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Na contramão das críticas que
apontam a Bolsa-Escola como uma medida paternalista
e de alcance limitado, e das denúncias
de fraude no Fundo de Desenvolvimento do Ensino
Fundamental e de Valorização do
Magistério (Fundef), o ministro Paulo Renato
Souza as destaca como as mais impactantes dos
oito anos em que está à frente do
MEC. Mas seu balanço entra em sintonia
com os críticos de sua gestão em
pelo menos um item: os dois programas tiveram
o ensino fundamental como alvo.
Mas o ministro nega, contudo, que em favor
do ensino fundamental as universidades foram abandonadas.
Para ele são críticas que não
vão além do velho mantra entoado
pela oposição. O abandono
(das universidades) fica por conta de minorias
politicamente radicais, cegas aos dados da realidade,
que não se cansam de repetir isso,
afirma o ministro, em seu positivo diagnóstico.
Curiosamente, o Programa Nacional do Livro
Didático (PNLD), sobre o qual muito se
falou ( e bem), não foi lembrado pelo ministro.
E sobre as avaliações, que tiveram
grande impacto midiático neste governo,
o ministro também preferiu silenciar, restringindo
sua fala ao ainda pouco conhecido Enceja, criado
para avaliar os muito populares, mas pouco badalados
cursos supletivos.
Diga-se de passagem, Paulo Renato esbanja
medidas populares em sua despedida (acredita-se)
do setor público. Chama atenção
para o programa Diversidade na Universidade, lançado
em 5 de setembro e que distribuirá 5 milhões
de dólares do Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID) e 4 milhões do Tesouro Nacional para
entidades que atuam na inserção
de negros e minorias étnicas nas universidades.
Sobre o futuro, o ministro é reticente
neste balanço que faz à Folha Dirigida,
já que suas revelações ficam
por conta do esperado. Sobre o amanhã,
ele disse apenas que abrirá uma empresa
de consultoria nas áreas de educação
e economia.
Veja a entrevista:
Folha Dirigida Depois de Gustavo Capanema,
que na Era Vargas foi ministro por 11 anos, o
senhor é o segundo de gestão mais
longa na Educação republicana. Pôde
realizar o que desejava?
Paulo Renato Souza Sem dúvida.
Muito foi feito. Nós temos na educação,
hoje, tudo diferente do que era. Aprovamos toda
a legislação necessária,
aprovamos a Emenda Constitucional de número
14, que criou o Fundo de Manutenção
e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização
do Magistério, o Fundef, que incluiu a
reciclagem de professores e a melhoria dos salários;
aprovamos a Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional, a LDB; a regulamentação
do salário-educação; a lei
que instituiu o Conselho Nacional de Educação
e a que criou o Provão; a lei do Bolsa-Escola.
Enfim, todo o marco legal é diferente do
que era. Acho que conseguimos despolitizar o ministério.
Nós conseguimos acabar com todas aquelas
verbas que se prestavam ao clientelismo, como
alguns convênios. Hoje, todo o dinheiro
vai diretamente para as escolas, de acordo com
o número de alunos, e para as prefeituras,
como a merenda, também conforme o número
de alunos.
Folha Dirigida Qual medida considera
mais impactante?
Paulo Renato Agora, no fim do governo,
tivemos a implementação do programa
Bolsa-Escola em tempo recorde. Mas a maior realização
é o Fundef, que mudou a educação
brasileira. Vai entrar para a história,
porque organizou o sistema e melhorou a qualificação
dos professores.
Folha Dirigida As principais iniciativas
foram tomadas em sua primeira gestão. O
que foi efetivamente importante nos últimos
quatro anos?
Paulo Renato Fizemos a reforma do ensino
médio; as regras de descredenciamento automático
das instituições de ensino superior
com freqüentes avaliações negativas;
o programa Literatura em Minha Casa, de distribuição
de livros para os alunos de 4ª e 5ª
séries, fortalecendo a capacidade de leitura.
No campo da avaliação, criamos o
Enceja, para avaliar os cursos supletivos.
