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Uma resolução
de seis páginas, assinada em abril deste ano
pelo prefeito do Rio, César Maia, gerou a maior
polêmica dos últimos anos em termos de
política educacional no estado do Rio de Janeiro.
No documento, a Secretaria Municipal de Educação
do Rio, que administra a maior rede de ensino da América
Latina, com mais de 700 mil alunos, introduz mudanças
significativas no processo de avaliação
dos alunos, autorizando as escolas a implantarem um
sistema conhecido como aprovação automática.
Em vez de somente aplicar provas e avaliar os alunos
a partir das notas obtidas, os professores passariam
a verificar o que os estudantes aprenderam com base
em atividades pedagógicas variadas e, a partir
desta observação, fazer relatórios
sobre a evolução de cada um.
O debate em torno do tema foi maior do que o esperado.
Enquanto os defensores da idéia sustentavam que
muitos países desenvolvidos implantaram o sistema
como sucesso, os críticos argumentavam que o
estudante não pode, independente da aferição
de seus conhecimentos, ser conduzido a um estágio
superior na escala educacional.
Meses depois, a Câmara de Vereadores derrubou,
em plenário, a resolução 946, que
acabava com os conceitos ótimo (O), o máximo
até então, e insuficiente (I), o único
que podia fazer o aluno repetir a mesma série
no ano seguinte. Com algumas poucas mudanças,
o prefeito assinou, logo depois, uma nova resolução,
a 959, que mantém as bases do sistema mas acaba
com a aprovação automática. A partir
de agora, os alunos que tiverem mais de 25% de faltas
ficam com o conceito registra recomendação
(RR), que prevê intensificação do
reforço escolar no período seguinte, com
a decisão final sobre a aprovação
cabendo ao conselho de classe. O documento encontra-se,
atualmente, em análise pelos vereadores, mas
a rapidez da Prefeitura fez com que a rede escolar continuasse
adotando o novo modelo de avaliação.
Aliada à nova proposta de avaliação,
a repetência em situações excepcionais
representou, para a Secretaria Municipal de Educação,
atender ao direito básico de toda criança
do acesso e da permanência na escola. Já
para a maioria dos vereadores e representantes dos professores,
a aprovação automática, em função
da falta de infra-estrutura que alegam faltar à
rede, significaria que muitos alunos chegariam ao ensino
médio com forte defasagem de aprendizado.
A polêmica carioca, na realidade, não se
manifestou por conta do sistema de ciclos em si, bem
visto no meio educacional. A discussão ganhou
destaque devido às perspectivas de sucesso do
regime em face das precárias condições
materiais de aprendizado dos alunos e de ensino que
têm os professores no município. É
um ato demagógico, de produção
de estatísticas. Diminui a evasão, a repetência,
as pessoas seguem os estudos mas, no final, saem semi-analfabetas.
Não é apenas por vontade de um prefeito
ou governador que isso dá certo, critica a professora
Nilda Teves, do Departamento de Pós-Graduação
da Universidade Gama Filho e ex-secretária de
Ciência e Tecnologia do estado.
Na alfabetização e na 1ª série
do fundamental, tudo bem. Nesta época, a criança
faz parte de um grupo de amigos e, como há todo
um envolvimento afetivo, é importante não
interromper esta interação por causa de
uma dificuldade inicial com a leitura. Depois disso,
já não vale mais. Dizer que a criança
vai ser assistida, que terá aula extra, é
conversa fiada, declara Nilda.
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A professora do Departamento
de Pós-Graduação da Uerj, Míriam
Paura, tem outra visão. Segundo ela, vários
estados e municípios adotaram o mesmo sistema
e conseguiram bons resultados. Os ciclos possibilitam
que alunos tenham maior tempo de aprendizagem e que
assimilem conhecimentos no ritmo mais apropriado. Há
uma amplitude de trabalho e de possibilidades e, por
isso, eu acho válido e aprovo, defende a educadora,
para quem, porém, é necessário
maior esclarecimento sobre o assunto. O debate está
muito ligado ao fato de que o aluno não vai mais
repetir e, por isso, as pessoas não compreendem.
É preciso também discutir o papel do professor
e o processo educacional.
Capacitação
do professor e estrutura são essenciais
A melhor capacitação dos professores é
considerada condição essencial para que
a progressão continuada dê certo. Para
especialistas, a formação tradicional
dos profissionais do magistério não dá
conta de algumas exigências do regime educacional
dos ciclos, como um atendimento mais individualizado
ao aluno, o uso de práticas variadas de avaliação
e a reorganização dos conteúdos
escolares para tornar o trabalho mais interessante para
o alunado. É importante ainda analisar experiências
de outros estados nesta área e ver os problemas
que enfrentaram, para que seja possível minimizar
erros, frisa Míriam Paura.
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Professor do Programa
de Pós-Graduação de Políticas
Públicas e Formação Humana da Uerj,
Gaudêncio Frigotto defende que, antes de implantar
um sistema de ciclos, é preciso discutir o assunto
com profissionais, familiares e alunos, até para
desfazer o que qualificou de preconceitos. Muitos professores
pensam, por exemplo, que a educação por
ciclos reduz o campo disciplinar onde se formaram. Não
se trata de diluir nem de eliminar conteúdos
específicos, salienta o educador, que critica
a implantação sem debate. Como um professor
vai entrar numa sala para ensinar e avaliar seus alunos
se o prefeito, com um decreto, diz que ele vai passar
de ano automaticamente?.
