Reportagens
 
 
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  :. Fim do analfabetismo? Só se a Educação se tornar prioridade
  :. Incentivo à leitura: Uma tarefa básica dos pais e um desafio aos professores
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  :. Magistério: uma área marcada pelo estresse
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  :. ProUni e Fies: Programas de financiamento repletos de entraves burocráticos
  :. Educação Indígena: A lição de uma escola preocupada com o coletivo,a diversidade e o meio ambiente.
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  :. A responsabilidade social como questão de consciência. E também de educação
  :. O papel dos pesquisadores no campo acadêmico
 
   
   
     
     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O papel dos pesquisadores no campo acadêmico
Dedicar-se às aulas, aos alunos e ao processo de aprendizagem. E, além disso, ter a disposição de buscar novos conhecimentos. Esse é papel desempenhado por muitos professores que, apesar das adversidades e da falta de incentivo, investem na pesquisa como um caminho do pleno exercício profissional.

Luciana Rosário
 

Ministrar aulas em instituições de ensino, organizar programas de conteúdo e avaliar os alunos. Estas são as tarefas comuns a todos os professores em exercício. Entretanto, existe boa parcela dessa classe que também dedica parte de seu tempo à produção de novos conhecimentos através das pesquisas. Estes professores pesquisadores, em sua maioria, são educadores do ensino superior público brasileiro, especialistas em suas áreas de atuação e com uma característica em comum: a determinação.

De acordo com Pablo Gentili, que estuda educação na América Latina, a base das pesquisas brasileiras está mesmo nas universidades públicas, com poucas exceções. “O que acontece no caso das particulares é que elas contratam os grandes pesquisadores da área pública para integrarem seus quadros docentes, para que o público tenha a idéia de que todo o seu corpo docente é composto por pessoas conhecidas. E são poucos” diz.
Para Gentili, são os altos custos que impedem as particulares de se dedicarem tanto às pesquisas. “Isso acontece porque a pesquisa não é um produto que pode render capital rapidamente. Geralmente, ela demora alguns anos até ser concluída e não apresenta o retorno rápido desejado por essas instituições particulares. Tendo em vista que hoje temos 70% dos estudantes universitários nas instituições privadas, eles acabam sem a oportunidade de ter suas pesquisas incentivadas, ficando apenas com o ensino voltado para a formação para o mercado de trabalho”, afirmou Gentili.

Pesquisa exige recursos e longo tempo de dedicação

Segundo alguns pesquisadores, se houvesse um mecanismo de remuneração adequado às necessidades do pesquisador, as condições para realização de pesquisas seriam bem melhores no país. “Mesmo com todas as dificuldades, acredito que se existe um grupo de pesquisas competente, ele conseguirá os recursos. O que não significa que o pesquisador seja remunerado de forma satisfatória. No Brasil não é permitido que a remuneração do pesquisador saia direta ou indiretamente dos recursos recebidos para o projeto de pesquisa”, explicou Marcelo Burattini, professor e pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Entre as pesquisas de destaque do laboratório de Burattini está a implantação de um programa eficaz de prevenção contra a Rubéola. “Em 1992, o estado de São Paulo implantou a vacina contra a doença para previnir a Síndrome da Rubéola Congênita, adquirida pelas mulheres durante a fase reprodutiva. O principal risco está relacionado à gravidez, que pode causar, entre outras conseqüências, o retardo mental da criança. Nosso programa de saúde pública garantiu o não aumento da Rubéola Congênita e a Secretaria de Estado da Saúde adotou nossa estratégia”, contou.

Este projeto da equipe de Burattini demorou cerca de três anos para ser concluído e contou com trabalho de campo de pesquisas clínicas. Segundo o pesquisador, pode-se dizer que foi realizado em um tempo razoável. Ainda de acordo com ele, na área médica, uma pesquisa de ponta de uma instituição oficial gera muito menos resultados do que poderia ser gerado se fosse realizada na área privada. “O prazo de amadurecimento de um pesquisador é muito longo e este profissional, geralmente, necessita ter fontes externas de recursos. O que o leva a ter outras atividades diferentes da pesquisa. O que faz dos Estados Unidos mais avançado na área de pesquisa é a relação com o pesquisador, que pode ficar mais concentrado em seu objeto de pesquisa, pois ele não tem que trabalhar em mais nada para conseguir uma remuneração suficiente para se sustentar e sustentar sua família”, comentou.