Folha Dirigida As iniciativas do ministério
foram marcadas por políticas direcionadas
ao ensino fundamental. Isso gerou descontentamento
nas duas pontas do sistema: na pré-escola
e na universidade. Como avalia as críticas
de que as universidades ficaram abandonadas?
Paulo Renato Nosso sistema público
de ensino superior é, hoje, muito melhor
do que era em 1994. Isto não significa
que não existam problemas e carências,
mas não há um só indicador
de desempenho das universidades federais que mostre
algum retrocesso. A maioria indica avanços
notáveis. O abandono, entre aspas, fica
por conta de minorias politicamente radicais,
cegas aos dados da realidade, que não se
cansam de repetir isso.
Folha Dirigida Apesar da demanda crescente
por creches, a pré-escola só cresceu
4% em 2001, segundo o último Censo Escolar
divulgado pelo Inep. Por quê? Faltou incentivo
do governo?
Paulo Renato A implementação
de uma política pública para a educação
infantil ainda está em curso, encontrando-se
os sistemas de ensino em fase de transição,
seja em relação à incorporação
do atendimento a crianças de zero a 6 anos
ao sistema educacional, como em relação
à definição da identidade
desta etapa da educação básica.
De qualquer modo, ampliamos a abrangência
da educação infantil, com uma expansão
no número de alunos de 21% apenas nos quatro
últimos anos, apesar do perfil demográfico
brasileiro mostrar uma queda da demanda por esse
nível de ensino.
Folha Dirigida Por que os incentivos
à pesquisa se fragilizaram no governo de
Fernando Henrique Cardoso?
Paulo Renato A Capes não se
fragilizou, ao contrário, manteve e até
expandiu seu raio de ação. Por outro
lado, a criação dos fundos setoriais
de pesquisa, que é uma antiga reivindicação
da comunidade científica, transformou de
maneira substantiva o cenário do financiamento
e da gestão da pesquisa. O volume de recursos
previstos para os próximos anos é
significativo. O mais importante porém
é que esses recursos representam, de um
lado, a possibilidade ímpar de estabilidade
para o financiamento da pesquisa no país.
E na medida em que a maior parte das pesquisas
é realizada pelas universidades públicas,
constituem uma nova possibilidade de recursos
vinculados à produção científica.
Folha Dirigida As contingências
econômicas foram decisivas para a Educação
no Brasil, nos últimos oito anos?
Paulo Renato Foram. Sem a instabilidade
não conseguiríamos o que conseguimos.
Apesar de a estabilidade ter requerido alguns
ajustes orçamentários, o orçamento
do MEC cresceu de algo em torno de 9,5 bilhões
de reais em 1995 para 16,5 bilhões de reais
em 2002. No tempo da inflação, o
orçamento da área social sempre
crescia em termos nominais, mas caía em
termos reais.
Folha Dirigida O que pensa da tentativa
de absorção do ensino superior pela
Organização Mundial do Comércio?
Quais resultados trará ao Brasil sua possível
inclusão na lista de itens regulamentados
por essa organização?
Paulo Renato O instrumento de que dispõem
os sistemas educacionais nacionais para exercer
seu poder de regulamentação é
a certificação e o reconhecimento.
A legislação brasileira hoje existente
não necessita ser modificada, pois não
impede a presença de capital externo e
estabelece regras claras para a criação
de instituições nacionais, que devem
ser acreditadas no país e submetidas aos
processos avaliativos existentes. Do ponto de
vista institucional, o Brasil está, hoje,
preparado para que o intercâmbio internacional
na área de serviços educacionais
possa trazer benefícios significativos
para a educação brasileira.
Folha Dirigida Quem participa dos acordos
com a OMC no campo educacional, o Itamaraty ou
o Ministério da Educação?
Em caso de ausência do MEC, vê pertinência
nisso?
Paulo Renato O assunto ainda sequer
entrou na pauta de negociações da
Organização Mundial do Comércio.
A única negociação existente
é no âmbito do Mercosul, onde o Ministério
da Educação participa.
