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Afeto, um valor básico no processo educativo
Para Gabriel Chalita, a educação é, fundamentalmente, uma ato de amor. E a relação entre professores e alunos deve ser pautada em valores como a autoridade e o respeito, que só são conquistados a partir de uma relação de troca e de harmonia.

Lígia de Souza
 

Gabriel Chalita

Segundo o professor Gabriel Chalita, valores como amor e companheirismo são ingredientes essenciais para um bom relacionamento entre alunos e professores e, conseqüentemente, a chave para o aprendizado. Doutor em Direito e Ciências Sociais, Gabriel Chalita é docente por vocação desde a adolescência e foi secretário estadual de Educação de São Paulo entre 2002 e 2006. É ainda autor de diversos livros, entre eles Histórias de Professor que ninguém contou (mas que todo mundo conhece), lançado pela Editora Gente, em que são narrados diversos contos protagonizados por professores e seus alunos. Todas as histórias - imaginadas, ouvidas ou vividas pelo autor - têm em comum o fato de mostrarem como um mestre pode fazer a diferença na vida dos estudantes. Confira a entrevista:

Qual é, para o senhor, o papel do professor? O que o levou a escolher este caminho?

Gabriel Chalita - O professor é um instigador, ou um pouco mais: um problematizador. O professor é maestro e, ao mesmo tempo, um lapidador cuidadoso de diamantes. Um professor é, enfim, um sonhador. Desde criança, sempre teimei em ensinar. Dava aula para os meus avós, depois para algumas crianças carentes, depois em catequese - isso tudo antes dos 12 anos. Aos 15 anos já estava em uma sala de aula, e dela nunca saí. Para mim, é um lugar sagrado, prazeroso e profundamente desafiador.

Qual a importância de uma boa relação entre alunos e professores?

Não há educação sem vínculo. O professor tem que ter autoridade sem ser autoritário. E, ao mesmo tempo, tem que saber respeitar o entusiasmo dos seus alunos. Respeito é uma palavra essencial. O aluno não é apenas um número na lista de chamada. E o professor também tem as suas angústias, os seus medos. Por tudo isso a relação tem que ser de troca, de harmonia.

E qual a importância de valores como companheirismo, amizade e amor nesta relação?

Dom Bosco, um dos maiores educadores da história, dizia que não bastava aos jovens que fossem amados, era preciso que soubessem que eram amados. Não se pode imaginar uma educação que não priorize os valores essenciais.

No livro Histórias de professor que ninguém contou (mas que todo mundo conhece), o senhor conta a história de professores que fizeram a diferença na vida de seus alunos. Como se dá isso?

Preparar o aluno para a vida significa ensinar a ele, além do universo do conhecimento, valores. Talvez a escola possa ser um terreno fértil em que as sementes de um novo tempo floresçam.

Uma história do livro fala do confronto entre alunos e um professor de Matemática, que acreditava na disciplina absoluta como forma de aprendizado. É importante que os alunos tenham a oportunidade de colocar suas posições para o professor?

Primeiro o professor tem que gostar de ser professor, tem que gostar do aluno e alimentar isso. Depois é preciso que ele seja competente, tanto em relação ao conteúdo quanto à didática. E, por fim, tem que ter a humildade de reavaliar sempre a sua prática pedagógica. Um professor arrogante é uma tragédia. Torna-se infeliz e é incapaz de fazer felizes seus alunos. Eu acho a disciplina essencial. Professor não pode permitir que a sala se transforme em uma bagunça, sem comando. Mas disciplina, assim como o respeito, se conquista, não se impõe. O aluno, quando percebe que o professor é comprometido com a educação e é competente, vai se comportar de modo mais responsável. E, se surgirem problemas, cabe ao professor o famoso bom senso para resolvê-los. Disciplina com respeito, e autoridade sem autoritarismo.

Outra história do livro trata de uma professora, nova na escola, que é agredida por um aluno mas que, com paciência, contorna a situação. Essas situações são comuns em sala de aula? Como lidar com elas?

Isso é comum nas escolas. Há muitos professores que são enfrentados e até agredidos pelos alunos. Até porque a família falhou no seu papel de primeira educadora. Para mim, é preciso preparar o professor para que ele não responda a violência com violência. Violência se combate com inteligência e - por que não dizer? - com amor.

Qual a importância do bom relacionamento entre os alunos?

Podemos chamar a isso de habilidade social. O aluno precisa aprender a respeitar e merece ser respeitado. Além disso, é preciso que os alunos aprendam a trabalhar em equipe. Ninguém faz nada sozinho. Se a escola prepara para a vida, é preciso que ela prepare para a cooperação, para o trabalho em equipe, para a prática da solidariedade.

Com base em sua experiência como secretário de educação, quais são os principais problemas da educação atualmente? Quais são os caminhos para solucioná-los?

Há muitos problemas e muita gente fala deles. Gostaria de falar de algumas soluções. Primeiro, valorizar o professor em três “lugares” – cabeça (formação continuada), coração (respeito ao seu trabalho e à sua história) e bolso (salário digno). Segundo, aproximar a família da escola, pois, por melhor que seja uma escola, ela nunca vai suprir a carência de uma família ausente. Terceiro, construir um currículo que priorize a autonomia do aluno, preparando-o para a vida, para o exercício da cidadania e para o mercado de trabalho, como regem a Constituição Federal e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Em quarto, fazer da escola um espaço acolhedor em que práticas culturais e esportivas não sejam marginais, e que o espaço arquitetônico ajude a pesquisa e o trabalho em equipe. Quinto, entender a educação como processo. Na área pública, o Brasil sofre de um egoísmo nefasto de pessoas que assumem cargos de comando e que destroem o que foi feito pelos seus antecessores. Cada um quer deixar a sua bandeira, e a bandeira da educação acaba ficando em segundo plano. Quando um secretário de educação, por exemplo, destrói o projeto do secretário anterior, ele não prejudica o antecessor, mas prejudica o aluno, o professor, os funcionários, a família. Por fim, priorizar o essencial. Menos obras grandiosas e mais investimento no ser humano. Alguns políticos gostam de inaugurações, de palanques, de foguetório e se esquecem de que o processo educativo se faz com gente, para gente.

Gostaria que o senhor deixasse uma mensagem para os educadores.

A mensagem que eu deixo é do saudoso Paulo Freire, que dizia que o “professor é aquele que gosta de viver”. Gostar de viver é ter o que Mário Quintana chamava de “gosto de estrelas na boca”, ou em outras palavras, amor. Conheci mulheres e homens mais do que especiais nessa minha peregrinação de educador. Alguns são famosos, mas a grande maioria é de anônimos. Anônimos para o mundo, mas que iluminam a mente e o histórico de seus alunos. Aos professores, meus colegas, admiração, respeito, amor.