Entrevistas
 
 
  :. Nelson Maculan
  :. Sonia Mograbi
  :. Wendy Cunningham
  :. Ferreira Gullar
  :. André Pestana
  :. Dante Donatelli
  :. Gabriel Perissé
  :. Andrea Marinho
  :. Eduardo Bueno
  :. Regina Martins
  :. Rubem Alves
  :. Valdir Cimino
  :. Gabriel Chalita
  :. Juan Carlos Tedesco
  :. Priscila Cruz
  :. João C. Palma Filho
  :. Moysés Kuhlmann
  :. Maria Rosa Lombardi
 
   
   
     
     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma nova definição para o papel do educador
Num mundo ligado a diversos canais de comunicação e de informação é preciso que o professor repense sua função. E entenda que, de único detentor do conhecimento, ele agora deve ser um mediador e parceiro dos estudantes, num processo coletivo e mútuo de aprendizagem

Danilo Dainezi
 

Valdir Cimino

A saturação de informações dos meios de comunicação no mundo atual é uma nova realidade que faz com que o educador assuma uma outra função frente aos estudantes. Esta circunstância provocou alterações na relação professor-aluno. Professor titular do curso de Rádio e TV da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), coordenador e professor do curso de Relações Públicas e autor do livro O Papel do Educador na Era da Interdependência - Como Incrementar as Relações entre Educadores e Alunos por Meio de uma Comunicação Ética e Solidária, da Clio Editora, Valdir Cimino mostra como se preparar para essas novas necessidades. Ele fala ainda sobre a forma como o resgate de valores pode ajudar este relacionamento. Confira:

Em seu livro, os sr. discute o resgate de alguns valores essenciais na comunicação entre professores e alunos. Quais seriam esses valores?

Valdir Cimino - Para escrever o livro, realizei uma pesquisa com jovens universitários dos cursos de Comunicação, Relações Públicas, Publicidade e Propaganda, Rádio e TV e Psicologia. A pesquisa se baseava em duas perguntas fundamentais: o que o aluno entende por cidadania e qual o propósito de vida dele. Na primeira pergunta, os alunos relacionavam a cidadania aos direitos e deveres do cidadão, assim como a ética e moral. Em um segundo momento, os estudantes indicavam também as idéias de respeito, consciência sobre o planeta e os valores essenciais de convivência, como união, respeito, ética, fraternidade e diversidade. Também atentamos para o valor da interdependência, que normalmente está vinculado a assuntos de economia, e para a diversidade étnica, cultural e social dos alunos que dividem uma mesma sala de aula. Esses são assuntos que ganharam importância atualmente e o professor precisa estar capacitado para lidar com essas diferenças.

Esses valores sofrem modificações com o passar do tempo ou são fixos e imutáveis?

Trabalho com os valores que foram desenvolvidos pela Organização da Nações Unidas (ONU) para o Cinqüentenário da Declaração dos Direito Humanos, que compreende os ideais de paz, união, atenção a uma sociedade mais tranqüila, ética, transparência, competência, união, respeito ao meio ambiente. São valores permanentes que continuam necessários e que possuem a mesma importância de, mais ou menos, 60 anos atrás, quando eles foram implantados pela organização.

Quais são os principais desafios referentes ao processo de aprendizagem atualmente?

O jovem, mais do que nunca, quer um educador que compactue com ele, que troque e que permita a troca de informações. Até porque a tecnologia possibilitou a esses jovens um maior acesso à leitura, informação, conhecimento, o que até então era mediado pelos professores e tutores. Os estudantes querem que o processo educacional seja mais divertido, que traga uma prática interativa e criativa, com discussões e bate-papos. Hoje, os educadores têm que apresentar as matérias em formato e linguagem diferentes, por exemplo, por meio de cases, que mostrem para os alunos os resultados práticos da aplicação de um determinado conhecimento.

O sr. também propõe em seu livro a comunicação ética e solidária como forma de incrementar as relações dos professores e dos alunos. Em que os conceitos de ética e solidariedade interferem neste processo?

