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Rubem Alves
O que é preciso
para transformar a educação no país?
Segundo o educador, autor, filósofo, psicanalista
e teólogo, Rubem Alves, a transformação
da educação passa, em primeiro lugar,
por uma transformação dos professores.
Nesta entrevista, ele fala sobre a relação
professor-aluno nos dias de hoje, sobre a participação
dos pais na educação e sobre o atual papel
dos professores. “A renovação da
educação não se encontra em uma
nova Lei de Diretrizes e Bases. É preciso mudar
os sentimentos e as idéias na cabeça dos
professores”, afirma.
Atualmente,
há mais conflitos entre alunos e professores.
Ao que se deve este problema? Como podemos definir a
relação professor-aluno nos dias de hoje?
Rubem Alves - Antes, os alunos eram
intimidados e agora não são mais. Eu acredito
que há várias razões para esta
relação conflituosa. Especialmente em
relação às crianças e adolescentes
da periferia. O que acontece é que a escola é
muito chata. Há exceções, mas,
normalmente, as crianças se sentem engaioladas,
porque as coisas que têm que aprender, fazem de
conta que aprendem. E os professores fazem de conta
que ensinam. Elas fazem a prova, tiram a nota, aprendem,
mas não há grande coisa a ver com sua
vida. Quando as crianças e adolescentes estão
interessados em alguma coisa é como um namoro.
Quando você ama uma moça ou um rapaz, você
tem uma relação amorosa. Quando se tem
uma relação amorosa com a disciplina -
e eu não gosto desta palavra, porque ela é
militar - eles aprendem, pois tem a ver com o seu interesse,
com a sua vida. Porém, a maior parte das coisas
que se tenta ensinar nas escolas, as crianças
não têm a menor idéia da utilidade
daquilo. Elas se perguntam: “por qual motivo eu
preciso saber o que é o sujeito e o que é
o predicado?”. Eu não sei análise
sintática. Estudei muito isso, mas perdi meu
tempo. O mais importante para se aprender Português
é ler. Há tanta coisa tola em nossos currículos,
que são impostas sobre as crianças, que
é natural que se desenvolva nelas, às
vezes, não apenas uma relação conflituosa,
mas um desinteresse absoluto.
O aluno mudou
com o passar dos anos, mas a escola continua com o mesmo
modelo? Esse é o problema?
Continua. Aliás, o nosso modelo de escola é
o modelo da linha de montagem e assim, pressupõe-se
que todos os alunos são iguais, que todos estão
com vontade de aprender, que todos têm interesse
pelas mesmas coisas. O pressuposto é de que todas
as crianças são iguais, mas elas não
são. Elas têm interesses diferentes. Se
elas têm interesses diferentes, não é
razoável que se submeta todas a um mesmo molde.
Isso produz esta relação de desaprendizagem.
Passamos cerca de 12 anos na escola. Acho que se tivéssemos,
a exemplo do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio),
um exame em que fosse cobrada toda a matéria,
desde o 1º ano, acredito que não ficariam
5% aprovados. Mas os alunos não poderiam se preparar
para este exame - pois aprendido é aquilo que
fica depois que a memória fez o seu trabalho.
Quem é que se lembra das Guerras Púnicas,
da Guerra do Peloponeso? Foi tudo perdido. É
defeito da memória ou da Pedagogia? Não
é. Isso é resultado da inteligência
da memória, pois ela não carrega coisas
que não fazem sentido. Ela esquece. O esquecimento
não é doença, é virtude.
Se você esquece é porque aquilo não
faz sentido. As crianças não se interessam
pelos conteúdos passados pela escola...
Não, aliás, sabe qual é o nome
que eles dão a estes conteúdos? Grade
curricular. Grade e ninguém protesta. Grade é
coisa de cadeia. Caminhos curriculares seria melhor.
Então, qual seria o modelo ideal de aulas
e de agrupar estes conhecimentos?
A escola mais interessante que conheci não tem
aulas. É a Escola da Ponte, de Portugal. Lá
não há aulas, os alunos se organizam em
pequenos grupos, em torno de temas de interesse comum.
Por exemplo, todos devem estudar Biologia, mas não
é necessário que todos estudem a mesma
coisa. Se um aluno está interessado em caramujos,
vai estudá-los. O professor é uma espécie
de tutor, que dá para os alunos os mapas dos
recursos. Então, no transcorrer do tempo escolar,
as crianças e adolescentes estudam e pesquisam.
