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Dizer que lecionar
é um sacerdócio não é exagero
quando se passa a limpo a vida de alguns professores.
Dedicação e abnegação são
praticamente traços da personalidade desses homens
e mulheres que até perdem a conta, tantos são
os “filhos postiços” que passam por
suas vidas.
O resultado disso é, pelo menos para Cláudio
Giovannini, uma página com 826 amigos, 347 fãs
e duas comunidades no Orkut – a maioria, alunos
e ex-alunos. Bacharel e licenciado em Biologia, Giovannini
divide seus dias entre os dois lados da profissão,
que “ama de paixão”, conforme ele
mesmo define. Casado e pai de três filhas, o professor
encara com garra e satisfação o dia-a-dia
puxado.
A semana começa às 5h30 da manhã
da segunda-feira e só termina lá pelas
15 horas do sábado. Descanso aos domingos? Nem
pensar. “É o dia que me sobra para preparar
o material de aula para a semana, pesquisar na internet,
me manter atualizado”, explicou. E pensar que
tudo começou com um “pequeno exagero”
no currículo. Aos 21 anos, ainda freqüentando
as aulas do curso de Ciências Biológicas
na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Giovannini
soube que o Grupo River abrira dez vagas para a disciplina,
no pré-vestibular. Era o fim dos anos 70; o rapaz
de cabelos longos presos num rabo-de-cavalo, calças
jeans surrada – “descolorida com muita água
sanitária” – e sandálias de
couro se encheu de coragem, tentou e passou. Com “prova
de quadro” e tudo. “Na teoria, comecei a
dar aulas aos 17 anos, porque meu currículo indicava
três anos de experiência”, diverte-se,
hoje, o professor que pisou em um tablado pela primeira
vez há quase 30 anos. Giovannini lembra daquele
dia como se fosse ontem. Na época, o vestibular
Unificado era a única forma de acesso ao ensino
superior. A disputa era acirradíssima e os cursinhos
preparatórios estavam surgindo com força
total. “A minha primeira aula foi numa sala apelidada
de Maracanãzinho. Quando entrei ali e vi aqueles
420 estudantes olhando para mim, minha primeira reação
foi fechar os olhos e rezar. Acho que fiquei assim por
uns dez minutos. E, a partir daí, não
parei mais.”
Três
décadas ensinando a ‘beleza da Biologia’
Sem exagero, não parou mesmo. Quase três
décadas depois da primeira aula, Giovannini acumula
experiência suficiente – e muita, muita
informação – para despejar a “beleza
da Biologia” sobre seus alunos. E não são
poucos; a maioria, enfrentando a difícil fase
do pré-vestibular. Tirando uma turma do segundo
período de Fisioterapia na Universidade Estácio
de Sá, em Petrópolis, o contato é
total com adolescentes. “Estou no magistério
há muito tempo, e só tinha duas saídas:
me transformar em um professor exigente, chato e distante
ou evoluir ‘involuindo’ para ser mais exigente
ainda, porém, divertido e próximo dos
garotos, que sabem que podem contar comigo dentro e
fora do colégio.” Essa postura pouco comum
fez com que, de alguma maneira, o professor influenciasse
alguns de seus alunos. Mas ele nega a carga de se transformar
em exemplo. “Geralmente, no primeiro dia de aula
sempre pergunto o que cada um vai fazer. Para aqueles
que ainda estão em dúvida eu falo: ‘Você
vai fazer Biologia’. Deu certo algumas vezes”,
riu. O “truque” também funcionou
em casa. Das três filhas – de 23, 26 e 7
anos -, uma seguiu seus passos. “A Flávia,
minha filha do meio, é bióloga, formada
também na UFRJ. Hoje ela é pesquisadora
com bolsa do CNPq, pela Uerj, e também é
tutora no Cederj”, ‘corujou’ o pai
orgulhoso.
No Orkut, uma página só de elogios
e agradecimentos
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Além do cotidiano
nas salas de aulas, Cláudio Giovannini ainda
chefia o laboratório de patologia clínica
do Hospital Geral de Saracuruna. “Às vezes,
trabalho até nas férias. Pintou problema
para resolver, tenho que largar tudo e ir para o hospital.”
Mas o professor confessa ser agitado por natureza e
não se vê fora do laboratório e,
muito menos, longe das salas de aula. Não por
hora. “Apesar de estar extremamente cansado, parece
mágica quando vejo aqueles olhinhos que depositam
tanta confiança em mim. Esqueço de tudo;
ali, só o que me interessa são meus alunos”,
confidenciou. A conexão funciona dos dois lados;
como uma bomba de sódio. Basta dar uma olhada
na página do professor, no Orkut, cheia de depoimentos
e “scraps” com elogios e agradecimentos.
Algumas histórias o próprio Giovannini
faz questão de lembrar. “Uma de minhas
alunas perdeu o pai no ano passado. Notei que ela ficou
‘pra baixo’ na semana do Dia dos Pais. Na
segunda-feira, cheguei perto dela e disse: ‘Não
fala nada; só me dá um abraço.
De hoje em diante eu também sou seu pai’.
São esses momentos que valem toda a minha correria
diária”, contou, emocionado. O professor,
que fez uma prece silenciosa antes de ministrar a primeira
aula de sua vida, se considera uma pessoa abençoada.
“Ao contrário de muitos colegas, raramente
fico doente. Tenho muita sorte, e por isso é
que agradeço, sempre, a Deus. O professor é
um profissional muito castigado”, lamentou o autor
da frase, célebre entre dez de dez de seus alunos
e ex-alunos.
– “Quem não gosta de Biologia não
gosta de Deus, porque Biologia é uma matéria
divina”, sentencia. |