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Wendy Cunningham
Publicado em junho
deste ano, o relatório “Jovens em situação
de risco no Brasil”, produzido pelo Banco Mundial,
demonstrou de forma estatística uma realidade
que grande parte dos sociólogos brasileiros já
conhece: quanto menor for a formação do
jovem, maior será a possibilidade dele se tornar
violento, consumidor de álcool ou drogas. E,
principalmente, mais recursos o país perderá
devido à exclusão destes jovens do mercado
de trabalho. Para piorar a situação, o
estudo mostra que, num país como o Brasil, ainda
tão carente de recursos para investir no social,
nada menos que R$300 bilhões deixam de ser arrecadados,
por geração de jovens entre 15 e 24 anos,
devido à falta de qualificação
acadêmica. Neste caso, o valor diz respeito ao
fato de que muitos destes jovens não concluem,
sequer, o ensino médio. Economista norte-americana
especializada em América Latina, especialmente
no México, Brasil e Argentina, Wendy Cunningham
coordenou o estudo do Banco Mundial e conta, em entrevista,
como a pesquisa chegou a este número tão
vultoso quanto assustador para o mais otimista dos analistas
econômicos. “Nós somamos o total
das diferenças entre estes jovens, pelo nível
de educação, e chegamos ao valor final.
Mas é importante ressaltar que, quando falamos
das perdas, não nos fixamos apenas no lado financeiro.
O fato destes jovens não terem estudado tem muitos
outros efeitos na economia e na sociedade brasileira”,
destaca a pesquisadora.
O estudo “Jovens em situação
de risco no Brasil”, produzido pelo Banco Mundial
e coordenado pela senhora, chegou à conclusão
de que o país perde R$300 bilhões por
geração de pessoas entre 15 e 24 anos,
pelo fato de que estes jovens não terminaram
o ensino médio e não ingressaram no mercado
de trabalho. Como este cálculo foi obtido?
Wendy Cunningham - Nós medimos
a diferença de renda entre as pessoas que terminaram
o ensino médio e aquelas que terminaram o segundo
ciclo do ensino fundamental (5ª a 8ª séries).
Fizemos o mesmo entre o segundo ciclo do ensino fundamental
e o primeiro (1ª a 4ª séries) e o ensino
médio e o superior. Nós tivemos rendas
diferentes entre homens e mulheres, brancos e não-brancos
e dividimos o estudo por cada grupo, gênero e
raça, destas pessoas que têm entre 15 e
24 anos hoje. Nós somamos o total destas diferenças,
pelo nível de educação, e chegamos
ao valor de R$300 bilhões.
Além da perda financeira,
quais foram as conclusões principais do estudo?
É importante ressaltar que, quando falamos das
perdas ocasionadas pelo fato de os jovens não
terem concluído o ensino médio, nós
não nos fixamos apenas no lado financeiro. O
fato destes jovens não terem estudado tem muitos
outros efeitos na economia e na sociedade brasileira
e também na juventude do país. Por exemplo,
nós sabemos que as pessoas com mais formação
acadêmica têm uma expectativa maior de formação
acadêmica, mais expectativa de democracia, maior
formação cultural, mais voluntarismo e
menos necessidades de apoio do Estado, ou seja, menos
exclusão social. Então, existem muitos
efeitos na sociedade, além do fato de que estes
jovens estão excluídos do mercado de trabalho.
Além disso, também é importante
para o jovem estudar. Nós verificamos na pesquisa
que os jovens que concluem o ensino médio têm
uma probabilidade menor de gravidez adolescente, de
uso do álcool e outras drogas, da entrada no
crime e da propensão à violência.
Então, estudar não é apenas importante
para aprender matérias básicas, como Português
e Matemática, mas para descartar alguns comportamentos
e idéias que podem afastar o jovem da sociedade
em que ele vive. Por isso, uma conclusão principal
do estudo é que o investimento no jovem não
é apenas um investimento na pessoa em si, mas
um investimento no país. E não apenas
na parte econômica, mas no país enquanto
nação.
O estudo também demonstrou
que alguns estados tiveram desempenho melhor que outros,
como Santa Catarina, além do Distrito Federal.
Já Pernambuco e Alagoas tiveram desempenho inferior.
Em quais condições determinados estados
foram superiores aos demais?
Nós identificamos 28 variáveis diferentes
que podem medir a situação dos jovens.
Algumas destas variáveis dizem respeito a comportamento,
outras a apoio para os jovens no âmbito local,
outras à situação da saúde.
