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Educação: um dever de todos
Todos Pela Educação reúne governos, empresários e sociedade civil no projeto de discutir e definir rumos para a melhoria do ensino no país. Coordenadora-executiva do projeto, Priscila Cruz afirma que o professor é, de fato, o agente mais poderoso em todo este processo, por estar, em seu, dia-a-dia, no centro da ação educacional.

Lígia de Souza
 

Priscila Cruz

Com um ano completado no último mês de setembro, o projeto Todos Pela Educação é fruto de uma união entre empresariado, governo, entidades sem fins lucrativos e sociedade civil. Seu objetivo é a construção de uma educação verdadeiramente de qualidade no Brasil até o ano de 2022, bicentenário da independência no país. Segundo a coordenadora-executiva do Todos Pela Educação, Priscila Cruz, “um país não pode ser de fato independente sem uma educação de qualidade. E essa deveria ser a preocupação número um de todos os cidadãos”.

Priscila ressalta ainda que a Educação, por ser um problema complexo, não pode ser defendida por apenas um setor da sociedade - seja ele o empresariado, o governo ou os próprios educadores. “A intenção do Todos Pela Educação é justamente articular esses setores, para que cada um possa dar sua contribuição”, ela explica. A jornada do projeto prevê o cumprimento de cinco metas: toda criança e jovem de quatro a 17 anos na escola, toda criança plenamente alfabetizada até os oito anos, todo aluno com aprendizado adequado à sua série, todo aluno com o ensino médio concluído até os 19 anos e investimento em educação ampliado e bem gerido. Confira a íntegra da entrevista.

Como surgiu o Todos Pela Educação? Quem são os participantes?

Priscila Cruz - O Todos Pela Educação começou a ser articulado em setembro de 2005, quando lideranças empresariais, educadores, economistas, comunicadores e gestores públicos se reuniram em São Paulo para discutir caminhos e alternativas para um grande projeto nacional de melhora da qualidade da educação brasileira.

Como se dão as ações do projeto?

Nós não interagimos diretamente com nenhum público, não fazemos formação de professores, não adotamos escolas ou coisas do tipo, ou seja, não atuamos na ponta. O grande trabalho do Todos Pela Educação é articular os grandes setores em favor do setor. E isso nós fazemos por meio de ações de comunicação.

Segundo as diretrizes do projeto, a educação é fundamental para o desenvolvimento e a independência de um país como nação. O Brasil, como um todo, tem consciência disso?

A educação deveria ser a pauta número um do Brasil e a grande prioridade dos brasileiros. Mas por meio de uma pesquisa que nós fizemos junto ao Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) constatamos que a educação é apenas a sétima preocupação dos brasileiros - atrás do desemprego, da corrupção e da violência, entre outros temas. É como se isso tudo não fosse conseqüência, em grande parte, da falta de educação de qualidade para todos. Atualmente, a educação é de péssima qualidade no país e, mesmo assim, 80% dos pais se dizem satisfeitos com a escola dos filhos. Como a educação é a base da solução de vários problemas do Brasil, sejam esses que eu mencionei, sejam outros como distribuição de renda e crescimento econômico, ela deveria estar no centro do debate e das preocupações do país. E é por isso que nós colocamos a educação como ponto central para a independência do país.

Qual a importância da participação dos diversos setores da sociedade na busca por uma educação de qualidade? Como cada um dos setores - Estado, empresariado, sociedade civil - pode colaborar para que se alcance esse objetivo?

Como a educação exige um projeto de longo prazo, é feita das conquistas diárias e se trata de um problema complexo, ela não pode ser resolvida isoladamente por apenas um setor da sociedade, e sim pela atuação conjunta de todos eles. Atualmente nós vivemos um momento em que os gestores públicos estão cada vez mais abertos para uma parceria com os demais setores da sociedade, em que os empresários estão cada vez mais investindo em projetos sociais. É um momento em que as Organizações Não-Governamentais (ONGs), institutos e fundações investem 80% em educação, e tudo isso é muito bom. Então, o que falta é uma articulação entre esses três setores, pois individualmente cada um já vem fazendo sua parte. O importante é se fazer enxergar que em uma ação isolada, cada um desses setores vai resolver muito menos que numa ação integrada, para que cada um deles faça o que tem condição de fazer e aquilo que é possível fazer.

