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Um olhar curioso em busca de novos saberes
Os habitantes da tribo guarani dispõem de luz elétrica, linha telefônica, telefone celular, televisão e rádio. E, agora, aguardam ansiosos a chegada de computadores. No entanto, educadores tomam todos os cuidados possíveis para que o padrão das atividades educacionais seja pautado na cultura e no ritmo de vida da aldeia

 

Na Costa Verde do Rio de Janeiro, mais precisamente na Região de Paraty Mirim, funciona, há dois anos, a Escola Estadual Indígena Tava Mirim. Diferenciada não apenas no nome, mas também em seus propósitos e metodologia, a escola atende crianças e adultos da aldeia Ytaty, totalizando quase 200 guaranis. Oficialmente, a escola oferece as primeiras quatro séries do ensino fundamental. No entanto, na cultura guarani, existem sempre conhecimentos da cultura a serem apreendidos.

 

É o que afirma o professor Tupã, que para os brancos se apresenta como Darci. Ao explicar as peculiaridades da educação indígena que, em momento algum, se desvencilha da cultura da tribo, Tupã salienta que os conceitos de aprovação e reprovação não estão presentes em sua prática diferenciada, que adota o sistema de ciclo durante o processo de alfabetização. “Não mandamos notas dizendo que um aluno pode passar para 5ª, ou para a 8ª série. Fiquei triste quando estudei numa escola não indígena e fui reprovado. Aqui, não fazemos isso. Se fizermos isso com um aluno guarani, ele vai e não volta mais para a sala de aula. Quando vemos que tem um aluno que é mais fraquinho, o elogiamos muito. Ele se sente valorizado. A criança está vindo aqui para fortalecer a cultura, então, não podemos dizer que uma é nota dez, outra é nota três. Nossa escola não faz isso”, explicou o educador.

Com pouco mais de 200 habitantes, luz elétrica, linha telefônica, telefone celular, televisão e rádio, a tribo guarani aguarda agora a chegada de computadores. No entanto, os educadores se orgulham de desenvolver um trabalho realmente diferenciado na escola, pautado na cultura e no ritmo de vida da aldeia. “Em muitos lugares, há escolas indígenas que não estão funcionando como os guaranis acham que deve funcionar. Essa é uma das que funcionam do jeito que o professor guarani deseja. Temos calendário diferenciado, aula em língua guarani sobre a valorização da nossa cultura. E o tempo da plantação também serve como aula, pois os alunos aprendem quando vão plantar milho. Estudamos muito pouco português porque nossa aldeia tem muito contato com os brancos. Estamos preocupados com a preservação da nossa cultura própria”, acrescenta Darci, o educador guarani. Embora reconheçam a necessidade de interação com outras culturas, os guaranis pretendem estender sua formação diferenciada até o 9º ano do ensino fundamental para que, nesse período, os traços de sua cultura fiquem enraizados nos seus pares e não se percam - como ocorre em outros pontos do país, onde a cultura de índios guaranis já se encontra bastante enfraquecida.

 

“Quando saírem para a cidade para estudar, nossos alunos podem se tornar advogados, por exemplo. Mas queremos que eles não se esqueçam da sua cultura. Fui para o Sul e lá as crianças estão indo para escolas não-indígenas, onde estão esquecendo suas raízes. Por isso, estamos produzindo livros em guarani e fazendo filmagens na nossa Casa de Reza para mostrar para essas tribos onde a cultura local está se perdendo”, completou o professor Tupã.


Saber popular é fonte de alternativas pedagógicas

O trabalho sobre uma proposta para educação diferenciada nas escolas públicas está transformando a visão de estudantes do curso de Pedagogia da UniRio a respeito dos saberes das culturas populares. Depois de visitarem comunidades quilombolas e indígenas, estudantes e professores desencadeiam um processo de reflexão sobre as alternativas para o ensino de Ciências Naturais, por exemplo.

Num diálogo efetivo entre ensino, pesquisa e extensão, surge a oportunidade de ter contato com as culturas originárias brasileiras. O próximo passo consiste em estabelecer práticas pedagógicas que respeitem a diversidade e tenham base teórica, cultural e prática. Agindo desse modo, os futuros professores descobrem alternativas para poder fortalecer suas práticas cotidianas nas escolas.



