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Uma economia onde o conhecimento é arma estratégica

Antes, recursos naturais fartos e mão-de-obra barata eram fundamentais.
Hoje, é o conhecimento que conta.


Rubens Ricúpero: educação sofre
com escassez de recursos no Brasil
 

O embaixador Rubens Ricúpero, de 65 anos, ex-ministro da Fazenda na gestão do ex-presidente Itamar Franco, em 1994, exerce hoje a função de secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento. Formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e diplomata de carreira pelo Instituto Rio Branco, foi aluno do Colégio Marista São Carmo e do Mackenzie. Também cursou, sem concluir, Letras Neolatinas e Economia.

Com a autoridade de quem conhece por dentro a estrutura da economia brasileira, afirma que o Fundo Monetário Internacional tem se mostrado mais sensível às questões sociais de longo prazo dos países, como saúde e educação, muitas vezes penalizadas pela urgência do cumprimento de metas econômicas.
“Os investimentos em educação, no Brasil, não são menores do que o desejado. O problema é que os recursos não são suficientes para tudo. O Brasil exige verbas em muitas áreas, não só em educação. E por essa razão, cedo ou tarde, nós vamos ter que resolver problemas que, na verdade, são estruturais”, avalia Rubens Ricúpero.

Acompanhe a íntegra da entrevista, na qual Rubens Ricúpero condena a política de privatização das universidades públicas e aponta a pequena Coréia do Sul como um exemplo clássico de revolução econômica conquistada através de investimentos maciços em educação.

FOLHA DIRIGIDA - Com a sua experiência internacional como o senhor vê o papel da educação no desenvolvimento dos países?
RICÚPERO - É essencial e cada vez mais, porque hoje em dia a economia é intensiva em conhecimento. Em outras épocas fatores como abundância de recursos naturais, capital ou a mão-de-obra barata eram mais importantes. Mas hoje em dia o que realmente faz a diferença entre o sucesso e o fracasso é a capacidade de competição baseada na tecnologia, na ciência, no conhecimento. Portanto, uma economia baseada no conhecimento significa que deve estar amparada num bom sistema educacional, não só universal, que cubra toda a população, mas que seja efetivo, de excelente qualidade. O exemplo que me vem à cabeça é a Coréia do Sul.

FOLHA DIRIGIDA - Como é o modelo de lá?
RICÚPERO - A Coréia do Sul é um país interessante para a gente. Ele é pequeno, menor que Pernambuco, que tem mais ou menos 93 mil quilômetros quadrados. A Coréia do Sul tem 89 mil. Um pouco mais do que 1% do território brasileiro. No entanto, a Coréia do Sul, que em 1961 tinha uma renda per capita de 82 dólares, agora tem uma renda per capita de mais de 10 mil doláres. Em 61 também, quando o Brasil exportou 1 bilhão e 500 milhões de dólares, a Coréia do Sul exportou somente 41 milhões. Portanto, 35 vezes menos. Hoje em dia a Coréia do Sul exporta 176 bilhões, que é três vezes mais do que o Brasil. O Brasil não chega nem a 60.

Porque isso? Por que a Coréia do Sul ganhou competitividade graças à tecnologia. Enquanto que nós exportamos até hoje produtos pouco elaborados, a Coréia do Sul exporta computadores, semicondutores, peças para computadores, aparelhos para comunicação, ótica e química. Mas eles fizeram isso graças à educação. E, mesmo quando eles eram muito pobres, logo após a Guerra da Coréia, eles já tinham praticamente toda a população alfabetizada. Eles deram ênfase total à educação. Hoje eles são um dos poucos países do mundo, até comparado aos países industrializados, que têm a educação secundária universal. Isto é, toda a população tem a educação secundária completa. Mas não é só isso, a educação é muito rigorosa. Lá, para se entrar na faculdade, eles ficam três, quatro anos sem ver a luz do sol. Estudam de madrugada a madrugada. É muito rigoroso e efetivo. Um sistema exigente. O resultado está aí. É um país pequeno, sem recursos, e no entanto é melhor que o Brasil em renda, exportação, tecnologia. Como é que eles conseguiram isso? Graças quase que exclusivamente à educação.

FOLHA DIRIGIDA - Comparativamente com outros países, qual é a situação da educação brasileira?
RICÚPERO - Eu tenho a impressão de que ela melhorou nos últimos anos. Houve esforços muito meritórios, sobretudo esses últimos de procurar complementar os salários dos professores primários, de tentar criar certos padrões de qualidade para o estudo secundário e também para as universidades, procurar avaliar melhor as universidade privadas, também tem esse ponto de vista. Mas ainda resta muito a fazer porque nós estamos atrasados. Em parte porque nós fomos um país de escravidão, porque um país de escravos não podia se preocupar com isso, porque a educação seria até uma ameaça para as classes poderosas. Nós ainda temos problemas difíceis. Creio que um dos mais difíceis é esse que nós até hoje temos, pela Constituição, uma divisão de funções, que em tese é correta, mas que na prática em um país como o Brasil não funciona.