Estas variáveis trataram de identificar as condições
diferentes para os jovens em cada localidade. O que
encontramos foi, em algumas variáveis, um nível
muito baixo em determinados estados. Os estados melhores
tiveram apoio educacional, nível de educação
mais alto, mais renda. As famílias são
mais ricas que em outros estados e isso apóia
o desenvolvimento dos jovens também. Além
disso, os estados que apresentaram melhor rendimento
nestas variáveis têm um mercado de trabalho
mais favorável, mais oportunidades para os jovens
em comparação aos outros estados, principalmente
no Nordeste, em que falta apoio público, apoio
social. E nós podemos usar esta informação
para cadastrar em quais áreas cada estado pode
melhorar a situação para os jovens de
hoje e de amanhã também. A partir destes
dados, foi verificado em que área cada estado
deve investir prioritariamente, seja nas escolas, em
saúde ou no apoio familiar, por exemplo.
Esta constatação,
de que nós temos alguns estados mais desenvolvidos
que outros no Brasil, confirma a tese de que existem
vários Brasis em um mesmo país?
Isso é muito certo e óbvio. A diferença
entre um estado e outro chega a ser maior que a do Brasil
como um todo em relação a outros países
da América Latina.
Em nível mundial, como
fica a comparação entre o Brasil e outros
países no quesito educacional? De acordo com
o relatório, o Brasil ficou em penúltimo
lugar no Programa Internacional de Avaliação
dos Estudantes.
Mas aí há que se contar o fato de que
países menos desenvolvidos na área educacional
não participam do programa. Os países
do continente africano, por exemplo. Além disso,
há poucos países da América Latina.
A verdade é que, em comparação
com todos os países do mundo, o Brasil não
é o pior nem o penúltimo nesta área.
Mas existe muito espaço para melhorar. Se formos
comparar o Brasil com o restante da América Latina,
por exemplo, o país está muito atrás
no que diz respeito ao analfabetismo dos seus jovens.
Hoje, o país tem, por exemplo, 5,3% dos homens
entre 15 e 24 anos sem saber ler. Em comparação,
na Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia,
Equador, México, muitos outros países
da América do Sul, as taxas são de 3,3%
ou menos. Na Argentina nós falamos em 1,6%. Esta
diferença se torna importante em termos de competitividade
e mostra que é possível o país
ter uma taxa menor. Outro aspecto é que a taxa
de escolarização terciária, no
Brasil, é muito baixa em relação
aos outros países da América Latina. É
também importante, como foi falado anteriormente,
que no Brasil existe muita diferença interna.
Para se ter uma idéia, a taxa de analfabetismo
entre os jovens mais pobres é de 14%, comparada
a uma taxa geral de 4%, se contarmos homens e mulheres
entre 15 e 24 anos. Então, realmente estamos
falando de muitos Brasis. Principalmente no que diz
respeito aos jovens, existem muitas diferenças
de região para região. Mas podemos dizer,
também, que o país tem feito algumas coisas,
está tentando fazer algo para melhorar a situação.
Este dado é muito importante para quem acha que
o país ainda tem muito a melhorar em relação
à educação para os jovens.
Quando a senhora fala que o
país tem tentado melhorar, isso inclui a adoção
de novas políticas educacionais para adolescentes
ou a melhoria em outras áreas sociais?
Também educacionais. Pensando nos jovens em geral,
o Brasil é líder na América Latina
no que se refere aos cuidados com a saúde dos
adolescentes e fez um esforço muito grande para
chegar neste estágio. O Brasil tem resultados
muito melhores que outros países da América
Latina no que se refere à saúde reprodutiva
dos jovens. Na área da educação,
o Brasil está tentando e tem alguns programas
importantes, como a discussão de se usar a Bolsa-Família
também para estimular os jovens a concluírem
o ensino médio. São poucos os países
que estão trabalhando na questão da transferência
de renda especificamente para esta faixa etária
- na América Latina só temos México
e Colômbia. Fazer isso é algo muito avançado
para o Brasil e para a região em geral.
Entre os países da América Latina,
cujas taxas de analfabetismo entre os jovens são
menores que no Brasil, vários deles têm
um Produto Interno Bruto menor que o do país.
Isso não mostra um descaso do país pela
educação ou podemos dizer que os recursos
existentes são mal aplicados?
É difícil dizer porque o Brasil tem uma
situação pior que a de outros países.
Como nós apresentamos no relatório, a
desigualdade no país é realmente um problema.
O país está gastando, mas gasta mais em
algumas áreas que em outras. O Brasil é
um país grande, que tem necessidades diferentes
entre as suas regiões, e é importante
lembrar que existem outros fatores. E não quero
dizer que o Brasil é pior que outros países
em relação a estes fatores, mas é
algo para lembrar. O primeiro é a repetição
nas escolas. É como um jovem que repete duas,
três vezes a mesma série - e vai sair da
escola. Também, a relevância do ensino,
o que estes alunos estão aprendendo. Este é
um problema de toda a América Latina, mas que
eu acho que deve ser tratado pelo Brasil também.
