Reportagens
 
 
 
 
 
 
 
 
   
   
     
     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Une, sempre presente nos grandes momentos do país. E agora?
Para especialistas, tarefa de estimular a participação de jovens na vida política do país cabe, sobretudo, aos professores. Para ex-presidentes da UNE, entidade ainda conserva suas diretrizes de décadas atrás. Mas deve ter cuidado com o excessivo alinhamento político com os governos que, segundo alguns, ameaça sua representatividade.

Natália Strucchi

Espírito revolucionário, desbravador e uma grande capacidade de sonhar e buscar a concretização de seus desejos. Essas sempre foram características freqüentemente atribuídas aos jovens mas que, nos últimos tempos, começaram a ser questionadas. A União Nacional dos Estudantes (UNE) – que teve fundamental papel em momentos marcantes da história do país – completou recentemente 70 anos de existência. Com a data, ressurgem dúvidas sobre o papel da entidade nos dias atuais, seu alinhamento com o governo e sobre a participação política dos jovens. Seria a união de hoje apenas uma caricatura do que já foi no passado?

 

Para a pesquisadora e coordenadora do projeto Memória do Movimento Estudantil, Angélica Muller, a questão é simples: os estudantes são outros porque os tempos também são outros. “As pessoas têm mania de dizer que o movimento estudantil não é mais o mesmo. Que bom mesmo era o movimento da década de 1960, do ano de 1968... Temos que distinguir bem porque são momentos históricos totalmente diferentes. Na década de 1960 tínhamos em torno de 300 mil estudantes universitários e mais de 80% eram de escolas públicas, sendo que boa parte deles eram oriundos da classe média e não precisavam trabalhar. Hoje são quase cinco milhões de estudantes e essa pirâmide se inverteu. Mais de 80% desses alunos estão em escolas privadas e a grande maioria tem que trabalhar para estudar”, argumenta. Ela ressalta que a comemoração dos 70 anos da UNE pode ser um bom gancho para incentivar a participação política dos jovens. “O país está tão desacreditado na política que os jovens não querem participar. Tem que partir um incentivo principalmente dos professores. E as entidades podem estar ajudando, criando oportunidades para que se discuta a política, vendo como cada indivíduo pode exercer o seu papel. Pode ser através de debates, de filmes”, cita.

 

O jornalista e escritor Arthur Poerner, autor do livro O poder jovem: história da participação política dos estudantes brasileiros, também não acredita que a UNE tenha esquecido suas características originais. “Não acho que a UNE tenha perdido, ao longo dos anos, a sua rota ou as suas bases. O que acontece é que as formas de atuação dos movimentos políticos e sociais dependem das condições objetivas de cada época. O Brasil, que sofria, na segunda metade dos anos 60, um processo de endurecimento ditatorial, vive, atualmente, uma fase de avanços democráticos. Os tempos, portanto, são outros. E muito diferentes”, resume. Ele ainda defende a união das críticas sobre seu alinhamento com o governo federal. “Esse alinhamento se restringe às posições também defendidas pela UNE, o que exclui, de cara, a política econômica. Além do mais, nos seus 70 anos de existência, a UNE manteve bom relacionamento com vários governos, como o de Getúlio Vargas (logo após a sua fundação), o de João Goulart e, mais recentemente, o de Itamar Franco. Ela jamais adotou a postura daquele espanhol da anedota: ´Si hay gobierno, soy contra´. Felizmente, porque seria uma atitude pouco política”, afirma, lembrando que o governo Lula é o primeiro a se preocupar com a institucionalização da presença da juventude na administração federal.

Ex-presidentes acreditam que entidade ainda tem força
No entanto, a maioria dos ex-presidentes concorda que a década de 1960 foi, sem dúvida, o período mais marcante da atuação da UNE na política nacional, com o enfrentamento direto em relação à ditadura militar que se instalara no país

Apesar dos tempos não serem mais os mesmos e dos estudantes serem outros, ex-presidentes da UNE acreditam que o movimento estudantil ainda consegue lutar com a mesma veemência da época de sua criação.

