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Eduardo Bueno
“Se não
for a história uma aventura, então o que
será?”. Esta pergunta foi feita por Eduardo
Bueno. Jornalista, escritor, editor e tradutor, se apaixonou
pela história quando ainda era criança.
Hoje, além de apresentar um quadro sobre a história
do Brasil no dominical Fantástico, da TV Globo,
Eduardo Bueno colhe os louros do sucesso pela coleção
de livros “Terra Brasilis”, publicada pela
Editora Objetiva. Na busca de lançar um novo
olhar sobre a trajetória brasileira, ele também
defende que a história seja libertada dos bancos
escolares. “É preciso vivenciar a história
como um processo orgânico e dinâmico do
qual se faz parte, ter a consciência de que somos
agentes históricos e de que estamos construindo
um país”, acredita. A seguir, veja suas
opiniões sobre o passado e o presente do país,
sobre o ensino da história e o trabalho dos professores.
Que avaliação
o sr. faz do ensino da História nas escolas brasileiras?
O que precisa ser mudado?
Eduardo Bueno – Eu acho que esta
é uma questão muito complexa e que é
difícil generalizar. Primeiro, porque não
estou tão inteirado como gostaria. No entanto,
tenho absoluta certeza de que o ensino da História
evoluiu e melhorou, por exemplo, em relação
ao meu tempo. Enfim, estudei em um período de
regime militar. Nasci em 1958 e, portanto, entrei no
colégio em 1964, que foi o ano do golpe militar.
Saí da escola em 1975, antes da abertura. Os
11 anos da minha vida escolar se deram sob a égide
do regime militar e em um colégio jesuíta.
Portanto, suponho que meu pesadelo foi maior que o das
crianças e adolescentes de hoje. É difícil
generalizar, não só pela questão
de cada escola individualmente, mas cada professor.
Dou muitas palestras e encontro várias pessoas
que tiveram a sorte e a benção de encontrar
professores de História maravilhosos, que fizeram
com que eles se apaixonassem pela disciplina. Eu me
apaixonei por História sem ter um único
professor que me interessasse, com exceção
no final do período escolar, quando já
estava interessado pela matéria, e tive um professor
chamado Arno Kern. Cito este professor porque ele é
o principal arqueólogo do Rio Grande do Sul,
professor da PUC-RS, um nome muito conhecido na área
e que foi um estupendo professor. Já tinha, porém,
17 anos e já estava apaixonado pela história.
Isto aconteceu por um sonho pessoal, porque se dependesse
das aulas do primário, secundário e segundo
grau, nunca mais passaria perto de um livro de história.
Ter crescido
durante o regime militar e encontrado nas aulas de História
apenas a versão oficial dos fatos foram motivadores
deste interesse?
Venho de uma família letrada, tinha muitos livros
de História em casa e me apaixonei pelo Egito
antigo muito cedo, por volta dos oito anos de idade.
Através da História do Egito cheguei na
história de outros períodos e países.
O Brasil foi um dos últimos, inclusive, porque
tinha todo aquele refugo, em função do
próprio regime militar. Acho que ninguém
tem condições de fazer uma avaliação
genérica e global do estudo de História
no Brasil, mas quero dizer que piorar não piorou,
porque antes era um tormento. Se tivesse piorado, as
crianças estariam mortas. Como elas estão
vivas, significa que talvez seja ruim, mas que não
é tão ruim como foi no meu tempo.
O que o sr.
quer dizer com “é preciso libertar a história
do banco escolar”? De que forma isso pode ser
alcançado?
Meu sonho era tirar a história de dentro da sala
de aula para que ela retornasse para lá depois.
O lugar para estudar é a sala de aula. É
preciso vivenciar a história como um processo
orgânico e dinâmico do qual se faz parte,
ter a consciência de que somos agentes históricos
e de que estamos construindo um país. Não
é porque é um horror o que está
aí que não estamos construindo o país.
Estamos construindo um monstro. O Brasil é um
país em crise ética, moral, política.
Economicamente a crise é menor, mas por uma circunstância
que não é brasileira, e sim global. O
mundo vive um ‘boom’ econômico absurdo,
cujo custo ambiental será pago por nossos filhos.
O Brasil não vive crise econômica por circunstâncias
que não são suas, mas passa por crise
moral, ética e ecológica. Se não
tivermos consciência de que somos os agentes,
não teremos vínculo com a história.
Ela acontece todos os dias, todas as horas e devemos
estar plenamente conscientes disso. Meu projeto é
mostrar que a história é feita por gente
de carne e osso como nós e que temos, sim, a
chance de sermos agentes históricos, mudar a
nossa história pessoal, social e global, para
que a história volte para a sala de aula com
uma outra dimensão. Para que não seja
aquela chatice de nomes e datas.
Como abordar
a ética dentro do ensino da história?
