao tratarmos do tema do futuro do livro, a primeira coisa a ser feita é delimitarmos o que compreendemos como “livro”. Todos os suportes para a escrita que já existiram, em todas as partes do mundo, podem, a rigor, ser tomados como livro, desde as placas de argila da Mesopotâmia ou de Creta, até o rolo de papiro que, do Egito, se espalhou por todo o mundo clássico, ou até os blocos de folhas de palmeira, atravessados por um fio, do sul indiano. Se todas essas formas existiram, às vezes com longa e profícua história, a verdade é que, em todo o planeta, o que hoje reconhecemos como livro é o códice, o codex romano, ou seja, um amontoado de folhas em forma de quadrilátero, amarradas por um dos lados, entre duas capas, na sua definição mais direta e singela.

Essa forma, de existência bimilenar, por sua praticidade, por sua comodidade, por sua indiscutível superioridade de uso, venceu todos os meios anteriores, atravessou séculos e séculos como o suporte tradicional dos manuscritos, e adentrou, sem um arranhão em seu prestígio, a era inaugurada pela descoberta de Gutenberg, além de se ter espalhado por todos os outros continentes e culturas que não os de sua origem. Se atualmente vivemos a mais espantosa revolução na transmissão do conhecimento desde o século XV, com o advento da Informática, o códice continua inabalado em sua força e difusão, em nada incomodado pela nova tecnologia, e antes, muito pelo contrário, beneficiando-se dela de todas as maneiras possíveis, das mais abstratas às mais concretas.

O fracasso evidente do e-book ou do CD-room como meios de divulgação textual em massa, comparado à expansão inestancável do velho códice, do livro como o conhecemos e usamos desde os latinos, aponta para a sua perfeita continuidade e hegemonia. Julgar que as novas tecnologias arranhariam a trajetória desse objeto único e imprescindível, envolvido pela mais profunda veneração e afetividade humanas, seria de uma ingenuidade tão grande como julgar, apenas como exemplo, que o advento do registro sonoro acabaria com a exibição musical ao vivo, que o fato de podermos ter uma boa gravação de um intérprete nos afastaria definitivamente de um seu recital ou de um concerto. O livro, em seu formato tradicional, editado universalmente em quantidades cada vez mais vultosas, parece ter a sua permanência perfeitamente garantida.