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O que deve ser feito em relação ao mercado de trabalho

A universidade deve ser regida também pelo mercado de trabalho?
Como deve se posicionar diante de problemática tão atual?

Debatedores divergem quando abordam problemas do mercado de trabalho

 
Como é que isso pode ser feito? O que é comum entre autonomia universitária e desenvolvimento?

Paulo Alcantara
Pode começar nas próprias universidades, verificando a melhor forma para sua organização. Em segundo lugar, pelo equilíbrio, pelo reconhecimento de que o público e o privado são fundamentais. Já não podemos voltar atrás e dizer que só teremos o sistema público ou não podemos voltar atrás e dizer que vamos matar o sistema público. A atitude levada ao radicalismo é suicida, porque nós sabemos que historicamente a capacidade de produção científica da universidade brasileira está ainda centrada nas públicas.

A primeira razão disso é que as universidades privadas, em sua quase totalidade, surgiram entre 1985 e 1995. Se vocês observarem, no período de 1995 até 2000 foram criadas, se não me engano, oito universidades. Mas nós temos mais cem, praticamente, criadas em outros períodos, de 85 a 95. A universidade recente ainda não tem condições de consolidar a sua linha de pesquisa, mas vai precisar consolidar e, para isso, tem que contratar professores qualificados, habilitados ao exercício da investigação. Onde está esse professor? Está sendo formado na universidade pública, de um modo geral no sistema federal, onde existem os grandes programas de pós-graduação e pesquisa. Portanto, a universidade pública tem uma contribuição inacreditavelmente importante para o desenvolvimento da educação superior, porque ela vai ser o celeiro dos professores das jovens universidades, públicas e privadas. As públicas que estão sendo criadas agora, também vão precisar desses professores, principalmente porque o sistema estadual ainda é novo.

No lugar de falar que as missões das universidades estão caracterizadas pelo ensino, pela pesquisa e extensão, temos que falar que as missões das universidades estão caracterizadas pela competência, pela pertinência e pela eqüidade.

Como identificar a competência, a pertinência e a eqüidade em cada uma das universidades brasileiras?

Paulo Alcantara
A competência é quando a universidade demonstra sua capacidade de produção científica, por seus mestres, seus doutores, suas teses, seus artigos publicados em congressos, seus diplomas, o número de diplomas conferidos.

Isso é normalmente conferido na avaliação da Capes. E os demais?

Paulo Alcantara
A pertinência se dá quando a universidade demonstra sua capacidade de responder às demandas e necessidades da sociedade e do governo. A UFRJ nos dá um exemplo de pertinência, através da Coppe. Quando o governo resolveu investir fortemente na pesquisa de petróleo em alto-mar, usou os quase cem doutores em estruturas e metalurgia que a universidade tem. Hoje, se nós economizamos 4 bilhões de dólares em divisas, é graças a um projeto desenvolvido numa parceria não com uma microempresa, mas com uma grande empresa nacional, a Petrobras. Nisso, a pertinência foi determinante.

Qual seria, por exemplo, a pertinência de uma universidade do setor privado, que não conta com esse contingente de doutores?

Paulo Alcantara
Vou dar o exemplo da minha universidade privada de Realengo (subúrbio do Rio), onde foi registrado um dos menores IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) do mundo. A universidade tem um compromisso enorme com aquela sociedade, porque ela tem que, efetivamente, atuar melhorando a qualidade de vida daquela região, onde mora mais de um milhão de pessoas. A universidade privada tem atuado ali até como uma forma de universidade comunitária, em programas assistenciais, em atividades de pesquisa, em atividades de qualificação profissional. Ela precisa estar inserida num certo contexto. Pertinência é isso.

E há a eqüidade, que é uma coisa que eu acho que transcende ao fato de a universidade ser pública, privada, confessional ou comunitária, que é a obrigação que todos temos, e que deve ser transferida para a universidade, de contribuirmos para a igual distribuição de oportunidades. E eu estou absolutamente convencido de que o que precisamos fazer é sentar o público, o privado, o confessional, o governo e os segmentos representativos da sociedade na discussão de um processo de construção de uma universidade plural, capaz de responder de forma diferenciada às diferentes demandas.

