Reportagens
 
   
   
   
     
     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ensino superior: Uma alavanca para a interiorização do desenvolvimento
no Estado
Seja na esfera pública, ou entre as instituições privadas, a ampliação das instituições de ensino superior em pequenos municípios sempre representa maior fluxo de conhecimento, renda e desenvolvimento. Além disso, faculdades e universidades costumam se dedicar à extensão, com práticas sociais de fundamental importância para a região em que atuam
Natália Strucchi

Em um passado não muito distante, era comum que jovens migrassem das cidades interioranas para os grandes centros em busca de uma formação superior. A mudança, devido aos altos custos envolvidos, acabava restringindo o acesso às universidades somente a famílias com mais recursos. Hoje, contudo, este cenário começa a se alterar. Instituições de ensino, sejam públicas ou particulares, começam a apostar na interiorização, criando campi e unidades isoladas em regiões distantes das capitais. A mudança de foco não representa apenas um promissor mercado para a rede privada, como também uma possibilidade real de desenvolvimento para estas pequenas cidades.

 

“Proporcionamos para a região um ensino superior de qualidade, e não temos dúvida alguma de que os milhares de formandos que por aqui passaram contribuíram e contribuem e muito para todo o desenvolvimento econômico de nossa cidade e da região como um todo. Além dos que aqui se formaram e se fixaram no Sul Fluminense, muitos de nossos egressos são profissionais de sucesso em todo Brasil”, acredita o reitor do Centro Universitário Barra Mansa, Guilherme de Carvalho Cruz. Entre as principais preocupações das instituições situadas no interior do estado, está o mercado de trabalho local. “Sempre foi nossa preocupação atender às demandas do nosso município. Por isso, oferecemos cursos direcionados às necessidades regionais. Hoje oferecemos mais de 26 cursos divididos em licenciatura, bacharelado e tecnológicos com esse objetivo, de levar mão-de-obra qualificada à necessidade deste mercado. Temos também diversos cursos de extensão e mais de 60 cursos de pós-graduação estruturados, e que são lançados conforme as necessidades do mercado local”, salienta Guilherme.

O gerente de Comunicação, Marketing e Eventos da Fundação Educacional Serra dos Órgãos (Unifeso), situada em Teresópolis, José Maria Carvalho, também salienta a importância de se levar em consideração as necessidades de cada região. “No nosso caso, a maioria dos cursos foi criada para atender à demanda local. A instituição também tem o cuidado de fazer pesquisa de mercado antes de implantar um novo curso”, conta. Segundo ele, a instituição - que surgiu com o intuito de evitar o êxodo de estudantes do município - hoje é extremamente útil para o desenvolvimento da cidade. “Ela é a segunda maior empregadora de Teresópolis, com 1.750 funcionários, só ficando atrás da prefeitura. A Feso atrai estudantes de todas as regiões do país, o que contribui para aquecer a economia e melhorar o nível social e cultural da cidade”, argumenta.
 

Na Universidade Severino Sombra (USS), situada em Vassouras, alunos e docentes realizam pesquisas relacionadas ao desenvolvimento da região. É isso o que garante o reitor Américo Carvalho. “Sendo a pesquisa um dos tripés da formação universitária, a USS, através de um corpo docente constituído de mestres e doutores altamente qualificados e, com a participação do nossos alunos, preocupa-se com o conhecimento científico, bem como com o desenvolvimento de pesquisas que atendam às necessidades da nossa região”, salienta.

Instituições realizam ações sociais junto às comunidades

As instituições situadas em cidades distantes dos grandes centros não se preocupam apenas em atender ao mercado de trabalho local. Todas fazem questão de ressaltar suas atividades junto às comunidades. Atendimentos médicos e jurídicos estão entre as práticas mais comuns oferecidas aos moradores do interior. “Mensalmente são organizadas diferentes atividades onde os acadêmicos e professores de diversos cursos participam de encontros, visando à integração e à prestação de serviços à comunidade. Semestralmente, são oferecidos dezenas de cursos de extensão”, diz Guilherme de Carvalho, da UBM. Segundo ele, também são feitos atendimentos médicos e jurídicos. “Temos os atendimentos gratuitos no Centro Integrado de Saúde (CIS) no campus Barra Mansa e em postos municipais nos bairros Vila Nova e Nove de Abril. No Centro do Idoso e no Hospital da Mulher, em parceria com o SUS, atendemos a população da cidade que necessita de atendimento em Fisioterapia. São feitos atendimentos gratuitos no Núcleo de Prática Jurídica (NPJ) e as bibliotecas são abertas para o uso também da comunidade”, enumera.

