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A notícia estatística de que
70% das matrículas universitárias
brasileiras estão no ensino privado não
é ou não deveria ser
algo que passe desapercebido. Independentemente
de parâmetros estabelecidos de qualidade,
esta informação, por si só,
é suficiente para mostrar, com indiscutível
veemência, que os debates que vêm
sendo feitos em torno do tema universidade não
alcançou sua abrangência. E mais:
ele não só não está
atingindo o tema em sua totalidade, como está
deixando de lado sua mais volumosa fatia. Analogamente,
é como esconder o elefante e exibir apenas
a sua tromba, que é, em tese, o que o define;
mas que sozinha não o representa em sua
totalidade.
Esta é uma, entre as tantas reflexões
que este debate, promovido pela Folha Dirigida,
permite aflorar entre aqueles que pensam a universidade
e a querem cada vez mais ajustada não apenas
ao social e à sociedade, mas também
comprometida e conectada aos demais níveis
do ensino. A universidade, com todos os seus vícios
e virtudes, é pública e gratuita;
mas também é privada, em atendimento
a uma demanda (ou pressão) cada vez maior
de estudantes que precisam não só
conquistar seus diplomas, mas também daqueles
que já os têm, mas precisam permanentemente
reciclá-los conforme as novas exigências
do mercado.
E a universidade é, também,
o lugar onde se fabricam os conhecimentos e onde,
privilegiadamente, são intercambiadas informações
e soluções para os mais diversos
dilemas do mundo. O que há de utopia e
sonho no que pensamos ser uma universidade? Em
que nível ela pode, de fato e a um só
tempo, atender aos chamados emergenciais da sociedade;
ao desenvolvimento de sofisticadas teias de pensamento;
às aspirações pessoais de
seus estudantes; e corresponder aos diversos conceitos
sobre si, gerados ao longo de sua existência?
Para refletir esta natureza plural da universidade,
Folha Dirigida convidou para o debate Luis Carlos
Lucas, professor de Ciência Política
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e
presidente da Associação Nacional
dos Docentes do Ensino Superior (Andes/Sindicato);
Paulo Alcantara Gomes, presidente do Conselho
de Reitores das Universidades Brasileiras (Crub),
reitor da Universidade Castelo Branco e presidente
da Sociedade Brasileira de Apoio às Micro
e Pequenas Empresas (Sebrae); e Person Candido
da Silva, professor da Universidade Federal do
Rio de Janeiro.
Qual universidade temos? Gostaríamos
de que os senhores fizessem uma breve análise
da situação da universidade brasileira
na atualidade.

Luis Carlos Lucas
É presidente do
Andes/Sindicato
e professor
de Ciência
Política da UFRS
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Luis Carlos Lucas
Nós temos uma universidade que ainda tem
resistido bravamente, mas que está a caminho
da destruição. As universidades
brasileiras, hoje, enfrentam uma política
de destruição deliberada, sobretudo
as universidades públicas. Se observarmos
as diversas propostas para a educação
superior, no MEC, não encontraremos nada
que fale em privatização, nada que
fale em cobrança de taxas e mensalidades,
mas na realidade toda a política do ensino
superior brasileira aponta neste sentido. Há
textos de governo, não na área educacional,
nos quais esses objetivos são muito claros.
Um exemplo são os textos da Reforma do
Estado, nos livros do Bresser (Luis Carlos Bresser
Pereira, ministro da Administração
Federal e Reforma do Estado, no primeiro governo
de FHC), que foi o ideólogo dessa reforma.
Na Reforma do Estado aparece muito claramente
o objetivo de transformar as universidades públicas
em organizações sociais. Na realidade,
as universidades se transformariam em fundações,
e se relacionariam com o Estado através
de contratos de gestão. Mudando a natureza
jurídica, tira-se das universidades seu
caráter público, embora a linguagem
da Reforma do Estado procure esconder este fato.
A fundação de direito privado foi
um instrumento que se usou muito durante a ditadura,
a partir do Decreto-Lei nº 267, que estruturou
a administração pública durante
o período ditatorial. A partir daí,
essas fundações começaram
a proliferar e elas se transformaram em entidades
que podem funcionar como verdadeiros sumidouros
de dinheiro público, sem nenhum controle.
Dessa forma, o governo vai aos poucos se desresponsabilizando
da sustentação financeira das universidades.
É um modelo que vem de fora e praticamente
todas as universidades dos países periféricos
estão aderindo. No Brasil, até se
conseguiu resistir razoavelmente. Sobretudo a
partir da última greve dos docentes, a
universidade brasileira conseguiu impor freios
a essa política. Um exemplo é o
anteprojeto de lei de emprego público que
estava sendo testado no MEC e que foi barrado.
