| A formação
dos professores brasileiros. Este é o tema
central desta entrevista com Terezinha Saraiva,
ex-secretária de Educação do
Município do Rio, ex-secretária geral
do Mobral,ex-membro do Conselho Federal de Educação
e que, atualmente, atua na Fundação
Cesgranrio.. A seu ver, faz-se necessário
empreender processos de mudança nas instituições
responsáveis pela formação
dos professores e no aprimoramento da capacidade
acadêmica e profissional dos docentes formadores.
É preciso que os cursos enfrentem e
respondam ao desafio de oferecer uma formação
profissional de alto nível, apontou,
ressaltando ser indispensável restabelecer
o status da carreira do magistério e o convencimento,
por parte dos professores, da grande importância
de sua função na sociedade. Confira,
abaixo, a entrevista completa.
Folha Dirigida - Em setembro, a Fundação
Cesgranrio promoveu um fórum para discutir
a formação de nossos professores.
Qual é a importância de debater este
tema, principalmente entre indivíduos que
estão ligados às instituições
formadoras?
Terezinha Saraiva - A Fundação
Cesgranrio, desde 1993, vem realizando Fóruns,
reunindo educadores, economistas, planejadores,
formuladores de políticas públicas,
para debater temas de interesse da educação,
da sociedade. O Fórum realizado no último
dia 24 de setembro teve como tema a formação
de professores da educação básica,
considerando sua importância no contexto
educacional. Abordar este tema, sobretudo com
os professores das instituições
formadoras, é de vital importância,
pois sabemos que uma das variáveis que
mais interferem para a baixa qualidade do processo
ensino-aprendizagem é o preparo inadequado
dos professores, cuja formação,
de modo geral, não assegura as características
inerentes à atividade docente em nossos
dias. Para tanto, faz-se necessário empreender
processos de mudança nas instituições
responsáveis pela formação
dos professores e no aprimoramento da capacidade
acadêmica e profissional dos docentes formadores.
Folha Dirigida - Discute-se muito a questão
das disciplinas existentes nos currículos
das faculdades de Pedagogia. A Srª acredita
que algo deveria ser modificado? Como estas instituições
poderiam adequar as matérias com a realidade
diária do professor?
Terezinha Saraiva - É sabido que os
cursos de formação de professores,
quer em nível médio o normal
quer em nível superior as
licenciaturas, e os cursos de pedagogia ,
não vêm formando docentes com o perfil
adequado, com o conhecimento indispensável
para desempenhar as atividades docentes. Os currículos
dos cursos de formação de professores
devem considerar as características de
cada faixa etária dos alunos, os objetivos
das várias etapas da educação
básica, o aluno real e não o aluno
hipotético, as tarefas inerentes à
atividade docente, entre as quais destaco: conhecer
e saber lidar com a diversidade existente entre
os alunos; promover atividades de enriquecimento
cultural; comprometer-se com a aprendizagem dos
alunos no que se refere aos conteúdos curriculares
e com o conhecimento do mundo; utilizar novas
tecnologias como apoio à pratica docente;
desenvolver nos alunos o espírito investigativo,
o raciocínio, os hábitos de colaboração
e de trabalho em equipe, a autonomia; sentir-se
responsável pelo sucesso dos alunos. A
partir destas tarefas, e sem perder de vista que
os futuros professores, em sua formação,
devem adquirir, obrigatoriamente, perfeito domínio
dos conteúdos que vão lecionar,
cabe às instituições formadoras
eleger as disciplinas que comporão o currículo
dos cursos de formação do magistério
e cercar os futuros professores de um ambiente
culturalmente rico, para garantir-lhes uma sólida
e ampla formação cultural e acadêmica.
A seleção das disciplinas para compor
o currículo deve ocorrer a partir do conjunto
de competências que o futuro professor deve
adquirir em seus cursos. É preciso que
os cursos enfrentem e respondam ao desafio de
oferecer uma formação profissional
de alto nível.
Folha Dirigida - A seu ver, em que nível
deve se dar a formação de professores?
Instituto Superior, Universidade ou Curso Normal?
O que a srª acha dos atuais cursos de formação
existentes no Brasil?
Terezinha Saraiva - Os cursos de formação
de professores, quer em nível médio,
quer em nível superior, vêm perdendo,
ao longo dos últimos 20 anos, a qualidade
que foi a marca registrada de excelentes cursos,
que formaram excelentes professores. Quanto ao
local de formação, em nível
superior, nada muda o fato de ser em Institutos
Superiores de Educação, em Cursos
Normais Superiores, em Faculdades. O que importa
é a qualidade da formação.
Folha Dirigida - Especialistas acreditam que,
muitas vezes, o aluno que ingressa nos cursos
de formação já chega desanimado.
