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João Cardoso Palma Filho
De acordo com a Lei
de Diretrizes e Bases (LDB), de 1996, todos os professores
da educação básica - formada pela
educação infantil, ensino fundamental
e ensino médio - deveriam ter formação
superior até 10 anos após a publicação
da lei. O prazo venceu no ano passado, mas ainda existem
muitos professores no país exercendo o magistério
sem ter cursado a faculdade e, algumas vezes, até
mesmo sem formação de nível médio.
Com o objetivo de suprir essa carência no estado
de São Paulo e prover o ensino municipal de professores
mais bem capacitados, a Universidade Estadual Paulista
(Unesp), em parceria com o governo do estado e prefeituras
criou, em 2002, o Projeto Educação Cidadã,
que oferece curso de Licenciatura em Pedagogia para
professores da educação infantil e séries
iniciais do ensino fundamental, que mais sofrem com
a falta de professores especializados. “Infelizmente,
em nosso país, essa é a etapa do ensino
que recebe menos cuidados e atenção. Esses
profissionais não são educadores, mas
apenas tomam conta das crianças”, avalia
João Cardoso Palma Filho, coordenador geral adjunto
do projeto. “Eu acredito não haver dúvidas
de que quanto melhor for a formação dos
professores que atuam nessa faixa etária, melhores
serão os resultados da educação
como um todo”, acrescenta. Confira na íntegra:
Qual a importância
da formação superior para os professores
de educação infantil e das primeiras séries
do ensino fundamental?
João Cardoso Palma Filho - Em
primeiro lugar, existe uma exigência legal, já
que de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases, que é
a atual lei do ensino no Brasil, fica determinado que,
em um prazo de dez anos, contados a partir de 1996,
para poder ingressar no magistério, seja na educação
infantil ou nos ensinos fundamental e médio,
é preciso que o professor tenha formação
de nível superior. Ou seja, o prazo já
terminou. A formação superior hoje pode
ser obtida por meio de um curso de Pedagogia ou no curso
Normal Superior, que foi criado por esta mesma Lei de
Diretrizes e Bases. Mas independentemente da questão
legal, existem muitos estudos que mostram que o professor
que tem, além da formação de nível
médio, uma formação superior -
que não precisa ser necessariamente de Pedagogia,
pode ser de Letras, Geografia, História, etc
- consegue um melhor rendimento com as crianças.
Quais as lacunas
criadas pela falta deste tipo de formação?
Os resultados das avaliações que vêm
sendo feitas mostram que o professor que não
possui a formação superior não
está preparado para alfabetizar. Mas é
claro que o problema não é só o
professor. Existe uma tendência de se jogar toda
a responsabilidade para cima do professor, esquecendo
uma série de outros fatores. Na verdade, a forma
como a escola está organizada interfere, o número
de alunos, a existência ou não de material
pedagógico adequado, a participação
da família, entre outros. Agora, não há
dúvida alguma de que os professores não
têm sido preparados adequadamente e, mesmo quando
essas condições que eu mencionei são
boas, não há como obter bons resultados
se os professores tiverem essa deficiência de
formação. Isso não é culpa
do professor, mas das instituições que
não estão os formando de maneira adequada.
Como surgiu
e como funciona o Projeto Pedagogia Cidadã?
O Projeto foi uma iniciativa da Unesp junto com o governo
do estado de São Paulo e de prefeituras municipais.
Ele começou a ser montado em 2001 e a primeira
turma iniciou o curso em 2002. O objetivo é,
por meio de convênio com municípios, propiciar
que os professores das redes municipais que não
têm curso superior possam fazer esse curso. O
curso foi organizado em três grandes blocos de
conteúdo: fundamentos de educação
(história da educação, sociologia,
ética, etc), conteúdos (alfabetização,
matemática, artes, etc) e gestão educacional.
Nós pensamos o curso de forma integrada, ou seja,
ele forma tanto para ser professor como para o exercício
de atividades ligadas à gestão educacional,
como por exemplo as funções de diretor
de escola ou supervisor. O curso funciona sob a coordenação
das unidades da Unesp no interior, por meio de aulas
presenciais, videoconferências e teleconferências,
além dos cadernos de formação,
que trazem um conjunto de textos, além de atividades
e exercícios.
