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Escola: um modelo a ser mudado. Quando?
Rubem Alves, um dos mais respeitados pensadores da educação brasileira, afirma que modelo atual das escolas está mesmo fadado ao fracasso. É preciso, segundo ele, repensar o ambiente de aprendizado e também o papel de seu principal agente - o professor. Um profissional que, antes de tudo, precisa aprender a amar seu ofício e seus alunos.

Ana Paula Novaes
 

Rubem Alves

O que é preciso para transformar a educação no país? Segundo o educador, autor, filósofo, psicanalista e teólogo, Rubem Alves, a transformação da educação passa, em primeiro lugar, por uma transformação dos professores. Nesta entrevista, ele fala sobre a relação professor-aluno nos dias de hoje, sobre a participação dos pais na educação e sobre o atual papel dos professores. “A renovação da educação não se encontra em uma nova Lei de Diretrizes e Bases. É preciso mudar os sentimentos e as idéias na cabeça dos professores”, afirma.

Atualmente, há mais conflitos entre alunos e professores. Ao que se deve este problema? Como podemos definir a relação professor-aluno nos dias de hoje?

Rubem Alves - Antes, os alunos eram intimidados e agora não são mais. Eu acredito que há várias razões para esta relação conflituosa. Especialmente em relação às crianças e adolescentes da periferia. O que acontece é que a escola é muito chata. Há exceções, mas, normalmente, as crianças se sentem engaioladas, porque as coisas que têm que aprender, fazem de conta que aprendem. E os professores fazem de conta que ensinam. Elas fazem a prova, tiram a nota, aprendem, mas não há grande coisa a ver com sua vida. Quando as crianças e adolescentes estão interessados em alguma coisa é como um namoro. Quando você ama uma moça ou um rapaz, você tem uma relação amorosa. Quando se tem uma relação amorosa com a disciplina - e eu não gosto desta palavra, porque ela é militar - eles aprendem, pois tem a ver com o seu interesse, com a sua vida. Porém, a maior parte das coisas que se tenta ensinar nas escolas, as crianças não têm a menor idéia da utilidade daquilo. Elas se perguntam: “por qual motivo eu preciso saber o que é o sujeito e o que é o predicado?”. Eu não sei análise sintática. Estudei muito isso, mas perdi meu tempo. O mais importante para se aprender Português é ler. Há tanta coisa tola em nossos currículos, que são impostas sobre as crianças, que é natural que se desenvolva nelas, às vezes, não apenas uma relação conflituosa, mas um desinteresse absoluto.

O aluno mudou com o passar dos anos, mas a escola continua com o mesmo modelo? Esse é o problema?

Continua. Aliás, o nosso modelo de escola é o modelo da linha de montagem e assim, pressupõe-se que todos os alunos são iguais, que todos estão com vontade de aprender, que todos têm interesse pelas mesmas coisas. O pressuposto é de que todas as crianças são iguais, mas elas não são. Elas têm interesses diferentes. Se elas têm interesses diferentes, não é razoável que se submeta todas a um mesmo molde. Isso produz esta relação de desaprendizagem. Passamos cerca de 12 anos na escola. Acho que se tivéssemos, a exemplo do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), um exame em que fosse cobrada toda a matéria, desde o 1º ano, acredito que não ficariam 5% aprovados. Mas os alunos não poderiam se preparar para este exame - pois aprendido é aquilo que fica depois que a memória fez o seu trabalho. Quem é que se lembra das Guerras Púnicas, da Guerra do Peloponeso? Foi tudo perdido. É defeito da memória ou da Pedagogia? Não é. Isso é resultado da inteligência da memória, pois ela não carrega coisas que não fazem sentido. Ela esquece. O esquecimento não é doença, é virtude. Se você esquece é porque aquilo não faz sentido. As crianças não se interessam pelos conteúdos passados pela escola...
Não, aliás, sabe qual é o nome que eles dão a estes conteúdos? Grade curricular. Grade e ninguém protesta. Grade é coisa de cadeia. Caminhos curriculares seria melhor.

Então, qual seria o modelo ideal de aulas e de agrupar estes conhecimentos?

