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Em São Paulo, o governo do Estado mobilizou
verbas e policiais para atender a educação.
Revista de estudantes na hora da entrada e instalação
de equipamentos de vigilância sofisticados
são algumas medidas aplicadas naquele estado,
onde os índices de criminalidade são
dos mais elevados.
No Rio de Janeiro governado pelo PT, outro
estado onde a violência tem índices
preocupantes, dirigentes escolares são
obrigados a ter em suas cadernetas os números
dos celulares dos chefes dos quartéis da
Polícia Militar, que também participam
de reuniões de trabalho de educadores.
A lógica da repetição
dos padrões de comportamento alerta que
Rio e São Paulo não estariam longe
de exportar seus métodos para o resto do
país. Folha Dirigida reuniu intelectuais
que pudessem contribuir com sua visão pedagógica
(não com policiamento) nesta questão
que envolve estudantes e professores.
A seguir, publicamos um debate, realizado
numa fria manhã de inverno nas dependências
do jornal, onde foram formuladas críticas
e forjadas propostas que ajudam a refletir sobre
o tema, tão presente no cotidiano das grandes
cidades; e que também pode sinalizar para
a experimentação de novos caminhos.
Para conversar com o secretário de
Estado da Educação do Rio de Janeiro,
William Campos, foram convidados Roberto Kant
de Lima e Mirian Paura. Kant é antropólogo,
doutor pela Universidade de Harvard, pesquisador
internacionalmente conhecido. Há 20 anos
atua na área de Segurança Pública
e atualmente coordena o Curso de Especialização
em Políticas de Segurança Pública
do Núcleo Fluminense de Ciências
e Pesquisas da UFF.
Mirian é orientadora de mestrandos
em Educação da Uerj. Sua linha de
pesquisa é justamente o impacto dos conflitos
sociais sobre os jovens em idade escolar. O discurso
de Kant alinhava o jurídico ao pedagógico.
O de Mírian é claramente marcado
pelo viés psicossocial.
William Campos, por sua vez, fala das medidas
tomadas por um governo de emergência, instalado
para mostrar a que veio em dez meses, entre a
desincompatibilização do ex-governador
Anthony Garotinho, que deixou o cargo para concorrer
à vaga de presidente da República,
e a posse, em janeiro de 2003, de quem sair vitorioso
nas eleições em curso.
O que atrai a violência para a escola?
Profª Mirian Paura
São três blocos. Primeiro, é
uma repetição da sociedade. Na medida
em que a sociedade nos dá os confrontos,
a escola, sendo uma instituição,
repete o modelo. Eu diria que é quase uma
violência conjuntural. Há um outro
tipo de violência, dos próprios participantes
da escola, trabalhada nas rivalidades, nas competições.
Eu faria uma relação de questões
factuais, trazidas por grupos rivais, que não
resolvem seus problemas nos seus espaços
e vêm resolver na escola. É uma questão
extremamente significativa nesse contexto que
eu chamaria de violência circunstancial.
E há um terceiro tipo, de que a gente
não se dá conta, que eu chamo de
violência simbólica. É a violência
gerada por questões metodológicas,
pedagógicas, que, não resolvidas
a contento, vão gerando outros tipos de
insatisfação. Por exemplo: um aluno
que fica reprovado várias vezes não
tem direito à voz e fica como sendo o responsável
pelo fato. Isso gera um tipo de violência
que eu chamo de violência simbólica,
que não chega a conflitos físicos,
necessariamente, mas gera baixa auto-estima. Essa
violência na escola, infelizmente, eu acho
que a curto prazo não tem como acabar.
Roberto Kant
É antropólogo.
Coordena o Núcleo
de Ciências e
Pesquisas da
Universidade
Federal Fluminense
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Prof. Roberto Kant
Essa violência simbólica se exerce
de maneira diferenciada, de acordo com o contexto
em que a escola se encontra. A educação
no Brasil tem sido, através dos tempos,
um privilégio. Enquanto falamos em acesso
à Justiça, uma das questões
fundamentais da República Burguesa e do
Estado de Direito, que é o direito igual
que todos têm, aqui no Brasil tem prisão
especial para quem tem educação
superior. Trata-se de um privilégio que
desiguala uns dos outros e essa função
da escola se reflete na ênfase ao conteúdo,
em vez da ênfase na forma de socialização.
Isso faz que a violência na escola seja
também uma violência da escola, que
se caracteriza por ela não conseguir cumprir
o papel de socializar as pessoas. Essa característica,
que inclui não só a escola fundamental,
mas também a superior, cria um campo fértil
para que outras violências prosperem. Isso
é uma coisa estrutural, que precisa ser
pensada.
