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hoje o Brasil conta, segundo o IBGE, com uma taxa de
analfabetismo de 10,4% entre pessoas com mais de 15
anos - o que ainda é um índice alto -
o ensino deficiente é, também, um problema
tão grave quanto a total falta de estudo. Um
dos reflexos disso é a quase ausência de
hábito de leitura entre os jovens em idade escolar
e universitária, dizem especialistas. Para eles,
se, por um lado, a prática não tem sido
incentivada pela família, por outro, a escola
não tem cumprido bem o seu papel, seja pela má-formação
dos professores, seja pela má remuneração
oferecida aos mesmos.
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O
presidente da Fundação Biblioteca Nacional,
Muniz Sodré, frisa que essa falta de hábito
de leitura é uma realidade do Brasil, especificamente.
“Os jovens brasileiros lêem uma média
de 1,8 livro por ano, o índice mais baixo da
América do Sul”. O professor chega a questionar
o critério de aferição desse dado,
considerando que leitura envolve também outras
mídias. “O livro está perdendo a
hegemonia como repositório do conhecimento. Quando
se lê no computador, ou se vê um filme ou
um videoclipe, também se está lendo. É
preciso rever esse conceito. No entanto, a falta de
leitura de livros é alarmante, de qualquer forma,”
diz ele, numa referência a uma geração
que, no lugar de livros, traz um mundo de informações
embarcadas na tecnologia de um celular que cabe na palma
da mão. Muniz crê que a formação
do hábito da leitura começa em casa, quando
os pais têm livros e estimulam os filhos, mas
que essa é uma realidade da classe média.
Portanto, o governo deve criar projetos para o incentivo
à leitura. “Para as comunidades mais pobres,
deveriam ser criadas bibliotecas portáteis. O
governo também tem trabalhado, tentando baixar
os preços dos livros e implantando bibliotecas.
É preocupante que elas ainda estejam ausentes
em 613 municípios brasileiros,” revela.
Família,
escola e mídia jogam contra os livros
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Para Leodegário
de Azevedo Filho, presidente da Academia Brasileira
de Filologia (Abrafil), pais e professores primários
não estimulam a leitura desde a infância,
mesmo a literatura infantil brasileira sendo bastante
desenvolvida. “O hábito de leitura deve
ser iniciado na infância. É preciso que
a família e os professores tenham consciência
de que a leitura é fundamental para a construção
da personalidade da criança. O Brasil tem uma
das melhores literaturas infantis do mundo. É
só uma questão de os docentes organizarem
grupos de leitura com bons autores, de acordo com a
idade, para haver motivação”, acredita.
O gramático e membro da Academia Brasileira de
Letras (ABL), Evanildo Bechara, concorda, embora chame
a atenção para outros fatores. Ele acredita
que, sem dúvida, o hábito de leitura construído
pela família influi no desempenho escolar e que,
antigamente, mesmo a família mais humilde tinha
livros em casa. “As crianças ganhavam livros
de aniversário, e eu acho que hoje em dia isso
pouco acontece”, opina. No entanto, ele afirma
que os meios de comunicação e a escola
também não têm colaborado. Os primeiros,
em especial a televisão e a internet, são
atrativos que não só não estimulam
como desviam da leitura. “Não há
mais, por exemplo, os suplementos literários
nos jornais,” diz. Já a escola, não
apresentaria mais as antologias dos grandes escritores,
limitando-se a trabalhar trechos de obras e de reportagens.
Para a jornalista, escritora e presidente do Conselho
Estadual de Cultura, Ana Arruda Callado, a falta de
leitura entre crianças e jovens se deve ao sistema
de ensino deficiente. “O problema todo é
do sistema de ensino. Forma-se um professorado que não
lê desde pequeno e que não incentiva o
aluno a ler. Afinal, se, por um lado, os livros são
caros, por outro, as bibliotecas estão às
moscas. Uma solução para isso seria uma
reciclagem dos professores,” sugere. Numa visão
ainda mais pessimista, o professor de Língua
Portuguesa da Unicarioca, Sérgio Nogueira, afirma
que o “brasileiro nunca teve o hábito de
ler. E isso é cultural. Hoje em dia, é
ainda mais difícil desenvolvê-lo, pois
existem apelos mais atraentes que o livro, como a TV
e a internet. Reverter esse processo seria conseqüência
de uma reforma no sistema de ensino, sem falar numa
mudança de mentalidade das famílias.”