É complexo, pois a construção da
história da humanidade é, em boa parte,
sórdida. Ou você dirá que a história
do império romano é uma maravilha? O Egito
antigo – é claro que sou um fã -
é o único período realmente luminoso
na história da humanidade, e quem o estudou sabe.
É o único lugar em que houve total igualdade
entre homem e mulher. Havia a possibilidade de, sendo
mulher, tornar-se faraó. Haptshesup é
uma das principais rainhas do Egito. Afora o Egito,
a história da humanidade eticamente é,
no mínimo, dúbia. Alguns exemplos são
as histórias da Inglaterra, França, Estados
Unidos. Porém, mesmo sendo eticamente dúbia,
alguns construíram um país. Pode-se ter
mil críticas aos Estados Unidos, como eu mesmo
as tenho, especialmente à sua política
externa. Porém, internamente, se você é
um cidadão norte-americano, este é um
país que o ajudará a crescer. Aqui, temos
que crescer apesar do Brasil. Temos uma carga tributária
absurda, salário vil e muitas coisas horríveis.
Isto é
reflexo da colonização? No entanto, após
185 anos de independência os problemas podem ainda
ser considerados frutos deste processo?
Não há a menor dúvida de que temos
uma certa herança ibérica de democracia,
corrupção, ligada inclusive ao judiciário,
e de um gigantismo estatal. Entretanto, como diz o maior
historiador português vivo, Joaquim Romero Magalhães,
estamos independentes desde 1822. Portugal já
mudou muito, faz parte da União Européia
e há dez anos passou por um momento incrível,
com um governo decente e com o crescimento do país.
Joaquim Magalhães afirma: “vocês
brasileiros tiveram 185 anos e só aprimoraram
os defeitos ao invés de saná-los”.
Pode-se até dizer que a herança americana,
por exemplo, tenha sido muito melhor que a nossa. Embora
a Inglaterra tenha o trono manchado de sangue e não
precisamos ler Shakespeare para saber quanto seus reis
mataram entre si, construiu-se um país com uma
sociedade civil que funciona. E a nossa sociedade civil?
É um horror, amorfa, abobada.
A disciplina
é ainda abordada de forma muito tediosa e tradicional
pelos professores? A forma como as aulas acontecem não
pode fazer com que os alunos se sintam assistindo a
um filme no qual não estão inseridos?
É isso mesmo. O professor fica passando um filme,
do qual você não faz parte. É óbvio
que, cronologicamente, nenhum de nós fez parte.
Nenhum de nós estava presente na nau do Cabral.
No entanto, o professor deve conseguir transportar o
aluno para a nau do Cabral. Nos livros de história
ninguém faz cocô, xixi, come, transa ou
rouba. Sabemos que os humanos - todos - fazem cocô
e xixi, todos comem, alguns transam e muitos roubam.
Nos livros, ninguém faz isso.
Há
uma mitificação dos personagens da história
brasileira?
É muito difícil generalizar, ainda mais
agora em que temos muitos professores de esquerda, o
que também é uma chatice. Estudei com
a direita e agora temos a esquerda. Não sei o
que é pior. De qualquer forma, a história
é uma fabricação. Ela se faz através
de mitos. Qual é a história verdadeira?
Não existe a história verdadeira e, se
existisse, o portador certamente não seria eu.
Como enfrentar
o desafio do ensino neutro da história?
Acredito muito na história das mentalidades,
na micro-história, na história da vida
privada, mas, acima de tudo, isto depende de uma posição
ética do professor. Eu não quero que o
professor seja neutro. Se ele é de esquerda ou
direita, tudo bem. A questão é não
querer doutrinar o aluno. Por ter freqüentado especialmente
a esquerda, mas também ter dirigido o olhar para
a direita - estou livre destas duas categorias. Não
sou nem de esquerda e nem de direita. E, se você
acha que estou em cima do muro, está enganada.
Eu quero pulverizar o muro. Quero que o muro não
exista e não ficarei em cima dele. Eu tenho atitude,
dou a cara para bater e também dou a mão
para dar porrada, se for o caso. Não é
questão de ser neutro, mas de não querer
doutrinar o aluno por um olhar de esquerda, ainda mais
com essa crise absurda que a esquerda no mundo e no
Brasil passa. Em tese, o tal PT era de esquerda, assim
como o Lula. Acho que ele é um presidente desastroso.
Embora, em um sentido histórico, a eleição
dele tenha sido muito importante, até mesmo para
desmascarar. Foram 500 anos de oligarquias, de “direita”
no poder. A esquerda chegou, então, ao poder
pelo voto e com uma proposta de mudança. No meu
modo de ver, sabia que ia dar nisso. Convivia com sindicatos,
com o PT e sabia que era isso aí mesmo que todos
estão vendo. Historicamente, ainda bem que o
PT ganhou e, não só no sentido de ser
“desmascarado”. Com 500 anos de direita
construiu-se este horror. Estava na hora de eles pagarem
também tendo o outro lado do poder. Agora, melhorou
o país? Não. Podia-se discordar do PT,
mas todos achavam que era um núcleo de decência
ética. O que eles nos mostraram foi o oposto.