O próprio título “O Papel do Educador na Era da Interdependência” mostra o cuidado da reflexão no processo de aprendizagem. O professor precisa fortalecer os caminhos de interdependência entre os próprios alunos e também entre o corpo docente e discente. A evolução dos meios de comunicação permitiu aos estudantes uma infinidade de canais de acesso à informação e aos conhecimentos, e o professor tem como papel ético incentivar o questionamento dessas informações quanto a sua veracidade, auxiliando os alunos nesse processo. Os jovens, cada vez mais cedo, estão angustiados com a escolha da profissão, e o professor deve estar atento a isso. Quando falamos em incrementar a relação dos alunos com os professores, resgatamos os papéis de tutor e de intermediador da formação de cidadãos que os professores possuem em si.

Atualmente, quais os métodos mais efetivos e imediatos para a disseminação da educação de qualidade no Brasil, para que ela deixe de se concentrar em determinadas regiões do país e em limitados grupos sociais?

Falamos durante muitos anos que a educação é a grande salvadora da pátria e da sociedade. Já quando se fala do processo de educação relacionado à tecnologia, percebemos que o grande entrave ao seu desenvolvimento é que a educação foi relegada e não faz parte há alguns anos das prioridades do país. Isso acaba por se refletir em outros setores da sociedade, como em um sistema de saúde ineficiente, na despreocupação com o cuidado do meio ambiente, e por aí vai... Uma sociedade sem educação é uma sociedade sem saúde, sem trabalho, sem igualdade. Uma forma de reverter essa realidade é através do uso consciente dos meios de comunicação, já que grande parte da população tem acesso a esses veículos, como rádio e televisão, e a cultura do país já está habituada a esse tipo de recepção midiática.

Com o avanço dos cursos não presenciais, como o e-learning e a web-aula, qual o papel do professor no processo educacional? E qual o grau de dependência do aluno em relação ao professor nesse novo contexto?

Mesmo com essas tecnologias, o papel do professor sempre se fará necessário. Existem os professores de Humanidades, que fazem o indivíduo pensar e refletir sobre determinados assuntos e conceitos, e os demais professores, que são um pouco mais práticos e apresentam os conceitos do mercado e seus respectivos exercícios. Percebemos que os professores que procuram incentivar o desenvolvimento de um raciocínio crítico por parte dos alunos são aqueles que possuem maior descrédito. Os alunos se questionam porque precisam aprender Filosofia, Psicologia, Sociologia, etc. Nesse contexto, o principal papel do professor é o de estar disponível, tanto no espaço físico como no virtual, para que o aluno se sinta mais próximo do educador e possa confiar nele para tirar dúvidas, obter referências e conselhos diversos.

O sr. também apresenta em seu livro a Teoria da Aprendizagem Significativa. O que este conceito significa?

O conceito da aprendizagem significativa é o ponto central da teoria desenvolvida pelo psicólogo norte-americano David Ausubel, em 1963. A teoria propõe que haja uma conexão entre os novos conhecimentos adquiridos e os conhecimentos prévios que o aluno já possui. A idéia é simples, mas para colocá-la em prática é preciso que o professor desça do pedestal de superioridade e esteja disposto a mostrar todo seu conhecimento aos estudantes, auxiliando no processo de relação e confronto do conteúdo adquirido na escola e ao longo da vida.

Quais são as maiores dificuldades existentes em relação à implantação da tecnologia na educação?

O maior problema, substancialmente, é a falta de investimentos nos professores. Na educação da rede pública o caso é ainda mais grave, porque falta incentivo aos educadores no que diz respeito aos salários, à prática do ensino continuado com cursos de qualificações, aperfeiçoamentos e especializações. Isso também acontece quanto ao acesso à informação, uma vez que o corpo docente não tem acesso a jornais e revistas, a uma biblioteca de qualidade e aos laboratórios de informática.

Neste Dia do Professor, que mensagem o sr. gostaria de passar para os educadores do Brasil?

Eu tenho um privilégio muito grande de ter acesso à informação. Acho que depende de cada educador procurar se atualizar e buscar diferentes conhecimentos, para se manter capacitado para sua função. Na minha opinião, está na hora de os educadores do Brasil conquistarem seus espaços, assumindo o papel de construtores de um país mais igualitário.