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| Um instrumento
pedagógico de longo alcance nacional |
Alvos
de críticas, os livros didáticos são,
segundo especialistas, o maior e mais democrático
instrumento pedagógico do país - que podem,
e devem, ser auxiliados por outros recursos. Mas, nem
mesmo eles estão a salvo de erros, seja quando
da sua feitura pelos autores, seja no momento da escolha
por comissões do MEC.
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Andréa
Antunes |
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A polêmica em
torno do livro “Geografia, Sociedade e Cotidiano”,
que mostra a cidade do Rio dividida entre áreas
de atuação de traficantes e foi aprovado
pelo Ministério da Educação (MEC)
para crianças do ensino fundamental, levantou
a discussão sobre o uso deste material em sala
de aula e sua funcionalidade em um mundo cada vez mais
tecnológico. Combalidos pelos anos, e pela tecnologia,
estariam os livros didáticos com as páginas
amareladas e envelhecidas? Será que é
hora de guardá-los na estante e incluí-los
no acervo de objetos históricos usados no processo
de socialização das gerações
passadas? Com uma trajetória de 69 anos em nosso
sistema educacional, o livro didático tem fôlego
para muitos mais anos de ensino e aprendizado.
É o que afirmam professores e especialistas no
assunto que, problemas e inovações à
parte, apontam o livro didático como o principal
e mais importante instrumento de educação
do país. Diretor-geral do Arquivo Público
do Estado do Rio de Janeiro e coordenador geral do Programa
Nacional do Livro Didático de Ensino Médio
(PNLEM) de História em 2005, Paulo Knauss lembra
que o livro didático é o único
instrumento educacional que chega a todas as regiões
do país. “É também o único
que passa por uma avaliação de qualidade.
As comissões do MEC avaliam o material. No caso
da internet, televisão e outros recursos, não
há controle sobre o que é veiculado.
Hoje, o livro didático é o melhor e mais
democrático instrumento de aprendizagem do Brasil”,
afirma o especialista. Segundo ele, os livros didáticos
evoluíram bastante e passam por uma seleção
rigorosa antes de serem adotados por professores. “O
MEC acumulou uma década de experiência
na avaliação de livros didáticos.
No início, encontrávamos alguns erros,
mas hoje é muito difícil. O que pode ocorrer
são posições polêmicas e
que podem parecer inapropriadas para alguns setores”,
explica Knauss, que defende a pluralidade de pensamento.
“O objetivo do MEC ao fazer o Guia do Livro Didático
não é controlar o pensamento ou opções
teóricas e metodológicas. No guia não
há, por exemplo, apenas livros marxista. Há
obras com diversas vertentes sobre o assunto.
Cabe à escola ou ao professor escolher o livro
com o qual irá trabalhar. O objetivo não
é padronizar o conhecimento de nenhuma disciplina
e sim garantir a diversificação de orientação
política e favorecer a pluralidade do pensamento
no Brasil”. Para Knauss, que é professor
do departamento de História da Universidade Federal
Fluminense (UFF), discussões como a realizada
sobre o livro “Geografia, Sociedade e Cotidiano”
devem ser incentivadas. “A sociedade deve se mobilizar
para evitar soluções monolíticas.
Não podemos restringir o conhecimento. Caberá
aos professores a melhor forma de trabalhar com as questões
polêmicas”. Diretora de divisão de
Mídia e Educação da Secretaria
Municipal de Educação (SME), Simone Monteiro
de Araujo explica que alguns cuidados são importantes
na hora de escolher o livro didático. “É
preciso estar atento à qualidade da obra, à
linguagem trabalhada e à abordagem. É
preciso conferir se ela é compatível com
a adotada pelo sistema de ensino, se está dentro
da linha pedagógica da escola”. Apesar
dos cuidados na elaboração e seleção
das obras, Simone conta que não é incomum
professores encontrarem erros nos livros. “Às
vezes percebemos erros de digitação, de
diagramação ou erros conceituais. Quando
isso acontece a tendência é que a escola
trabalhe apenas com o que está correto - e sinalize
para o MEC o erro. No caso de erro grave o livro não
é mais adotado”.
Para Simone Monteiro, o livro ainda é fundamental
no processo de ensino e aprendizagem, embora não
deva ser o único instrumento utilizado por professores.
“Formar o aluno é dar a ele condições
para ler o mundo em sua diversidade. Acredito que o
livro didático é um dos materiais possíveis
para realizar este trabalho. Mas é preciso apresentar
outros tipos de textos que estão presentes no
dia-a-dia. O livro didático é um importante
material, mas não dá conta de tudo. Por
isso é uma referência para os professores
e alunos”. Autor de vários livros de História,
o professor do Liceu Franco Brasileiro, Rubim Aquino,
também vê no livro didático uma
ferramenta importante do processo de ensino. Mas lembra
que é preciso usar outros recursos. “É
importante complementar a informação contida
nestes livros.
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O professor deve orientar
para leituras complementares em casa e para o estudo
em grupo”. Defensor dos livros, Rubim Aquino critica
apenas a transformação das obras didáticas
em mercadorias. “Hoje, há uma censura velada.
Dificilmente um livro que critica o governo Lula será
adotado em uma escola pública, por exemplo”,
diz Aquino, destacando ainda que, no caso de História,
muitos livros recomendados pelo MEC apresentam problemas.
“Vemos obras com muitas imagens e pouco texto.
As ilustrações são colocadas sem
as devidas explicações. Não abordam
os aspectos políticos relevantes sobre os fatos.
Isso acontece porque hoje o livro é uma mercadoria.
E ficamos à mercê dos lobbies de editoras.”
Um dos diretores
do Curso Miguel Couto, o professor Victor Notrica também
é um defensor dos livros como instrumento de
avaliação. “Nenhuma ferramenta substitui
o livro.