Um argumento usado em defesa dos ciclos é o de
que, em uma sociedade onde a educação
básica é direito, o alto índice
de repetência aumenta a evasão, sobretudo
entre os alunos mais pobres que, sem suporte na escola
e em casa, têm mais dificuldades de se adaptar
a um currículo escolar padronizado. No entanto,
quem é contrário à progressão
continuada, pelo menos quando não existem a infra-estrutura
e a qualificação de professores, sustenta
que promover o aluno sem que este tenha aprendido o
mínimo necessário vai trazer problemas
para toda a vida estudantil.
Gaudêncio Frigotto, que também é
doutor em Educação pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, acredita
que, no caso da Prefeitura do Rio, a polêmica
que se criou em torno do assunto já é
um sinal de que precisa ser retomado o debate. A Prefeitura
tradicionalmente paga melhor ao professor. Mas há
um conflito. O sindicato é contra. A própria
Câmara dos Vereadores vetou. Há um litígio
em torno disto. Educação implica relação
de construção dialógica. Não
significa que nunca deva existir conflito, mas que é
preciso negociar. E boa parte da queda da qualidade
do ensino no Rio, desde os anos 70, se deve às
medidas impostas de cima para baixo, lembra Frigotto.
A professora Míriam Paura, apesar de toda a divergência
em torno dos ciclos, acredita que a rede municipal do
Rio tem condições de implantar o sistema,
assim como já ocorreu em redes de grande porte,
como as de São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas
Gerais. A única coisa que gostaria, e que não
encontro no projeto, é a figura do orientador
educacional. É ele quem vai auxiliar o aluno
e ajudar a escola e os professores a adotarem uma visão
mais ampla da educação, avalia.
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Já a professora
Nilda Teves entende que, em redes de ensino de massa,
o sistema de progressão continuada não
é a solução mais adequada. A não
ser que pulverize esta massa. Com escolas pequenas,
com acompanhamento constante, com um grande número
de professores e regime escolar em tempo integral, acredito
que poderia funcionar, opinou.
No centro do debate,
as saídas para a repetência
O êxito da política pedagógica dos
ciclos, que demanda um olhar mais individual sobre o
estudante e uma proposta de organização
interdisciplinar dos conteúdos, depende também
da postura dos professores.
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É preciso,
segundo Paulo Sampaio, diretor do Pólo Educacional
Hélade e especialista em Educação
Básica, entender que o estudante dos dias de
hoje tem um perfil diferenciado que, em muitos casos,
se choca com os métodos mais conservadores de
educar. O mundo mudou e os professores não perceberam
ou não querem perceber isto. Então por
que a escola não tem que mudar? Pedagogias diferentes
para exigências distintas, frisa Paulo Sampaio.
O problema, segundo Nilda Teves, é que sem condições
estruturais básicas para um bom trabalho pedagógico,
é difícil para o professor acreditar que
um aluno pode sair de um sistema organizado em ciclos
com boa formação. O professor tem de acreditar
na criança. Tem de crer na escola e perceber
que seu trabalho pode trazer melhoria para a vida do
estudante. Diante de um sistema em que ele não
tem esta perspectiva, fica difícil.
Por trás da polêmica que envolve a organização
do ensino em ciclos está a busca de saídas
para o problema da repetência que, nas redes públicas
municipais do país, atinge 14,7% dos alunos,
em média. Na cidade do Rio, segundo dados apurados
em 2005 para o Censo da Educação, o percentual
é de 12,2%. Reprovar não é algo
válido. Às vezes, o aluno repete várias
vezes e isto vira um problema. Não sou a favor
de o aluno repetir porque não dominou o programa.
Muitas vezes, o fracasso não é dele e
sim do professor ou da escola, defende Míriam
Paura.
Para Paulo Sampaio, um sistema que reprova menos não
corresponde, necessariamente, a um contexto em que não
há avaliação e incentivo a aprender.
Segundo ele, o mundo do trabalho adota lógica
semelhante. Um trabalhador não faz provas periódicas
para mostrar que é eficiente. Seu trabalho é
avaliado continuamente pelo chefe, no dia-a-dia, exemplifica
Paulo Sampaio, que considera a progressão continuada
uma boa solução para o problema da repetência,
desde que venha acompanhada de adequação
dos currículos e de melhoria nas condições
de trabalho de quem ensina. Em lugar de excluir o aluno,
deve-se propiciar a ele ir adiante e ter recuperação
paralela. Pode até continuar a reprovação,
mas que não seja no formato medieval, defende.
Não é por acaso que a repetência
escolar é alvo das atenções de
gestores e pesquisadores. Há pelo menos três
prejuízos diretos quando um aluno tem de estudar
mais uma vez a mesma série: o tempo que perde,
a vaga que poderia ser ocupada por outra criança
e a duplicidade do gasto público. Mas, para Frigotto,
não vale a pena apostar em uma educação
onde exista promoção sem aprendizado para
evitar o prejuízo. Para ele, a redução
da repetência deve ser pautada em ações
mais amplas. Uma das medidas fundamentais é implantar
a escola em tempo integral, que propicie oportunidades
às crianças que têm mais dificuldades
em aprender. Além disso, o professor tem de trabalhar
em uma escola só e ter uma carreira que o dignifique
como educador, destaca o educador. |