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Um exemplo de paixão pela sala de aula
Ao descobrir sua vocação de educador quase que por acaso, o coronel aposentado Humberto Petrone experimentou a grande paixão de sua vida. “O magistério é a melhor profissão que existe”, afirma ele que, do alto de seus 72 anos de idade, nem pensa em deixar as salas de aula

Alessandra Moura Bizoni
 

Avenida Marechal Floriano, Centro do Rio, década de 1950. O professor Euclides Moura do Valle dá aulas de Matemática no Colégio Pedro II, num dia ensolarado. No canto da sala, um garoto acompanha, com muita empolgação, a resolução de problemas e equações. O menino é Humberto Petrone que, ao lado do interesse por cálculos e fórmulas, alimenta um sonho: ser piloto de avião. Dedicado aos estudos, Humberto passa em sexto lugar no concurso de admissão para a Escola de Cadetes da Aeronáutica (EPCAr). Porém, as exigências de saúde mudam os planos do rapaz. Ele ingressa na Escola Preparatória de Cadetes do Exército e, posteriormente, faz o curso de formação de oficiais na Academia Militar das Agulhas Negras. No Exército, Humberto passa, então, a ser conhecido como Petrone. Uma das funções que desempenha, logo assim que se forma, é a de instrutor no curso para oficiais, o que o leva a conhecer e se apaixonar pela didática. Logo em seguida, vai lecionar na antiga Escola de Aeronáutica, no Campo dos Afonsos, onde se encanta com o desafio de ensinar. Petrone descobre, então, sua real vocação: a do magistério. Para concretizar o novo sonho, o jovem oficial precisa fazer um curso de complementação pedagógica, que o habilita a lecionar Física e Matemática. Em seguida, faz concurso para ingressar no Quadro do Magistério do Exército. A avaliação é rigorosa: prova de teoria de Matemática, prova prática de Matemática (resolução de problemas), prova de títulos e ainda uma prova de aula, aplicada por uma banca do corpo docente da instituição. “O concurso para o Colégio Militar foi pesado. Passei por uma série de avaliações, estudei muito. Esse foi o concurso que me deu a maior alegria na vida. Tenho muito orgulho de ter passado”, explica. Orgulhoso, relembra sua atuação durante 18 anos e meio como docente no Colégio Militar, onde chega até o posto de diretor de ensino. Em função de sua trajetória no Exército, na qual ascende até o posto de coronel, o educador estuda continuamente. Sua formação inclui cursos de atualização pedagógica, curso de pós-graduação stricto sensu em Ciências Militares e curso de Computação, oferecido pelo Instituto Militar de Engenharia (IME). Sua carreira docente de Matemática no ambiente militar se conjuga com a do ambiente civil. Ao longo de 40 anos, Petrone leciona em vários colégios, cursos preparatórios e em universidades. “Dei aulas em universidade. Lecionei num curso de Ciências da Computação, durante 27 anos, numa mesma instituição privada, onde cheguei até o posto de chefe de departamento”, revela.

“Faria tudo outra vez”

 

O professor de Matemática, que já formou várias gerações de estudantes, é reconhecido por ex-alunos quando anda pelas ruas. Querido pelos alunos, ele já tem até uma comunidade que leva seu nome no site de relacionamentos orkut. “Muitos dos meus alunos seguiram a carreira do magistério. Em 40 anos de profissão, encontro com eles em vários lugares. São eles que me reconhecem. Também costumo ser convidado para encontros de ex-alunos”, diz. Questionado sobre o porquê da escolha pela profissão, mesmo depois de ter um futuro garantido no Exército, Petrone diz acreditar no milagre do ensino. “Para ser um bom professor é preciso gostar da profissão. É preciso acreditar no milagre do ensino”, explica. A receita do experiente mestre é a dedicação. “Você pode não ser extremamente competente, mas precisa ser bastante dedicado. Não se preocupar em ficar depois da hora atendendo algum aluno ou em ir aos sábados apenas para tirar dúvidas, mesmo sem ganhar nada, pensando somente no bom desempenho de seus alunos”, assinala. Aos 72 anos de idade, Petrone nem pensa em deixar as salas de aula. Com um sorriso no rosto, reitera que o magistério é a melhor profissão que existe. “Quando você está sempre em contato com adolescentes, não envelhece. Você se sente uma pessoa útil. Você tem a oportunidade de ajudar alguém e se propõe a continuar. Essa é a melhor profissão para quem gosta. A pessoa precisa gostar do que faz. Pretendo trabalhar até quando a minha saúde permitir. Se pudesse, faria tudo outra vez”, afirma. Esperançoso, Petrone acredita que existe uma geração de novos professores dedicados, com quem convive e para os quais, às vezes, presta algum tipo de orientação. “Vejo nos jovens professores uma índole boa, eles querem trabalhar. São pessoas excelentes que estão querendo melhorar e ajudar os outros. Eles vão continuar essa obra, com certeza”, conclui.

Desvalorização social


Coronel da reserva do Exército e aposentado pelo INSS há 20 anos, o professor continua trabalhando, apesar de receber seus benefícios. Atua como professor de Matemática do Colégio e Curso Roquette, onde leciona para as 1ª, 2ª e 3ª séries do ensino médio. “Às vezes, substituo professores. Por isso, precisamos estar sempre preparados para dar aula de qualquer tópico”, acrescenta o docente. Com 40 anos de magistério, Petrone reconhece que, ao longo dos anos, a carreira do magistério foi sendo desvalorizada. “Na década de 1960, os professores do Pedro II, por exemplo, viviam bem. E davam aula apenas lá. Hoje em dia, muitos professores não têm nem um carro”, avalia o coronel da reserva do Exército. “Quando a pessoa vive exclusivamente do magistério é difícil. O professor precisa correr de um lugar para outro para dar aula porque o salário é pequeno. Às vezes, come apenas um sanduíche na hora do almoço. Conheço professores que são grandes profissionais e estão ganhando pouco”, pondera. É nessa desvalorização da sociedade que Petrone busca explicações para o baixo interesse dos jovens pela carreira de docente de Matemática. “Hoje em dia, os próprios pais desestimulam os filhos a serem professores, porque essa é uma carreira onde se ganha pouco. As escolinhas de futebol na Barra estão repletas. As pessoas orientam os filhos para profissões que dão dinheiro”, observa. A aversão pela Matemática, comum entre estudantes, não assusta o educador. Para ele, o ensino da disciplina é simples, mas requer determinadas habilidades de quem ministra os conteúdos. “Muitos alunos não gostam de Matemática por culpa de alguns professores que tornam a coisa complicada, quando ela é simples. Matemática é apenas raciocínio lógico”, completa. O segredo para ensinar a disciplina, segundo o docente, é estar sempre à disposição para esclarecer seus alunos. “Devemos deixar o aluno à vontade para perguntar. Qualquer pergunta que ele fizer vale. O professor não pode inibir o aluno”, finaliza.