Ferreira Gullar
Um dos mais celebrados
poetas da história moderna brasileira, o maranhense
Ferreira Gullar exerceu várias atividades antes
de publicar o que muitos consideram a sua obra-prima,
“Poema Sujo”, em 1976. Antes disso, Gullar
trabalhou como redator em jornais, escreveu peças
de teatro e foi diretor da Fundação Cultural
de Brasília. Entre estas atividades, o escritor
também foi um dos presidentes do Centro Popular
de Cultura da maior entidade estudantil do país,
a União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1963.
Além de todas estas atividades, também
exerceu o seu lado educador. Num de seus discursos mais
ferozes, pronunciado em 1983, Gullar, que completou
77 anos no último dia 10 de setembro, ressaltou
a importância da educação para a
mudança dos paradigmas de sociedade. Além
disso, o poeta reforça a temática do “homem
como produto do meio”, recorrente da teoria conhecida
como determinismo, e lembra que em uma sociedade que
trata seus cidadãos com injustiça, a tendência
é que a própria educação
seja injusta. Passados 24 anos do referido discurso,
o poeta fala de algumas das suas posições
exprimidas naquela ocasião, comenta o estágio
atual da educação no país e fala
da importância da classe docente para a formação
do cidadão.
O texto acima foi escrito há
mais de 20 anos. O que mudou na sua visão sobre
a educação ao longo deste período?
Ferreira Gullar - Não diria
hoje que a sociedade injusta educa para a injustiça.
Na sociedade injusta há pessoas justas, que educam
para o melhor.
Em linhas gerais, o Brasil
avançou ou retrocedeu na área educacional
nas últimas décadas?
Creio que avançou, pelo menos no que diz respeito
ao ensino fundamental. Hoje temos praticamente quase
todas as crianças em idade escolar matriculadas.
É possível pensar
num modelo de educação eficaz e transformador
numa sociedade tão marcadamente injusta como
a brasileira?
Sim, é possível. A vida é inventada
e, por isso mesmo, as coisas podem ser mudadas e melhoradas.
Exatamente porque a sociedade é injusta é
que devemos lutar para mudá-la e ensinar melhor
as pessoas.
Acredita que, historicamente,
a escola tem servido como reprodutora do sistema social
estabelecido, em vez de atuar como um agente de transformação
da sociedade?
Em grande parte sim, a escola reproduz o sistema social
estabelecido. Por isso, é preciso preparar os
professores para que compreendam melhor e ensinem melhor.
Não se trata de fazer tábula rasa do que
existe, já que isso é impossível
e, além do mais, errado. Nem tudo o que se ensina
está errado, certo?
De onde vêm os piores
exemplos para a área educacional? Seria mesmo
da classe política?
A classe política dá um mal exemplo, embora
existam exceções. Na maioria dos casos
é o que se tem visto. Mas não são
só os políticos que, com seu exemplo,
educam mal.
Partindo desse princípio
- de que todos somos educadores - seria correto imaginar
que a verdadeira revolução da educação
se dará não somente nas escolas, mas principalmente
no meio social como um todo?
Trata-se de um processo muito complexo, exatamente porque
envolve toda a sociedade. A maioria das pessoas se pauta
pelos valores conservadores e alguns deles são,
de fato, fundamentais, como a justiça, a solidariedade,
o respeito pelo outro. Os valores novos custam a se
impor e nem sempre são melhores - somente por
serem novos. A sociedade os testa, examina, e aceita
ou rejeita. O fundamental é evitar que os valores
essenciais se percam.
Como dar a largada neste processo?
Seria o caso de uma campanha nacional de conscientização
sobre as responsabilidades de cada um de nós
para com os outros?
Sim, apostar na educação é fundamental.
Mas seria necessário discutir bem antes de partir
para uma campanha nacional de conscientização.
Não é uma coisa para ser improvisada e
sair alardeando.
Como vê o papel da mídia
brasileira neste contexto? Ela mais educa ou deseduca
a população? É a favor de alguma
espécie de controle sobre os meios de comunicação?
A mídia, no geral, presta um bom serviço,
na medida em que informa, traz à tona os problemas
e contribui para a sua discussão. Comete erros,
mas é melhor errar do que impedir o debate e
a divulgação dos fatos e das idéias.
É motivo de críticas,
entre muitos intelectuais, o fato de o presidente Lula,
por vezes, se vangloriar de ter chegado ao posto máximo
da República mesmo sem grande carga de educação
formal. Como vê essa questão? Até
que ponto um presidente com este perfil - e este discurso
- é um bom ou um mau exemplo para a população
jovem do país?
A questão não é ter ou não
diploma universitário. Machado de Assis não
cursou universidade, mas era um homem culto. Cultura
se adquire até sem escola, embora seja melhor
que todos possam ir à escola. Ruim é alardear
que a cultura é desnecessária e que o
corpo-a-corpo com o povo ensina mais que os livros.
Uma coisa não exclui a outra, mas os livros ensinam
mais, pois contêm as experiências e idéias
de muitos homens e de muitas gerações.
Numa época em que o conhecimento é fundamental
para o desenvolvimento das nações, é
melhor que o governante não seja inculto.
Quem fez mais pela educação
no Brasil: o torneiro mecânico Luiz Inácio
Lula da Silva ou o sociólogo Fernando Henrique
Cardoso?
Fernando Henrique criou o Fundef, que muito contribuiu
para a ampliação do ensino fundamental.
Lula tem buscado ampliar esse projeto e tomado outras
iniciativas em seu segundo mandato.
Quais lembranças tem
de seus professores? Em que medida eles o atraíram
ou o afastaram do universo literário?
Não tive estímulo especial de nenhum professor
nesse sentido. Mesmo porque, estudei numa escola que
visava formar sapateiros, marceneiros e mecânicos.
As artes deveriam estar mais
presentes no ambiente escolar?
Sem dúvida alguma. Deve-se estimular a criatividade
das crianças, não para transformar todas
elas em artistas. E sim porque a arte enriquece a vida
das pessoas.
É possível que
o professor consiga ser um disseminador da cultura e
do hábito da leitura quando, na maioria das vezes,
sabemos que ele próprio não tem acesso
a estes benefícios?
Por isso é necessário formar melhor os
professores e, também, pagá-los melhor.
De que forma os professores
devem trabalhar a literatura em sala de aula? Num mundo
tão corrido, repleto de informações
e ambientes virtuais, ainda há espaço
para o exercício lúdico de embarcar numa
viagem proposta por um livro?
Não sei a fórmula, não sou professor.
Mas não acho que a televisão e o computador
tornem inviável o interesse pela literatura.
Há, sim, que se começar bem cedo, a fim
de que a leitura se torne um hábito na criança.
Que mensagem o senhor deixaria
aos professores do país no dia 15 de Outubro?
Diria aos professores que está nas mãos
deles uma das tarefas mais nobres e essenciais para
o futuro da sociedade e dos indivíduos.
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