É preciso flexibilizar regras para o pesquisador

Para o professor Marcelo Burattini, flexibilidade é a palavra-chave para mudar o cenário da pesquisa no Brasil e fazer com que novos pesquisadores e estudos possam aparecer. “Isto porque as normas de recursos e de implantação são muito rígidas. Existem muitas restrições que inibem o desenvolvimento da atividade de pesquisa, que precisa ser livre para ser mais competente. Outro problema é a homogeneização dos grupos. Grupos de áreas diferentes têm necessidades diferentes e as regras deveriam se adequar aos grupos. Hoje temos muitas regras que encarecem os processos de pesquisas”, concluiu.

Augusto Cury concorda com Burattini ao afirmar que as condições para a realização de trabalhos de pesquisa no Brasil são mais difíceis - o que certamente freia o pleno desenvolvimento do setor. Cury é médico, psiquiatra, psicoterapeuta, escritor, pós-graduado em Psicologia Social e desenvolveu a teoria da Inteligência Multifocal, sobre o funcionamento da mente e o processo de construção do pensamento. É pesquisador na área de qualidade de vida e desenvolvimento da inteligência, abordando a natureza, a construção e a dinâmica da emoção e dos pensamentos.

Atualmente, o pesquisador reside nos Estados Unidos, onde concluiu sua última pesquisa sobre a Síndrome do Pensamento Acelerado. “É possível que uma grande parte da população sofra dessa Síndrome, com características muito claras - como ansiedade, insegurança e perda de memória, principalmente sobre rostos e nomes. A Síndrome está relacionada à intensa assimilação de novas informações a cada momento. Temos que gravar muitas informações e nosso ‘computador’ não consegue e entra em curto”, afirmou Cury.

De acordo com o pesquisador, os jovens e estudantes são os mais atingidos pela Síndrome. “Além de terem de assimilar todos os conhecimentos passados na escola, os estudantes têm diversos compromissos a cumprir, como cursos e atividades esportivas ou dança”, salientou Augusto Cury, que lança seu próximo livro A sabedoria nossa de cada dia até o final deste mês, pela editora Sextante.


Pesquisa e educação em ligação contínua

“Acho praticamente impossível ser um professor universitário sem desenvolver um trabalho de pesquisa”. A frase é de Pablo Gentili, professor e pesquisador do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

De acordo com o pesquisador, separar as duas ações - de pesquisador e professor -, ou escolher apenas uma, é um desafio que ele ainda não conseguiu resolver. “Minha vida fora da sala de aula normalmente tem a ver com minhas atividades políticas e minha militância pelo direito a Educação na América Latina e contra o racismo. Mas confirmo que tenho uma dificuldade de dividir as duas tarefas de professor e pesquisador, quando é preciso. Sem dúvida nenhuma, uma tarefa complementa a outra, apesar de haver alguns docentes que não desenvolvem esse trabalho de pesquisa”, disse.

Segundo Gentili, é através do trabalho de pesquisa que um professor consegue atualizar seus conhecimentos. Além de ser uma oportunidade de estabelecer novos contatos, participar de congressos e eventos educacionais e se comunicar com outros profissionais.

Para o professor e pesquisador, que faz palestras em vários países latino-americanos, o Brasil está à frente na área de pesquisas ao ser comparado com outros países abaixo do Equador. “Entre os países da América Latina, o Brasil está muito à frente na área de pesquisas. Mas ainda falta um investimento muito maior para haver um crescimento dessa área. Há uma grande instabilidade no investimento para proporcionar o desenvolvimento tecnológico necessário”, afirmou Gentili.