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Os livros didáticos
evoluíram bastante no mundo inteiro. Hoje, são
bem diagramados e facilitam a leitura”, diz o
professor, destacando ainda que os livros estão
adaptados ao mundo moderno. “Fala-se muito em
interdisciplinaridade. Em alguns livros didáticos
ela já está presente”. Com uma experiência
de mais de 40 anos no ensino médio, o professor
Helcio Gomes, do Curso Miguel Couto diz que os professores
são ouvidos na hora de escolher o livro a ser
adotado. “Geralmente há uma reunião
do coordenador com os professores. Juntos, eles decidem
qual a melhor obra”, explica Helcio Gomes que
critica a qualidade dos livros didáticos. “O
problema é que não temos um programa central.
Então, o autor fica meio perdido na hora de escrever
o livro. Por conta disso, é comum vermos livros
que abordam temas que não estão presentes
no programa do Rio. Por exemplo, aqui não abordamos
história antiga e medieval. Trabalhamos mais
com a história contemporânea. Mas muitos
livros tratam do tema. Com isso, os professores começam
pela metade do livro e os pais, sem saber o motivo,
reclamam”, diz Helcio.
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Entenda como é feita a escolha das obras
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| A análise
dos livros didáticos que fazem parte do Guia
do MEC é realizada por uma comissão de
especialistas, todos professores universitários,
que julgam os conteúdos dos livros para incluí-los
ou não no Guia do Livro Didático. Os especialistas
julgam os livros sem conhecer a editora e o autor, olhando
única e exclusivamente para o seu conteúdo.
Cada obra é avaliada por, no mínimo, três
especialistas. Entre os critérios avaliados estão
os conhecimentos específicos de cada disciplina,
uso de imagens, diagramação e aspectos
como construção da cidadania. Além
disso, são considerados tamanho e peso da obra.
Aquelas que conseguem a recomendação dos
especialistas entram no guia, que é distribuído
às escolas do país inteiro para que diretores
e professores escolham os livros a serem adotados, para
que o governo os compre.
O Guia do Livro Didático
traz a relação dos títulos aprovados
no processo de licitação e os comentários
sobre cada obra. Para garantir uma boa escolha é
preciso que diretores, coordenadores e professores selecionem
em conjunto o livro a ser adotado.
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| A polêmica
geografia do Rio de Janeiro |
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No livro “Geografia,
Sociedade e Cotidiano”, aprovado pelo Ministério
da Educação para crianças da sexta
série das escolas públicas do Rio, os
autores apresentam um mapa do município do Rio
de Janeiro dividido em áreas onde atuariam as
quadrilhas que comandam o tráfico de drogas.
Os pontos são distribuídos pela ilustração
de acordo com as regiões da cidade. Há
ainda uma foto que mostra uma operação
da Polícia Civil numa favela. O prefeito do Rio
de Janeiro, César Maia, criticou o livro num
texto divulgado pela internet. Ele questionou se o Ministério
da Educação analisou o material. Segundo
ele, o conteúdo é um atentado ao ensino
de Geografia para crianças de 12 anos. Segundo
Márcio Vitielo, um dos autores, nada foi inventado
e todo o conteúdo foi pesquisado. “Esses
dados foram publicados pela imprensa.
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O mapa não
é uma criação nossa. Nós
colocamos uma informação que faz parte
da realidade do país”, disse na ocasião
da polêmica. De acordo com o Ministério
da Educação, todo livro didático,
antes de ser aprovado e entrar para a lista oficial,
é analisado por uma equipe de especialistas.
Segundo os critérios estabelecidos pelo próprio
Ministério, são retirados dessa lista
os livros que tenham informações erradas,
preconceito ou discriminação de qualquer
natureza.
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O Livro Didático na Educação
Brasileira.
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| Principais
marcos
1938 -
Instituição, pelo Ministério da
Educação, da Comissão Nacional
do Livro Didático, que estabelece condições
para a produção, importação
e utilização do livro didático
1966 -
Criação da Comissão do Livro Técnico
e do Livro Didático (Colted), com o objetivo
de coordenar as ações referentes à
produção, edição e distribuição
do livro didático
1971 -
O Instituto Nacional do Livro (INL) passa a desenvolver
o Programa do Livro Didático para o Ensino Fundamental
(Plidef), ao assumir as atribuições administrativas
e de gerenciamento dos recursos financeiros, até
então sob a responsabilidade da Colted
1976 -
A Fundação Nacional do Material Escolar
(Fename) torna-se responsável pela execução
dos programas do livro didático
1983 -
Criação da Fundação de Assistência
ao Estudante (FAE), que passa a incorporar o Plidef
1985 -
Instituição do Programa Nacional do Livro
Didático (PNLD), em substituição
ao Programa do Livro Didático para o Ensino Fundamental
(Plidef)
1993 -
Instituição, pelo Ministério da
Educação, de comissão de especialistas
encarregada de avaliar a qualidade dos livros mais solicitados
pelos professores e de estabelecer critérios
gerais de avaliação
1994 -
Publicação do documento Definição
de critérios para avaliação dos
livros didáticos
1996 -
Início do processo de avaliação
pedagógica dos livros didáticos (PNLD/1997)
1997 -
Extinção da Fundação de
Assistência ao Estudante (FAE) e transferência
da execução do Programa Nacional do Livro
Didático (PNLD) para o Fundo Nacional de Desenvolvimento
da Educação (FNDE)
1999 -
Nomeação da Comissão Técnica
por meio de Portaria Ministerial
2001 -
1ª Avaliação dos dicionários
distribuídos aos alunos do Ensino Fundamental
2002 -
O MEC realiza a avaliação dos livros didáticos
em parceria com as universidades
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