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A história pessoal de Leandro Konder,
66 anos, é pura dialética. Eventualmente
sua memória se mostra cansada para as circunstâncias
do passado. Mas se revela cartesiana ao conectar
fatos sociais que transitaram do passado ao presente,
ou da modernidade à pós-modernidade,
como já dizem os filósofos.
Abrimos um parênteses para esclarecer
que não se trata de confundir a lógica
com a dialética. A palavra cartesiano aparece,
aqui adjetivada, para fortalecer a idéia
de precisão que, diga-se de passagem, é
a síntese da dialética de Karl Marx.
Considerado por seus pares como um dos mais
brilhantes quadros da inteligência brasileira,
Konder, cujo pensamento é carimbado pelo
marxismo, tem uma literatura e uma fala transparentemente
marcada pela luta, pelo combate; mas seu olhar
é de intensa serenidade.
Leandro Konder falou à Folha Dirigida
sobre filosofia, economia, política, educação,
e antecipou o conteúdo de A Questão
da Ideologia, novo livro que está
no prelo da Companhia das Letras.
Folha Dirigida - Os movimentos organizados
defendem para todos os níveis uma escola
publica, laica e gratuita. A educação
pode ser uma ilha de igualdade, cercada pela desigualdade
social? É concreta a possibilidade de uma
educação igualitária, numa
sociedade marcada pelas diferenças de classe?
Leandro Konder Eu acho que tem uma
característica importante na proposta tradicional
da esquerda, em que ela aponta na direção
de uma meta que não é imediatamente
alcançável. Acho que realmente não
se pode ter uma escola pública de qualidade,
laica e acessível, em uma sociedade marcada
por conflitos de classes e desigualdades sociais.
O que se propõe é um movimento que
representa um avanço, seria dar um passo
decisivo nessa direção, naturalmente
providenciando adaptações ao estado
geral da sociedade. Seria um movimento conjunto
das forças sociais, que precisam se movimentar
para superar a atual situação. Nesse
sentido, a política educacional tem que
ser desenvolvida em articulação
com a política geral, com a proposta política
de transformação da sociedade.
Folha Dirigida A educação
estaria apta a puxar essa transformação?
Leandro Konder Em determinadas circunstâncias
e em determinadas condições históricas
sim, e sempre dentro de determinados limites.
Não podemos fazer a revolução
através da educação, mas
é verdade que ela pode desempenhar o papel
de estopim de alguns movimentos que avançam
em direção à transformação
geral da sociedade.
Folha Dirigida A luta dos movimentos
organizados pelo acesso igualitário à
educação é apenas teórica,
ou o senhor identifica nas ações
do magistério alguma preocupação
real nesse sentido?
Leandro Konder Eu acredito que não
seja somente teórica. É teórica
na medida em que é uma antecipação
de uma situação desejada, mas é
também uma coisa vivida, pois a cada passo,
por menor que seja, a cada conquista igualitária
existe o fortalecimento da consciência de
que outras conquistas poderão ser feitas,
e isso tem um papel político significativo.
Folha Dirigida Há espaço
para a mobilização pela qualidade,
quando ainda não se resolveu a questão
do direito para todos à educação?
A emergência não estaria na luta
pelo direito?
Leandro Konder Acho que não
temos que, necessariamente, hierarquizar no tempo
o um ou dois, porque o um já é favorável
à discussão do dois, e o dois repõe
a discussão do um. A luta pela qualidade
da educação, de certa forma, fortalece
as posições que preconizam a realização
do direito à educação. E
essa realização volta a propor em
determinadas condições os temas
da qualidade de ensino.
Folha Dirigida A qualidade e
a universalidade da educação são
decisivas para mudar os rumos econômicos
e políticos do país?
Leandro Konder Com certeza, pois
jamais me convencerá a idéia de
que a educação é um mero
epifenômeno, um fenômeno derivado
de um outro fenômeno, uma conseqüência
automática e imediata. Não se trata
de um eco de outras batalhas, essas sim decisivas.
Folha Dirigida No contexto da
América Latina, como se pode explicar que
uma Argentina tão bem educada, tenha sido
tão vulnerável às idolatrias
e tenha quebrado economicamente?
Leandro Konder Para isso, é
preciso uma análise mais profunda da história
da Argentina. Tenho pouco contato com essa história
e não teria condições de
responder, mas é realmente algo fascinante,
a desgraça dos nossos vizinhos tem algo
de imensamente perturbador.
Folha Dirigida O senhor acredita
que a Alca será positiva na reconstrução
de um novo Brasil?
Leandro Konder Eu não tenho
acompanhado as discussões, mas a idéia
da Alca parece justa, pois não temos futuro
nas condições de isolamento que
vivíamos, em uma história marcada
por sofrer pressões externas. Acho que
a reação contra esse isolamento
pode se beneficiar muito na Alca. Não é
nada garantido, mas é uma possibilidade
que merece nossa atenção.