De acordo com José Maria, do Unifeso, a instituição também realiza ações em prol da comunidade. “Mantemos o Centro Cultural Feso Pró-Arte, que oferece gratuitamente uma extensa programação cultural durante o ano. Também temos a Univerti/Feso que atende a população da terceira idade com cursos em diversas áreas, e eventos como palestras, debates e exposições para esta faixa etária. Além disso, a instituição é mantenedora das clínicas-escolas de Fisioterapia, Medicina Veterinária e Odontologia e do Núcleo de Prática Jurídica. O Hospital das Clínicas de Teresópolis Costantino Ottaviano, mantido pelo Unifeso, é o único da cidade que presta serviços de emergência pelo SUS, atendendo não só à cidade, mas também à região”, finaliza. Reitor da USS, Américo Carvalho garante que sua universidade não fica para trás quando o assunto são os projetos de extensão junto à população de Vassouras. “São muitas as ações que a universidade desenvolve em seus projetos de extensão junto à comunidade vassourense e da região. Principalmente na área da saúde e da educação, propiciando o despertar da cidadania através do aprendizado constante e de suas ações sociais desenvolvidas”.

Governo aposta na interiorização de universidades públicas

Com o objetivo de aumentar o número de jovens no ensino superior, o governo federal está apostando no projeto de expansão e interiorização das instituições públicas. Durante o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foram criadas 10 unidades, entre universidades e extensões de instituições já existentes. A promessa de ampliar e interiorizar o ensino continuou no segundo mandato.

Este ano, o Ministério da Educação (MEC) já anunciou a extensão do campus da Universidade Federal de Sergipe (UFS), em Itabaiana. Também foi revelado que três novos campi levarão a Universidade Federal do Piauí (UFPI) ao interior do estado. Para os próximos anos, o governo anunciou o Plano Plurianual (PPA), programado para o quadriênio 2008-2011, e que prevê a criação de 10 universidades novas, além de 48 novos campi. “É importante que levemos um projeto de desenvolvimento para estas regiões. A Rural, por exemplo, teve sua última expansão com um campus em Nova Iguaçu, que tem professores concursados e toda uma estrutura própria. O mais importante de tudo é realizar esta expansão de maneira que o curso se mantenha.

 

Acredito que este trabalho é essencial e é papel das instituições federais”, defende o reitor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (Rural), Ricardo Miranda. O dirigente ainda lembra que essa interiorização consegue evitar que estudantes saiam de sua cidade natal e não voltem mais. “O jovem que está nestas cidades, na maioria das vezes, não tem condições de vir estudar na capital. E, quando vem, acontece um outro fenômeno, pois este jovem formado dificilmente retorna à sua cidade de origem. Quer dizer, a riqueza que ele produz não vai para a sua região”, esclarece.
 

Reitor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Almy Cordeiro Junior ressalta a importância da existência de sua instituição para a cidade de Campos dos Goytacazes e avisa que já existe um projeto de expansão. “Muitos não têm condições de sair de Campos para estudar fora, pois o gasto é grande. A Uenf é de fundamental importância para o estado. No orçamento deste ano, incluímos um projeto de expansão para o Noroeste Fluminense, em municípios como Itaperuna e Pádua, por exemplo. Inclusive, esta expansão é uma determinação legal, faz parte da nossa missão”, conta Almy. De acordo com o reitor, o maior problema encontrado pelas instituições para realização de sua interiorização é o orçamento insuficiente. “Não temos autonomia financeira e isso gera uma série de dificuldades. Nos anos anteriores, a Uenf também incluiu em sua proposta de orçamento valores para a interiorização, mas o problema se repete. Inclusive, já conversamos com diversos prefeitos da região e eles estão de acordo. A idéia é que a prefeitura também entre com recursos nestas novas unidades. Claro que nem todas têm condições de arcar com isso, por isso buscamos o apoio do governo estadual”, finaliza.