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  :. A responsabilidade social como questão de consciência. E também de educação
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A responsabilidade social como questão de consciência. E também de educação
Em pauta, o aumento da consciência sobre a necessidade de incentivo e prática da responsabilidade social por parte dos empresários. E o papel estratégico da educação na formação de uma sociedade mais participativa

Renato Deccache

Sustentabilidade é o tema da moda. E não só porque é preciso preservar a natureza por causa do aquecimento global, que ameaça a vida no planeta a médio e longo prazo. É cada vez mais comum a idéia da empresa e do profissional sustentáveis, ou seja, que aliam os objetivos de mercado à necessidade de uma postura socialmente responsável diante da realidade. Esta mudança de atitude pode ser percebida em várias ações, desde o uso racional dos insumos produtivos até a promoção de estratégias para valorizar e capacitar o quadro funcional. Em comum a todas as práticas do tipo, está a idéia de que o crescimento econômico, a melhoria da qualidade de vida e distribuição de renda não são metas antagônicas.

“Geração de emprego, crescimento econômico e responsabilidade social empresarial caminham juntos”, resume o presidente do Sistema Firjan, Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira.
Segundo o representante do setor industrial, é importante que as empresas procurem mapear sua atuação socialmente responsável, com uma análise crítica de suas iniciativas com o público interno, clientes, fornecedores, governo, sociedade, comunidade e meio ambiente. “A partir desse diagnóstico, é possível traçar um plano de ação de melhoria contínua dos indicadores de responsabilidade social”, destacou o empresário.

Especialistas nas áreas de Indústria, Comércio e Empreendedorismo destacam que a responsabilidade social ocupará, em pouco tempo, espaço tão relevante na pauta de atuação das empresas quanto é, hoje, o binômio melhor qualidade e menor preço. E parecem ter razão. Afinal, em alguns países europeus, já existem restrições formais, por parte de governos, ou mesmo informais, como reação dos próprios consumidores, a bens que têm como origem a degradação do meio ambiente e a exploração humana em níveis hoje inaceitáveis. “Mais cedo ou mais tarde, essa tendência vai chegar ao Brasil e a forma como um empreendimento comercial, pequeno ou grande, se comporta frente à sustentabilidade do planeta será um diferencial importante de mercado”, prevê Rudolf Höhn, presidente do conselho empresarial de ética e responsabilidade social da Associação Comercial do Rio de Janeiro.

Para o diretor superintendente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-RJ), Sergio Malta, a concepção de que é preciso crescer e, ao mesmo tempo, promover desenvolvimento social se torna cada vez mais forte no meio empresarial, embora ainda esteja distante do ideal. “Se os empresários vissem que a responsabilidade social é um ótimo negócio, todas as empresas estariam desenvolvendo ações que fomentam inclusão social”, destacou Sergio Malta.


O ensino corporativo entra na pauta das empresas

Se o país tem avançado na popularização do acesso à escola, por outro lado, a educação brasileira tem deixado a desejar do ponto de vista da qualidade. Isto pode ser constatado não só a partir de indicadores de desempenho dos estudantes em avaliações nacionais e internacionais, mas na visão dos próprios representantes do setor produtivo. Uma das conseqüências da qualidade ruim nos 12 primeiros anos de escolaridade é o reflexo negativo dos trabalhadores no mercado de trabalho. Não por acaso, uma das tendências no segmento empresarial é a criação de universidades corporativas, para complementar a formação dos profissionais e, em vários casos, corrigir deficiências do período escolar. “Este segmento vem se expandindo porque as empresas não conseguem as pessoas capacitadas de que precisam”, salienta Rudolf Höhn. Para ele, o movimento das grandes empresas em criar universidades corporativas é um sinal de que a educação brasileira precisa se adaptar aos novos tempos de competitividade econômica. “Não falo de conhecimentos específicos que uma determinada atividade necessite. Falo de aspectos mais gerais. Há empresas que têm de ajudar pessoas a escrever bem”, frisou o representante da Associação Comercial do Rio. As universidades corporativas estão, em geral, ligadas a empresas de grande porte. Mas, segundo o diretor superintendente do Sebrae-RJ, Sergio Malta, o investimento pode ser viável para o setor de micro e pequenas empresas. “Aquelas que atuam em um mesmo segmento, em arranjos produtivos locais, podem investir em universidades corporativas compartilhadas, por meio de consórcios”, destacou Sergio Malta, que acha válidos investimentos nesta linha. “É uma importante iniciativa, na atual sociedade do conhecimento. O investimento nos colaboradores é um dos nortes seguidos por quem é responsável socialmente”.