Isso era uma etapa para a privatização
das universidades.
O que o leva a crer que a mudança de
regime na contratação dos professores
era um dos preparativos para a privatização?
Luis Carlos Lucas
Isso me parece claro. Haveria uma enorme dificuldade
de privatizar instituições, cujas
relações de trabalho fossem regidas
pela legislação estatutária.
Era necessário transformá-la numa
legislação celetista, para dar um
segundo passo, que era a privatização
total. Na realidade, é uma política
que ainda não se implantou, mas há
uma direção nesse sentido. A educação
superior está sendo altamente privatizada,
e o melhor indicador é o conjunto de matrículas
no ensino superior. Se observarmos a tendência
de evolução das matrículas,
verificamos que cada vez cresce mais a educação
privada. Isso é passado como decorrência
da modernização, sem a qual o país
não ingressaria no primeiro mundo.
Dentro de pouco tempo, nós teremos 80%
de matrículas na rede privada. Este é
um primeiro passo. As universidades públicas
não deixariam de ser públicas, mas
a educação como um todo se privatiza
cada vez mais. Há, ainda, o avanço
de espaços de privatização
não declarada no seu interior e há
uma política clara de sucateamento. Temos
dados recentemente divulgados pela Andifes (Associação
Nacional de Dirigentes de Instituições
Federais de Ensino Superior), que coincidem muito
com o que temos denunciado ao longo do tempo.
Por exemplo, em 1995 os gastos com pessoal foram
de R$4.952 milhões, em 2000 caíram
para R$4.051 milhões. Isso se deu em conseqüência
do represamento salarial e da não reposição
dos quadros funcionais. Esta perda é referente
a pessoal ativo. E diferentemente do que o governo
anuncia, os gastos com aposentados e pensionistas
também não estão aumentando.
O governo diz que os aposentados têm uma
situação privilegiada e o ministro
da Educação diz que a média
das aposentadorias é mais elevada do que
a média salarial dos ativos.
Quando o ministro fala em aumento de gasto
com aposentadoria, leva em consideração
o aumento da expectativa de vida das populações,
o que tem sido um dilema real para o sistema previdenciário.
E, de fato, em final de carreira os salários
são naturalmente mais elevados.
Luis Carlos Lucas
Têm que ser, a pessoa só se aposenta
depois de 30 anos de serviço, mas, apesar
de muito se falar disso, as despesas com aposentados
estão em decréscimo. Em 1995 eram
R$1.949 milhão e, em 2000, R$1.991 milhão.
O que aumentou foi o gasto com contratos temporários,
que era R$16,2 milhões em 1995 e em 2000
passou para R$85,7 milhões.
Estes valores correspondem apenas a gastos
com professores não concursados?
Luis Carlos Lucas
Não, eles incluem também os técnicos
administrativos e pessoal dos hospitais, mas todos
sem vínculo com a União. E há
os contratos de gestão não explicitados,
como a transferência de verbas segundo prioridades
pessoais de quem está no poder no momento,
as emendas e convênios da Sesu (Secretaria
de Ensino Superior do MEC). Essas subiram. Eram
R$26 milhões e passaram para R$142 milhões.
Trata-se daquela verba negociada caso a caso com
o reitor. Já as verbas de manutenção,
que são fundamentais, caíram de
R$460 milhões em 1995 para R$380 milhões
em 2000.
Em relação às despesas de
custeio de capital, foi de R$74 milhões
em 95; de R$102 milhões em 96; de R$39
milhões em 97; de R$10 milhões em
98; de R$13,5 em 99; de R$20,8 em 2000; ou seja,
absolutamente nada para as necessidades de 54
instituições federais. Isso significa
que não há mais recurso de investimento
para as universidades. E na medida em que passam
a depender, para sobreviver, dos recursos externos,
seu caráter público vai se perdendo,
cada vez mais as pesquisas são dirigidas
para grupos específicos de empresas e isso
tem se implantado sem a necessidade de alterar
as normas que regulam a universidade. Eu diria
que esse é o retrato de nossa universidade.
Isto não seria um atendimento às
expectativas acadêmicas de autonomia?
Luis Carlos Lucas
O último projeto de autonomia não
era do MEC. Era um projeto um pouco estranho e
a paternidade não foi assumida por ninguém.
Havia um projeto na Andifes, em 1999, mas que
foi aparentemente abandonado. Depois fizeram algumas
alterações, que o deixaram pior,
referentes à inclusão de dispositivos
que permitem cobrar e legalizam relações
entre universidades e fundações
de apoio. Mas não é um projeto da
Andifes, porque parece que não foi aprovado
por sua comissão de autonomia.
