Entrevistas
 
 
  :. Nelson Maculan
  :. Sonia Mograbi
  :. Wendy Cunningham
  :. Ferreira Gullar
  :. André Pestana
  :. Dante Donatelli
  :. Gabriel Perissé
  :. Andrea Marinho
  :. Eduardo Bueno
  :. Regina Martins
  :. Rubem Alves
  :. Valdir Cimino
  :. Gabriel Chalita
  :. Juan Carlos Tedesco
  :. Priscila Cruz
  :. João C. Palma Filho
  :. Moysés Kuhlmann
  :. Maria Rosa Lombardi
 
   
   
     
     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“A escola pode ser uma fonte de preguiça quando se restringe a ser lugar de cobranças e burocracia”

Gabriel Perissé

Os pecados capitais acompanham a história da Humanidade há mais de sete séculos. Criado em meados do século XIV, o conceito de pecado capital representa atos e sentimentos que aproximam o ser humano do egoísmo. Atualmente, a novela Sete Pecados leva este conceito a várias situações da vida, inclusive a uma escola. Para o escritor e professor Gabriel Perissé, os pecados capitais podem, realmente, estar presentes na educação. Luxúria, gula, avareza, ira, preguiça, inveja e soberba (também chamada por alguns de vaidade ou orgulho): os pecados capitais já são bem conhecidos de todos. Gabriel Perissé explica que muitas atitudes observadas no sistema educacional brasileiro, que geram tantos problemas, têm base nestes pecados. “Investir mal o dinheiro destinado à educação é um sinal de avareza. Não querer lutar por uma educação melhor mostra a soberba”, exemplifica. Autor de Os sete pecados capitais e as virtudes da educação, doutor em Filosofia da Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Literatura Brasileira também pela USP, Gabriel Perissé falou nesta entrevista sobre como estes pecados capitais se manifestam na educação brasileira, além de analisar de que forma a escola pública é retratada nas telenovelas brasileiras.

A novela Sete Pecados retrata uma escola pública da periferia de São Paulo com diversos problemas. Como o sr. avalia o retrato que a novela faz da educação pública?

Gabriel Perissé - Nem sempre as telenovelas tratam assuntos polêmicos com a devida profundidade. Nem é este o objetivo das emissoras. Nem a expectativa - imagino - dos telespectadores. A escola pública de muros e portões pichados, a falta de disciplina, o comportamento dos professores visto de modo estereotipado: tudo isso tem a ver com a realidade da nossa educação pública, mas não é este o retrato fiel da situação que vivemos. Penso que se trata, na verdade, de uma caricatura. Os problemas da escola pública estão relacionados a outros problemas, de ordem familiar, social e política, que escapam aos limites da telenovela.

A telenovela é um meio eficiente de mostrar a realidade da educação brasileira? Por que poucas tramas dão espaço para este tema?

De fato. Talvez, o que o gênero da telenovela possa fazer é despertar-nos, superficialmente, para algumas discussões. A Rede Globo tem feito isso, mal ou bem. Com relação ao tema da educação, acredito que um bom documentário poderia ser mais adequado.

Um dos pecados capitais ressaltados na escola da novela das 19 horas é a preguiça. Professores desestimulados não buscam melhorias por acreditar que elas não têm como acontecer. A preguiça, na educação, assume outras formas além desta?

A preguiça não é só não querer trabalhar, ou não se sentir animado e estimulado. O pior da preguiça é não perceber o ócio como uma saída “virtuosa”. A escola é o espaço do ócio, do tempo livre. A escola é o lugar ideal para o exercício “descompromissado” de nossas melhores possibilidades. A escola pode ser uma fonte de preguiça quando se restringe a ser o lugar de cobranças e da burocracia.

Outro pecado em evidência na escola de Sete Pecados é a ira. Isso é mostrado através da rebeldia de alunos violentos e sem perspectiva de futuro. Esta também é uma realidade encontrada na vida real?

A violência encontra espaço quando se instala o vazio existencial. Quando professores e alunos não se sentem “habitados” por um ideal, a conseqüência é a insatisfação consigo mesmos e a sensação de impotência. A impotência leva à ira e à raiva. Quando estamos imbuídos de convicções, dominamos nossos impulsos e dirigimos nossas energias para objetivos melhores. A virtude que nos salva da ira é a indignação. É um sinal de dignidade nos sentirmos indignados perante situações humanamente indignas.

A gula é um pecado que, no imaginário popular, está ligada ao ato de “comer demais”. Como este pecado é observado na educação?

Gula não é apenas comer demais. Também comer mal ou comer muito pouco é uma disfunção. A educação é um banquete. O aluno, etimologicamente falando, é aquele que se alimenta (verbo latino alere). O aluno se alimenta daquilo que o professor digere. O problema da gula, na escola, a meu ver, está na desnutrição intelectual e profissional do nosso professor. É ela que provoca a fome entre os alunos.

Da mesma forma que a gula, a luxúria também possui uma interpretação no imaginário popular: de que quem a comete é aquele que valoriza demais o prazer sexual. De que maneira a luxúria se manifesta na educação?

A luxúria, mais essencialmente, é a busca do prazer egoísta, em que o “outro” se torna mero objeto. Quando os interesses inconfessáveis se contrapõem aos interesses de uma educação generosa, de qualidade, a serviço das crianças e dos jovens, a serviço de todos, da sociedade, configura-se uma situação de luxúria.

Muitas escolas públicas atravessam dificuldades e seus dirigentes alegam que os governos não dão o dinheiro necessário para investir em melhorias. Esta é uma demonstração do pecado da avareza?

O avarento é aquele que não sabe gastar o dinheiro que possui. Gasta mal ou gasta fora de hora ou gasta naquilo que não deveria gastar. O dinheiro é uma oportunidade para exercitarmos a virtude da economia, que não quer dizer acúmulo. Uma pessoa econômica conhece as regras (nómos) da casa (oîkos), e por isso sabe administrar bem os recursos. Sem gastar demais. Ao contrário do avarento, ele sabe aplicar o dinheiro naquilo que é necessário.

Como a inveja e a soberba se manifestam na educação? De que maneira elas devem ser combatidas?

A inveja é não ver o bem dos outros, nem os seus próprios bens. O invejoso, no Purgatório da Divina comédia, de Dante, está com os olhos costurados, pois não soube ver em vida. A inveja nos incapacita para perceber os nossos próprios talentos. A virtude da admiração nos ajuda a mirar melhor, a ver o quanto poderíamos reunir nossas capacidades para encontrar soluções. Já a soberba, considerada a “cabeça” de todos os pecados capitais, nos impede de trabalhar realisticamente. Humildade tem a ver com húmus, chão, solo. O humilde tem os pés no chão, não se sente pior ou melhor do que ninguém. Há um tipo de tímido que esconde dentro de si uma soberba terrível. Não querer lutar por uma educação melhor sob o pretexto de que se é tímido é um tipo sutil de soberba. Ou achar que ninguém mais se preocupa com isso, somente ele mesmo, é outra forma de não enxergar bem a realidade.

Em seu livro, o sr. também fala das virtudes. Na tradição católica, as virtudes combatem os pecados capitais. Como estas virtudes podem auxiliar na melhoria do sistema educacional brasileiro?

As virtudes da humildade, da admiração, da prudência, da generosidade, da fortaleza, da indignação e tantas outras não existem desencarnadas. Não são abstrações. São valores assumidos por pessoas concretas. O valor da generosidade necessita de pessoas que se exercitem na generosidade. A melhoria da educação brasileira passa pela luta individual e coletiva por dialogar com esses valores e torná-los carne de nossa carne.