Saber que uma universidade tem cem artigos indexados pela National Science Foundation é importante, mas o fato de você ter pesquisas voltadas para a identificação do meio social e para o oferecimento de futuras respostas ou para a identificação do meio físico, as chamadas pesquisas difusas (que não são pesquisas de ponta), também é igualmente importante, porque elas vão ser instrumentos de mudanças. Conhecendo o meio físico e o meio social, podemos oferecer novas políticas públicas, e aí vamos criando uma mentalidade científica em todas as universidades, mesmo nas menores, mais jovens. A universidade vai aprender porque pesquisa e isso vai passar a ser um princípio válido para todas, porque elas terão criado a sua base científica.

Achar que vamos, com uma medida governamental, decretar que todas as universidades vão ter pesquisa internacional é utópico. O processo de construção de uma universidade é lento e vai exigir a teimosia de alguns, a teimosia de muitos. É preciso que apareça pelo menos uma meia dúzia de Scolaris (Luis Felipe Scolari, técnico brasileiro da última Copa do Mundo de Futebol), para enfrentarem as posições mais antagônicas que vão acontecer.


Person Candido
É professor
da Faculdade de
Ciências da
Saúde da
UFRJ

Person Candido da Silva
Eu diria que temos a universidade brasileira que o processo histórico evolutivo das sociedades e o julgo das forças sociais nos permitiu ter. Uma instituição marcada pela bravura de sua capacidade de resistência, alicerçada nos interesses de uma sociedade que ainda luta para fazer valer seus direitos de justiça e liberdade, e sua soberania nacional. Diante disso, pode-se afirmar que a universidade é, antes de um simples aparato estrutural fisiológico, um processo orgânico, delineado no tempo e no espaço de sua existência; e mais do que isso, na criação de sua própria existência.

Acho pouco responsável dizer que a universidade deva ser identificada como um sistema de estrutura arcaica e resistente a mudanças, elitista, dissociada do mundo real, cuja visão utilitarista e imediatista do processo formador desemboca na compreensão de que o ensino, a pesquisa e a extensão, nesse caso confundidos como prestação de serviços, constituem grande produto de mercantilização do mundo neoliberal e capitalista. A superação da desmoralizadora auto-estima nacional latino-americana, sob incapacidades e falências do Estado na formulação de suas políticas macroeconômicas, retórica despudorada que já nem sequer considera aspectos da independência e soberania, notando-os como obstáculos ao crescimento econômico e ao desenvolvimento social, é o compromisso de consciência filosófica que cabe à universidade realizar.

Os aspectos estruturais e conjunturais que contornam a universidade brasileira revelem-nos uma possibilidade histórica muito apropriada. As perspectivas de mudanças reais na política nacional, de ampla e profunda valorização da classe trabalhadora e de respeito às camadas populares, abrem um campo sem precedente histórico na universidade do Brasil. Compreender-se criticamente e situar-se na reorganização de seus pensamentos destaca-se o ponto transcendente da universidade que temos, a orientar o debate daquela que queremos: autonomia, uma discussão desgastada, mas absolutamente recomendável, no sentido de apontar as perspectivas de seu sentido e significado.

É muito apropriado, hoje, discutir detalhadamente, especificamente, a responsabilidade pública das universidades privadas. Para tais indagações acerca da autonomia, percorrem desafios de retomar a universidade condenada ao ensino profissional de baixa qualidade, desvinculado da ciência e do ambiente da pesquisa científica, cuja prática pedantesca, professoral e livresca repete monotonamente o que outros intelectuais pensaram, fizeram ou escreveram, via de regra desfocados dos campos da atuação universitária, ou seja: com uma prática comprometida em não mudar absolutamente nada.


Luis Carlos Lucas: “Se Bolonha não tivesse resistido às mudanças, teria desaparecido”

Luis Carlos Lucas
Tenho objeções a alguns pontos da fala do Paulo (Alcantara). Eu começaria pela expressão “resistência à mudança”. Evidentemente que em qualquer tipo de organização há um grau de resistência à mudança, seja ela qual for. Uma organização que tenha o mínimo de perenidade deve ter algo disso. A expressão em si tem sido muito usada por um certo tipo de política pública e serve quase que como uma expressão sem conteúdo que, de certo modo, carimba tudo aquilo que se quer mudar como sendo uma coisa antiquada, rígida.

