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A universidade não é para todos: só para os melhores

Educadora lembra que a universidade deve se pautar pela qualidade.
E enfatiza: não é para todos. Só para os melhores


Maria Yedda Linhares diz que reserva de vagas é uma atitude demagógica

 

É com muita propriedade que a professora Maria Yedda Leite Linhares fala sobre a universidade no Brasil. Afinal, a bacharel e licenciada em Geografia e História é professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e dá aulas no curso de pós-graduação da Universidade Severino Sombra, em Vassouras. Aos 80 anos, esteve — e ainda continua — ligada à educação em grande parte de sua vida.

“Quando eu comecei a lecionar já foi em universidade, isso há mais de 50 anos. No momento eu estou ligada à pós-graduação, que é a parte de preparação para a pesquisa, para o trabalho de criação de conhecimento. É a isso que estou me dedicando nos últimos anos da minha vida”, conta Maria Yedda.

Seu papel na educação não se restringe às salas de aula, tendo ocupado as secretarias municipal e estadual de educação. “Fui secretária de educação na década de 80 e adquiri uma experiência bastante grande na questão do funcionamento da escola pública e de como ela funciona mal de uma maneira geral”, diz.

FOLHA DIRIGIDA — Nos últimos anos, registrou-se um crescimento na procura pelos cursos de pós-graduação. A que a senhora atribui esta procura?
Maria Yedda Linhares
— Em primeiro lugar, o número de estudantes na universidade brasileira sempre foi muito pequeno, o que está de acordo com as necessidades do país de então. A universidade é uma instituição que tem uma autonomia muito pequena, muito limitada. Ela evolui de acordo com as próprias necessidades do país. Então, é normal o crescimento da universidade, como é normal também o crescimento da pós-graduação. É evidente que, como a cada ano a população está crescendo, um número maior de alunos procure a universidade. A universidade também passou por uma reforma bastante profunda nos últimos vinte anos e abriu um pouco as possibilidades de acesso à pós-graduação. E a sociedade brasileira chegou à fase em que precisa de profissionais qualificados em vários setores do conhecimento. Não se esqueça de que nós entramos muito tardiamente na pós-graduação. A pós-graduação só se inicia neste país na realidade de uma forma sistemática nos últimos vinte anos. É uma coisa muito recente, que começa no final dos anos 70, início dos anos 80.

FOLHA DIRIGIDA — Qual a situação da produção científica no Brasil, especialmente na UFRJ, onde a senhora teve atuação importante?
Maria Yedda — A Universidade Federal do Rio de Janeiro é indiscutivelmente a maior universidade pública do país, além de ser a universidade brasileira que tem a maior participação na produção científica mundial. Acho que estamos numa fase bastante boa em termos de produção científica. Os cientistas brasileiros e os trabalhos de pesquisa no Brasil já figuram nos índices de produção acadêmica. Temos motivo para nos orgulhar disso, embora ainda precise muita coisa para seguir avante. Tenho a impressão de que o Brasil progrediu muito nos últimos 20 anos. A contribuição do Brasil, a geração de conhecimentos, é bastante importante em todos os ramos de conhecimento. Agora o Brasil já existe no cenário científico mundial.

FOLHA DIRIGIDA — No final do ano o ministro Paulo Renato Souza despede-se da pasta de Educação registrando um recorde histórico: ter permanecido oito anos no cargo. Que análise a senhora faz de sua administração?
Maria Yedda — Eu só posso dizer que foi um equívoco muito grande toda a trajetória dele. Só tenho a lastimar que ele tenha ficado tanto tempo, porque no que diz respeito, por exemplo, à Universidade Federal do Rio de Janeiro, foram uma lástima os oito anos tão celebrados dele. Eu não comemoro estes oito anos, pelo contrário, eu uso luto por eles. Acho que o que houve de mais grave foi a perseguição do ministro à Universidade Federal do Rio de Janeiro. A impressão que dava é que ele veio com o propósito de acabar com a UFRJ, não deixar pedra sobre pedra, só escombros. A universidade está caindo aos pedaços. Acho que foi este o plano dele, mas nós resistimos muito bem. Ele, inclusive, manteve de uma forma indevida um reitor que nem foi eleito pela comunidade. Conseguimos sobreviver a esse terremoto horrível, nefasto, essa bomba atômica abominável que foram os oito anos da administração desse ministro.