Folha Dirigida O senhor faz
coro nas denúncias de que, em conseqüência
da dívida externa, as políticas
nacionais para a educação são
subordinadas aos interesses dos países
ricos?
Leandro Konder Eu não diria
subordinadas, mas de certa forma marcadas por
esse interesse, numa dimensão que historicamente
varia muito, dependendo do período. Mas
são marcadas por esse interesse, sem dúvida.
Folha Dirigida Qual educação
interessaria aos países ricos, no caso
das nações periféricas?
Leandro Konder Uma educação
que contribuísse para alimentar um espírito
de inserção, adaptativa dos países
periféricos à nova ordem mundial,
que vai ser cada vez mais decidida pelos países
desenvolvidos, que impõem uma ordem e querem
uma educação que fortaleça
o espírito de submissão nas massas
populares, na população dos países
periféricos.
Folha Dirigida Não há
como negar que a economia está no centro
de todas as coisas. Como o senhor vê esse
movimento? A economia é, de fato, decisiva
em todos os segmentos? Há alguma saída
para essa dependência? Como a educação
pode contribuir para uma possível mudança
de foco?
Leandro Konder A educação
pode, sim, contribuir para uma mudança
de foco, mas não no sentido de superar
a economia, mas de nos ajudar a pensar corretamente
o que é e no que consiste o econômico.
A economia não é uma mecânica,
e sim um nível de atividade humana na qual
existem sujeitos tomando decisões. Em uma
economia organizada para funcionar em torno do
mercado, a lógica do mercado se estende
a toda sociedade e começa a produzir monstros
teóricos, que levam a pessoa a achar que
a economia tem uma dinâmica própria,
independente das intervenções subjetivas
dos homens. Isso não é verdade,
mas a própria linguagem cotidiana reflete
um processo pelo qual é eliminada a presença
dos sujeitos que estão fazendo a economia
funcionar. Não falo no sujeito como um
mercador, um comerciante ou um capitalista que
promove os movimentos da economia, e sim das coisas,
das mercadorias, como se elas tivessem vida própria.
Falamos o feijão subiu, a
banha subiu. A própria linguagem
cotidiana reflete isso, como se o feijão
e a banha subissem sozinhos. Os movimentos são
produzidos pela intervenção de sujeitos
que não aparecem, que repartem essa camuflagem,
os artifícios ideológicos dessa
classe dominante, artifícios que podem
ser combatidos, denunciados e superados na luta
pela educação.
Folha Dirigida Quem constrói
essa linguagem é a mídia, a quem
também cabe o papel de denunciar esses
movimentos. Fica aí uma contradição?
Somos vítimas disso?
Leandro Konder Somos sim. A mídia
em si é contraditória, sua função
implica uma contradição muito grave,
que não pode ser superada sem uma revolução
social, uma transformação radical
da sociedade, mas pode ser combatida e alterada
pela mobilização política,
devido às forças sociais interessadas
e empenhadas em superar essa situação
atual.
Folha Dirigida Como o senhor
vê o crescimento do ensino privado? É
uma conseqüência do tratamento que
o governo dá ao ensino público?
Vê nisso uma relação premeditada,
causal?
Leandro Konder Talvez não
seja, mas isso não é o mais importante.
O importante é que objetivamente a política
educacional do governo permite, e em alguns casos
facilita, o crescimento das instituições
de ensino privado. Às vezes isso provoca
um prejuízo muito grande para o fortalecimento
de uma educação crítica,
de qualidade. Freqüentemente são instituições
que não são confiáveis. É
um processo perverso.
Folha Dirigida É pertinente
que o ensino superior seja regulamentado pela
Organização Mundial do Comércio?
Leandro Konder Eu não consigo
levar muito a sério essa idéia.
Ela me causa perplexidade. Eu proporia, recorrendo
ao senso de humor, que seria fundamental na nossa
luta que a OMC regulamentasse também as
coisas da Igreja, as coisas da religião,
os objetos de fé e de culto. A filosofia
e a cultura também, não apenas o
ensino superior. Que regulamentasse também
a psicologia, com as fantasias das pessoas e seus
sonhos, que são muito perigosos para não
serem regulamentados. Enfim, não consigo
levar a sério essa história.
Folha Dirigida Qual tratamento
um governo que queira reconstruir o Brasil deve
dar à pesquisa, à ciência
e à tecnologia?
Leandro Konder Reconhecer a importância
da pesquisa exige investimento. Ninguém
pesquisa apenas aquilo que tem retorno previamente
garantido. Toda pesquisa pressupõe algum
risco, e o Estado teria que bancar isso, é
assim em todas as partes do mundo. Aqui temos
um investimento insuficiente e é também
relacionado ao espírito da pesquisa, pois
o pesquisador precisa se sentir realmente livre,
sem pressões de uma OMC da vida.