O que é possível fazer para reverter
este quadro?
Terezinha Saraiva - O perfil dos candidatos
ao magistério mudou muito ao longo dos
anos. Muitos chegam aos cursos de formação
com graves lacunas em sua escolaridade anterior.
Mudou também o perfil dos formadores de
professores. Além disto, a carreira perdeu
muito do seu status social e econômico.
Exige-se dos professores formação
inicial e continuada, a fim de que se mantenham
atualizados, e não lhes oferecem incentivos.
Folha Dirigida - Um dos maiores problemas
enfrentados pelos professores que atuam nas escolas
é a baixa remuneração. Se
eles não possuem condições
suficientes para se reciclarem, como seria possível
recapacitá-los?
Terezinha Saraiva - A formação
continuada dos professores não é
mais uma opção. É uma necessidade,
uma exigência. Os sistemas de ensino e as
instituições de nível superior
precisam encontrar alternativas para oferecer
as oportunidades de atualização
de formação em níveis subseqüentes,
utilizando novas tecnologias, novas estratégias,
facilitando o acesso dos professores aos diversos
cursos, financiando esse aperfeiçoamento.
Folha Dirigida - No passado, o professor era
reconhecido e respeitado pela sociedade. Atualmente,
quando um jovem opta pela carreira, muitas vezes
é recriminado pela família. Quais
medidas poderiam ser tomadas para que o prestígio
dos profissionais de Educação seja
resgatado?
Terezinha Saraiva - O resgate da profissão
passa pela valorização do professor,
em termos de formação, sob a ótica
social e econômica e, também, pela
auto-avaliação. É indispensável
restabelecer o status da carreira do magistério
e o convencimento, por parte dos professores,
da grande importância de sua função
na sociedade. É preciso não esquecer
que um sistema de ensino ou uma instituição
de formação em nível superior
é e será sempre o reflexo daquilo
que representa o seu quadro docente. Talvez, mais
do que em qualquer ramo de atividade, o professor
é, no setor educacional, a medida de todas
as coisas, o fator mais importante para garantir
um ensino de qualidade. O magistério, lamentavelmente,
vem se desestimulando ao longo do tempo. E o aviltamento
da profissão está acabando com o
respeito e a admiração que sempre
se teve pelo professor. A reversão desse
quadro está custando muito a acontecer
e é urgente.
Folha Dirigida - A LDB diz que, em 2007, os
professores do ensino básico deverão
ser formados em nível superior. Como a
Sra. vê a extinção da formação
do professor no nível médio?
Terezinha Saraiva - Não concordo com
a extinção dos Cursos Normais de
nível médio. Uma legião de
excelentes professores normalistas para as séries
iniciais do ensino fundamental e para a educação
infantil foi e vem sendo formada por eles, há
mais de um século. É uma alternativa,
inclusive, que a própria Lei 9394/96 abriga
no seu artigo 62 e que ainda é indicada
para algumas regiões do pais, regiões
que não terão condições
de, a curto prazo, ter todo o corpo docente para
atuar em creches, pré-escolas e séries
iniciais do ensino fundamental formado em nível
superior, como previsto nas Disposições
Transitórias da LDB. O problema, a meu
ver, não está no nível dos
cursos de formação e, sim, na qualidade
e na concepção dos cursos oferecidos.
Existe, hoje, um expressivo percentual de professores
com graduação, lecionando no ensino
fundamental, desde as primeiras séries,
e nem por isso a qualidade do ensino e da aprendizagem
melhorou. Os resultados do Saeb estão aí
para ratificar o que digo.
Folha Dirigida - É raro encontrarmos
professores mestres e doutores que atuem nas escolas.
A Srª acha que eles teriam uma espécie
de preconceito de atuar nestas instituições,
pois lecionar para alunos de graduação
ou produzir pesquisas lhes dá mais status?
Que contribuição estes professores
mais bem qualificados poderiam levar para as escolas?
Terezinha Saraiva - Os professores portadores
de títulos de mestre e doutores têm
como lócus natural para o trabalho
docente e de pesquisa as instituições
de ensino superior. Eles têm papel relevante
na formação de professores, desde
que não percam a noção e
o contato com a realidade da escola em que os
futuros professores seus alunos
vão atuar.
Folha Dirigida - A visão tradicional
de alguns professores pode prejudicar de alguma
maneira a formação dos novos alunos?
Terezinha Saraiva - O professor pode ter uma
visão e uma atuação tradicional,
desde que seja atualizado e esteja sintonizado
com seu tempo. Há professores tradicionais
que realizam excelentes trabalhos e há
aqueles que se consideram modernos
e que não conseguem exercer, com qualidade,
eficiência e eficácia seu ofício.
Tradicional, a meu ver, não é antagônico
a eficiente.
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