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Regina Coeli B. Martins
Ao planejar e executar
uma atividade em sala de aula, o professor deve fazer
com que todos os alunos estejam incluídos neste
contexto. No entanto, como garantir que todos os estudantes
participem efetivamente das aulas? Para Regina Coeli
Martins a resposta é: através da educação
inclusiva. Professora de ensino fundamental na rede
pública paulista há 19 anos, Regina é
co-autora, juntamente com Windiz Brandão Ferreira,
do livro De docente para docente - Práticas de
ensino e diversidade para a educação básica.
Além de desmistificar a idéia de que a
educação inclusiva deve ser feita apenas
para alunos portadores de necessidades especiais, a
obra traz estratégias e reflexões sobre
o tema. “A educação inclusiva é
a inclusão de todos os alunos. Cabe ao professor
ser o facilitador desta inclusão, criando estratégias
inclusivas, através de um novo olhar sobre os
alunos e sabendo ouvi-los”, destaca. Veja a entrevista
com a autora, que é também presidente
da organização não-governamental
Educação Para Todos (EdTodos).
Sempre que se fala em educação inclusiva
pensa-se na inclusão dos estudantes com necessidades
especiais ou deficiências. No entanto, na obra
De docente para docente, a sra. afirma que a inclusão
deve acontecer para todos os alunos. O que isso significa?
Regina Coeli B. Martins - A inclusão
deve atingir não só os portadores de necessidades
especiais. Ela tem que atingir todos os alunos e fazer
com que todos participem e aprendam. A inclusão
não difere. Ela tem como foco o aluno e precisa
atingir a todos, com o objetivo de desenvolvimento de
aprendizagem para todos.
O que é
afinal a educação inclusiva? Qual é
o papel do professor neste cenário?
Ela prevê a inclusão de todos os alunos.
Cabe ao professor ser o facilitador desta inclusão,
criando estratégias inclusivas, através
de um novo olhar sobre os alunos e sabendo ouvi-los.
Quais são
essas estratégias inclusivas dentro das escolas?
É a prática do dia-a-dia do professor,
a forma como atinge o aluno e como cria mecanismos que
possibilitem com que todos participem e tenham oportunidades
iguais de atividades. Hoje, as estratégias que
estão sendo utilizadas não atingem a todos
os alunos - o mecanismo de inclusão não
chega a todos igualitariamente. Em uma turma com 40
alunos, que é nosso limite de sala de aula, quem
atingirá estes alunos é que deve pensar
em transformar as estratégias. Não é
só o professor que precisa mudar, mas sim a escola.
Esta é uma questão que também envolve
todo o corpo diretivo da escola e a coordenação.
É função de todo o grupo docente
e discente, pois o professor sozinho não conseguirá.
Ele precisa de apoio e colaboradores.
Ao mesmo tempo
em que a educação deve ser inclusiva para
todos, os professores não podem deixar de considerar
as características pessoais de cada estudante.
Como trabalhar com um público tão heterogêneo
e incluir a todos, respeitando, ao mesmo tempo, a vontade
dos alunos?
Estabelecendo um mapa da sala, que envolve uma análise
dos perfis de aprendizagem do grupo. Antes de se estabelecer
qualquer tipo de estratégia é preciso
planejar a organização deste grupo e,
para isso, é necessário ter o mapa da
sala. O mapa estabelece os perfis de cada aluno. Assim,
desenvolvem-se atividades para cada grupo de alunos,
com o mesmo conteúdo curricular, mas com perfis
de aprendizagem diferentes, dificuldades e competências
diferenciadas. Esta deve ser a primeira ação
do professor, a primeira estratégia inclusiva.
O que é
o mapa da sala e como deve ser construído?
O professor deve fazer agrupamentos na sala, sendo que
os alunos devem ter proximidade de aprendizagem. Todos
no mesmo grupo devem colaborar dentro dos perfis de
aprendizagem, sendo que o professor montará o
mapa em cima destes perfis. Assim, o foco de estratégias
diferenciadas começa a se desenvolver, com atividades
dadas de acordo com o perfil de cada grupo, mantendo
o foco do conteúdo curricular. Cada aluno deve
ter uma competência dentro do grupo, o que aumenta
sua participação, responsabilidade, aprendizagem
e autonomia de aprendizagem.
É possível
promover a inclusão em qualquer ambiente educacional?