A escola mais interessante que conheci não tem aulas. É a Escola da Ponte, de Portugal. Lá não há aulas, os alunos se organizam em pequenos grupos, em torno de temas de interesse comum. Por exemplo, todos devem estudar Biologia, mas não é necessário que todos estudem a mesma coisa. Se um aluno está interessado em caramujos, vai estudá-los. O professor é uma espécie de tutor, que dá para os alunos os mapas dos recursos. Então, no transcorrer do tempo escolar, as crianças e adolescentes estudam e pesquisam. Não há professores dando aula. Este negócio de dar aula era do tempo em que não havia livros, internet e o professor passava a matéria. Isso não existe mais, mas continuamos a viver como se o professor fosse aquele que dá a matéria.

Hoje, o professor não pode ter a postura que adotava anos atrás de detentor único do conhecimento. O professor já está consciente desta nova situação? O que os alunos podem ensinar aos docentes?

Não. Uma coisa que os alunos poderiam aprender, e que cairia muito bem, é perguntar algo para o professor e ele dizer que não sabe e que vai pesquisar. Assim, o aluno perceberia que o não saber faz parte da vida, faz parte de quem está aprendendo e de quem está ensinando. Um dos fatores mais importantes na vida social é a inércia, o costume. As pessoas ficam acostumadas. “Eu dou aula deste jeito e sempre funcionou. Vou continuar a dar aulas deste jeito”. Ao hábito também pode-se dar o nome de preguiça. As pessoas não têm interesse. Há muitos professores que não deveriam ser. Eles passaram a ser professores porque era o caminho mais fácil para entrar no vestibular. Mas, definitivamente, há um grupo muito grande de professores que têm raiva das crianças e adolescentes. Como é que se vai ensinar às crianças e adolescentes se tem raiva deles? A renovação da educação não se encontra em uma nova Lei de Diretrizes e Bases. É preciso mudar os sentimentos e as idéias na cabeça dos professores. Somente com uma transformação nos professores teremos uma transformação na educação.

A melhoria da educação brasileira depende também de uma iniciativa dos professores?

Podemos fazer coisas para provocar. Eu gosto de fazer coisas para provocar, sou um perturbador. Eu acredito que podemos ajudar os professores a questionarem suas posições, a se reposicionarem, para que eles percebam que ensinar é muito divertido. Eles não têm prazer de ensinar porque o fazem de um modo muito chato. Uma coisa que se faz sempre da mesma maneira tem que ser chata. E eles precisam descobrir que pode ser divertido.

Muitos educadores identificam a transferência de responsabilidades da família para a escola e vice-versa. Como o sr. vê esta questão? Os professores estão preparados para este acréscimo de responsabilidades? Como isto influencia a relação professor-aluno?

Isto é verdade. Eu concordo que muitos pais terceirizam a educação. Acreditam que não é responsabilidade deles, mas sim de uma instituição. É a mesma coisa que pai e mãe não se sentir responsável pela saúde do filho e terceirizar para um hospital ou para um médico. A maioria dos pais não têm o menor interesse em educação. Tenho dito que considero os pais, com honrosas e raríssimas exceções, os piores inimigos da educação, pois, para eles, a educação é preparar para passar no vestibular. Não existe coisa mais antieducação do que o preparo para o vestibular, que deforma o jeito de pensar do adolescente. Os pais chegam em casa e querem ver televisão. Um costume bom seria o pai chegar para o filho e dizer: “conta o que você aprendeu na escola, me ensina o que você aprendeu”. Não seria para tomar lição, mas sim para o pai se tornar aluno de seu próprio filho.

Na contramão do aumento das responsabilidades dos professores, os próprios vêm perdendo seu prestígio social. Como isso influiu no dia-a-dia das escolas e no desinteresse dos docentes pelo trabalho?

Eu não sei, honestamente. Acredito que sejam tantos os fatores que influenciam, que não sei. Tudo tem relação com a questão do amor - e não falo de dar beijinhos nas crianças. Falo de gostar do que se está fazendo. Quando se gosta do que se faz, você faz mesmo que não tenha importância social. Muitos artistas fazem isso. Eu acho que as pessoas não amam. A grande maioria que ensina, não ama ensinar. Nos famosos curriculum lattes para a avaliação dos professores não existe nenhum item dedicado às atividades docentes. A única coisa analisada é a pesquisa. Na universidade, nossos professores estão sendo eliminados como professores, como educadores, para serem considerados como produtores de artigos.