Quanto às outras violências, elas
estão presentes no contexto da sociedade
e, à medida que essa sociedade também
não socializa as pessoas na administração
institucional de conflitos, ela reproduz essa
violência cada vez mais. Temos uma pesquisa
sobre o papel dos Juizados Especiais Criminais
em Nova Iguaçu e São Gonçalo,
feita pelos professores Maria Estela Morethson
e Marcelo Burros, que mostra que esses juizados
estão sendo colonizados pela violência
doméstica. As crianças são
socializadas em casa resolvendo conflitos com
a violência e quando vão para a escola,
levam essa socialização. A escola
precisa convencer as pessoas de que há
outros mecanismos eficazes para administrar conflitos.

Wiliam Campos
É professor
de História
e secretário
de Educação do
Estado do Rio
de Janeiro
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Prof. William Campos
Educação e segurança
não podem estar separadas. O futuro da
segurança depende da educação
e a segurança é vital para que haja
tranqüilidade na escola. Precisamos criar
um vínculo entre os espaços escolar
e policial. A maioria das pessoas que dirigem
as escolas, até por uma herança
da ditadura militar, vê o policial como
um adversário. Isso está presente
na rede estadual, de modo que o trabalho que temos
feito é de aproximação entre
os diretores e os batalhões militares.
Do portão para dentro, a responsabilidade
da segurança é da direção.
Do portão para fora, é da Secretaria
de Segurança. Só que se a gente
trabalhar apenas formalmente, não vai haver
solução.
É necessário que dentro da escola
haja uma cultura de paz, que consiste no diretor
dar bom-dia aos funcionários e falar com
os alunos; do aluno que fala com os professores
e dar bom-dia para eles; do professor que fala
com o funcionário, por mais simples que
ele seja. A escola não tem que trazer para
dentro a realidade social que está fora.
Ela tem que criar soluções capazes
de formar pessoas diferentes no trato social.
O diretor deve gerenciar as relações
humanas e, através de uma ação
integrada com a Secretaria de Segurança,
criar uma cultura de paz.
Precisamos trazer de volta à escola o
papel de cátedra, de referência,
de exemplo. Se houver uma cultura de paz, as crianças
vão ter uma visão diferente da polícia.
Mas o que encontrei em muitas escolas foi a direção
com medo de chamar a polícia para não
ficar mal com os bandidos. O policial tem que
entrar na escola, tem que comer a merenda, tem
que falar com o diretor, ser recebido por ele.
O policial e o professor não são
inimigos, o policial e o estudante não
são inimigos, e o convênio que estamos
fazendo é para que as pessoas se sintam
seguras com a presença da polícia
e a polícia entenda que proteger a educação
significa evitar novos problemas em cinco, dez,
quinze, vinte anos.
Essa integração
teria buscado inspiração no modelo
de Ciep originalmente implantado por Darcy Ribeiro,
no governo de Leonel Brizola? Em cada unidade
havia um policial militar residente, com sua família.
Prof. William Campos
O projeto dos Cieps, abandonado por outros
governos, está sendo revitalizado. A polícia
tem dificuldade de efetivo e as escolas estão
fazendo o levantamento de entrada e de saída
nos momentos críticos. Algumas escolas
são invadidas à noite e algumas
recebiam visitas na hora da merenda. Os alunos
não tinham sequer uma caderneta de identificação.
Estamos obrigando os diretores a verem que a
identificação é importante.
Um policial residente é uma situação
mais difícil porque, de certa forma, ele
pode trazer a violência para a escola. O
secretário de Segurança (Roberto
Aguiar) criou o policiamento escolar através
de uma ronda. Não é necessário
a polícia na escola em tempo integral.
No futuro, podemos criar um acesso direto aos
batalhões policiais. A permuta entre os
setores ajudaria muito a gerar essa cultura de
paz da qual falo. Os diretores da rede escolar
são obrigados a conhecer os comandantes
da PM e ter seus celulares. Isso é uma
ação preventiva e cabe à
educação, pedagogicamente, mostrar
os valores humanos, de solidariedade, de fraternidade.
A escola tem que ser protegida. Não tenho
vergonha de dizer que a escola tem que se transformar
num santuário, ajudar a formar pessoas
mais capacitadas a exportar amor e solidariedade.
É preciso uma ação educativa
e uma ação policial.
Tivemos um problema de briga de gangues com dois
alunos, no Ciep Almirante Francisco Mega, na Vila
Militar, e os transferimos, matriculando-os em
escolas diferentes. Os jornalistas questionaram
o fato de não registrarmos queixa na polícia
e não expulsarmos os alunos. Respondi que
se os tirasse da convivência escolar, estaria
matando aqueles meninos.

Mírian Paura
É pedagoga.
Orienta os alunos
de mestrado e
doutorado em
Educação,
na Uerj
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Profª Mirian Paura
As reações são dúbias.
Quando uma escola particular expulsou uma aluna
por problemas de droga, a imprensa foi em cima
porque expulsou. Na escola pública, a imprensa
foi em cima porque não registrou queixa.
O mesmo grupo ao mesmo tempo que pune acha que
não deve punir.
Uma segunda questão é que há
professores que se sentem ameaçados pelos
alunos. Já ocorreu de um aluno decidir
ir à escola e assistir à aula na
hora que queria, chamando a isso de blitz. Quando
uma professora decidiu não aceitar, teve
que ser afastada. São ocorrências
que relativizam a decisão de que os professores
têm que colaborar.
