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Democratizar o acesso ao ensino superior público
e criar mecanismos de educação continuada
no Brasil. Esses são os dois principais
pontos do panorama que o Secretário Estadual
de Ciência e Tecnologia, Ricardo Vieiralves,
traça sobre a educação no
país. Defendendo o ensino a distância,
Vieiralves frisa a importância de criação
de políticas e mecanismos para que o Brasil
não perca o compasso da era do conhecimento.
Professor de Psicologia da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Ricardo Vieiralves
fala com a experiência de quem já
foi sub-reitor da Uerj por duas vezes, presidente
do Fórum Nacional de Pró-Reitores
de Extensão e membro da Comissão
Nacional do Ministério da Educação
para Avaliação das Universidades
Públicas Brasileiras.
Como sua gestão na Secretaria de Ciência
e Tecnologia implantou o Sistema de Acompanhamento
de Desenvolvimento dos Estudantes do Ensino Médio
(Sade), Vieiralves teve bastante contato com a
polêmica sobre a reserva de vagas para negros
e carentes. Em seu depoimento à FOLHA DIRIGIDA,
o professor de Psicologia da Universidade do Estado
do Rio de Janeiro (Uerj) pondera sobre o papel
do Estado em regulamentar as desigualdades. Nesse
período republicano, ainda não inserimos
a população que foi escrava no passado,
esclarece.
FOLHA DIRIGIDA - A política de cotas,
seja para alunos carentes, seja para afrodescendentes,
deve ser adotada como alternativa para solucionar
os problemas de acesso ao ensino superior? O que
é preciso fazer para democratizar esse
acesso?
Ricardo Vieiralves - Essa é uma questão
política. Existe um processo que é
a função do Estado regulador. Quando
a desigualdade, em todos os estudos estabelecidos,
se transforma em estrutural, cabe ao Estado fazer
essa intervenção. De acordo com
dados do Instituto de Pesquisas Econômicas
Aplicadas (Ipea), há uma desigualdade étnica
atravessando gerações. No caso da
população negra brasileira, ainda
que nas mesmas faixas salariais, a população
branca consegue maior ascensão. Nesse período
republicano, ainda não inserimos a população
que foi escrava no passado. Acredito que, em alguns
momentos, uma intervenção de força
do Estado para reprimir essa desigualdade é
totalmente justa. A partir do momento que a desigualdade
é contornada, o ato de força deixa
de ser necessário. Por outro lado, não
podemos transformar uma política na Política.
Várias outras atitudes de combate à
desigualdade têm de ser feitas concomitantemente.
Temos de universalizar mais o acesso à
educação, fazer que a criança
permaneça na escola, é preciso atentar
para a distribuição de renda. Ou
seja, seria preciso a implementação
de uma série de políticas agregadas.
FOLHA DIRIGIDA - Quais os desafios do ensino
superior do Brasil nos próximos anos?
Ricardo Vieiralves - O governo do presidente
Fernando Henrique Cardoso abriu um processo de
desregulamentação completa do sistema.
O sistema enlouqueceu. Porém, a formação
superior é uma formação qualificada.
Precisamos ordenar esse sistema. Um outro ponto
é o Conselho Nacional de Educação
(CNE), que veio em substituição
ao Conselho Federal de Educação
para acabar com a lógica cartorial. E permaneceu
a lógica de cartório. Isso é
muito grave porque o cartório é
um lugar de lobby, de jogo de interesses,
de ação política menor. É
preciso pensar seriamente no papel do Conselho
Nacional de Educação, e, retirando-lhe
esse papel cartorial, dar a ele um lugar político
das grandes diretrizes da educação
nacional.
FOLHA DIRIGIDA - Na sua opinião, o
que o futuro presidente poderá, efetivamente,
fazer para resolver seus principais problemas?
Ricardo Vieiralves - Há uma necessidade
de ampliação do sistema público.
O sistema privado teve uma expansão monstruosa
nesses últimos anos, que está detendo
quase 90% das matrículas. Eu acredito que
o ensino a distância, qualificado e público,
é um grande caminho para universalizar
o acesso ao ensino superior. Uma das outras questões
a se pensar é a forma de avaliação
do sistema. Pensar que a possibilidade de avaliação
se esgota no Provão é uma pobreza
mortal. Precisamos construir um sério sistema
de avaliação na universidade, que
poderia ser feita ao longo do processo e não
ao final exclusivamente. E essa avaliação
tem de ter conseqüência. Não
é possível, mesmo com esse sistema
desqualificado que é apenas o Provão,
vários cursos receberem conceito E
sistematicamente e permanecerem ofertando seus
cursos, sem sofrerem nenhuma sanção.
No caso das privadas deve haver multas pelo menos.
FOLHA DIRIGIDA - O ensino a distância
ainda gera polêmica no meio educacional.
De um lado, ele é apontado como ferramenta
estratégica num país continental
como o Brasil. No entanto, muitas são as
críticas quanto à formação
dada aos alunos e à quebra da interação
e do contato com os professores. Qual a sua opinião
a esse respeito? O que é preciso para desenvolver
essa modalidade de ensino no Brasil?
Ricardo Vieiralves - O problema é quando
se quer transportar uma coisa para outra. O sistema
presencial é um sistema. O sistema a distância
é outro. O que dá errado é
se pensar que tudo o que acontece no sistema presencial
vai acontecer no ensino a distância. O ensino
a distância não rompe a interação.
Pelo contrário, há interação
o tempo todo, através de correio eletrônico,
através de contato virtual. Porém,
a pedagogia é distinta. Nós estamos
desenvolvendo essa modalidade no Rio de Janeiro,
através da Fundação Cecierj
com 11 pólos de licenciatura em Matemática
e Biologia. Esta tecnologia no Rio de Janeiro
está sendo parâmetro em nível
nacional.
FOLHA DIRIGIDA - A educação
profissional tem sido apontada como alternativa
para os jovens ingressarem no mercado de trabalho.
A própria LDB separou o ensino médio
do ensino profissionalizante. Por outro lado,
alguns educadores criticam a fragilidade da educação
profissional mediante as velozes mudanças
das diversas áreas do conhecimento?
Ricardo Vieiralves - Essa crítica é
reacionária e conservadora porque lida
com o conhecimento, no mundo atual, como algo
que pode ser esgotado. Ninguém se forma
em dois anos, nem em cinco, nem em dez e nem em
20 anos. O grau de informação é
muito maior do que a capacidade de formação.
O que é preciso montar é um sistema
de educação permanente e continuada.
Acabou a idéia de que, após cinco
anos numa escola, o profissional já está
pronto. O ensino propedêutico e o ensino
profissional são duas modalidades distintas.
O ensino profissional detém determinadas
vocações.
FOLHA DIRIGIDA - Nesse sentido, o que deve
ser feito para lidar com essa situação?
Ricardo Vieiralves - As pessoas não
podem mais parar de estudar. Essa talvez seja
uma nova concepção de pedagogia,
um novo modo de lidar com o conhecimento. O que
nós não criamos no Brasil foi uma
forma de educação permanente e continuada.
Ainda que não fosse na carreira acadêmica
em mestrado ou doutorado poderia
haver um mecanismo de retorno às universidades
para atualização em técnica
ou em conceito, permanente. Esse seria o diferencial
dos profissionais. O problema não é
a terminalidade. O problema é que nós
não criamos o mecanismo de continuidade
na educação.
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