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Maria Rosa Lombardi
O mercado de trabalho
torna-se, cada vez mais, um ambiente heterogêneo.
As diferenças de gênero são superadas
e, dessa forma, vemos as mulheres ocuparem posições
que, tradicionalmente, eram exercidas pelos homens.
Se no passado as mulheres ficavam restritas à
função de mãe e dona-de-casa ou
a atuação em cargos como professora e
enfermeira, hoje, este paradigma caiu por terra. Contrariando
a idéia do ‘sexo frágil’,
mais de 50% das mulheres estão ativas no mercado
de trabalho atualmente. Para a socióloga e pesquisadora
da Fundação Carlos Chagas, Maria Rosa
Lombardi, o aumento da escolaridade dos brasileiros
e, principalmente, das mulheres, desde os anos 1970
pode ser considerado um fator propulsor de mudanças
culturais importantes e, entre elas, a diversificação
da escolha profissional feminina. “Essa diversificação
seguiu tanto na direção de novas áreas,
novas profissões, como por exemplo, as Ciências
Biológicas, as Engenharias, o Direito, a Informática,
como em direção a novas profissões,
internamente às áreas em que a presença
das mulheres já era tradicional”, acredita.
Maria Rosa é também doutora em Relações
de gênero e trabalho pelo Centre National de Recherches
Scientifiques e Université de Paris X Nanterre.
Confira sua entrevista:
Que avaliação
a sra. faz da atual posição da mulher
no mercado de trabalho? Qual é a área
que mais absorve a mão-de-obra feminina atualmente?
Maria Rosa Lombardi - A mulher vem
se incorporando cada vez mais ao mercado de trabalho.
Atualmente, temos mais de 50% das mulheres ativas ao
mercado de trabalho, ou seja, elas estão trabalhando
ou procurando um emprego, conforme a definição
do IBGE. A absorção das mulheres tem se
dado com maior ênfase, tradicionalmente, no setor
de serviços. Esta extensa e diversificada área
engloba desde o emprego doméstico, passando pelo
setor administrativo, pela saúde, a educação,
a administração pública. Como se
pode deduzir, o setor de serviços absorve trabalhadores(as)
dos mais diversos níveis de escolaridade, que
desenvolvem uma enorme gama de profissões e ocupações.
Contrariando
o passado, as mulheres ocupam cada vez mais espaço
no mercado de trabalho. Se em 1970 apenas 18% das mulheres
brasileiras trabalhavam, em 2004 este número
atingiu a porcentagem de 51,6%, inclusive em profissões
tradicionalmente masculinas. A que se deve este novo
cenário? Que motivos levaram as mulheres a se
interessar por profissões como mecânica,
frentista, engenheira...
O aumento da escolaridade dos brasileiros e, principalmente,
das mulheres, desde os anos 1970 pode ser considerado
um fator propulsor de mudanças culturais importantes.
Entre elas, estaria a diversificação da
escolha profissional feminina. Essa diversificação
seguiu tanto na direção de novas áreas,
novas profissões, como por exemplo, as Ciências
Biológicas, as Engenharias, o Direito, a Informática,
como em direção a novas profissões,
internamente às áreas em que a presença
das mulheres já era tradicional. Por exemplo,
na saúde, se a Enfermagem sempre foi e continua
sendo um campo profissional feminilizado, a Medicina
não era e, hoje, segue nessa direção,
uma vez que cerca de 40% dos médicos, atualmente,
são do sexo feminino.
Além
da demanda do mercado e das suas qualificações
para atendê-la, de que depende o trabalho da mulher?
Que fatores estão presentes para determinar a
permanência ou o ingresso da mulher no mundo do
trabalho?
Hoje, o ciclo de vida das mulheres, quer dizer, o casamento,
a maternidade, não representa mais um obstáculo
intransponível à permanência da
mulher no mercado de trabalho, como acontecia até
os anos de 1970. Sobretudo quando as crianças
são muito pequenas, até 2 anos, há
maiores dificuldades, uma vez que, em geral, as mulheres
têm ainda a maior responsabilidade pelo cuidado
com as crianças, no casal.
Quais são
os principais problemas enfrentados pelas mulheres para
garantir seu espaço? O preconceito ainda é
o principal? Como minimizar este problema?
Dependendo da profissão que escolheram, a discriminação
contra a mulher tem se mostrado mais forte, como tem
sido constatado em numerosos estudos e pesquisas. Em
geral, essa discriminação não é
explícita, o que torna mais difícil para
as mulheres identificá-la e reagir a ela. Invariavelmente
a discriminação parte dos homens, normalmente,
dos colegas de profissão que estão no
mesmo nível. Uma das causas é o receio
de que a colega venha a competir com eles por melhores
posições na empresa. A minimização
desse problema começa, primeiro, pela conscientização
de que ele existe. É muito comum as mulheres
não se darem conta do processo de discriminação
e reagirem trabalhando mais e mais, o que, por sua vez,
alimentará a resistência dos colegas. Estão
aí os ingredientes para o, atualmente, tão
discutido assédio moral no trabalho.
Refletindo
a tendência do mercado, os cursos tecnológicos
recebem mais alunas do que acontecia antes. Que avaliação
a sra. faz destes cursos? O espaço das mulheres
está em patamar de igualdade com o dos homens?
Se as mulheres têm adentrado, praticamente, em
todas as profissões, aquelas ligadas à
área tecnológica ainda resistem à
sua presença. E a Engenharia, dentre elas, é
a mais resistente. Os porquês dessa tendência
persistente podem ser encontrados, basicamente, nos
padrões culturais vigentes na nossa sociedade.
Quer dizer, o círculo não virtuoso que
engendra essa tendência seria mais ou menos o
seguinte: as mulheres não desejariam as profissões
tecnológicas por não se sentirem aptas
para desempenhá-las, por as perceberem como masculinas
e por anteciparem dificuldades para conseguir emprego
pelo fato de serem mulheres; as empresas preferem homens
justificando a escolha pelas condições
de trabalho, supostamente, mais difíceis e pelo
ambiente majoritariamente masculino e as famílias,
em geral, estimulam as filhas a seguirem profissões
consideradas mais apropriadas para as mulheres.
As escolas
estão preparadas para receber estas estudantes?
Que questões devem receber o foco do debate quanto
ao ensino tecnológico e ao gênero?
Hoje em dia, as escolas têm infra-estrutura (leia-se
banheiros) para receber as moças, coisa que não
havia no passado recente. Mas, muitas vezes, há
resistências por parte de alguns professores e
alunos. De uma maneira geral, entretanto, os ambientes
escolares tendem a ser menos hostis às mulheres
do que os ambientes de trabalho. A discussão
sobre as mulheres em profissões (e, em decorrência,
em cursos) da área tecnológica deve acontecer
no âmbito das famílias, nas escolas e nas
empresas, da sociedade civil como um todo, mirando os
estereótipos e padrões de gênero
sobre a masculinidade ou feminilidade das profissões.
Até que esses padrões de alterem.
Há
alguma pesquisa a este respeito em desenvolvimento na
Fundação Carlos Chagas atualmente?
Na Fundação Carlos Chagas há uma
linha de pesquisa sobre mulheres em profissões
majoritariamente masculinas, que eu coordeno. Atualmente,
desenvolvo um projeto sobre as mulheres nas forças
armadas, enfocando, para começar a Marinha. |