Quem pode
participar do Projeto Pedagogia Cidadã?
Os alunos do Pedagogia Cidadã são professores
que já atuam no magistério; esse é
um requisito para participar. As turmas são formadas
pela prefeitura de cada município. Os candidatos
são selecionados por meio de vestibular organizado
pela Fundação Vunesp especialmente para
este curso, já que o vestibular tradicional da
Unesp tem um cronograma diferente.
Quais são os objetivos gerais do programa?
Já é possível observar seus resultados
práticos?
O projeto envolve os municípios, que entraram
há pouco tempo no ensino fundamental, já
que aqui em São Paulo a municipalização
do ensino fundamental é bastante recente. Muitas
cidades estão se beneficiando do Projeto Pedagogia
Cidadã até mesmo para formar suas equipes
técnicas no âmbito da educação
municipal. Além disso, nós já podemos
observar os resultados do projeto, com a divulgação
no ano passado do desempenho das escolas municipais
em todo o país. O primeiro lugar, por exemplo,
é de uma escola em Barra do Chapéu, cidade
no Vale do Ribeira, na qual o projeto formou 23 professores.
E em outras regiões também pudemos acompanhar
o resultado positivo: dos 44 municípios em que
atuamos, mais da metade conseguiu que seus alunos obtivesse
média superior a cinco, quando a média
do Brasil foi 3,8 e, no estado de São Paulo,
4,5. Também já tivemos, nas duas turmas
que já formamos, mais de 50 professores que conseguiram
os primeiros lugares em concursos públicos nos
municípios, alguns até mesmo em função
de direção.
Qual a importância
da educação infantil e das primeiras séries
do ensino fundamental na formação de crianças
e jovens?
Essa etapa do ensino é fundamental. Há
vários estudos que demonstram que a faixa que
vai de zero a sete anos é a mais importante para
o desenvolvimento das crianças. Infelizmente,
em nosso país, essa é a etapa do ensino
que recebe menos cuidados e menos atenção.
Muitos dos profissionais desta área não
são educadores, mas apenas tomam conta das crianças.
Para se ter uma idéia, até pouco tempo
atrás, essa não era nem mesmo uma questão
educacional, mas de promoção social. A
maioria das pessoas no país que trabalham com
crianças de zero a seis anos e, especialmente,
de zero a três, não tem formação
superior e, muitas vezes, nem mesmo de nível
médio. Foi apenas com a Lei de Diretrizes e Bases
que essa passou a ser uma questão educacional.
Eu acredito não haver dúvidas de que quanto
melhor for a formação dos profissionais
que atuam nessa faixa etária, melhores serão
os resultados da educação como um todo.
Nesse sentido, é importante também que
os municípios - responsáveis por essa
faixa de ensino - implementem políticas de salários
justos e planos de carreira, para que os professores
com formação de nível superior
tenham um atrativo para continuar na educação
infantil e continuem atuando nele, ao invés de
migrar para o ensino fundamental. Ou seja: o caminho
para a qualidade na educação infantil
passa pela formação dos professores e
pela criação de um plano de carreira justo.
Segundo o
programa do Projeto Pedagogia Cidadã, um de seus
objetivos é dotar os docentes de uma perspectiva
crítica e cidadã. O que isso significa,
em termos práticos, no contexto escolar?
O curso desenvolve, ao longo das disciplinas tradicionais,
alguns temas ligados à cidadania. Temos temas
ligados a ética, direitos humanos, noções
de saúde, etc. Eu acredito que essa formação
contribui para melhorar a visão do professor
a respeito dessas questões e da própria
realidade: onde está situada sua escola, quais
são os problemas que existem ali. O professor
precisa de ferramentas para poder entender tudo isso.
Acho que o estudo desse tipo de disciplina melhora o
entendimento e a compreensão que o professor
pode ter do aluno que está na frente dele que
não é mais o mesmo aluno da escola pública
de 40 anos atrás, mas um aluno que vem de uma
população que necessita de tudo. Assim,
além de estar preparado para suas funções
pedagógicas, o professor precisa ter uma boa
compreensão social. |