O que é ser incluído?
Sim, desde a educação infantil até
o ensino superior. Independe do ciclo de aprendizagem;
ela está em todo contexto. Não há
como desenvolver competências sem a educação
inclusiva.
O que impede
que a educação inclusiva seja colocada
em prática nas escolas brasileiras?
Acredito que o problema está na formação
do gestor. Eles estão carentes da formação
de educação inclusiva, o que ativa uma
cadeia de acontecimentos. Do gestor passa para toda
a equipe. No entanto, o foco principal é a formação
do professor e dos recursos humanos das escolas de formação.
Falta quebrar esta barreira e fazer da educação
inclusiva uma formação constante. O professor
também precisa ser incluído.
Os professores
estão preparados, no entanto, para trabalhar
com a educação inclusiva?
Não, pois a forma como os professores saem hoje
da universidade, a forma como o sistema cria mecanismos
de exclusão, cria também uma barreira
para que, tanto o professor quanto a escola, não
aceitem esta educação. Para incluir 40
alunos é preciso superar várias barreiras
impostas pelas políticas públicas. É
preciso criar espaço físico, ter pessoal
de apoio na escola, mas muitas vezes, estas questões
não são trabalhadas.
O que se perdeu
na formação quando se passou a exigir
o ensino superior?
Perdeu-se uma reflexão para a prática
em sala de aula, a didática. O técnico
foi substituído pelo acadêmico. Quando
saía de um curso de magistério, o professor
tinha a prática e sabia quais processos de planejamento
e objetivos deveria desenvolver na sala. Hoje, os cursos
universitários formam apenas acadêmicos,
não oferecendo sustentabilidade para enfrentar
o sistema que está aí fora - principalmente
nas escolas públicas. Aí está a
grande falência no sistema de formação
do educador. Há uma distância muito grande
entre o curso de magistério e o superior. O professor
não sabe como agir e não tem fundamento
para a prática, que inclui como planejar uma
boa aula, os passos para isso, o que é fazer
o registro de uma sala de aula, uma rotina de sala de
aula e sua dinâmica. Hoje, o professor sai da
universidade e não sabe o que fazer. E nem por
onde começar.
Qual é
o modelo de sala de aula inclusiva ideal? Que fatores
devem ser levados em conta ao discutir a inclusão?
Um modelo ideal é aquele em que se consegue desenvolver
a sala e atingir a todos. Não há uma receita
pronta. Deve-se verificar se são criados dentro
da sala momentos diversificados de aprendizagem. O ideal
seria o agrupamento. Sem isso, não se trabalha
com a inclusão. Quando se agrupa, aproximam-se
as pessoas e respeitam-se as diferenças. O ideal
de uma sala de aula inclusiva é aproximar todos
para o processo de aprendizagem, o que é possível
ao se agrupar. Quando se agrupa, desenvolvem-se condutas
e a base para a estrutura de aprendizagem. Inconscientemente,
o professor exclui o aluno do sistema.
Qual é
a real parcela de culpa dos professores pela exclusão
dos alunos?
Ele não tem culpa. A culpa é do sistema
e de uma cultura que existe dentro da escola. O professor
acaba por reproduzir esta cultura da exclusão
inconscientemente. O que precisamos é mudar a
cultura da exclusão e o governo tem um papel
fundamental nisso. Ao mudar esta cultura, automaticamente
as coisas acontecerão. Não podemos ter
um modelo ou ficaremos na rotina, o que é perigoso.
O ideal é aquele em que o professor procura as
mais variadas formas e estratégias, reflete sobre
sua prática para atingir a todos. E a melhor
forma para que isto seja alcançado é o
agrupamento.
Seu livro
afirma ainda que o poder de decisão na sala de
aula deve ser compartilhado entre estudantes e docentes.
Os professores estão preparados para isto? Como
fazê-lo?
Delegar poderes é oferecer competências,
dar atribuições e responsabilidades dentro
da sala de aula. À medida que se dá para
a criança a responsabilidade de desenvolver a
atividade dentro de um grupo, mostra-se que ela tem
habilidade e poder para aquilo. Esta relação
de poder é importantíssima, pois valoriza
o aluno e faz com que ele participe e se desenvolva.
O professor pode distribuir os poderes dentro da sala.
