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Gabriel Perissé
Os pecados capitais
acompanham a história da Humanidade há
mais de sete séculos. Criado em meados do século
XIV, o conceito de pecado capital representa atos e
sentimentos que aproximam o ser humano do egoísmo.
Atualmente, a novela Sete Pecados leva este conceito
a várias situações da vida, inclusive
a uma escola. Para o escritor e professor Gabriel Perissé,
os pecados capitais podem, realmente, estar presentes
na educação. Luxúria, gula, avareza,
ira, preguiça, inveja e soberba (também
chamada por alguns de vaidade ou orgulho): os pecados
capitais já são bem conhecidos de todos.
Gabriel Perissé explica que muitas atitudes observadas
no sistema educacional brasileiro, que geram tantos
problemas, têm base nestes pecados. “Investir
mal o dinheiro destinado à educação
é um sinal de avareza. Não querer lutar
por uma educação melhor mostra a soberba”,
exemplifica. Autor de Os sete pecados capitais e as
virtudes da educação, doutor em Filosofia
da Educação pela Universidade de São
Paulo (USP) e mestre em Literatura Brasileira também
pela USP, Gabriel Perissé falou nesta entrevista
sobre como estes pecados capitais se manifestam na educação
brasileira, além de analisar de que forma a escola
pública é retratada nas telenovelas brasileiras.
A novela Sete
Pecados retrata uma escola pública da periferia
de São Paulo com diversos problemas. Como o sr.
avalia o retrato que a novela faz da educação
pública?
Gabriel Perissé - Nem sempre as telenovelas tratam
assuntos polêmicos com a devida profundidade.
Nem é este o objetivo das emissoras. Nem a expectativa
- imagino - dos telespectadores. A escola pública
de muros e portões pichados, a falta de disciplina,
o comportamento dos professores visto de modo estereotipado:
tudo isso tem a ver com a realidade da nossa educação
pública, mas não é este o retrato
fiel da situação que vivemos. Penso que
se trata, na verdade, de uma caricatura. Os problemas
da escola pública estão relacionados a
outros problemas, de ordem familiar, social e política,
que escapam aos limites da telenovela.
A telenovela
é um meio eficiente de mostrar a realidade da
educação brasileira? Por que poucas tramas
dão espaço para este tema?
De fato. Talvez, o que o gênero da telenovela
possa fazer é despertar-nos, superficialmente,
para algumas discussões. A Rede Globo tem feito
isso, mal ou bem. Com relação ao tema
da educação, acredito que um bom documentário
poderia ser mais adequado.
Um dos pecados
capitais ressaltados na escola da novela das 19 horas
é a preguiça. Professores desestimulados
não buscam melhorias por acreditar que elas não
têm como acontecer. A preguiça, na educação,
assume outras formas além desta?
A preguiça não é só não
querer trabalhar, ou não se sentir animado e
estimulado. O pior da preguiça é não
perceber o ócio como uma saída “virtuosa”.
A escola é o espaço do ócio, do
tempo livre. A escola é o lugar ideal para o
exercício “descompromissado” de nossas
melhores possibilidades. A escola pode ser uma fonte
de preguiça quando se restringe a ser o lugar
de cobranças e da burocracia.
Outro pecado
em evidência na escola de Sete Pecados é
a ira. Isso é mostrado através da rebeldia
de alunos violentos e sem perspectiva de futuro. Esta
também é uma realidade encontrada na vida
real?
A violência encontra espaço quando se instala
o vazio existencial. Quando professores e alunos não
se sentem “habitados” por um ideal, a conseqüência
é a insatisfação consigo mesmos
e a sensação de impotência. A impotência
leva à ira e à raiva. Quando estamos imbuídos
de convicções, dominamos nossos impulsos
e dirigimos nossas energias para objetivos melhores.
A virtude que nos salva da ira é a indignação.
É um sinal de dignidade nos sentirmos indignados
perante situações humanamente indignas.
A gula é
um pecado que, no imaginário popular, está
ligada ao ato de “comer demais”. Como este
pecado é observado na educação?
Gula não é apenas comer demais. Também
comer mal ou comer muito pouco é uma disfunção.
A educação é um banquete. O aluno,
etimologicamente falando, é aquele que se alimenta
(verbo latino alere). O aluno se alimenta daquilo que
o professor digere. O problema da gula, na escola, a
meu ver, está na desnutrição intelectual
e profissional do nosso professor. É ela que
provoca a fome entre os alunos.
Da mesma forma
que a gula, a luxúria também possui uma
interpretação no imaginário popular:
de que quem a comete é aquele que valoriza demais
o prazer sexual. De que maneira a luxúria se
manifesta na educação?
A luxúria, mais essencialmente, é a busca
do prazer egoísta, em que o “outro”
se torna mero objeto. Quando os interesses inconfessáveis
se contrapõem aos interesses de uma educação
generosa, de qualidade, a serviço das crianças
e dos jovens, a serviço de todos, da sociedade,
configura-se uma situação de luxúria.
Muitas escolas
públicas atravessam dificuldades e seus dirigentes
alegam que os governos não dão o dinheiro
necessário para investir em melhorias. Esta é
uma demonstração do pecado da avareza?
O avarento é aquele que não sabe gastar
o dinheiro que possui. Gasta mal ou gasta fora de hora
ou gasta naquilo que não deveria gastar. O dinheiro
é uma oportunidade para exercitarmos a virtude
da economia, que não quer dizer acúmulo.
Uma pessoa econômica conhece as regras (nómos)
da casa (oîkos), e por isso sabe administrar bem
os recursos. Sem gastar demais. Ao contrário
do avarento, ele sabe aplicar o dinheiro naquilo que
é necessário.
Como a inveja
e a soberba se manifestam na educação?
De que maneira elas devem ser combatidas?
A inveja é não ver o bem dos outros, nem
os seus próprios bens. O invejoso, no Purgatório
da Divina comédia, de Dante, está com
os olhos costurados, pois não soube ver em vida.
A inveja nos incapacita para perceber os nossos próprios
talentos. A virtude da admiração nos ajuda
a mirar melhor, a ver o quanto poderíamos reunir
nossas capacidades para encontrar soluções.
Já a soberba, considerada a “cabeça”
de todos os pecados capitais, nos impede de trabalhar
realisticamente. Humildade tem a ver com húmus,
chão, solo. O humilde tem os pés no chão,
não se sente pior ou melhor do que ninguém.
Há um tipo de tímido que esconde dentro
de si uma soberba terrível. Não querer
lutar por uma educação melhor sob o pretexto
de que se é tímido é um tipo sutil
de soberba. Ou achar que ninguém mais se preocupa
com isso, somente ele mesmo, é outra forma de
não enxergar bem a realidade.
Em seu livro,
o sr. também fala das virtudes. Na tradição
católica, as virtudes combatem os pecados capitais.
Como estas virtudes podem auxiliar na melhoria do sistema
educacional brasileiro?
As virtudes da humildade, da admiração,
da prudência, da generosidade, da fortaleza, da
indignação e tantas outras não
existem desencarnadas. Não são abstrações.
São valores assumidos por pessoas concretas.
O valor da generosidade necessita de pessoas que se
exercitem na generosidade. A melhoria da educação
brasileira passa pela luta individual e coletiva por
dialogar com esses valores e torná-los carne
de nossa carne. |