Quais são as metas do projeto? Como foram estipuladas?

As metas são: toda criança e jovem de quatro a 17 anos na escola, toda criança plenamente alfabetizada até os oito anos, todo aluno com aprendizado adequado à sua série, todo aluno com o ensino médio concluído até os 19 anos, investimento em educação ampliado e bem gerido. Nós fizemos um primeiro documento, com dez causas e 26 compromissos, em que foi feito um levantamento daquilo que era consenso na área de educação. Pois se nós queríamos fazer um movimento pela educação no Brasil, precisávamos tratar daquilo que é consenso. Não adiantaria nada que nós levantássemos uma bandeira a respeito da qual parte da sociedade não estivesse de acordo. Depois, constituímos um grupo e chamamos uma consultoria para, por meio de entrevistas estruturadas com profissionais de diversos perfis, traçar os desafios da educação brasileira. Esses desafios foram priorizados em um workshop de planejamento e os resultados foram analisados por um grupo de técnicos, que extraiu desse material as cinco metas. Ou seja, foi um processo muito longo, um trabalho muito técnico, e de consulta coletiva.

Apesar de serem bastante objetivas, as metas estipuladas pelo projeto não podem gerar entendimentos múltiplos ou controversos, especialmente no que diz respeito às duas últimas? O que é considerado pelo projeto o aprendizado adequado para cada série? O que se pode entender por investimento bem gerido em educação?

A meta que trata do aprendizado adequado para cada série é uma provocação, pois hoje no Brasil nós não temos uma definição objetiva daquilo que é apropriado para cada série. O que nós colocamos embutida nesta meta é a necessidade de definir e divulgar aquilo que é apropriado para cada série. Ninguém sabe o que é apropriado para o aluno da primeira, da segunda, da terceira série. Nisso está implícita uma coisa muito positiva que é a autonomia escolar, que é a liberdade que cada escola tem de definir seu currículo. Essa autonomia está num grau tão grande que hoje nós temos escolas em que a criança aprende uma coisa na primeira série e, em outra série, aprende algo totalmente diferente. O que falta é que haja uma regra mais clara, para que as escolas exerçam sua autonomia da melhor forma. Em relação à meta de investimentos, o que é bem gerido? Bem gerido é aquilo que traz resultados. Recursos e gestão devem andar lado a lado: muito recurso para uma gestão fraca é jogar dinheiro pelo ralo, e uma boa gestão com pouco dinheiro não dá resultado. É preciso que se tenha os investimentos adequados e a gestão adequada. E a gestão adequada é aquela que dá resultados. Ou seja, não é preciso saber quantas escolas foram construídas, quantos computadores foram comprados, mas se isso teve um retorno positivo.

Como cada pessoa, individualmente, pode colaborar para que o país alcance as cinco metas?

Em nosso endereço na internet, <www.todospelaeducacao.org.br>, há uma seção denominada “como participar”, que é dividida por públicos. Há propostas de ação para pais, professores, alunos, denominações religiosas, gestores, etc. Ou seja, o projeto propõe ações práticas para cada um envolvido no processo de educação.

Qual o papel específico do professor no contexto do Todos Pela Educação? Que tipo de ação é definida para o professor?

O professor está no centro do debate e, das pessoas envolvidas na educação, é o que tem mais poder, pois é ele que está ali, no dia-a-dia da escola e, assim, pode ajudar diretamente. Os professores já ajudam, mas existem algumas mensagens para eles que é bom que nós sempre reforcemos. A orientação mais geral para os professores, e que está na base de tudo, é que nunca desistam de nenhum aluno, todo aluno tem direito a aprender. Outro ponto fundamental é abrir um canal de comunicação com os pais, pois muitas vezes as dificuldades dos alunos estão relacionadas a fatores familiares. É preciso que o professor conscientize o pai de seu papel, valorizando e se interessando pelo trabalho dos alunos na escola, elogiando seu capricho, cobrando a presença na escola... Pois nós acreditamos que o professor é quem tem melhores condições de orientar os pais, por conhecer seus filhos. Em termos bastante gerais, essas são nossas duas orientações para os professores: nunca desistir de um aluno e envolver os pais no processo de valorização da educação.