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Avenida Marechal Floriano,
Centro do Rio, década de 1950. O professor Euclides
Moura do Valle dá aulas de Matemática
no Colégio Pedro II, num dia ensolarado. No canto
da sala, um garoto acompanha, com muita empolgação,
a resolução de problemas e equações.
O menino é Humberto Petrone que, ao lado do interesse
por cálculos e fórmulas, alimenta um sonho:
ser piloto de avião. Dedicado aos estudos, Humberto
passa em sexto lugar no concurso de admissão
para a Escola de Cadetes da Aeronáutica (EPCAr).
Porém, as exigências de saúde mudam
os planos do rapaz. Ele ingressa na Escola Preparatória
de Cadetes do Exército e, posteriormente, faz
o curso de formação de oficiais na Academia
Militar das Agulhas Negras. No Exército, Humberto
passa, então, a ser conhecido como Petrone. Uma
das funções que desempenha, logo assim
que se forma, é a de instrutor no curso para
oficiais, o que o leva a conhecer e se apaixonar pela
didática. Logo em seguida, vai lecionar na antiga
Escola de Aeronáutica, no Campo dos Afonsos,
onde se encanta com o desafio de ensinar. Petrone descobre,
então, sua real vocação: a do magistério.
Para concretizar o novo sonho, o jovem oficial precisa
fazer um curso de complementação pedagógica,
que o habilita a lecionar Física e Matemática.
Em seguida, faz concurso para ingressar no Quadro do
Magistério do Exército. A avaliação
é rigorosa: prova de teoria de Matemática,
prova prática de Matemática (resolução
de problemas), prova de títulos e ainda uma prova
de aula, aplicada por uma banca do corpo docente da
instituição. “O concurso para o
Colégio Militar foi pesado. Passei por uma série
de avaliações, estudei muito. Esse foi
o concurso que me deu a maior alegria na vida. Tenho
muito orgulho de ter passado”, explica. Orgulhoso,
relembra sua atuação durante 18 anos e
meio como docente no Colégio Militar, onde chega
até o posto de diretor de ensino. Em função
de sua trajetória no Exército, na qual
ascende até o posto de coronel, o educador estuda
continuamente. Sua formação inclui cursos
de atualização pedagógica, curso
de pós-graduação stricto sensu
em Ciências Militares e curso de Computação,
oferecido pelo Instituto Militar de Engenharia (IME).
Sua carreira docente de Matemática no ambiente
militar se conjuga com a do ambiente civil. Ao longo
de 40 anos, Petrone leciona em vários colégios,
cursos preparatórios e em universidades. “Dei
aulas em universidade. Lecionei num curso de Ciências
da Computação, durante 27 anos, numa mesma
instituição privada, onde cheguei até
o posto de chefe de departamento”, revela.
“Faria tudo outra
vez”
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O
professor de Matemática, que já formou
várias gerações de estudantes,
é reconhecido por ex-alunos quando anda pelas
ruas. Querido pelos alunos, ele já tem até
uma comunidade que leva seu nome no site de relacionamentos
orkut. “Muitos dos meus alunos seguiram a carreira
do magistério. Em 40 anos de profissão,
encontro com eles em vários lugares. São
eles que me reconhecem. Também costumo ser convidado
para encontros de ex-alunos”, diz. Questionado
sobre o porquê da escolha pela profissão,
mesmo depois de ter um futuro garantido no Exército,
Petrone diz acreditar no milagre do ensino. “Para
ser um bom professor é preciso gostar da profissão.
É preciso acreditar no milagre do ensino”,
explica. A receita do experiente mestre é a dedicação.
“Você pode não ser extremamente competente,
mas precisa ser bastante dedicado. Não se preocupar
em ficar depois da hora atendendo algum aluno ou em
ir aos sábados apenas para tirar dúvidas,
mesmo sem ganhar nada, pensando somente no bom desempenho
de seus alunos”, assinala. Aos 72 anos de idade,
Petrone nem pensa em deixar as salas de aula. Com um
sorriso no rosto, reitera que o magistério é
a melhor profissão que existe. “Quando
você está sempre em contato com adolescentes,
não envelhece. Você se sente uma pessoa
útil. Você tem a oportunidade de ajudar
alguém e se propõe a continuar. Essa é
a melhor profissão para quem gosta. A pessoa
precisa gostar do que faz. Pretendo trabalhar até
quando a minha saúde permitir. Se pudesse, faria
tudo outra vez”, afirma. Esperançoso, Petrone
acredita que existe uma geração de novos
professores dedicados, com quem convive e para os quais,
às vezes, presta algum tipo de orientação.
“Vejo nos jovens professores uma índole
boa, eles querem trabalhar. São pessoas excelentes
que estão querendo melhorar e ajudar os outros.
Eles vão continuar essa obra, com certeza”,
conclui.
Desvalorização social
Coronel da reserva do Exército e aposentado pelo
INSS há 20 anos, o professor continua trabalhando,
apesar de receber seus benefícios. Atua como
professor de Matemática do Colégio e Curso
Roquette, onde leciona para as 1ª, 2ª e 3ª
séries do ensino médio. “Às
vezes, substituo professores. Por isso, precisamos estar
sempre preparados para dar aula de qualquer tópico”,
acrescenta o docente. Com 40 anos de magistério,
Petrone reconhece que, ao longo dos anos, a carreira
do magistério foi sendo desvalorizada. “Na
década de 1960, os professores do Pedro II, por
exemplo, viviam bem. E davam aula apenas lá.
Hoje em dia, muitos professores não têm
nem um carro”, avalia o coronel da reserva do
Exército. “Quando a pessoa vive exclusivamente
do magistério é difícil. O professor
precisa correr de um lugar para outro para dar aula
porque o salário é pequeno. Às
vezes, come apenas um sanduíche na hora do almoço.
Conheço professores que são grandes profissionais
e estão ganhando pouco”, pondera. É
nessa desvalorização da sociedade que
Petrone busca explicações para o baixo
interesse dos jovens pela carreira de docente de Matemática.
“Hoje em dia, os próprios pais desestimulam
os filhos a serem professores, porque essa é
uma carreira onde se ganha pouco. As escolinhas de futebol
na Barra estão repletas. As pessoas orientam
os filhos para profissões que dão dinheiro”,
observa. A aversão pela Matemática, comum
entre estudantes, não assusta o educador. Para
ele, o ensino da disciplina é simples, mas requer
determinadas habilidades de quem ministra os conteúdos.
“Muitos alunos não gostam de Matemática
por culpa de alguns professores que tornam a coisa complicada,
quando ela é simples. Matemática é
apenas raciocínio lógico”, completa.
O segredo para ensinar a disciplina, segundo o docente,
é estar sempre à disposição
para esclarecer seus alunos. “Devemos deixar o
aluno à vontade para perguntar. Qualquer pergunta
que ele fizer vale. O professor não pode inibir
o aluno”, finaliza.
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