 

“Antes de surgir o movimento do impeachment do Collor, diziam exatamente o que dizem hoje: a UNE não tem mais a mesma força do passado, a UNE acabou. Logo depois, aconteceu o Fora Collor. A história é assim mesmo, são movimentos cíclicos. Tem horas que acontecem grandes movimentos, onde você unifica todos em uma só bandeira. Acho que, no futuro, vão existir vários movimentos como este e a UNE vai com tudo para rua”, argumenta o prefeito de Nova Iguaçu e presidente da UNE entre 1992 e 1993, Lindberg Farias, citando exemplos recentes de manifestações. “Esse ato da invasão das universidades, da USP, foi um movimento que cumpriu um papel importante. Os estudantes foram perdendo seus direitos ao longo dos anos. Agora, com a invasão da USP e com essas outras manifestações, começaram a reconquistar isso. O governo federal, através do Ministério da Educação (MEC), começa a aceitar a tese de implantar os restaurantes universitários de graça e os alojamentos”, cita. Para ele, as críticas de que a UNE estaria muito ligada ao governo são facilmente explicadas. “Isso é natural, não é a direção da UNE, os estudantes não se comovem com causas da direita, eles não são bobos. Não há alinhamento. A UNE sempre foi de esquerda. Por que um jovem que é do DEM, do PFL, do partido do Maluf, não se mete em política estudantil? Na verdade, é porque ele não tem muita capacidade de sonhar com um mundo diferente. Quem tem força hoje no movimento estudantil são os estudantes que não têm partido ou os do PCdoB, PT, PSOL e PSTU. Esses dois últimos fazendo críticas ao governo, mas um crítica pela esquerda”, afirma Lindberg.

 

Já o presidente da Associação Brasileira de Educação (ABE) e presidente da UNE entre 1953 e 1954, João Pessoa de Albuquerque, preocupa-se com a ligação da entidade com o governo. “Uma instituição como a UNE tem que ser absolutamente imparcial, não pode e não deve se atrelar a nenhum governo. Atrapalha até a representatividade. Os estudantes querem ser representados por uma instituição imparcial e não por uma instituição governista. E o que me dá impressão realmente é que a UNE hoje está muito próxima do governo, defensora de algumas posições. E diria um pouco chapa branca. Quero fazer uma ressalva, porque acabou de ser eleita uma nova presidente e não sei qual vai ser a nova orientação”, salienta. Ele faz questão de ressaltar a importância da participação política da juventude brasileira. “O jovem apático não acrescenta, não soma. O jovem ativo, participativo, este sim, pinta como um líder futuro. Faz parte da natureza da juventude não ser apática. A grande preocupação deveria ser a prioridade para educação, porque o resto é conseqüência. No momento em que a UNE desfraldar a bandeira de priorizar a educação, prestará um grande serviço ao país. Esta é uma bandeira absolutamente unânime”, finaliza. Apesar das críticas e dos elogios feitos à UNE, a maioria dos educadores concorda que a década de 60 foi, sem dúvida, o período mais marcante da atuação da UNE na política nacional. Foi neste contexto que se instalou a ditadura militar no país.

 

Governador de São Paulo e presidente da entidade entre 1963 e 1964, José Serra escreveu um artigo no qual conta detalhes sobre a experiência vivida. “No Congresso da UNE em que fui eleito, em Santo André, grupos paramilitares metralharam o estádio que abrigava os trabalhos e soltaram bombas de gás lacrimogêneo no plenário. No Mackenzie, em São Paulo, atiraram ácido no ministro da Educação, Paulo de Tarso. O prédio da UNE sofria metralhamentos periódicos nos primeiros meses de 1964", relatou Serra, em um trecho do documento.


