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Dante Donatelli
A falta de limites
e a agressividade dos jovens têm sido alguns dos
problemas enfrentados por pais e professores na hora
de educar as crianças. Numa inversão de
valores, parece que, hoje, quem comanda a casa são
os filhos e os pais ficam à mercê de suas
vontades. A escola, em meio a uma crise de identidade,
deixou de ser lugar de socialização e
transformou-se em extensão das residências.
Esta é a opinião do filósofo Dante
Donatelli, que já atuou como professor, orientador
pedagógico e diretor de escola. Especialista
no tema educação, Dante Donatelli lançou
recentemente A vida em família - As novas formas
de tirania, onde analisa a relação entre
pais e filhos. Este não é o primeiro livro
do autor sobre o tema. Na verdade, é uma continuação
da obra que publicou em 2004, Quem me educa - a família
e a escola diante da (in)disciplina. Nesta entrevista,
o filósofo avalia as contradições
do mundo moderno e faz um alerta aos pais, professores
e diretores: é preciso assumir as responsabilidades
e desempenhar seu papel social para acabar com a tirania
dos filhos. “Cada vez mais os adultos se sentem
menos preparados a serem responsáveis, e, por
conseguinte, terem autoridade diante dos seus filhos.
Pai é pai, e não amigo”, lembra
Donatelli.
Como surgiu o livro A vida
em Família - As novas formas de tirania? E
qual o seu objetivo?
Dante Donatelli - Ele é uma
continuação do meu primeiro livro Quem
me educa, no qual analiso a relação entre
escola e família. Ao final deste livro, fiquei
com a sensação de que faltava uma reflexão
e uma análise mais detalhada acerca da condição
atual da família e suas relações
internas, especialmente observadas da escola. Em suma,
a intenção de A vida em família
é expor como os filhos assumiram a tarefa de
determinar os rumos da vida familiar. Assumiram o lugar
de pai e mãe, e, assim, a família passa
por uma crise profunda de autoridade e identidade.
No livro, o sr. fala da contradição
vivida pela escola, que não sabe ao certo qual
o seu papel na sociedade: se o de lugar de formação
de cidadãos ou de uma extensão da casa
de seus alunos. Há essa confusão na escola?
Por quê? Qual seria, afinal, o papel da escola
no mundo de hoje?
A escola virou, erradamente, uma extensão da
casa. A escola é uma instituição
pública voltada para a socialização
e a formação cidadã dos sujeitos
- e não uma continuação do lar.
Especialmente a escola privada se assumiu com este papel.
Desta forma a escola foi tomada de uma afetividade barata
e um discurso amoroso piegas no qual se buscou substituir,
ou melhor, sobrepor, a função social da
escola, por uma relação de amparo e acolhimento
equivocado dos alunos. Uma das razões deste fenômeno
é a transformação da escola em
lugar de clientes e não de alunos. Por outro
lado, houve a proletarização intelectual
dos educadores. A escola serve para formar intelectual
e eticamente indivíduos e prepará-los
para a vida em sociedade, revelando regras e normas
da convivência social. O mais, cabe à família
prover.
No mundo atual, onde pai e
mãe estão fora de casa e, muitas vezes,
ausentes do dia-a-dia da criança, a permissividade
ganhou espaço. Para compensar a ausência,
eles costumam satisfazer todas as vontades dos filhos.
Quais as conseqüências deste comportamento?
Uma relação tirânica, como sugere
o subtítulo do meu livro. Os filhos se impondo
aos pais, não só no plano do consumo,
mas principalmente no plano moral, determinando o certo,
o errado, o justo e o injusto. É como se os pais
fossem sujeitos em férias permanentes diante
de seus filhos. Pais que se desobrigam de serem pais,
para serem amigos de seus filhos. E pai é pai,
e não amigo.
Hoje é mais difícil
educar um filho do que há 30 anos? Por quê?
Não é mais difícil... É
mais complexo, a começar pela ausência
continuada de pai e mãe da vida cotidiana de
seus filhos. Ambos trabalham muito e cada vez mais são
ausentes da vida e da educação dos filhos.
Por outro lado, as crianças e os jovens são
hoje assediados por um universo novo de informação
e deformação. Os meios de comunicação
de massa, como a TV e mais recentemente a internet,
e todos os seus recursos, são ainda objetos complexos
e de entendimento ainda discutível para muitos.
Outro fator é o constante isolamento de crianças
e jovens em espaços “higienizados”,
como condomínios, nos quais as noções
de sociabilidade, trocas e percepção da
vida social se limitam a um universo cada vez menor
e mais igual a cada um dos indivíduos. É
cada vez mais difícil que crianças e jovens
se encontrem no espaço público e contemplem
as suas contradições e diferenças.
O seu livro fala das novas
formas de tirania. De que forma essa tirana se apresenta
na relação familiar e qual sua origem?
A tirania se origina na omissão paterna e materna.
Os filhos assumem as rédeas da vida cotidiana
em casa, impondo aos pais regras, princípios
e uma moralidade. A bem da verdade não são
as crianças e os jovens que mudaram, mas sim
os adultos que se ausentaram das suas funções
e do peso de serem responsáveis e, portanto,
providos de autoridade.