FOLHA DIRIGIDA — Que análise a senhora faz do ensino superior público no Brasil?
Maria Yedda — De uma maneira geral, a universidade brasileira é a universidade pública. Ela funciona muito bem porque os ricos precisam dela para colocar os seus filhos. Então elas são bem administradas, têm recursos, são excelentes. Houve o terremoto recente do Paulo Renato, mas foi um terremoto, passou. Agora estamos juntando os escombros para reerguer realmente a Universidade Federal do Rio de Janeiro, que não morreu. As universidades públicas no Brasil são públicas porque elas são as universidades dos ricos. Mas não sou contra que seja assim. Não estou dizendo isso como uma crítica de maneira nenhuma, é apenas uma constatação. Independentemente de qualquer análise histórica, sociológica ou política, a universidade é o ponto culminante da formação do cidadão. Por isso, só aqueles que têm realmente condições, competência, podem entrar na universidade. Enquanto eu acho que a escola, de uma maneira geral, tem que ser para todos, a universidade tem que ser para os mais competentes, para aqueles que têm realmente condições de fazer um curso universitário, independentemente de qualquer outra consideração de ordem política.

FOLHA DIRIGIDA — Essa situação de os ricos estarem na universidade pública se agravou recentemente?
Maria Yedda
— Acho que não se agravou não, pelo contrário, acho que isso é normal. A universidade tem que ser de boa qualidade. O que devemos ter são escolas públicas suficientemente boas para que todos possam um dia ter acesso à universidade. Mas no momento isso não ocorre, porque houve uma segregação da pobreza nas escolas públicas. Ter uma universidade gratuita é um luxo que o país tem. Mas é um luxo historicamente herdado, porque a seleção social e econômica é feita a partir do final do curso secundário. Antigamente esta seleção era feita no exame de admissão, na 5ª série, então ficavam para trás os pobres, que não podiam passar no exame. Dentro desse clima, aquele que conseguia terminar o curso secundário entrava automaticamente na universidade. No Brasil hoje já começa a ser um pouco diferente, porque se alargou muito a faixa do ensino médio. Há uma seleção mais rigorosa para a entrada na universidade.

FOLHA DIRIGIDA — A senhora acha que a medida da Uerj de separar cotas para estudantes vindos da escola pública pode ajudar?
Maria Yedda
— Não. Acho isso um absurdo. Acho demagógico, humilhante e degradante. Vai ser ainda pior, porque você vai ter na universidade as turmas dos pobres e as turmas dos ricos. Sou a favor da igualdade, mas da igualdade pela base. A reserva de vagas é um outro elemento de divisão social, de segregação racial, de discriminação cultural, sociológica, etc. A universidade não é isto. A universidade é qualidade mesmo. O que se tem de fazer é melhorar o curso médio, abrir oportunidade para que todos façam uma excelente escola secundária. A democracia tem que ser testada neste momento do curso secundário. Os pobres têm que ter acesso obrigatório e necessário à escola média. Mas universidade é seleção. Dizem que os Estados Unidos é a maior democracia do mundo, apesar do Bush, que vai acabar com a fama democrática do país. Mas a universidade não está aberta para todos, é para os melhores. As universidades mais afamadas são extremamente seletivas. Na França a universidade é seletiva; os alunos têm que passar por um exame de conclusão muito difícil. E as grandes escolas têm uma seleção mais difícil ainda, como é extremamente seletiva a universidade na Inglaterra, na Alemanha. Por que no Brasil tem que ser a universidade para todos? Isso não. O dia em que isso se der no Brasil, os filhos dos ricos vão estudar fora, nos Estados Unidos, na Europa. Eu acho que alargar a base de entrada na universidade não é alargar a qualidade de ensino, nem é democratizar o país. A democracia do país se faz no sistema financeiro, no sistema social de distribuição de renda, no emprego. Se houver uma entrada livre na universidade é evidente que será degradado o ensino universitário.

FOLHA DIRIGIDA — O que falta para que a escola pública de qualidade deixe de ser apenas alguns casos específicos e passe a ser uma realidade no cenário nacional?
Maria Yedda
— Falta que a sociedade brasileira deseje que a escola pública exista. Quando eu digo a sociedade me refiro à burguesia brasileira, o poder neste país. Falta que a classe média deseje que a escola pública realmente exista e que seja de qualidade. O dia em que houver esse acordo entre a sociedade brasileira e o público eu acho que nós podemos vencer a corrida por uma escola pública de qualidade. No momento, na medida em que ela cada dia mais é associada aos pobres, é evidente que as elites brasileiras não fazem esforço nenhum para que se tenha uma boa escola pública. Não diria que sou adepta da teoria da conspiração dos ricos contra os pobres, mas é mais ou menos isso. No dia em que aqueles que detêm o poder, a cultura, o conhecimento, os meios de divulgação, de comunicação, precisarem de uma escola pública boa, ela será boa. No momento ela existe apesar de todos os obstáculos que são criados justamente pela sociedade brasileira. Acho que a História do Brasil explica muito bem isso. A escola pública foi sempre rejeitada e enquanto estiver na cabeça deste país que a escola pública é de pobre, ela será uma escola de pobre, como são pobres os pobres no Brasil.

 
 
 
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