Folha Dirigida As deliberações
da Conferência Mundial do Ensino Superior
de 98, evento promovido pela Unesco, servem, ainda
hoje, de referência para grande parte dos
países do mundo desenvolvido e em desenvolvimento.
Como analisa o impacto de suas formulações
no ensino superior do Brasil?
Paulo Renato As decisões sobre
os rumos do ensino superior são soberanas
do nosso país, a partir de diagnósticos
precisos dos caminhos que devem ser trilhados.
Essas conferências nos ajudam a refletir
e a conhecer experiências de outros países.
Folha Dirigida O que pensa sobre a
reserva de vagas nas universidades para originários
de escolas públicas e para minorias étnicas?
Paulo Renato A proposta de ações
afirmativas para os negros e os índios
é uma justa e inadiável reivindicação,
não só dos afro-descendentes, mas
de todo brasileiro com um mínimo de consciência
social e moral. A solução disso
se dá fundamentalmente por mais e melhores
oportunidades na educação básica.
Em 1992, apenas 79% das crianças negras
estavam na escola contra 91% das crianças
brancas. Em 1999, a freqüência na escola
das crianças negras aumentou para 93%,
reduzindo a distância em relação
às crianças brancas, que passou
para 97%, em apenas 4%. O mesmo ocorreu com os
estudantes declarados pardos, de 82% para 95%
de crianças na escola. Tal processo de
inclusão refletirá a médio
e longo prazos maior igualdade de oportunidades
a todos. A educação é um
meio privilegiado para a correção
das desigualdades sociais e raciais.
Não obstante, criamos agora o programa
Diversidade na Universidade. A diretriz
central é oferecer aos alunos pobres, negros
e índios igualdade de oportunidades para
o ingresso e a permanência no ensino superior.
O mecanismo é o financiamento de cursos
pré-vestibulares especializados no atendimento
à população carente, tanto
para estudantes do último ano do ensino
médio, quanto para aqueles que já
o concluíram, mas não têm
condições de pagar um cursinho.
Isso implica sistematizar os diversos esforços
existentes na sociedade para promover o acesso
dos grupos em desvantagem social a níveis
mais elevados de ensino.
Folha Dirigida Acha que as medidas
dos últimos oito anos contribuirão
para melhorar os índices educacionais e,
por conseguinte, o Índice de Desenvolvimento
Humano do país?
Paulo Renato Não tenho dúvidas.
Já se vêm refletindo melhorias substanciais
em quaisquer indicadores existentes. No IDH estaríamos
em melhor posição, se a Unesco utilizasse
os números mais atualizados dos nossos
indicadores.
Folha Dirigida Aceitaria atuar mais
quatro anos como ministro da Educação?
Paulo Renato Não, acredito que
cumpri meu papel.
Folha Dirigida Com sua longa experiência
à frente do ministério, o que aconselha
ao futuro ocupante da pasta?
Paulo Renato Nestes anos todos, o MEC
procurou liderar as transformações
do sistema de educação de nosso
país, evitando desenvolver diretamente
as ações educativas. Evitamos, assim,
a imposição de programas ou projetos
definidos pelo ministério, buscando sempre
a persuasão para que fossem adotados pelos
estados e municípios. Em um país
federativo como o nosso, se o Governo federal
tiver a ilusão de que ele vai determinar,
em cada momento, cada passo a ser dado, se perde
numa tecnocracia soberba e sem eficácia.
Na educação, as coisas não
acontecem da noite para o dia. O processo é
lento, difícil e ocorrem decisivamente
em outras instâncias federativas. Aconselharia
os novos a não perder isso de vista.
Folha Dirigida Fala-se que o senhor
prestará consultoria a uma organização
internacional de educação, cujos
acordos já se teriam efetivado? Confirma?
O que pretende fazer quando deixar o ministério?
Paulo Renato Não. Vou abrir
uma empresa de consultoria nas áreas de
educação e economia. Não
há nenhum contrato por enquanto, até
porque só posso me dedicar a esse novo
trabalho após deixar o Ministério
da Educação.
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