Quer dizer: a responsabilidade pela educação primária e secundária no Brasil é sobretudo local, pelos municípios e pelos estados. Mas esses municípios e estados, em grande proporção, são muito fracos financeiramente, dependem de recursos do governo federal e não são capazes de criar um sistema adequado. Em contraste, o governo federal se ocupa das universidades federais, que consomem boa parte dos recursos, que de um lado não deixa de ser positivo, porque essas universidades têm feito muito em matéria de pesquisa. Mas, infelizmente, as universidades federais acabam sendo privilégio das pesssoas que têm mais recurso, que podem estudar, passar no vestibular, enquanto que os que não têm dinheiro têm que ir para as universidades privadas. Portanto, é um sistema injusto em termos das condições sociais.

FOLHA DIRIGIDA - O senhor acha que a privatização das universidades públicas seria uma solução?
RICÚPERO - Não, eu não sou desse parecer. Eu acho que as universidades públicas têm um papel a desempenhar, sobretudo como centros de excelência, de pesquisa, muitas vezes de ciência pura. E a universidade privada também, desde que ela atinja o nível de rigor e qualidade necessários. Eu sou contra duas coisas, que são diferentes mas igualmente nefastas. Uma é a universidade pública que se torna apenas um cabide de emprego, um cartório onde as pessoas têm garantia de emprego sem produzir, sem pesquisar, publicar; acho que isso é muito perigoso. A universidade pública só se justifica se ela tiver uma qualidade de excelência, inclusive independente dos resultados de lucratividade.

O outro erro igualmente censurável é o da universidade privada que existe apenas para gerar fortuna para os seus proprietários. Eu acho que a universidade privada é importante desde que, além dos interesses legítimos dos que a dirigem, do ponto de vista econômico, ela possa de fato contribuir para formar pessoas qualificadas. Portanto, quando o estudante paga, ele deve receber em retorno uma educação que o prepare para o mercado de trabalho, para aquilo que ele quer fazer. Eu acho que o poder público tem o dever de ser rigoroso em relação a isso, impedindo que haja uma competição entre as universidades privadas na base de oferecer facilidades que representam o descrédito do ensino.

FOLHA DIRIGIDA - Mas de que forma a globalização aumenta a responsabilidade da educação na tarefa de gerar o crescimento econômico?
RICÚPERO - Uma das características da globalização é que a economia cada vez mais necessita de informação e conhecimento. E a razão disso é que a globalização aumenta a competição entre os países, ao derrubar as barreiras que criaram proteções. Por isso, nesse tipo de economia em que há uma competição acirrada é importante a educação e até, eu me permito acrescentar o que já havia dito, é fundamental uma educação permanente.

Hoje em dia a educação não pode ser igual ao que era no passado, uma coisa que você encerrava quando recebia o diploma universitário. Os progressos e os avanços em muitos campos são tão rápidos que você tem que estar em permanente disponibilidade para educação e procurar se reciclar continuamente. Devido até a complexidade das tecnologias da informação é preciso reaprender a aprender. É preciso ensinar as pessoas como aprender através da internet, de sistemas de alta tecnologia.

FOLHA DIRIGIDA - Fala-se muito na prioridade dos investimentos em educação, mas na prática esses investimentos são sempre menores do que o desejado. Como o senhor avalia essa contradição?
RICÚPERO - Eu tenho a impressão de que no caso brasileiro não é tanto que eles são menores que o desejado. É que, devido aos problemas que eu apontei - a questão das universidades federais, o peso das folhas de pagamento, os recursos não são suficientes para tudo. E eu sinceramente não acredito que se possa resolver isso só na base de aumentar recurso, pois um país como o Brasil exige recursos em muitas áreas, não só em educação. E por essa razão, cedo ou tarde, nós vamos ter que resolver esses problemas a que me referi, e que são estruturais.

FOLHA DIRIGIDA - Tem-se criticado muito o sistema financeiro internacional como responsável pela asfixia das economias emergentes, como é o caso brasileiro. Até que ponto metas fixadas pelo FMI afetam os investimentos sociais e por extensão os educacionais do país?
RICÚPERO - Bem, aí há várias coisas. Não é que o sistema financeiro seja responsável, é que ele ainda não tem mecanismos que possam prevenir com eficiência os capitais voláteis a curto prazo. E também não tem mecanismos para administrar as crises quando elas ocorrem, como o caso da Argentina. Está havendo muito debate sobre isso, mas ainda não chegou ao ponto de se resolver a questão.

Em relação ao Fundo Monetário Internacional é verdade que, às vezes, as metas do FMI interferem, porque é preciso não esquecer que o FMI foi criado como organismo para resolver problemas de curto prazo de balanço de pagamento. Muitas vezes as medidas que o FMI impõe podem servir por curto prazo, mas também freqüentemente afetam as metas de longo prazo, como por exemplo as metas de educação e saúde. Hoje em dia tem havido uma evolução, o FMI tem sido criticado, ele revela uma sensibilidade crescente para isso e eu espero que, com o tempo, seja possível compatibilizar as duas coisas.

 
 
 
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