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Ministrar aulas em
instituições de ensino, organizar programas
de conteúdo e avaliar os alunos. Estas são
as tarefas comuns a todos os professores em exercício.
Entretanto, existe boa parcela dessa classe que também
dedica parte de seu tempo à produção
de novos conhecimentos através das pesquisas.
Estes professores pesquisadores, em sua maioria, são
educadores do ensino superior público brasileiro,
especialistas em suas áreas de atuação
e com uma característica em comum: a determinação.
De acordo com Pablo Gentili, que estuda educação
na América Latina, a base das pesquisas brasileiras
está mesmo nas universidades públicas,
com poucas exceções. “O que acontece
no caso das particulares é que elas contratam
os grandes pesquisadores da área pública
para integrarem seus quadros docentes, para que o público
tenha a idéia de que todo o seu corpo docente
é composto por pessoas conhecidas. E são
poucos” diz.
Para Gentili, são os altos custos que impedem
as particulares de se dedicarem tanto às pesquisas.
“Isso acontece porque a pesquisa não é
um produto que pode render capital rapidamente. Geralmente,
ela demora alguns anos até ser concluída
e não apresenta o retorno rápido desejado
por essas instituições particulares. Tendo
em vista que hoje temos 70% dos estudantes universitários
nas instituições privadas, eles acabam
sem a oportunidade de ter suas pesquisas incentivadas,
ficando apenas com o ensino voltado para a formação
para o mercado de trabalho”, afirmou Gentili.
Pesquisa exige recursos e longo tempo de dedicação
Segundo alguns pesquisadores, se houvesse um mecanismo
de remuneração adequado às necessidades
do pesquisador, as condições para realização
de pesquisas seriam bem melhores no país. “Mesmo
com todas as dificuldades, acredito que se existe um
grupo de pesquisas competente, ele conseguirá
os recursos. O que não significa que o pesquisador
seja remunerado de forma satisfatória. No Brasil
não é permitido que a remuneração
do pesquisador saia direta ou indiretamente dos recursos
recebidos para o projeto de pesquisa”, explicou
Marcelo Burattini, professor e pesquisador da Faculdade
de Medicina da Universidade de São Paulo (USP)
e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Entre as pesquisas de destaque do laboratório
de Burattini está a implantação
de um programa eficaz de prevenção contra
a Rubéola. “Em 1992, o estado de São
Paulo implantou a vacina contra a doença para
previnir a Síndrome da Rubéola Congênita,
adquirida pelas mulheres durante a fase reprodutiva.
O principal risco está relacionado à gravidez,
que pode causar, entre outras conseqüências,
o retardo mental da criança. Nosso programa de
saúde pública garantiu o não aumento
da Rubéola Congênita e a Secretaria de
Estado da Saúde adotou nossa estratégia”,
contou.
Este projeto da equipe de Burattini demorou cerca de
três anos para ser concluído e contou com
trabalho de campo de pesquisas clínicas. Segundo
o pesquisador, pode-se dizer que foi realizado em um
tempo razoável. Ainda de acordo com ele, na área
médica, uma pesquisa de ponta de uma instituição
oficial gera muito menos resultados do que poderia ser
gerado se fosse realizada na área privada. “O
prazo de amadurecimento de um pesquisador é muito
longo e este profissional, geralmente, necessita ter
fontes externas de recursos. O que o leva a ter outras
atividades diferentes da pesquisa. O que faz dos Estados
Unidos mais avançado na área de pesquisa
é a relação com o pesquisador,
que pode ficar mais concentrado em seu objeto de pesquisa,
pois ele não tem que trabalhar em mais nada para
conseguir uma remuneração suficiente para
se sustentar e sustentar sua família”,
comentou.
É preciso flexibilizar regras para o
pesquisador
Para o professor Marcelo Burattini, flexibilidade é
a palavra-chave para mudar o cenário da pesquisa
no Brasil e fazer com que novos pesquisadores e estudos
possam aparecer. “Isto porque as normas de recursos
e de implantação são muito rígidas.
Existem muitas restrições que inibem o
desenvolvimento da atividade de pesquisa, que precisa
ser livre para ser mais competente. Outro problema é
a homogeneização dos grupos. Grupos de
áreas diferentes têm necessidades diferentes
e as regras deveriam se adequar aos grupos. Hoje temos
muitas regras que encarecem os processos de pesquisas”,
concluiu.
Augusto Cury concorda com Burattini ao afirmar que as
condições para a realização
de trabalhos de pesquisa no Brasil são mais difíceis
- o que certamente freia o pleno desenvolvimento do
setor. Cury é médico, psiquiatra, psicoterapeuta,
escritor, pós-graduado em Psicologia Social e
desenvolveu a teoria da Inteligência Multifocal,
sobre o funcionamento da mente e o processo de construção
do pensamento. É pesquisador na área de
qualidade de vida e desenvolvimento da inteligência,
abordando a natureza, a construção e a
dinâmica da emoção e dos pensamentos.
Atualmente, o pesquisador reside nos Estados Unidos,
onde concluiu sua última pesquisa sobre a Síndrome
do Pensamento Acelerado. “É possível
que uma grande parte da população sofra
dessa Síndrome, com características muito
claras - como ansiedade, insegurança e perda
de memória, principalmente sobre rostos e nomes.
A Síndrome está relacionada à intensa
assimilação de novas informações
a cada momento. Temos que gravar muitas informações
e nosso ‘computador’ não consegue
e entra em curto”, afirmou Cury.
De acordo com o pesquisador, os jovens e estudantes
são os mais atingidos pela Síndrome. “Além
de terem de assimilar todos os conhecimentos passados
na escola, os estudantes têm diversos compromissos
a cumprir, como cursos e atividades esportivas ou dança”,
salientou Augusto Cury, que lança seu próximo
livro A sabedoria nossa de cada dia até o final
deste mês, pela editora Sextante. |