|
As animosidades contra o ensino privado são
tão velhas quanto as brigas com a Igreja.
Mas hoje se metamorfosearam em guerrilhas ideológicas
contra o satã capitalista, insidiosamente
mercantilizando o ensino e extorquindo lucros
exorbitantes. Mas há o outro lado da moeda.
Estamos diante de produtores e consumidores de
um serviço chamado educação,
onde ambos os lados se põem de acordo com
o preço e o serviço a ser prestado.
E no caso do superior, não se trata de
escolaridade obrigatória.
Negociam-se perfumes, automóveis caros
e vinhos finos sem que alguém se lembre
de objetar. Mas alguns se enfurecem ao ver educação,
algo bem mais útil para o país,
sendo comprada e vendida. Vociferam que ensino
não é mercadoria.
Mas manifestações zangadas à
parte, não podemos deixar de reconhecer,
o ensino privado é quase sempre um bom
negócio para o país e para os alunos,
qualquer que seja a sua qualidade. Sejamos pragmáticos,
sem onerar os cofres públicos, os alunos
saem sabendo mais do que quando entraram, qualquer
que seja o seu nível e o das escolas. Se
são bons alunos e freqüentaram boas
universidades, sairão muito bem preparados.
Se foram vítimas do nosso ensino público
de primeiro e segundo graus, chegam no superior
sabendo muito pouco e entram em faculdades que
podem ser precárias. Mas ao cabo de quatro
anos, é difícil alguém argumentar
que não aprendeu muito também. A
diferença é que começaram
de um patamar muito baixo e não chegarão
no mesmo nível dos melhores. Contudo, há
pesquisas mostrando que o aumento de conhecimentos
não é menor do que dentre os melhores
alunos.
Deveríamos pensar duas vezes, antes de
usar recursos do contribuinte para financiar esses
patamares mais modestos - considerando os elevados
custos-aluno do ensino público. É
provável que haja melhores usos para os
dinheiros públicos. Mas se quem paga é
o aluno, todos ganham. As pesquisas mostram que
sua renda pelo menos dobra com o diploma e seu
desemprego é próximo de um terço
do dos que somente têm o ensino médio.
É difícil entender como alguém
pode ser contra uma mercadoria tão
benigna e útil.
Entretanto, nem tudo é tão simples
ou tão fácil. Há complicadores
que vale a pena mencionar.
Há áreas onde se impõe um
limiar de qualidade. Por exemplo, saúde,
construção civil e pilotagem de
aviões são ocupações
onde faz todo sentido estabelecer um padrão
mínimo de desempenho. Portanto, nessas
áreas não vale a hipótese
de que qualquer ensino é melhor do que
nenhum. Nelas, público e privado têm
que atingir certos patamares acordados. Em Direito,
como há um exame da Ordem dos Advogados,
não temos que nos preocupar com qualidade
mínima (na verdade, devemos considerar
Direito como um curso de cultura geral que também
produz advogados).
Caso mais complicado é quando o diploma
se traduz em direito de acesso a empregos ou melhorias
salariais automáticas. Isto é, o
diploma é um passaporte com valor legal.
Esse é o caso de empregos no serviço
público ou posições onde
a lei exige diploma. Nesses casos, criam-se incentivos
para que as escolas ensinem pouco, os alunos aprendam
pouco e os diplomas sejam o principal objeto de
compra e venda. Isso gera injustiça e desestímulo,
pois os diplomas facilitados geram os mesmos privilégios
que os das escolas sérias.
Há também o problema clássico
do monopólio, gerando lucros excessivos
para algumas escolas. Mas os economistas pragmaticamente
entenderam que os capitalistas sempre buscarão
maximizar os seus lucros. É a concorrência
que faz evaporar os lucros excessivos - e não
as vociferações. Em grande parte,
os monopólios, resultantes dos impedimentos
à entrada de concorrentes, se devem ao
cartório criado pelo MEC para abrir novas
escolas gerando assim lucros elevados (autorizações,
credenciamento, tudo cercado da mais espessa ritualística).
Infelizmente, as regras para abrir faculdades
independentes vinham sendo burocraticamente muito
restritivas. Não obstante, como prevalecia
o julgamento da forma mais do que do conteúdo,
o cumprimento das exigências era fácil
de simular para os menos escrupulosos. Felizmente,
há avanços na área, pois
os critérios de entrada estão ficando
mais rígidos e a burocracia menos venal.
A expansão na oferta está criando
uma concorrência saudável, já
que o Provão sinaliza a perda de qualidade
quando se cortam custos onde afeta a qualidade.
Finalmente, o problema mais sério do ensino
privado é que impõe uma barreira
financeira para as novas gerações
mais pobres que começam a chegar ao fim
do segundo grau e querem entrar no superior. Sem
um sistema eficaz de crédito educativo
ou bolsas, os problemas de eqüidade se multiplicarão.
Retomando o mote central deste ensaio, em que
pesem as limitações acima mencionadas,
temos que pensar no ensino privado como solução
e não como um problema. Seguramente, é
uma solução imperfeita e cheia de
arestas, merecendo muitos ajustes. De fato, há
muitos acertos e recauchutagens a serem feitos.
Mas não parece haver outra alternativa
para boa parte da expansão do ensino superior
brasileiro, dada a combinação de
falta de recursos, inapetência e enguiço
administrativo do público.
|