Tem ainda um outro momento, quando a escola faz
parceria com a comunidade e os donos do pedaço
começam a solicitar seu espaço.
Como a direção faz, sabendo que
a escola não será bem utilizada?
Ocorre também de os donos do pedaço
mandarem presentes de que a escola está
precisando. Devem ser aceitos? Onde está
a ética? Não estou tirando o mérito
nem a beleza desse projeto, estou mostrando sua
complexidade.
Prof. William Campos
Um governo de transição, de
nove meses, tem que agir de forma contundente.
Tivemos uma reunião no início do
governo com todos os diretores, da qual o comandante-geral
da Polícia Militar (Francisco Braz) participou
para mostrarmos o vínculo. A medalha do
aniversário da PM, que é dada no
quartel, foi recebida por mim numa reunião
de diretores e temos um acordo, no sentido de
que, se os coordenadores educacionais não
procurarem o batalhão, o comandante me
aciona. No caso de os comandantes não atenderem
às escolas, eu os aciono. E já houve
troca de comando de batalhão por negligência
no atendimento escolar.
E o que eu sinto é que se a gente abaixa
a cabeça para o tráfico uma vez,
a gente vai abaixar a vida inteira. A rede estadual
não pode fechar a escola por ordem do tráfico.
O estado não pode deixar de fazer o que
o tráfico fará no lugar dele. Na
escola Norma Tupe Uruguai, em Duque de Caxias,
um professor foi assassinado. Policiamos a escola,
mobilizamos outras escolas da região e
promovemos um abraço à unidade em
que houve o homicídio, com mais de três
mil pessoas. Precisamos mostrar às comunidades
mais violentas que atacar escola é um crime
hediondo. A escola está à margem
de quaquer tipo de problema que exista na comunidade
e é assim que os diretores têm que
proceder, até porque estamos num governo
curto e não vamos aceitar insubordinação.
Quando o tráfico vê que há
resistência, pensa duas vezes. Eu acho que
nenhuma diretora tem o direito de aceitar qualquer
tipo de presente ligado à violência.
Mas os amigos da escola, os que contribuem com
a escola, são bem-vindos. Se alguém
quer ajudar a fazer a merenda, podar o jardim,
ensinar os alunos a jogar basquete, será
bem recebido. Presentes serão objeto de
inquérito administrativo e exoneração.
Peço desculpas, porque às vezes
parece que somos muitos duros, mas educação
é uma coisa que não precisa de invenção,
mas de execução.
Prof. Roberto Kant
O Brasil sempre falou nas liberdades, mas não
fala nas condições igualitárias
de reivindicar liberdade. Quando todos tiverem
o mesmo direito de reivindicar liberdade, vamos
poder cobrar de todo mundo os mesmos deveres.
Tratar a todos como iguais é uma condição
para ter essa escola de cidadania. A polícia,
por exemplo, quando prende uma pessoa por um crime,
é obrigada a tratar uns de um jeito e outros
de outro, por lei.
A Comissão de Constituição
e Justiça da Câmara Federal aprovou
a volta dos foros privilegiados e, de novo, vemos
que a elite brasileira não quer cidadania,
não quer ser igual a todo mundo. É
comum citar Rui Barbosa, que disse que fazer justiça
é tratar igualmente os iguais e desigualmente
os desiguais. Isso não é coisa que
se diga, não é coisa republicana.
Uma escola, no sentido moderno da palavra, é
um lugar de universalidade e tem que ser igual
para todos. Mas ela entra numa sociedade de desiguais
não para promover a igualdade, e sim para
compensar a desigualdade. A postura do secretário
é muito interessante, porque enfatiza a
questão da autoridade e coloca a idéia
de santuário de uma maneira nova. Se é
o que estou entendendo, significa que a escola
tem que ser um lugar diferente, para impor um
modelo diferente e poder funcionar pedagogicamente,
para que as pessoas socializadas possam atuar
no mundo de uma maneira diferente. É o
que o secretário chama de cultura de paz,
que não é nada mais nada menos do
que os valores de igualdade.
O que Mírian coloca também é
importante. Quando trabalhamos na área
de segurança, tem muito esta coisa de relação
com a comunidade. Primeiro, esse negócio
de comunidade não existe. Comunidade é
um conceito que se opõe à sociedade,
é uma coisa utópica, harmônica,
onde todo mundo é igual. O que existe são
segmentos da sociedade que se articulam mais ou
menos e sempre têm demandas. A função
não é obedecer às demandas,
o Estado não está aí para
prestar qualquer serviço, mas os serviços
que ele tem que prestar e que estão definidos
numa política pública que tem de
incluir as demandas da sociedade, mas também
tem que se impor com uma estratégia, uma
diretriz sobre essas demandas, e não aceitar
ofertas para cobrir as brechas deixadas pelos
governos.
Continua
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