Folha Dirigida No período
da ditadura o senhor já era um intelectual
ativo e foi uma das vítimas do regime.
Qual foi o sentimento da esquerda, diante da decisão
de um quadro da envergadura de Eduardo Portella,
atender a um governo militar? Qual era a expectativa
dos intelectuais ao verem Portella como ministro
da Educação?
Leandro Konder Eu estava voltando
da Alemanha, onde fiquei seis anos e meio em um
auto-exílio, por causa de um processo que
poderia dar condenação, o que acabou
não acontecendo, mas a recomendação
do advogado foi de que, por via das dúvidas,
eu saísse do país. Estava retornando
e me assustei com o fato de uma pessoa que conheço
estar assumindo um cargo público. Quando
eu saí, em 72, o clima já era muito
ruim, e tínhamos dúvida sobre quando
poderíamos voltar e, às vezes, até
se poderíamos voltar. (Portella assinou
a primeira lista de anistiados do regime militar,
a partir da qual os deportados puderam regressar
ao país).
Folha Dirigida O senhor diz
que ficou assustado com um amigo ocupando um cargo
público. A função pública
é, necessariamente, incompatível
com a liberdade e a democracia?
Leandro Konder De jeito nenhum,
pelo contrário, em alguns momentos você
tem que estar disposto a participar do aparelho
do Estado, participar do governo, desde que você
tenha convicção de que esse governo
esteja fazendo algo que precisa ser feito e tenha
conseqüências libertárias e
justiceiras. Não sou anarquista, acho os
anarquistas muito simpáticos, mas tem que
participar sim. No caso do Estado brasileiro,
em poucos momentos ele viveu situações
que estimulassem essa disposição
de participação efetiva no cargo
por parte dos intelectuais de esquerda. Não
me lembro de uma situação em que
eu tenha vivido essa tentação. Mas
respeito a opção de outros companheiros
que fizeram essa escolha, desde que ela tenha
alguma razoabilidade. Em alguns casos a vontade
de poder foi maior que as considerações
teórico-políticas, mas desconfio
que não seja esse o caso do Eduardo, embora
tenha tido algumas divergências com ele.
Uma delas foi sobre um livro que escrevi, chamado
O marxismo na batalha das idéias.
Ele disse: Por que não o diálogo
das idéias? Eu disse que batalha
é importante, pois a luta é necessária
e batalha é uma dimensão que não
vai desaparecer por uma expressão de boa
vontade nossa ou por uma precaução
lingüística.
Folha Dirigida O discurso do
PT está muito mudado nessas eleições,
trazendo um sentimento pacifista, quase religioso,
no seu contexto. Como o senhor avalia isso? Trata-se
apenas de uma estratégia eleitoral, à
medida que o PT é tradicionalmente um partido
de lutas?
Leandro Konder Vou lhe responder
com uma frase de Antônio Cândido,
intelectual que eu admiro muito: Eu sou
socialista e cidadão brasileiro.
Como socialista, eu vejo com muita tristeza o
que vem acontecendo com o PT. Princípios
e compromissos socialistas estão sendo
sacrificados, e não há o que justifique
isso. Como cidadão brasileiro, me anima
muito a possibilidade do Lula ser eleito presidente.
Folha Dirigida Usar os mesmos
recursos do adversário não é
uma estratégia inteligente?
Leandro Konder É algo muito
arriscado, o inimigo tem uma experiência
histórica muito longa, muito rica e sabe
o que faz. Usar seus métodos pode ser uma
maneira de estarmos nos aproximando, por analogia,
daquilo que ele é e que a gente combate.
Folha Dirigida O senhor se
prepara para lançar o 24º livro. Qual
o pensamento desenvolvido em A Questão
da Ideologia?
Leandro Konder Trato da construção
do pensamento marcada por distorções,
devidas a fatores sociais na divisão social
do trabalho. Esse conceito foi fundamental para
pensarmos as complicações do conhecimento
do inimigo. Marx achava que ele tinha a solução
do problema, que a revolução proletária
criaria uma sociedade comunista, na qual o Estado
desapareceria e haveria um encontro com os homens.
Os fatores sociais que geram a distorção
ideológica desapareceriam. Nada na história
subseqüente confirmou essa análise,
então o conceito foi descartado, o que
eu considero uma questão injusta, pois
o conceito como questão volta. Como solução,
acho que o pensamento de Marx reflete justamente
no século dele, o 19, mas o que importa
é a capacidade de ele reconhecer a questão,
que é inegavelmente genial. Por isso, faço
um balanço desse conceito, com a questão
que ele propõe, nos autores posteriores,
e acabo falando um pouco de vários autores
contemporâneos, do século 20, e de
alguns um pouco mais antigos.
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