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Moysés Kuhlmann
Educar não
é uma tarefa fácil. Ela pode ser ainda
mais difícil no que diz respeito a responder
os desafios envolvidos no trato com as crianças
pequenas. Embora não seja obrigatória,
a educação infantil, voltada ao atendimento
de crianças de zero a cinco anos, envolve uma
série de questões relacionadas principalmente
à qualidade de sua oferta e à formação
dos profissionais para atuar neste segmento. Em entrevista
ao Suplemento do Professor, Moysés Kuhlmann Júnior,
pesquisador da Fundação Carlos Chagas
e professor da Universidade São Francisco, destacou
que é preciso valorizar os docentes da educação
infantil e os profissionais das creches. “É
difícil encontrar um município que tenha
uma estrutura de quadro de carreira que, de fato, equipare
este professor ao de ensino fundamental e médio”,
afirmou. Confira a entrevista:
Que avaliação
o sr. faz da educação infantil brasileira?
O que precisa ser melhorado para que se chegue a um
padrão suficiente de qualidade?
Moysés Kuhlmann - A rede de
educação infantil é bastante heterogênea.
Se pensarmos no Brasil inteiro em termos de creches
e pré-escolas, veremos que há diferenças
marcantes entre estas duas instituições
e entre as regiões ou tipos de sistemas. A Constituição
de 1988 incluiu a educação infantil no
sistema educacional, mas a Lei de Diretrizes e Bases,
que instituiu essa inclusão, só ficou
pronta em 1996. Desde então, 11 anos já
se passaram e não podemos dizer que, efetivamente,
a educação infantil esteja integrada ao
sistema educacional como a lei determina. Há
muitas coisas ainda a serem feitas para ver esta integração.
Isto traz conseqüências para a qualidade
das instituições. Falo no sentido de haver
uma estrutura de suporte dos sistemas municipais para
este tipo de rede. A educação infantil
custa caro, pois quanto menor a criança, a proporção
adulto/criança deve ser maior. O que as prefeituras
muitas vezes têm feito é tentar escapar
desta necessidade de incorporar as creches ao sistema
educacional, lançando programas com a denominação
de “alternativos”. É claro que, do
ponto de vista da assistência social, é
interessante que se desenvolva o maior número
de programas para assistir às famílias,
mas isto não pode ser feito em detrimento da
organização do sistema de educação
infantil. Há uma certa resistência dos
municípios em implementar esta rede de modo a
atender a população em uma escala mais
ampla.
Historicamente,
a educação infantil no Brasil tem apresentado
uma característica extremamente assistencialista.
Isso ainda acontece? Até que ponto a educação
infantil se tornou mais pedagógica e conteudista?
Não que estas instituições tenham
sido assistenciais em uma época e estejam se
tornando educacionais. Desde o início, elas foram
pensadas como instituições educacionais.
No entanto, para as classes populares, para as crianças
pobres, reiteradamente se pensou uma educação
pobre para os pobres, uma educação de
baixa qualidade para os pobres. Aí poderíamos
qualificar esta educação como assistencialista,
no sentido de revelar um preconceito com a pobreza.
No momento de atender a criança pobre já
se quer economizar muito mais. Este tipo de visão
preconceituosa em relação às classes
populares no Brasil ainda persiste de alguma forma.
É claro que tivemos avanços. A incorporação
ao sistema educacional, de alguma maneira, indica o
sentido de tratar a educação infantil
como universal, como direito de qualquer criança,
mas a realidade ainda está bastante distante
disso. Uma família de classe média dificilmente
buscará uma creche para educar seus filhos.
Esta é a principal diferença das instituições
públicas e particulares de educação
infantil?
Não é simplesmente uma questão
de conteúdo a ser ensinado e a ser objeto de
trabalho na instituição. Isto é
uma armadilha na qual instituições e sistemas
educacionais já caíram, algumas vezes.
Na intenção de superar a tradição
da educação assistencialista, busca-se
uma educação que simplesmente antecipa
os conteúdos do ensino fundamental, o que coloca
sobre as crianças pequenas uma responsabilidade,
uma exigência de esforço e concentração
inadequadas à sua idade. A educação
da criança pequena também deve ser pensada
na perspectiva de seu direito a brincar, ao jogo, no
sentido de proporcionar um desenvolvimento integral
e não simplesmente da inteligência.
Que avaliação
o sr. faz dos cursos de formação de docentes
para a educação infantil?