Valoriza-se o estudante dando para ele o poder de autonomia
do fazer pedagógico. Isto significa delegar habilidades
e competências dentro do perfil estabelecido pelo
mapa da sala.
Ainda existe
o profissional que pensa estar em um pedestal por ser
professor ou todos estão conscientes da necessidade
da aproximação com os alunos, que também
são fontes de conhecimento?
É a cultura da formação em que
o professor é o dono do saber, o sábio
que deve transmitir o conhecimento. Temos que inverter
esta cultura, mostrando que este pedestal está
do lado contrário. É uma balança
em que estamos juntos. O professor deve se tornar um
pesquisador junto com o aluno, em busca do conhecimento.
Dessa forma, quebra-se este pedestal e ele passa a delegar
poderes para todos dentro da sala. É lógico
que são poderes direcionados, poderes de aprendizagem.
Não significa que o aluno fará o que quiser.
Ele terá o poder de participar e colaborar, o
que é diferente. Na cultura da maioria das escolas,
o aluno não carrega este conhecimento, mas na
cultura inclusiva isto é diferente, pois os dois
caminham juntos e trazem informação. Um
complementa o outro – professor e aluno.
Isto também
vale para a direção da escola e os funcionários?
A cultura inclusiva engloba toda a escola: a gestão
administrativa e a pedagógica. O poder é
delegado quando todos compartilham das mesmas habilidades
e competências, quando todos têm algo a
acrescentar.
De que forma
a família e a comunidade podem contribuir para
uma escola inclusiva?
É o mesmo papel quando se permite que a família
participe, com competências na escola, dando a
ela um poder compartilhado. Quando se aproxima a família
deste poder compartilhado é possível ver
um desenvolvimento da aprendizagem. A educação
inclusiva engloba a escola como um todo e, fora dos
muros escolares, a família que colabora, participa,
age, cria regras. É uma questão de conduta
da família. A educação inclusiva
é, sim, uma educação colaborativa,
pois a inclusão depende da colaboração
de todos os agentes.
Na obra, são
citados os conceitos inclusão e integração.
Quais são as diferenças entre eles?
A inclusão acontece quando todos participam.
Todos colaboram e têm competências. Na integração
é diferente. É possível estar integrado,
mas não desenvolver suas competências.
O aluno pode estar integrado no grupo e não participar.
Enquanto que, ao estar incluído, ele faz parte
daquele sistema. A integração nem sempre
o leva a fazer parte, ela não garante a participação.
Já a inclusão exige participação
e emoção. O aluno pode estar integrado,
mas não significa que está comprometido.
Como deve
ser pensada a grade curricular de uma escola inclusiva?
Ela deve ser planejada. Este planejamento deve envolver
toda a escola, o corpo docente e discente, além
de ser diário. Em cima de seus registros, o professor
pode planejar as práticas seguintes. Por exemplo,
se uma prática não atingiu os alunos ou
não aconteceu dentro do que se esperava, é
preciso replanejar esta ação, levando-a
para seus companheiros e refletindo sobre isso. A grade
curricular precisa ser planejada por ciclos de aprendizagem
e envolver todo o corpo docente. Ela deve ser interdisciplinar,
ter um foco que envolva todas as disciplinas.
Quais são
os recursos humanos disponíveis em sala para
promover a inclusão e de que forma devem ser
utilizados?
São os estudantes. O professor deve fazer deles
o recurso mais importante dentro da escola. Quando falamos
em recursos humanos, nos referimos às formas
para desenvolver aquele recurso, que é o aluno.
Como
deve ser o processo de avaliação em uma
sala de aula onde é trabalhado o conceito da
inclusão? De que forma os resultados desta avaliação
devem ser aplicados?
A avaliação é, na verdade, polêmica
em todas as propostas educacionais. Na educação
inclusiva ela deve ser contínua. Ela dá
ao professor uma mediação de por onde
seguir e planejar. Esta avaliação é
feita a partir de registros, de portfólio, que
é uma prática importantíssima para
o planejamento das aulas. No portfólio os professores
podem guardar, a cada semana, as atividades dos alunos
e acompanhar seu desenvolvimento durante o ano letivo.
Também pode haver um portfólio do professor
em que ele registra e acompanha a aprendizagem de seus
alunos e, pode ainda, ser um registro de avaliação
pessoal do professor. Depende da forma como se quer
colocá-lo enquanto recurso de avaliação.
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