Reportagens
 
   
   
   
     
     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Educação Indígena: A lição de uma escola preocupada com o coletivo,
a diversidade e o meio ambiente.
Mais do que garantir a preservação da cultura dos indígenas, o ensino desenvolvido em tribos da Costa Verde do estado do Rio de Janeiro pode dar bons exemplos às ‘escolas dos brancos’. Preocupação coletiva com o desenvolvimento do grupo, conceito de educação continuada e preocupação legítima com o meio ambiente são algumas das lições que os homens das cidades bem que poderiam aprender.

Alessandra Moura Bizoni
 

Identificar os saberes milenares das culturas tradicionais como conhecimentos dinâmicos e articulados e trabalhá-los nas escolas públicas e de formação docente do Estado do Rio de Janeiro. Este tem sido o desafio do programa Educação Diferenciada e Etnoconhecimento, desenvolvido pela Escola de Educação da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio).

 

Coordenado por Maria Amélia Reis, professora em pós-doutoramento na Universidade de Coimbra e professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UniRio, o programa busca superar as lógicas que apontam para a idéia de um saber/poder único, que desconsidera as diferenças culturais. Para tanto, alunos do curso de graduação de Pedagogia fazem visitas sistemáticas a escolas indígenas e quilombolas (afro-descendentes). “Buscamos resgatar as tradições orais e o bilingüismo como forma de permanência identitária desses grupos. Por isso, enfatizamos suas lutas pela educação diferenciada e a reflexão sobre a importância do etnoconhecimento para um etno-reconhecimento. Além dos alunos da graduação, desenvolvemos trabalhos com escolas de formação docente (curso normal) e escolas públicas parceiras”, explica Maria Amélia. O trabalho começou com uma atividade do curso de Ciências Naturais para a Educação Infantil, ministrado pela educadora, que começou a levar seus alunos a comunidades indígenas e quilombolas, pesquisando o modo como eles ensinavam suas crianças. Posteriormente, o projeto ganhou vulto, com três edições do seminário “Educação Diferenciada e Etno Reconhecimento”. “Eu tinha necessidade de mostrar para os meus alunos que o ensino de Ciências tinha que ser diferente; tinha que ter como foco principal e eixo os conhecimentos daquelas populações que estavam ali a aprender a ciência. Não era simplesmente chegar e colocar os conhecimentos das ciências de laboratório, das ciências nobres. Porque, quando o aluno não relaciona o conhecimento, os conceitos que são colocados se tornam conhecimentos abstratos”, observa a educadora. Dentre os projetos do programa, estão publicações bilíngües produzidas pelos representantes destas comunidades, incluindo materiais didáticos (dicionário escrito e digital, bilíngüe: um em guarani/português, outro, em kibumdo/português) e também o incentivo à economia solidária e ao cooperativismo, de modo a possibilitar às comunidades indígenas e quilombolas alternativas para sua sobrevivência.

Continua