Para o presidente do Sistema Firjan, a criação de universidades corporativas é conseqüência de um mercado onde as organizações se tornam mais complexas e desafiam, cada vez mais, os profissionais que nelas atuam. “A educação corporativa é uma forma inteligente de manter a empresa competitiva e de promover a responsabilidade social, trazendo mais valor à carreira e desenvolvendo novas competências nos profissionais”, avaliou Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira.


Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira,
presidente do Sistema Firjan

“Tão importante quanto a disposição do empresariado em pautar suas atividades nos princípios da responsabilidade social é o Brasil ter uma população consciente, capaz de cobrar esta postura dos agentes públicos e privados. Uma das formas de se alcançar isto é a melhoria da qualidade do ensino”
 

“Geração de emprego, crescimento econômico e responsabilidade social empresarial (RSE) caminham juntos. A responsabilidade social é uma forma de administrar um negócio, com indicadores objetivos de acompanhamento, que definem as ações necessárias para a empresa manter o relacionamento com os seus diversos públicos da forma mais sustentável, transparente e ética possível. Isso se traduz em confiança no negócio da empresa, fator fundamental para seu desempenho, longevidade e, portanto, com impacto positivo na geração de emprego e na economia. As ações que uma empresa pode tomar devem partir de um diagnóstico do seu nível de responsabilidade social, mapeando suas iniciativas com o público interno, clientes, fornecedores, governo, sociedade, comunidade e meio ambiente. A partir desse diagnóstico, é possível traçar um plano de ação de melhoria contínua nesta linha. A meu ver, sobretudo no setor da indústria, o empresariado já tem consciência do quanto é importante atuar em sintonia com os princípios da responsabilidade social. E de forma pioneira, começando com um grande engajamento em investimentos voluntários nas comunidades, apesar de o Brasil ter uma das maiores cargas tributárias do mundo, que deve servir para financiar as políticas públicas como educação e saúde. Além disso, o mercado entende que empresas que administram seu negócio sob a ótica da RSE têm menos risco. A indústria, ciente do benefício desse instrumento, está no grupo de trabalho da Iso 26000, que trata da responsabilidade social e se faz presente com grandes empresas no Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa e no Dow Jones Sustainability Index, que além de analisar o desempenho financeiro, avalia os desempenhos ambiental e social. Até em função disto, o Sistema Firjan tem uma equipe especializada para assessorar a empresa a conduzir esse processo. Criamos também o Conselho de Responsabilidade Social em 2000, formado por 40 empresas e com oito núcleos nas sedes de suas representações regionais no interior do estado e em Macaé, totalizando mais de 200 empresas participantes. Essas empresas têm a oportunidade de discutir e conhecer novas ferramentas nas reuniões mensais, em circuitos de capacitação e seminários que realizamos. Além disso, o Sistema Firjan tem uma equipe especializada para assessorar a empresa na implementação de ferramentas de gestão de RSE, no desenvolvimento de planos de ação de melhoria contínua, no diagnóstico e na recomendação de linhas de ação e desenvolvimento de projetos sociais. O Sistema Firjan conta, ainda, com um fundo de apoio a projetos sociais com recursos da Fundação Interamericana para estimular as empresas a investirem na comunidade, em parceria com organizações do terceiro setor. A empresa pode contar com recursos, a fundo perdido, de R$30 mil, para projetos de geração de trabalho e renda, capacitação profissional e desenvolvimento local, desde que aporte contrapartida igual ou superior a esse montante. Tão importante quanto a disposição do empresariado em pautar suas atividades nos princípios da responsabilidade social é o Brasil ter uma população consciente, capaz de cobrar esta postura dos agentes públicos e privados. Como uma das formas de se alcançar isto é a melhoria da qualidade do ensino nas escolas e universidades, no nosso entendimento, o investimento em educação, na qualificação das pessoas, é questão fundamental para o desenvolvimento social e econômico do Estado. Trata-se de uma estratégia importante, pois muitas empresas não conseguem se beneficiar dos ciclos de aceleração de desenvolvimento econômico em função da ausência de profissionais qualificados. Os limitados investimentos em formação profissional decorrem, em parte, de esta vertente ter sido historicamente marcada, no Brasil, por uma visão assistencialista e voltada para as classes menos favorecidas. Soma-se a isso o fato de que grande parcela da população não possui o ensino médio completo, limitando as competências básicas para o desenvolvimento da qualificação profissional.