Se realmente as escolas estão preparando o jovem
para entrar no mercado de trabalho ou se estão
preparando o estudante para chegar ao nível terciário.
A realidade é que poucos estudantes vão
chegar ao ensino terciário, especialmente no
Brasil, que tem taxas muito baixas neste setor. Mas
é necessário preparar o estudante para
que ele ou vá ao mercado de trabalho ou resolva
estudar mais. Agora, se o aluno não sabe ler,
não sabe a Matemática básica, vai
ser muito difícil encontrar trabalho, seja no
Brasil, no México, na Argentina, em qualquer
país. Então, a taxa de analfabetismo é
algo importante para se pensar quando tratamos da evolução
da educação no país.
Baseando-se nestes números
apurados na pesquisa, qual deveria ser a prioridade
do governo federal na aplicação dos recursos
na área educacional?
O que eu posso dizer é que existem algumas idéias
importantes ao redor do mundo que o Brasil poderia pensar
em aplicar. Primeiro é que o país deve
fazer o que puder para que os jovens não saiam
da escola. É importante começar com a
primeira infância, e aí nós falamos
dos jovens, do ensino médio. A educação
começa nos primeiros anos de vida, e é
um trabalho muito grande que deve ser feito neste sentido,
uma responsabilidade do Estado e da sociedade para apoiar
este esforço. Os relatórios produzidos
em outros países mostram que deve ser criado
um âmbito positivo para os jovens que querem permanecer
na escola. A escola pode ser um âmbito de apoio,
desenvolvimento, mas só pode haver este contato
se ela for um lugar seguro onde os jovens achem que
podem ir, aprender, encontrar algum apoio e também
para criar oportunidades. Para que o jovem possa permanecer
na escola. Aí nós podemos voltar à
teórica dos programas de transferência
de renda. É certo que alguns jovens têm
que sair da escola para trabalhar, é uma maneira
de sair e ajudar a família, mas é preciso
que, mesmo assim, eles permaneçam na escola.
No México, temos programas neste sentido muito
bons, na Colômbia também, e o impacto destes
programas é muito maior para os alunos do ensino
médio que para os estudantes do ensino fundamental.
E também nós não podemos esquecer
do jovem que saiu da escola, está fora do sistema.
É importante pensar um pouco em programas para
ensinar habilidades práticas. Nós falamos
da importância da alfabetização,
de saber ler e o impacto que tem o conhecimento do Português
e da Matemática. Então, é possível
que quando o aluno saia da escola precise de um apoio
especial, de maneira a corrigir algumas decisões
não muito boas. Estas são algumas idéias
de alguns outros países que podem ser aplicadas
ao Brasil. E o país já está realizando
algumas destas medidas.
A pesquisa também faz
uma relação entre anos de estudo e comportamento
violento destes jovens?
Estudos nos Estados Unidos e em alguns países
da América Latina mostram que os jovens violentos
têm algumas situações em suas vidas
que não vão assegurar que a pessoa vá
ser violenta, mas que aumentam a probabilidade de que
isso aconteça. Os dois fatores mais importantes
para que uma pessoa não seja violenta são
ter um apoio familiar muito forte e uma experiência
na escola idem. E a experiência na escola não
significa ter um desempenho pedagógico muito
bom, mas que a escola ofereça apoio e que as
pessoas que ficam na escola, no âmbito da educação,
têm uma possibilidade muito menor de praticar
atos violentos. Então, o importante é
o apoio, da escola, da família. A partir daí,
o jovem terá muito menos possibilidade de ter
uma vida violenta.
Vários educadores costumam
afirmar que os países desenvolvidos só
chegaram a este estágio devido ao investimento
maciço na área educacional. A senhora
concorda com a tese de que a educação
é um fator primordial para o desenvolvimento
econômico e social?
Sim, concordo. Mas eu acho que não só
o dinheiro é importante, mas como ele vai ser
utilizado. O recurso precisa ser aplicado não
apenas na parte pedagógica, mas também
em políticas de apoio ao comportamento dos jovens.
É importante que a escola possa oferecer ao aluno
um modelo de desenvolvimento do cidadão, e não
apenas do aluno em si. É necessário sim,
investir em educação, mas também
é bastante necessário se pensar em como
investir, no que investir, e pensar no cidadão
como uma pessoa sociável, sexual, de paz, do
trabalho e do estudo também.
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