Nova dirigente assume bandeira do ensino superior público

 


Em julho deste ano, a UNE ganhou uma nova presidente, a gaúcha Lúcia Stumpf, de 25 anos. Após 15 anos de hegemonia masculina, ela é a quarta mulher a assumir o cargo na história da entidade. A eleição aconteceu no encerramento do 50º Congresso nacional da união. O evento, realizado em Brasília, contou com a presença de cerca de 8 mil estudantes, entre observadores e delegados (estudantes com direito de voto na eleição), representando 1.880 universidades de todo o país. Durante esses três primeiros meses de gestão, a nova dirigente já deixou claras as principais lutas de seu mandato: melhoria das universidades públicas no país, regulamentação do ensino privado e garantia de políticas que garantam a permanência dos estudos dos alunos de baixa renda. Confira abaixo as respostas de Lúcia às perguntas de três estudantes.

 

O que a UNE vem fazendo para garantir a qualidade dos cursos de nível superior? A instituição tem alguma proposta para combater a abertura indiscriminada de cursos?
Pedro Paulo Guedes, vestibulando

Para a UNE a defesa da qualidade do ensino superior brasileiro passa pela valorização da universidade pública. Passa pela ampliação do número de vagas ofertadas pelo sistema público superior. Essa é a nossa principal batalha e, para isso, organizamos recentemente a Jornada Nacional de Lutas, que mobilizou mais de 100 mil estudantes em todo o Brasil. Ocupamos diversas reitorias de universidades por todo país exigindo maior financiamento para a educação pública e maior qualidade da educação oferecida, além do investimento de, no mínimo, 7% do Produto Interno Bruto (PIB) na educação, conforme prevê o Plano Nacional de Educação. Queremos dar um basta na abertura indiscriminada de cursos pelo sistema privado de ensino. O sistema particular muitas vezes oferta cursos não pela necessidade do Brasil ou respondendo a uma demanda, mas oferta cursos sem qualidade e sem a estrutura, simplesmente para aumentar o lucro dos reitores e para garantir mais uma forma de ganho para os tubarões do ensino.

 

Acho que alguns critérios utilizados pelos sistemas de cotas são muito injustos. A UNE pretende tomar alguma medida para melhorar o sistema de cotas?
Gabriel Cavalcanti, vestibulando

A principal defesa a ser feita é a reserva de vagas para estudantes oriundos das escolas públicas. A UNE é a favor da lei que está tramitando no Congresso Nacional que prevê que 50% das vagas das universidades públicas sejam reservadas para estudantes oriundos das escolas públicas. O principal desnível que temos que resolver nas instituições públicas é o social. O que vemos acontecer é principalmente a exclusão do pobre. Com essa reserva, acreditamos que será possível ajudar muito. Dentro dessa reserva para escolas públicas, vão existir cotas para minorias étnicas. O sistema de cotas étnicas deve ser aplicado por cada universidade conforme os critérios que essas instituições definirem nos seus Conselhos Universitários. A UNE respeita acima de tudo a soberania de cada instituição na decisão de como isso será aplicado.

 

Por que a UNE ainda hoje está a favor da Reforma Universitária do governo Lula, se já está provado que este projeto está diretamente ligado à privatização do ensino público?
Diana Beck, integrante do DCE da Uerj


A UNE não é a favor do projeto de Reforma Universitária do governo Lula, como a estudante coloca. A UNE sempre foi, ao longo dos seus 70 anos, a favor da reforma universitária no Brasil. Ser contra essa reforma significa concordar com esse sistema que vemos hoje, de exclusão dos jovens do ensino superior. Um sistema de perpetuação da expansão do ensino pelas universidades privadas, e não pelas públicas. Se não reformarmos o ensino superior brasileiro, vamos acabar vendo esse atual sistema - que não é bom - ser perpetuado. A UNE sempre batalhou em defesa de uma reforma universitária aplicada de forma democrática e com diálogo com o conjunto de professores, servidores e estudantes das universidades brasileiras. O governo Lula teve uma grande iniciativa que foi de debater com um conjunto da comunidade acadêmica uma proposta de reforma universitária, que acabou depois de muitas versões sendo muito modificada e concluída no Projeto de Lei 7.200/06, que hoje está engavetada no Congresso Nacional. Não é esse PL7200 que queremos ver aprovado, mas queremos que o Congresso Nacional assuma a responsabilidade de debater um projeto de lei de reforma universitária porque, a partir daí, teremos condições de pressionar os deputados para alterar o que consideramos errado.