Sergio Malta, diretor
superintendente do Sebrae-RJ
“Se os empresários vissem que a responsabilidade social é um ótimo negócio, todas as empresas estariam desenvolvendo ações que fomentam inclusão social. Mas os tributos e os custos operacionais estão entre as prioridades que, muitas vezes, consomem os recursos que poderiam ser investidos nesta linha”
 

Primeiramente, é importante não confundir responsabilidade social com filantropia. Responsabilidade social é algo mais amplo, que permite a pessoas sem acesso à cultura, tecnologia, conseguirem oportunidades no mercado de trabalho. Uma postura socialmente responsável por parte das empresas envolve não somente ações externas, mas segue uma linha ética, pois há um compromisso com a sociedade, que é encontrado em todos os lugares, com o respeito a etnias, orientação sexual, idade, sexo, sem descriminações e desigualdades, e que dá iguais oportunidades a todos.
Uma empresa socialmente responsável, por exemplo, ao lado do cuidado com o meio ambiente, com a comunidade em que atua, com o relacionamento justo com seus clientes e fornecedores, desenvolve ações para inserção de seus colaboradores, por meio de cursos de capacitação, de idiomas, de informática e oficinas que permitam o aprendizado na prática. Isso faz com que os beneficiados sintam-se mais seguros e mais preparados para enfrentar o mercado de trabalho que aí, sim, será capaz de absorvê-los. Por fim, essa cadeia acaba aquecendo a economia. Como exemplos, podemos citar a implantação de telecentros (instalações físicas com computadores) para as comunidades do entorno da empresa. Outros exemplos são o estímulo à criação de unidades de reciclagem que absorvam material reciclável fornecido por indústrias, a implantação de ações esportivas e de lazer para funcionários, suas famílias e para a comunidade da região e a realização de palestras sobre saúde preventiva voltadas para funcionários e moradores do entorno da empresa. Apesar da importância do assunto, infelizmente, a conscientização dos empresários do setor produtivo sobre sua responsabilidade social ainda é um movimento que está em seu início. Mas houve avanços. Tempos atrás, a sociedade cobrava apenas do governo ações de responsabilidade social. Atualmente, todos, inclusive os empresários, já estão mais conscientes de seu papel socialmente responsável. Se os empresários vissem que a responsabilidade social é um ótimo negócio, todas as empresas estariam desenvolvendo ações que fomentam inclusão social. Mas ainda há dificuldades no próprio dia-a-dia das empresas que contribuem para que essas ações não avancem. Os tributos e os custos operacionais estão entre as prioridades que, muitas vezes, consomem os recursos que poderiam ser investidos nesta linha. O importante é que os empresários sejam criativos e busquem alternativas para ajudar a quem precisa. Por exemplo: uma empresa que esteja fazendo troca de computadores por mais modernos pode utilizar os antigos para abrir uma oficina de informática na sua vizinhança. Isso faz com que o entorno da empresa se transforme no “celeiro” de mão-de-obra que poderá ser utilizada, futuramente, na própria empresa. Com o intuito de contribuir para conscientizar o setor produtivo acerca do tema, o Sebrae realizou uma parceria com o Instituto Ethos para a elaboração de cartilhas que conscientizam sobre formas de atuação socialmente responsável. Além disso, o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios usa o item responsabilidade social como fator de avaliação dos relatos das mulheres empreendedoras. Outra ação, desta vez do Sebrae-RJ em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, vem acompanhando trimestralmente o índice de dinamismo das empresas (IDIM) em que um dos itens é a responsabilidade social. E, ainda, uma das prioridades estratégicas do Sebrae é atuar em regiões com baixo índice de desenvolvimento humano (IDH), com ações de cooperativismo, associativismo, reciclagem, artesanato, confecção, cultura, entre outras que levem o resultado dessas ações em eventos de grande porte. Outro segmento em que necessitamos avançar para uma sociedade mais socialmente responsável é o da educação, que, por sinal, é um instrumento vital para a inclusão de nossos jovens no setor produtivo. Mas, para que o setor educacional possa desempenhar este e outros papéis importantes para o mundo do trabalho, é preciso que seja complementado com capacitações que levem aos alunos noções de empreendedorismo, associativismo e cidadania. Organização de palestras e visitas a empresas para ilustrar de melhor forma o funcionamento dos negócios na prática seria algo bastante relevante.