Eles absolveram o Renan Calheiros. A popularidade do
Lula vem de gente que desconhece a própria história,
que desconhece a história como está acontecendo,
que ganha Bolsa Família, o que, por um lado,
revela que os outros eram ainda piores. De certa forma,
mesmo os que defendem o governo anterior, de Fernando
Henrique Cardoso, precisam admitir que o que não
é Lula também nunca fez nada que prestasse.
Este país é tão patético
que o melhor presidente foi Vargas. Tenho vontade de
chorar e não é porque sou gaúcho.
Este problema
é herdado dos cursos de formação
de professores?
Ser professor, hoje, no Brasil, é ser quase um
herói. É preciso ter vocação
quase no sentido sacerdotal. Eu admiro quem é
professor, mesmo que venha a criticar. Se chegar em
uma aula e ver aqueles professores barbudos do PT dando
aula para minha filha, sentirei vontade de dar porrada
e, provavelmente, o farei.
Os livros
didáticos contribuem para o desinteresse dos
estudantes? O que fazer? Assistimos, recentemente, a
uma polêmica envolvendo livros de história
adotados na rede pública, mais especificamente
o livro “Nova História Crítica -
8ª série”. Como resolver esta questão?
Quem está por trás desta questão
da “Nova História Crítica - 8ª
série” sou eu. Fui gravar o episódio
“É muita história” para o
Fantástico, da Rede Globo, em Lagoa Santa, na
Escola Peter Lund. Lund era um dinamarquês que
descobriu os primeiros fósseis humanos no Brasil,
em 1834, morou na cidade até sua morte, em 1888,
e decretou em testamento que a casa onde morava fosse
doada e transformada em escola, que existe até
hoje. Fui gravar o programa na escola com o Pedro Bial.
Peguei o livro, comecei a folhear e não acreditei
no que vi. Chamava Hugo Chávez de herói,
Mao Tsé-tung de grande estadista e dizia que
os Estados Unidos tiveram o que mereceram nos ataques
de 11 de setembro. Eu não acreditei. Pedi para
o diretor da escola que me desse o livro, entreguei
para o Bial, que, por sua vez, deu o livro para o Ali
Kamel. Não discuto o que o Ali Kamel escreveu
ou não, mas o livro me indignou de uma forma
brutal e, a partir de minha indignação,
isso tudo aconteceu. Ainda bem... Não sei quem
é o autor e não quero saber. Meus livros
nunca foram adotados pelo governo e apóio isso,
pois se adotar os meus livros, será adotado o
pacote Eduardo Bueno. Vamos combinar que é um
pacote difícil de encarar. Sou uma pessoa polêmica,
um cara falastrão, falo mais do que devia. Nunca
’enchi o saco’ de ninguém ou fiz
lobby para que meus livros fossem adotados. Porém,
entre os meus livros e este livro aí, os meus
são um milhão de vezes melhores.
De que forma
as novas tecnologias e, principalmente, a internet,
podem contribuir para o estudo da história? Quanto
à televisão, é possível
aprender a história através dela?
A internet e a televisão certamente ajudam, embora
meu quadro no Fantástico não sirva exatamente
para isso. Estou em um quadro lutando contra o Pânico
(programa da RedeTV!). A verdade é essa e preciso
ter audiência. Para tanto, não posso fazer
uma coisa “didática”, no sentido
mais pleno. Adoraria ser mais didático e, até
menos debochado, embora isso seja de minha natureza.
Gostaria de ter um quadro mais complexo, mas não
há como. São 12 minutos em uma luta pela
audiência. Não estou ali para ensinar,
mas para envolver. Se o professor não envolver
os alunos com estas novas tecnologias, nas quais eles
passam todo o tempo, e vierem apenas com livros, não
vai dar. Adoro livros. No entanto, os alunos querem
internet, hiperatividade. Teremos que usar estas tecnologias.
Um cineminha de vez em quando também cai bem.
Como os professores
podem envolver os alunos nas aulas de História?
É difícil, mas acredito muito no poder
do “foi aqui”. Estamos gravando este quadro
do Fantástico no lugar em que as coisas aconteceram.
O professor pode levar os alunos, no caso de São
Paulo, ao museu do Ipiranga, à beira do riacho
do Ipiranga e dizer “foi aqui”. Primeiro,
eles verão que o rio está podre. São
Paulo só existe em função de seus
rios: Tamanduateí, Pinheiros, Anhangabaú
e Tietê, nesta ordem. O que fizemos com estes
rios? Só esta reflexão já poderá
levar o aluno a pensar, se não for um imbecil.
E se for, mergulhe-o no riacho do Ipiranga, para que
ele veja qual é o país que estamos construindo. |