Na vida profissional,
conhecimento fragmentado
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Entre as conseqüências
da leitura e da escrita deficientes nos meios profissionais,
talvez a mais marcante seja a fragmentação
do conhecimento. Para o professor Sérgio Nogueira,
isso acarreta uma dificuldade de compreensão
mais ampla do mundo, o que é prejudicial em qualquer
profissão. “A cultura adquirida pela leitura
é mais sólida e permanente,” afirma.
Ana Arruda Callado, entretanto, ironiza. “A falta
de leitura seria prejudicial profissionalmente se alguém
se importasse com isso, hoje em dia. Eu leio coisas
absurdas nos meios profissionais. As pessoas estão
relaxando, não se preocupam mais em escrever
corretamente. E a tal ‘linguagem da internet’
também dificulta.” Mas complicações
nos meios profissionais acabam sendo só a ponta
do iceberg. O professor Muniz Sodré é
categórico. “A consciência da cidadania
passa pela educação formal.” Para
ele, um analfabeto total ou alguém que não
domine bem as habilidades de leitura e de escrita acaba
se tornando um cidadão de segunda classe, marginalizado.
Caminhos para o incentivo da leitura e da escrita
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Para estimular a leitura
e a escrita entre crianças e jovens são
muitos os caminhos. Ana Arruda Callado frisa a importância
da produção textual em sala de aula e
da prova discursiva em todas as disciplinas, inclusive
com a correção do português pelo
professor. Além disso, acha imprescindível
a leitura dos grandes autores. “Alguém
pode dizer que Guimarães Rosa é entediante?
Ou Graciliano Ramos? Ou Machado de Assis, João
Ubaldo Ribeiro, Antonio Callado?”, questiona.
Já Muniz Sodré considera as novas tecnologias
na hora de se criar o hábito de ler. “É
preciso incorporar o computador, por exemplo, ao se
orientar a leitura. E incluir na bibliografia não
só os clássicos da literatura, mas também
textos novos e mais divertidos, que despertem a curiosidade
do jovem”, sugere. O presidente da Biblioteca
Nacional reforça, ainda, que a escola e a universidade
não devem ser voltadas apenas para o mercado,
mas sim vistas como lugares de formação
ampla. “É preciso haver a mentalidade de
que estudar não é uma atividade com idade
para acontecer, visando o mercado de trabalho. Deve
ser uma prática para a vida toda,” completa.
Valorização
do professor é um dos caminhos
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Evanildo Bechara e
Sérgio Nogueira enfatizaram, no entanto, que
a desvalorização do professor, hoje, é
um agravante para a falta de estímulo dos jovens
para ler e escrever. Bechara afirma que o papel do docente
não é só ensinar, e sim estimular
a aprendizagem, para que o aluno vá além
do que foi visto em sala de aula. Mas isso seria difícil,
uma vez que o professor não teria nem tempo para
se preparar. “A sociedade precisa dar tempo para
o professor ler, se reciclar, preparar as aulas, escolher
textos que despertem a curiosidade dos alunos. Esse
profissional tem sido uma vítima, pois não
tem tido tempo de se aperfeiçoar, devido à
grande carga de trabalho, e recebe um péssimo
salário, o que o desmotiva,” explica. Sérgio
Nogueira vai além, afirmando que incentivar os
jovens a ler e a escrever melhor não é
algo que possa ser resumido a uma dica. “O professor
não consegue estimular um aluno a ler o que ele
próprio não conhece ou não gosta.
Por outro lado, com uma remuneração tão
baixa, o profissional não tem estímulo
para melhorar sua formação,” declara.
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