Rudolf Höhn, presidente do conselho
de responsabilidade social da ACRJ
“Tão importante quanto estimular os empresários é criar condições para que a sociedade cobre uma postura socialmente responsável do setor produtivo. Daí a importância de a escola brasileira fazer parte deste esforço. O Brasil conseguiu ampliar o acesso ao ensino mas a qualidade ainda deixa muito a desejar”
 

“Responsabilidade social é uma expressão de significado muito amplo e um objetivo que pode ser colocado em prática a partir das mais variadas ações. O ponto de partida para qualquer instituição, a meu ver, é valorizar seus funcionários e dar condições decentes de trabalho a eles. As empresas precisam usar de forma consciente seus recursos, pagar bem seus funcionários, usar recursos básicos como água e energia elétrica de maneira racional, entre outras iniciativas.
Mas, há outras estratégias importantes neste sentido. Especificamente no setor comercial, que representamos, é importante que as empresas, grandes ou pequenas, busquem operar dentro de seus negócios de forma a desenvolver nos funcionários uma consciência da necessidade de preservação ambiental. Um restaurante, por exemplo, pode contribuir muito ao realizar práticas que possibilitem a reciclagem do lixo que produz. O mesmo vale para uma loja, em relação ao papel que usa.

Outra maneira em que o setor de comércio pode atuar de forma socialmente responsável é a abertura de espaço maior no mercado para a venda de produtos reciclados, especialmente quando elaborados por cooperativas de comunidades carentes. É uma forma de estimular a geração de empregos e de renda, por um lado, e de uma consciência cidadã no uso de recursos ambientais, por outro, nestas áreas de baixa renda.

Já são várias as cooperativas que produzem bens a partir de produtos reciclados. E seria interessante que os lojistas, de forma geral, tivessem maior consciência e abrissem mais espaço para vender, além dos bens fabricados em larga escala, a produção destas comunidades de baixa renda. Até porque, mais cedo ou mais tarde, vai existir uma preocupação natural do mercado também com a questão ambiental. Não estamos longe do dia em que um produto, para conquistar consumidores, precisará ser bem feito, ter qualidade, bom preço e, ainda, contribuir para a sustentabilidade do planeta. Em alguns países europeus, já existe uma certa rejeição a bens elaborados com madeira extraída de áreas de preservação ambiental ou produzidos em locais que utilizam mão-de-obra escrava, por exemplo. Mais cedo ou mais tarde essa tendência vai chegar ao Brasil e a forma como um empreendimento comercial, pequeno ou grande, se comporta frente à sustentabilidade do planeta será um diferencial importante de mercado.

Em relação aos empresários do setor de comércio, ainda não há o nível de conscientização sobre a questão da responsabilidade social que gostaríamos que existisse. Mas os empreendedores do setor, a meu ver, gradualmente passam a ter uma consciência maior sobre o tema. No Rio de Janeiro, por exemplo, algumas associações de bairro já se mobilizam para convencer os lojistas a abrirem mais espaço para produtos elaborados por cooperativas de baixa renda, a partir de material reciclado. Mas acho que esta conscientização crescerá na medida em que o consumidor exigir esta preocupação maior das empresas com a sustentabilidade.

Nós, da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), também estamos engajados neste desafio. Internamente, realizamos um trabalho com vistas a tornar a instituição um exemplo nesta área de consumo e utilização consciente de energia, material de trabalho e outros objetivos. E vamos estimular o mesmo tipo de atitude entre nossos associados, especialmente nas micro e pequenas empresas comerciais, pois as grandes, em geral, já têm esta noção. Pretendemos procurar também associações de outros municípios e vamos criar um prêmio para aquelas que mais se destacarem nesta linha. É mais um estímulo.
No entanto, tão importante quanto estimular os empresários é criar condições para que a sociedade cobre uma postura socialmente responsável do setor produtivo. Daí a importância de a escola brasileira fazer parte deste esforço. O Brasil conseguiu ampliar o acesso ao ensino mas a qualidade ainda deixa muito a desejar. Não se trata só de ensinar conteúdos. Para conscientizarmos os brasileiros sobre temas relevantes do ponto de vista social, é necessário que as escolas trabalhem mais com os valores junto aos alunos e, ainda, atuem em parceria com as famílias. É preciso ensinar nossos jovens e crianças a terem uma nova postura diante da vida e do planeta.