Quais as conseqüências
da falta de limites?
Bem, os exemplos estão por todo lado, nas pequenas
e grandes indisciplinas vividas todos os dias nas escolas
e no conseqüente acobertar de pais e mães
sobre seus filhos. É cada vez mais rotineiro
adolescentes e jovens que saem distribuindo toda sorte
de estupidez pela sociedade, espancando cidadãs
pobres, agredindo pais, promovendo cretinices de toda
ordem no meio social. A razão elementar destes
movimentos que chocam a todos é a convicção
destes jovens de que são eles quem impõem
seus limites - e não a família ou a sociedade.
É uma inversão da vida social. O sujeito
se põe acima do outro por acreditar que ele,
mais que o outro, pode impor regras e limites.
É comum ouvirmos histórias
de professores que abandonaram a docência por
medo dos alunos. Daria para dizer por que os jovens
hoje são tão agressivos? E o que deve
fazer o professor quando se sente coagido?
Os jovens de hoje são tão ou mais agressivos
quanto os do passado... É antropológico.
A agressividade é parte do humano. Creio que
a questão é que há cada vez menos
temor dos jovens quanto à punição,
na mesma medida em que a agressividade se tornou violência
non sense. Somos cada vez menos preparados para punir.
Temos até uma certa vergonha em dizer que punimos
filhos ou alunos. Isso parece autoritário e todos
desejam não parecer autoritários. Do outro
lado, é bom que se diga, os professores têm
uma formação cada vez mais capenga, não
só naquilo que tange à cátedra
da qual são especialistas, mas também
na licenciatura. A profusão de escolas de terceiro
grau sem critérios de qualidade e aferição
tem posto no mercado cada vez mais professores despreparados
para lidar com a realidade da sala de aula. É
evidente que, ao se sentir coagido, um professor precisa
e deve cobrar da escola medidas duras contra os alunos.
Não é aceitável em hipótese
alguma imaginar que possa haver momentos no qual um
professor se sinta acuado por seus alunos. Isto não
é mais escola ou educação. É
simples barbárie.
No livro, o sr. diz que o egoísmo
supremo impera nos jovens. Qual o motivo desta afirmação
e por que os jovens de hoje são, assim, tão
egoístas?
A cultura burguesa é uma cultura individualista,
que se associa a uma sociedade de consumo no qual uma
série de valores são a ela agregados e
transformaram a nossa época em um lugar de egoístas
que somente têm olhos e mente para si mesmos.
O melhor exemplo deste estado de coisas é observarmos
a extensão da adolescência para os 25,
26, 27 anos, como sintoma de sujeitos sedentos em manter
os privilégios da vida não adulta, ou
o melhor de dois mundos, em uma razão bem infantil.
Como a escola pode combater
esse tipo de comportamento?
Sendo escola de fato, ou seja, saindo da esfera de cúmplice
da barbárie e das pequenas e grandes mentiras
que ela muitas vezes insiste em viver com seus alunos,
educadores e pais. A escola precisa se tomar como sendo
uma instituição do coletivo e não
dos indivíduos, pois é nela que se dá
a socialização dos sujeitos. A cultura
individualista e particularizadora que tomou conta da
escola apenas reforçou comportamentos desequilibrados
e agressivos no contexto escolar.
Por que os pais têm medo
de assumir sua autoridade?
O medo de se ter autoridade está intimamente
vinculado ao medo da responsabilidade. Não dissocio
as duas coisas. Autoridade e responsabilidade caminham
atadas pelo mesmo princípio e fim na vida familiar.
Cada vez mais os adultos se sentem menos preparados
a serem responsáveis, e, por conseguinte, terem
autoridade diante dos seus filhos. Não existe
autoridade que não seja responsável e
que também não exija, daquele que a possui,
respostas e posicionamento frente à realidade.
O sr. atuou como professor,
orientador pedagógico e diretor de escola. Quais
foram as principais dificuldades que encontrou no ambiente
escolar?
Ao cumprir todas as etapas da vida escolar consigo hoje
ter a clareza de que o principal desafio do professor
é, muitas vezes, a postura equivocada de coordenadores
e diretores que fazem deles reféns da sua imobilidade
diante das contradições cotidianas. Por
outro lado, a leitura muitas vezes imediatista dos pais,
que ao invés de buscarem compreender os processos
pelos quais passam seus filhos na ação
de aprendizagem apenas se preocupam com resultados,
também traz dificuldade. A parte mais fácil
e prazerosa da vida e na escola sempre foi o aluno.
Sempre.
Como avalia sua experiência
em sala de aula? O que é ser professor?
Viver a sala de aula é alargar para a vida e
a realidade a convicção de que em tudo
que vivemos e experienciamos nos educamos. A sala de
aula é apenas e tão-somente um dos lugares
onde o professor se dá. A propósito, ser
professor é por definição, no meu
entender, ser generoso. O professor oferta e recebe
crente de ser este o único meio de se educar
e educar ao outro.
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