 

Esse é um ótimo aprendizado. O ensino dos índios é totalmente diferente do nosso. Estamos discutindo, no momento, a questão dos ciclos, da pertinência da reprovação. E vimos que eles não têm essa história de reprovar ou aprovar. Eles têm uma educação continuada. Para eles, se as crianças forem reprovadas, irão perder o interesse de aprender. Estamos com essa polêmica no Rio e essa posição dos indígenas é interessante. Com relação ao ensino da disciplina de Ciências, pudemos contemplar a natureza e aprender, na prática, o que seria o estudo de Ciências para a educação infantil. Os índios ensinam mesmo na prática porque eles vivem em meio à natureza e a preservação da água e das matas é fundamental. Esses povos têm muito respeito pelo meio ambiente e só usam as plantas quando realmente precisam. E esse é um bom exemplo para trabalharmos com as crianças nas nossas salas de aula”.
Maria do Socorro Lúcio dos Santos, 28 anos, 5º período do curso de Pedagogia

 

“Sou bolsista da pesquisa sobre educação diferenciada há três anos. A escola pública precisa dessas iniciativas para ver como as comunidades tradicionais pensam a educação, o seu modo de viver e de se relacionar. Percebemos que há uma transformação no grupo de professores quando eles começam a ir às comunidades. Antes, eles ficavam apreensivos, falavam uma série de mitos. Mas, quando voltam da comunidade visitada, tudo muda. Eles começam a se envolver com o cotidiano da tribo, com as palavras, com a língua, com a vivência. E isso traz um maior interesse pela cultura indígena, pela cultura africana e pela cultura popular. Isso é importante. O grande diferencial da cultura indígena, por exemplo, é o respeito à natureza e a construção coletiva de sociedade, onde tudo é pensado para o bem de todos. E a natureza faz parte da cultura indígena, por isso é respeitada. Os educadores indígenas só tiram da natureza o que é necessário para o consumo ou para o uso na saúde. Eles não têm uma cultura de consumo para destruir a natureza, para acumular o capital”.
Ricardo Fernandes, 22 anos, concluinte do curso de Pedagogia

 

“Conheci a comunidade indígena de Paraty Mirim no trabalho da disciplina de Ciências Naturais na Educação Infantil, durante uma aula prática. Estamos fazendo a disciplina Ciências Naturais e Educação Infantil. E eu achei esta experiência muito interessante. Trabalho na área de Recursos Humanos e acredito que essa experiência contribui para que respeitemos as diferenças - um outro tipo de cultura. Como a idéia da reprovação não existe na educação indígena, o conhecimento passa a ser continuado. Não há uma separação do saber aprender. Penso que a proposta é mais desenvolvida para isso. O ambiente da aldeia é gostoso. É agradável estar no local verificando os trabalhos, vendo os desenhos dos indígenas. A aula de hoje foi bem melhor. Saímos do ambiente voltado para sala de aula, onde só há cadeiras e fomos para um ambiente mais prazeroso de se aprender”.
Bianca do Nascimento Correia, 20 anos, 5º período do curso de Pedagogia da UniRio

Reunião de 80 etnias indígenas


Entre os dias 18 e 21 de setembro, foi realizado o II Encontro Nacional dos Povos das Florestas, que reuniu mais de cinco mil pessoas em Brasília. Participaram do evento o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, entre outros ministros e autoridades do governo. Durante cinco dias, representantes de 80 etnias indígenas, ribeirinhos, pescadores, quebradeiras de coco, representantes do governo federal e estaduais, da iniciativa privada e de movimentos sociais discutiram os caminhos para a implementação de políticas públicas que unifiquem os interesses de povos que vivem na Amazônia, caatinga, mata atlântica, cerrado, pampa e pantanal.

Além da conservação da floresta e da distribuição de renda, as discussões enfocaram temas como mudanças climáticas e grandes obras de infra-estrutura. A primeira edição do encontro aconteceu em 1989, pouco depois da morte do líder seringueiro Chico Mendes. Dentre os pontos destacados na “Declaração dos Povos das Florestas”, divulgada no 21 de setembro pela Aliança dos Povos da Floresta, consta a relevância da educação ambiental e da educação indígena. “Que sejam implantadas a educação ambiental no ensino formal, médio e superior e que sejam implementadas as políticas públicas de educação, saúde, justiça, assistência técnica e direito ao uso sustentável da terra, de forma adequada às nossas especificidades”.


Indígenas pedem mais vagas no ensino superior


No dia 20 de setembro, 35 jovens de diversos povos indígenas que estavam em Brasília participando do II Encontro Nacional dos Povos da Floresta, tiveram a oportunidade de debater os desafios da educação escolar indígena. Na ocasião, Maiko de Souza, da tribo dos Guajajaras, e Luciene Chaves de Jesus, da tribo Pataxó, leram uma carta ao ministro da Educação, Fernando Haddad, ao secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, André Lázaro, e à representante do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Brasil, Mairie-Pierre Poirier. Entre vários assuntos, a carta apresentou propostas para a melhoria da educação nas aldeias. Uma das reivindicações é por mais oportunidades para o ensino superior. “Tudo o que for tratado sobre os índios tem que ter nossa participação, porque nós conhecemos nossas verdadeiras necessidades”, destacou Maiko. A participação dos indígenas foi bem-vinda. Como um dos eixos do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) é voltado para a diversidade, as propostas entregues são de fundamental importância para a implementação de políticas públicas no setor, informou o Ministério da Educação.