| A proposta de um
piso nacional para os professores da rede pública,
apresentada este ano pelo governo federal, chamou a
atenção da sociedade para aquela que,
segundo especialistas, é uma das principais causas
dos indicadores educacionais críticos que o país
apresenta: os baixos salários do magistério.
A remuneração inferior à recebida
em outras profissões, especialmente as que exigem
ensino superior, afetaria a qualidade por três
vias: em primeiro lugar, por afastar da carreira pessoas
com maior base intelectual e bagagem cultural. Além
disso, a dificuldade de manter-se com o que ganham em
uma só escola leva boa parte dos profissionais
a trabalhar em duas, três ou mais instituições.
Por fim, com várias turmas em escolas diferentes,
é comum faltar de tempo para aprender e aperfeiçoar
práticas pedagógicas.
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Não é
por acaso que o piso nacional é voltado para
a rede pública. É neste segmento que surgem
as queixas mais freqüentes quanto aos baixos salários,
como a da diretora da União dos Professores Públicos
no Estado do Rio (Uppes), Maria Lucia Sardenberg, em
relação aos 11 anos sem reajuste no piso
dos docentes da rede estadual, interrompidos com os
4% concedidos este ano. “O professor ganha pouco
porque é grande o descaso com a escola pública.
Acompanhando o Diário Oficial verificamos que,
até o dia 25 de setembro, 457 professores pediram
exoneração do Estado e 442 foram readaptados
por motivos de saúde. Os baixos salários
e a jornada exaustiva de trabalho a que está
sendo submetido têm adoecido e afastado o professor
da sala de aula. Sem professores vocacionados, bem remunerados
e com estabilidade, vai ser difícil alcançar
bons resultados”, defendeu a sindicalista. Até
o reajuste, o piso na rede estadual era de R$431. Mas,
a maioria dos profissionais recebem uma gratificação
que varia de R$87,02 a R$435,10, em razão do
programa Nova Escola, que avalia o trabalho em colégios
estaduais. A prática de aumentar os vencimentos
a partir de abonos, por sinal, se tornou comum por permitir
aos governos atender reivindicações dos
professores com impacto menor na folha. Como os valores,
em geral, são vinculados ao desempenho em sala,
só o pessoal da ativa tem aumento. “Gratificações
não são incorporadas ao salário
e, por isso, não contam para aposentadoria. E,
teoricamente, este é o momento em que a pessoa
vê seus gastos aumentarem, principalmente com
remédios, planos de saúde, entre outros.
Não são poucos os professores que se endividam
com empréstimos consignados para melhorar seu
orçamento”, salientou Maria Lucia.
Nas federais,
maior parte do salário é de gratificação
O salário de R$1.397,87 pago a professores em
início de carreira nas universidades federais,
em geral, não é dos mais baixos. Porém,
do valor, apenas R$147,40 representam vencimento básico.
A remuneração final é alcançada
com uma complementação de R$232,60 para
se chegar ao mínimo nacional, com uma Vantagem
Pecuniária Individual de R$59,87, com R$560 de
Gratificação de Atividade Executiva (GAE)
e mais R$350 de Gratificação Específica
de Atividade Docente (GEAD). Uma das propostas do Sindicato
Nacional dos Docentes de Ensino Superior (Andes) é
acabar com os abonos e transformar os R$1.397,87 em
salário-base dos professores das federais, para
20 horas semanais.
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Segundo o presidente
do sindicato, Paulo Rizzo, a política de conceder
abonos em vez de reajuste no piso não traz problemas
só para os aposentados. “Vários
benefícios recebidos pelo pessoal da ativa são
percentuais do vencimento básico, como anuênios,
insalubridade, periculosidade, enquadramentos de carreira,
etc. Além disso, abonos podem ser retirados a
qualquer momento. Nunca temos segurança”,
salientou Paulo Rizzo. No entanto, nem sempre dar aulas
para o ensino superior público significa estar
entre os mais bem remunerados. Nas universidades estaduais,
em geral, instituições do Sudeste pagam
melhor que as do Nordeste e do Norte. Na Estadual do
Pará, por exemplo, um professor auxiliar em início
de carreira e que trabalhe 20 horas semanais tem piso
de R$771,92. Já na Estadual do Rio de Janeiro
(Uerj), o mesmo tipo de docente ganha R$1.253,99 (60%
a mais). Segundo o sindicalista, no setor privado, onde
trabalham 70% dos professores do ensino superior, a
situação é ainda pior. O excesso
de profissionais e a crise financeira por que passam
boa parte das instituições do setor faz
com que os salários sejam bem menores. “Em
geral, paga-se por hora-aula, o que faz com que os professores,
na maioria dos casos, tenham de ter mais de um emprego
para receber uma remuneração razoável”,
frisou o sindicalista.
