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A adoção
de uma política séria e em série
de avaliação do ensino no Brasil, há
cerca de 10 anos, é um procedimento que tem trazido
bons frutos ao setor educacional, segundo o presidente
da Academia Brasileira de Educação e da
Fundação Cesgranrio, professor Carlos
Alberto Serpa de Oliveira. Para ele, essa foi uma medida
acertada para a recuperação, ainda que
lenta, da qualidade do ensino brasileiro. “Não
que a avaliação sozinha resolva o problema,
mas ela é o único instrumento capaz de
permitir um planejamento da política educacional
de um país, com metas e objetivos claros e um
tempo suficiente para alcançar os resultados
pretendidos. Ela pode ser feita em universidades, faculdades,
colégios, instituições que realizam
projetos sociais e de saúde. Para acompanhar
não apenas o resultado administrativo-financeiro
da aplicação de recursos, mas para verificar
se os objetivos fixados foram alcançados”.
O professor Serpa destaca a atuação do
ministro da Educação, Fernando Haddad,
quando fixou o Índice de Desenvolvimento da Educação
Básica (Ideb), um indicador de qualidade educacional
que combina informações de desempenho
em exames padronizados, como Prova Brasil ou Sistema
Nacional de Avaliação da Educação
Básica (Saeb), obtido pelos estudantes ao final
das etapas de ensino - 4ª e 8ª séries
do ensino fundamental e 3ª série do ensino
médio, com informações sobre rendimento
escolar. “Com isso, o ministro Fernando Haddad
pretende que o Brasil chegue a 2021, quando o país
comemora 200 anos de Independência, com um nível
de aprendizado igual a seis. Esse nível significa
um resultado importante de países que fizeram
um investimento correto em educação. Acho
uma meta perfeitamente possível, no entanto,
é fundamental um acompanhamento dos resultados
para que o trabalho tenha continuidade”, disse
ele. A seu ver, a avaliação deve ser acompanhada
de ano a ano ou, no máximo, de dois em dois anos.
“Este procedimento permite uma correção
de rumo, e a adoção de políticas
públicas mais acertadas. Já, no caso do
ensino superior, é necessário partir para
o passo seguinte da avaliação que é
a certificação.
Ela é uma avaliação
com intervenção. Verifica-se o estado
em que se encontra a instituição naquele
momento e é estabelecida uma meta a ser alcançada
de três a cinco anos. Isso depende de cada instituição
e de suas peculiaridades. E essa meta a ser alcançada
deve ser fixada por uma agência certificadora,
externa ao MEC, que é o responsável pela
condução da política pública”.
O professor Carlos Alberto Serpa explica que o Ministério
da Educação pretende avaliar com o Exame
Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) o desenvolvimento
do ensino superior do país. “O Enade ainda
não é uma certificação,
pois não é obrigatório para todos
os alunos. Trata-se de uma amostragem. Porém,
é difícil comparar o conhecido valor agregado,
que indica o desempenho dos que entram no ensino superior
com os que saem. O MEC pode, como detentor do poder
público, fazer isso, mas poderia aceitar, como
ocorre nos países desenvolvidos, uma certificação
através de avaliação externa. Esse
processo de avaliação é mais amplo
e não se resume apenas a uma prova”.
Fechamento
de cursos ainda é ponto polêmico
De acordo com ele, uma avaliação exige
atenção em pesquisa, na qualidade do corpo
docente, na eficácia da administração
e em uma série de outros fatores que fazem com
que a avaliação da faculdade não
se resuma ao ensino que é ministrado na instituição.
“E essa avaliação pode ser realizada
também no ensino básico e médio.
A mesma idéia adaptada às necessidades
das instituições”. O professor Serpa
explica que a agência certificadora não
teria poder de fechar universidades no caso de verificar
equívocos graves e impossíveis de serem
resolvidos - apenas apresentaria os problemas verificados.
Quem faria juízo de valor seria o MEC e, portanto,
o órgão teria poder para fechar a instituição.
“Porém, acredito que o fechamento de uma
universidade só tem sentido quando são
fixadas metas com acompanhamento e nada for feito para
mudar. Desta forma, estará configurado um desinteresse
da instituição pela qualidade.
Vejo a
avaliação como algo positivo, e não
punitivo. E desta forma teremos um resultado importante.
Dificilmente se chega a um caso de fechamento”.
Ele lembra da época em que pertencia ao Conselho
Nacional de Educação e foi fixado um prazo
de cinco anos para o fechamento. “Considerei um
prazo pequeno para uma universidade se reestruturar.
Acho que dez anos seria um prazo adequado. Para centros
universitários, faculdades e sistemas de ensino,
cinco anos é um período suficiente. Avaliar
se uma instituição é boa ou não
é muito diferente de verificar apenas se seus
cursos possuem qualidade. É muito mais amplo.
Existe uma tentação simplista de fazer
uma média do que existe de bom e ruim”.
O professor Serpa explica que nos Estados Unidos e na
Europa já existe a certificação.
“E o Brasil, atualmente, se situa como um dos
países que possuem um dos mais modernos sistemas
de avaliação do mundo. O que nos falta
é uma capacidade gerencial para fazer funcionar
uma correta política pública.
Não
existe pessoal para cumprir essa função.
E para fazer uma revolução é necessário
ter recursos. Nesse ponto o MEC está melhorando.
No entanto, ainda é pouco para o que é
necessário”. Inclusive, de acordo com ele,
não temos gestores educacionais. “Reitores
e diretores, em sua maioria, não possuem muita
criatividade. São professores que foram alçados
a essas funções. Digo isso também
em relação aos gestores que administram
os sistemas de ensino, nas secretarias de educação
por exemplo. São capazes de planejar, mas não
de acompanhar a execução. E, para contribuir
com o aprimoramento dos profissionais, a Fundação
Cesgranrio criou um mestrado em avaliação”.
O professor Carlos Alberto Serpa afirma que quanto mais
professores conhecerem o básico da avaliação
será melhor para efetuar o efeito multiplicador
do ensino. “Um mestrado voltado para profissionais
de alto nível e um caminho para se chegar ao
doutorado.
Com isso, vamos formar professores em todo
o Brasil. Pessoas com capacidade de avaliação.
Esses profissionais serão capazes de avaliar,
verificar os dados, planejar e executar. O nosso problema
é quanto aos avaliadores. Faltam gestores. Não
errarei se afirmar que não existem 20 pessoas
no Brasil capazes de entender com perfeição
o que é avaliação e como fazer.
Temos mais gestores, porém ainda precisamos passar
por um processo de capacitação de pessoas
que já estão no sistema para melhorar
o nível da gestão. O aperfeiçoamento
pode ser feito no próprio trabalho”, disse
o professor Serpa.
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