É um projeto perigoso e um instrumento
de inconstitucionalidade. Começa-se a propor
que se cobrem cursos de especialização,
a pós-graduação é
cobrada, os mestrados profissionalizantes, falam-se
em doutorados não acadêmicos. Praticamente,
só ficam livres de cobrança a graduação
e a pós-graduação strictsensu.
Isso é absolutamente inconstitucional,
mas o projeto está lá. As expectativas
em relação à autonomia universitária
não são bem estas.

Paulo Alcantara
É presidente do
Crub e do
Sebrae e
reitor da
Castelo Branco
|
Paulo Alcantara
O sistema das universidades brasileiras é
bem mais amplo do que o sistema das universidades
federais. De fato, nós temos 54 universidades
federais, mas temos 155 universidades. O sistema
a que Lucas se refere representa 30% do todo,
que é constituído por universidades
estaduais, e por um sistema privado que não
é constituído, exclusivamente, por
universidades particulares, como muita gente pensa,
e sim, também, por universidades comunitárias,
confessionais ou não, que existem principalmente
na região sul. Esse contexto é que
dá ao sistema de educação
superior uma força inacreditável,
porque são 155 instituições
com a obrigação, prevista na Constituição,
de oferecer ensino, pesquisa e extensão,
com uma inserção na comunidade que
é visível, notadamente nos centros
populacionais onde o número de habitantes
é menor.
A universidade brasileira está vivendo,
como todas as universidades do mundo, uma fase
de transição. Surgiram três
novos tipos de demandas e a primeira delas é
por novos retornos. Com os avanços da ciência
e da técnica, vai ficando cada vez mais
difícil manter os diplomas convencionais.
Há profissões que vão se
diluindo e outras novas profissões vão
ganhando espaço, o que gera uma demanda
por novas modalidades de diploma e a universidade
não consegue oferecer isso, porque está
montada em padrões do século XIX.
E a universidade, embora resista, como disse Lucas,
para sobreviver, ela tem também um defeito,
como toda instituição acadêmica,
e isso é histórico, desde Bolonha.
Ela resiste a mudanças. Dizer que a universidade
não tem obrigação de atender
a isso, é transformá-la numa organização
fora da sociedade. Esse é o primeiro ponto
de transição que a universidade
está vivendo.
Agora vou abordar um aspecto que leva a uma pequena
discordância em relação ao
que o Lucas falou, sobre as novas dimensões
da educação superior. A educação
superior na França foi extraordinariamente
atendida por uma organização chamada
IUT, Instituto de Universidade e Tecnologia. Na
Inglaterra, durante anos havia os politécnicos
que depois, por razões orçamentárias,
também acabaram sendo incorporados à
universidade, mas deram uma contribuição.
Nos Estados Unidos, os modelos dos colleges são,
hoje, extraordiariamente fortes. E a ausência
da universidade nessa resposta rápida à
sociedade está fazendo que comece a aparecer
uma nova modalidade de organização,
que nos Estados Unidos já se alavancou,
que é a universidade corporativa. A universidade
corporativa, hoje, no Brasil, começa a
ser uma realidade, e nós temos que enfrentar
este novo desafio, porque temos a obrigação
de ser a universidade corporativa da micro e da
pequena empresas.
Se pensarmos na universidade exclusivamente
como preparadora para o mercado qualificado de
trabalho há pertinência, porque este
segmento é o que oferece, hoje, o maior
volume de empregos.
Paulo Alcantara
Esse é outro dilema que eu quero separar.
A universidade precisa olhar com melhores olhos
para essas organizações, porque
ela gera os postos de trabalho nos setores produtivos:
serviços, agricultura, comércio,
tecnologia, indústria etc. E há,
também, o dilema do avanço das tecnologias
de informação e comunicação,
gerando uma nova pedagogia. Hoje, a educação
a distância é uma realidade que muda
completamente o processo pedagógico. Você
determina o local em que vai aprender, a hora
que vai aprender e como vai aprender. Isso exige
um esforço enorme da organização
acadêmica, porque ela terá que mudar
completamente o processo pedagógico e entender
que as demandas não se podem reduzir às
profissões convencionais.
O Brasil tem 14,5 milhões de micro e pequenas
empresas, das quais apenas 4,5 são formais.
Só no Rio de Janeiro, temos 1,360 milhão
de postos de trabalho gerados por elas. Primeiro,
temos que acabar com a mortalidade infantil dessas
empresas, que morrem, às vezes, com dois
anos. Em segundo lugar, elas têm amarras
jurídicas que impedem a sua formalização
e fazem que a forma de gestão e dos tributos
seja prejudicial à própria sociedade.