Não há professores dando aula. Este negócio
de dar aula era do tempo em que não havia livros,
internet e o professor passava a matéria. Isso
não existe mais, mas continuamos a viver como
se o professor fosse aquele que dá a matéria.
Hoje, o professor
não pode ter a postura que adotava anos atrás
de detentor único do conhecimento. O professor
já está consciente desta nova situação?
O que os alunos podem ensinar aos docentes?
Não. Uma coisa que os alunos poderiam aprender,
e que cairia muito bem, é perguntar algo para
o professor e ele dizer que não sabe e que vai
pesquisar. Assim, o aluno perceberia que o não
saber faz parte da vida, faz parte de quem está
aprendendo e de quem está ensinando. Um dos fatores
mais importantes na vida social é a inércia,
o costume. As pessoas ficam acostumadas. “Eu dou
aula deste jeito e sempre funcionou. Vou continuar a
dar aulas deste jeito”. Ao hábito também
pode-se dar o nome de preguiça. As pessoas não
têm interesse. Há muitos professores que
não deveriam ser. Eles passaram a ser professores
porque era o caminho mais fácil para entrar no
vestibular. Mas, definitivamente, há um grupo
muito grande de professores que têm raiva das
crianças e adolescentes. Como é que se
vai ensinar às crianças e adolescentes
se tem raiva deles? A renovação da educação
não se encontra em uma nova Lei de Diretrizes
e Bases. É preciso mudar os sentimentos e as
idéias na cabeça dos professores. Somente
com uma transformação nos professores
teremos uma transformação na educação.
A melhoria da educação brasileira
depende também de uma iniciativa dos professores?
Podemos fazer coisas para provocar. Eu gosto de fazer
coisas para provocar, sou um perturbador. Eu acredito
que podemos ajudar os professores a questionarem suas
posições, a se reposicionarem, para que
eles percebam que ensinar é muito divertido.
Eles não têm prazer de ensinar porque o
fazem de um modo muito chato. Uma coisa que se faz sempre
da mesma maneira tem que ser chata. E eles precisam
descobrir que pode ser divertido.
Muitos educadores
identificam a transferência de responsabilidades
da família para a escola e vice-versa. Como o
sr. vê esta questão? Os professores estão
preparados para este acréscimo de responsabilidades?
Como isto influencia a relação professor-aluno?
Isto é verdade. Eu concordo que muitos pais terceirizam
a educação. Acreditam que não é
responsabilidade deles, mas sim de uma instituição.
É a mesma coisa que pai e mãe não
se sentir responsável pela saúde do filho
e terceirizar para um hospital ou para um médico.
A maioria dos pais não têm o menor interesse
em educação. Tenho dito que considero
os pais, com honrosas e raríssimas exceções,
os piores inimigos da educação, pois,
para eles, a educação é preparar
para passar no vestibular. Não existe coisa mais
antieducação do que o preparo para o vestibular,
que deforma o jeito de pensar do adolescente. Os pais
chegam em casa e querem ver televisão. Um costume
bom seria o pai chegar para o filho e dizer: “conta
o que você aprendeu na escola, me ensina o que
você aprendeu”. Não seria para tomar
lição, mas sim para o pai se tornar aluno
de seu próprio filho.
Na contramão
do aumento das responsabilidades dos professores, os
próprios vêm perdendo seu prestígio
social. Como isso influiu no dia-a-dia das escolas e
no desinteresse dos docentes pelo trabalho?
Eu não sei, honestamente. Acredito que sejam
tantos os fatores que influenciam, que não sei.
Tudo tem relação com a questão
do amor - e não falo de dar beijinhos nas crianças.
Falo de gostar do que se está fazendo. Quando
se gosta do que se faz, você faz mesmo que não
tenha importância social. Muitos artistas fazem
isso. Eu acho que as pessoas não amam. A grande
maioria que ensina, não ama ensinar. Nos famosos
curriculum lattes para a avaliação dos
professores não existe nenhum item dedicado às
atividades docentes. A única coisa analisada
é a pesquisa. Na universidade, nossos professores
estão sendo eliminados como professores, como
educadores, para serem considerados como produtores
de artigos.
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