Além da precariedade de implantar a rede há
também a relação com os profissionais.
Aí, a figura da professora - e seria desejado
ter também a figura do professor homem, o que
já é raro no ensino fundamental - passa
por uma situação de ser colocada em uma
segunda categoria. É difícil encontrar
um município que tenha uma estrutura de quadro
de carreira que, de fato, equipare este professor ao
de ensino fundamental e médio. Não se
trata de dar o mesmo tipo de cargo ou atribuição,
pois um professor de ensino médio trabalha em
regime de hora/aula e a educação infantil
funciona em períodos. O tipo de trabalho é
diferenciado. No entanto, a valorização
deste profissional pelo sistema acaba sendo posta como
de um profissional de segunda qualidade. As professoras
são desestimuladas a trabalhar neste sistema.
Elas recebem uma formação já precária
e ingressam em sistemas que as valorizam menos. Então,
a tendência de querer abandonar a educação
infantil para procurar o fundamental, em que elas teriam
uma melhoria de salário e de condições
de trabalho, acaba sendo um fator imediato pela desvalorização.
Em conseqüência a isso, há uma maior
rotatividade no quadro.
A formação
docente é um tema bastante discutido na sociedade
brasileira. Hoje, temos a exigência do diploma
no nível superior, em detrimento do magistério.
No entanto, o que precisa ser melhorado nestes cursos
destinados a formação superior de professores,
em geral, cursos de Pedagogia?
Os cursos de Pedagogia têm se ocupado mais da
formação dos profissionais para este nível
da formação, mas precisam ser melhorados.
Há muita diversificação no que
cada instituição oferece para estes futuros
profissionais em termos de formação. A
creche, por exemplo, que é a instituição
que educará os pequenos de zero a três
anos de idade, é a que mais sofre quanto à
qualidade. Isso também acontece com a formação.
Quer dizer, o espaço de formação
dedicado à questão do cuidado com os bebês
é menor. Às vezes, olha-se para isso também
como algo de segunda qualidade. Já escrevi que
os pedagogos ‘torcem’ o nariz quando pensam
que trocar fraldas também é objeto de
seu conhecimento. Também há a idéia
de que é uma vocação feminina,
um instinto, quando é, na verdade, uma situação
diferenciada. A profissional tem quatro, cinco crianças
para cuidar, o que é uma situação
bastante diferenciada da familiar. Esta é uma
área em que existe uma grande demanda no sentido
do que fazer. Temos avançado em termos de pesquisas,
mas quanto à repercussão nos cursos de
formação, acho que temos um caminho longo
a percorrer.
O que se perdeu
nos últimos anos, com a quase extinção
do magistério e a exigência do diploma?
Eu acho que quanto mais formação, melhor.
Neste processo de formação, deve haver
a oportunidade da realização de estágio,
pois a questão da prática é algo
muito importante, mas não podemos cair na oposição
teoria x prática, como se a formação
teórica não fosse necessária. Não
podemos esperar que a teoria dará os instrumentos
para que imediatamente se pense o que fazer em uma situação
e como resolver um determinado problema dentro da instituição.
Não se aprende em um curso de formação
a solução para todos os problemas que
poderão ser encontrados. A formação
teórica tem a virtude de poder desenvolver a
capacidade de raciocínio, o conhecimento amplo
das questões que envolvem as crianças,
para que se tenha a possibilidade de equacionar o problema
e resolvê-lo, quando surgir a necessidade prática.
É importante que a professora de educação
infantil conheça bastante o mundo, as diversas
ciências, para que possa responder à necessidade
de seu trabalho cotidiano. Em sua formação,
o profissional deve ter essa diversidade de experiências
culturais e de conhecimentos para que esteja bastante
alimentado e possa traduzir isto em seu trabalho.
O sr. está
envolvido em alguma pesquisa na Fundação
no momento?
Tenho produzido algumas coisas relacionadas à
questão da política, do currículo,
mas principalmente na investigação sobre
a história da educação das crianças
pequenas e da infância. Estou com um projeto de
pesquisa na Fundação Carlos Chagas em
que há um intercâmbio com o trabalho da
formação para a pesquisa feito na Universidade
São Francisco, onde também trabalho. Nas
pesquisas que estou orientando há o estudo do
Parque Infantil da cidade de São Paulo, em meados
do século passado. Este é um material
que ainda não tinha sido objeto de pesquisa.
É muito interessante recuperar propostas, como
também fazer uma análise dos processos
históricos, uma análise crítica. |