E em terceiro lugar, temos que inseri-las no fluxo
de comércio internacional. E como é
que nós vamos fazer isso, se as universidades
se recusarem a responder às demandas dessas
empresas por melhores práticas gerenciais,
por inovações tecnológicas,
por competitividade?
Essas empresas foram instrumento de mudanças
na Itália, na França, na Alemanha,
está sendo instrumento de modernização
cada vez mais visível nos países
recentes da União Européia, em Portugal
e na Espanha, serão um instrumento de mudança
no nosso país, e a universidade não
pode ficar à margem desse processo. Esse
contexto impõe à universidade brasileira
um processo que é de reflexão, mas
também tem que ser de ação
e ela tem que se antecipar.
De fato, 80% das universidades norte-americanas
são públicas. Mas sejam públicas
ou privadas, elas são pagas, e esse é
um ponto da agenda de discussão. Eu não
estou defendendo a universidade pública
paga, mas estou dizendo que chegou a hora de começarmos
a discutir formatos de financiamento da universidade.
Todos aqui nessa mesa reconhecemos na PUC do Rio
de Janeiro uma universidade de ponta na pesquisa,
que está impossibilitada, por exemplo,
de ser apoiada pelos fundos setoriais, que só
atingem as instituições públicas,
sem levar em consideração a qualidade,
e o parâmetro determinante da educação
superior é fazer que seu êxito passe
por um processo de aferição pela
qualidade. Isso é absolutamente fundamental
e, nessa realidade, o sistema de educação
superior tem que ser todo repensado.
Nós estamos aqui falando de universidade,
mas temos 60 centros universitários que
têm um processo voltado quase que exclusivamente
para o ensino, e temos centenas, milhares de instituições
isoladas de ensino superior, de faculdades integradas,
faculdades isoladas, que atendem às necessidades
locais, de pequenas comunidades, municípios,
regiões. Nós temos que integrar
este sistema a um todo e fazer que este sistema
seja capaz de ter uma certa capilaridade. Não
podemos tratar a educação superior
de forma segmentada, horizontalmente. Não
podemos achar que as universidades estão
aqui, na sua autonomia, enclausuradas no seu viés
acadêmico, na sua capacidade de produzir
aquilo que acham que é importante, e que
de fato muitas vezes é importante, mas
que nem sempre é apenas aquilo que elas
devem fazer. Não podemos deixar que os
centros simplesmente digam que são meros
instrumentos de formação de profissionais
e não podemos deixar que as faculdades
isoladas fiquem ao largo disso, porque elas não
têm a estrutura de pesquisa, mas têm
que absorver aquilo que é desenvolvido
alhures, para transformar em novas informações
para os profissionais que vão ser formados.
A universidade brasileira tem que mudar seu processo
de integração com os vários
sistemas, seu processo de olhar a sociedade, sua
forma de gestão, e tem que mudar seu processo
de aproximação com os sistemas de
ensino dos outros níveis, porque não
se faz planejamento de educação
por pedaços. Não se trata apenas
de acabar com analfabetos ou analfabetos funcionais,
mas de garantir a estas pessoas uma escolaridade,
para que enfrentem um chão de fábrica
que envolve a cada dia novas tecnologias. Isso
é absolutamente fundamental e, por isso,
temos que formar professores. Temos que formar
600 mil professores para as redes de educação
básica e fundamental e isso não
será possível num intervalo de três
anos, a não ser pelo uso intensivo nas
novas tecnologias da informação
e da comunicação.
E aí nós esbarramos num problema:
o sistema brasileiro de regulação
da educação como um todo é
extremamente burocrático. Essa burocracia,
se tem uma aparente vantagem de criar padrões
de rigidez, ela não dá origem a
modelos criativos. Essa é outra questão
que também tem que ser enfrentada, não
apenas pela universidade, mas pelo sistema. Como
regular a educação brasileira, seguindo
determinados padrões de qualidade e de
competência, assegurando o produto final
e definindo claramente objetivos compatíveis
com cada instituição? Querer que
uma instituição como a Universidade
Federal de Viçosa tenha os mesmos objetivos
da UFRJ, ou que a PUC do Rio tenha os mesmos objetivos
da Universidade Regional Integrada das Missões,
é destinar à educação
superior a mesmice da uniformidade, sem levar
em consideração as dimensões,
as vocações e as peculiaridades
locais. A autonomia é determinante do ponto
de vista acadêmico, e não uma mera
questão de obter mais recursos. Ela deve
levar em consideração a necessidade
da universidade de se inserir no processo de desenvolvimento
regional.
Continuar>>
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