Baixo
salário e pressão para abrir mão
de direitos
Sem a estabilidade do setor público e, por isso,
mais vulneráveis à pressão dos
patrões, tem sido difícil para professores
das universidades privadas negociar. Na melhor das hipóteses,
os sindicatos conseguiram repor a inflação
e manter direitos. O menor salário-base da categoria
na cidade do Rio é o do professor auxiliar, com
R$29,81 a hora/aula (R$3.130,05 por mês, se atuasse
20 horas semanais na mesma instituição).
Obrigadas por convenção a pagar um piso
equivalente ao salário pago nas públicas,
as universidades particulares têm buscado meios
de reduzir indiretamente o gasto com salários.
Uma das estratégias, segundo o presidente do
Sindicato dos Professores do Município do Rio
(Sinpro-Rio), Francílio Paes Leme, seria substituir
docentes com mestrado e doutorado e com mais tempo de
carreira. Outra prática, de acordo com ele, é
reduzir a carga horária dos profissionais.
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Os professores
do setor privado também enfrentam problemas com
rescisão de contrato sem pagamento de direitos,
falta de repasse de contribuições como
FGTS e INSS, atraso de salários, entre outros.
“Temos cerca de sete mil processos na área
trabalhista, principalmente contra universidades”,
resumiu Francílio Paes Leme. Na Educação
Básica, o quadro é semelhante. São
pouco comuns acordos com benefícios adicionais
à reposição da inflação
e manutenção de direitos como o deste
ano, em que o Sinpro-Rio conseguiu que os patrões
pagassem as aulas online à parte. Em outras cidades,
no entanto, as dificuldades têm sido maiores.
Em São Gonçalo, por exemplo, o professor
de 5ª a 8ª tem piso de R$6,30, valor 50% menor
que os R$9,76 pagos na cidade do Rio. Longe da capital,
é comum a categoria ficar anos sem fechar acordo.
“O número de professores no interior é
pequeno e todos eles são conhecidos da comunidade.
Portanto, o poder de pressão da categoria é
infinitamente menor”, explicou Francílio.
Moacyr Barros Bastos, subsecretário de governo
do Município do Rio de Janeiro e mestre em Pedagogia
pela Universidade de Berkley, nos Estados Unidos, considera
que apesar de todos os avanços tecnológicos
o professor é mesmo elemento insubstituível.
E, por isso mesmo, precisa ser urgentemente melhor remunerado.
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Moacyr Bastos
acredita que o Brasil trata muito mal seus docentes,
com salários baixos, que impedem o aprimoramento
profissional. E destaca o exemplo do Japão, em
que um professor de ensino fundamental recebe cerca
de R$6 mil mensais. “O docente é tão
respeitado que é o único profissional
que não precisa se curvar perante o imperador.
Também recebe incentivos para adquirir livros
e ir ao teatro e ao cinema”. Na avaliação
do professor Moacyr Bastos, o professor no Brasil está
cada vez mais desvalorizado e sem condições
de realizar um trabalho adequado. “No Brasil,
um professor de educação básica,
quando ganha bem, recebe vencimentos de R$500. E verifico,
com muita tristeza, uma crise na educação
brasileira que teve início há 40 anos
e vem gerando a queda na qualidade desses profissionais.
Os melhores procuram outras atividades mais rentáveis
e em que serão reconhecidos. Esse é um
indicador forte de que as coisas não andam bem
no país”, afirmou o professor. |