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Ao tratarmos do tema
do futuro do livro, a primeira coisa a ser feita é
delimitarmos o que compreendemos como “livro”.
Todos os suportes para a escrita que já existiram,
em todas as partes do mundo, podem, a rigor, ser tomados
como livro, desde as placas de argila da Mesopotâmia
ou de Creta, até o rolo de papiro que, do Egito,
se espalhou por todo o mundo clássico, ou até
os blocos de folhas de palmeira, atravessados por um
fio, do sul indiano. Se todas essas formas existiram,
às vezes com longa e profícua história,
a verdade é que, em todo o planeta, o que hoje
reconhecemos como livro é o códice, o
codex romano, ou seja, um amontoado de folhas em forma
de quadrilátero, amarradas por um dos lados,
entre duas capas, na sua definição mais
direta e singela.
Essa forma, de existência bimilenar, por sua praticidade,
por sua comodidade, por sua indiscutível superioridade
de uso, venceu todos os meios anteriores, atravessou
séculos e séculos como o suporte tradicional
dos manuscritos, e adentrou, sem um arranhão
em seu prestígio, a era inaugurada pela descoberta
de Gutenberg, além de se ter espalhado por todos
os outros continentes e culturas que não os de
sua origem. Se atualmente vivemos a mais espantosa revolução
na transmissão do conhecimento desde o século
XV, com o advento da Informática, o códice
continua inabalado em sua força e difusão,
em nada incomodado pela nova tecnologia, e antes, muito
pelo contrário, beneficiando-se dela de todas
as maneiras possíveis, das mais abstratas às
mais concretas.
O fracasso evidente do e-book ou do CD-room como meios
de divulgação textual em massa, comparado
à expansão inestancável do velho
códice, do livro como o conhecemos e usamos desde
os latinos, aponta para a sua perfeita continuidade
e hegemonia. Julgar que as novas tecnologias arranhariam
a trajetória desse objeto único e imprescindível,
envolvido pela mais profunda veneração
e afetividade humanas, seria de uma ingenuidade tão
grande como julgar, apenas como exemplo, que o advento
do registro sonoro acabaria com a exibição
musical ao vivo, que o fato de podermos ter uma boa
gravação de um intérprete nos afastaria
definitivamente de um seu recital ou de um concerto.
O livro, em seu formato tradicional, editado universalmente
em quantidades cada vez mais vultosas, parece ter a
sua permanência perfeitamente garantida.
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