Em quase toda ideologia liberal, ao falar sobre educação, usa-se esta expressão neste sentido. E eu gostaria de dizer que algum tipo de resistência para uma instituição com a característica de uma universidade é absolutamente fundamental. Se Bolonha não tivesse resistido às mudanças, teria desaparecido há muitos séculos. E sobretudo quando esta expressão pode significar resistência a mudanças identificadas com modismos de época, com ideologias dominantes, com apoios políticos que, afinal, fazem parte de um projeto hegemônico.

A expressão em si, apesar de fazer um apelo à transformação e à modernidade, pode ser até algo profundamente reacionário. E as boas universidades brasileiras não me parecem que tenham um grau elevado de resistência às mudanças. A gente observa nos seus currículos, nos cursos, que há uma transformação significativa ao longo do tempo. Claro que se preserva alguma coisa que é possível preservar e que tenha a ver com a própria identidade de uma universidade que está se refugiando, ainda, de ser assimilada por uma política dominada pelo mercado. E acho importante que elas continuem assim.

Há um tema paralelo, que é aquele que tem a ver com a necessidade de novos cursos, de currículos para atender a certas demandas da sociedade contemporânea. Em relação a isso, me parece que a resposta que as universidades têm dado também não se pode considerar como não sendo adequado, e eu falo de novo em relação, sobretudo, às universidades públicas. Elas estão se abrindo, mas ainda não estão tendo a abertura que significa a mudança de uma concepção de educação como algo que tenha a ver com os direitos de qualquer cidadão.

As mudanças curriculares são internas, ou têm que respeitar legislações específicas?

Luis Carlos Lucas
As diretrizes curriculares, hoje, dão uma abertura grande para criar estruturas curriculares próprias. Até por isso eu não concordo com o diagnóstico de enrijecimento. Mas há um outro tema sobre o qual eu gostaria de me manifestar, sobre um modelo de universidade determinado pelas necessidades de adaptação ao mercado. Isso é uma coisa que encontramos com bastante freqüência e tem a ver com o diagnóstico de que, ao final das transformações da sociedade, a universidade tem que se adaptar a isso. Na minha visão, as universidades têm que se adaptar, mas a partir do critério de responsabilidade social, e a melhor maneira de fazer isso é manter as universidades com um grau elevado de autonomia, com controle social sobre elas.

Eu, pessoalmente, desconfio das propostas curriculares voltadas para as necessidades imediatas de mercado, para necessidades de segmentos. Sabemos que, com a velocidade em que se dão as transformações tecnológicas, o conhecimento que fica na superfície não será suficiente. O conhecimento tipo adestramento, voltado para esta ou aquela demanda, com muita rapidez se tornará obsoleto. Corremos o risco de construir universidades especializadas nesta ou naquela demanda específica, para formar pessoas que, depois de terem obtido seu diploma, já não tenham mais o que fazer, porque não têm aquele conhecimento básico que se adquiria ao longo do tempo. E as formações tradicionais ainda são o melhor instrumento para produzir isso. Por essa razão, eu acho que toda universidade muito adequada às necessidades de mercado inerentemente se enfraquece como produtora de conhecimento e vai preparar mão-de-obra que vai ter habilitações que estarão, em curto tempo, defasadas e corre-se o risco de ver proliferar instituições que agem como fábrica de diplomas.

Temos uma universidade pública com padrão razoavelmente homogêneo em todo o território nacional e temos lutado muito para que isso se mantenha assim, porque isto não significa manter regras rígidas, não significa impedir que as universidades sigam certas especificidades regionais. Significa dar liberdade para que as universidades produzam conhecimento na sua base específica e, para isso, precisam de sustentação pública. E se de um lado tínhamos esse conjunto homogêneo, nas instituições privadas as diferenças se multiplicam cada vez mais, e há universidades boas, mas existe também uma proliferação de cursos com o único objetivo de ganhar dinheiro. E discordo também de que tenhamos regulamentações extremamente burocráticas. Burocráticas podem ser, mas eficientes não. O Estado brasileiro não regula. Você pode montar uma universidade tendo um currículo horroroso ou uma ficha criminal das piores possíveis.

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