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A economia está na ordem do dia. Nos
últimos dez anos ela foi içada a
vetor do pensamento mundial e sob sua lógica
têm se manifestado os mais diferentes
e surpreendentes segmentos sociais. A educação
está entre eles.
Pensadores contemporâneos apontam episódios
como a queda do Muro de Berlim, o fim da Guerra
Fria e a queda do Bloco Socialista, coincidentemente
ocorridos nos últimos dez anos, como responsáveis
por esta nova ordem que vem colocando
o capital no centro ou no comando de todas as
coisas.
Não é por acaso que as nações
mais ricas Estados Unidos, Japão
e União Européia são
responsáveis por 80% do que se investe
em conhecimento no mundo. Reconhecida internacionalmente
como principal geradora de desenvolvimento, a
educação se tornou um importante
meio para implementação de políticas
públicas, seja através do seu fortalecimento,
ou do seu enfraquecimento, dependendo do fim a
que se propõem os governos.
Embora ainda fora do domínio público,
as evidências são claras. Exemplo
disso são as dezenas de documentos, preparados
por técnicos do Banco Mundial, acerca da
educação no mundo. Outro exemplo,
este apontado como escandaloso por
pesquisadores da área, são as negociações
da Organização Mundial do Comércio
com os países, no sentido de incluir o
ensino superior na lista de produtos e serviços
por ela regulamentados.
Mas não precisamos dar a volta ao mundo
para crer. No Brasil, por exemplo, as estatísticas
oficiais apontam o domínio do privado sobre
o público em 70% das matrículas
universitárias. Para reforçar, em
reportagem de capa no início deste ano,
a revista Exame qualificou a educação
como um meganegócio, informando
que o ensino privado brasileiro movimenta, anualmente,
uma estratosférica cifra: R$ 90 bilhões.
Quais as conseqüências desta política
que transforma a educação apenas
num negócio? Para discutir o tema, Folha
Dirigida convidou para este debate três
especialistas: Angela de Carvalho Siqueira, doutora
em Educação da UFF, que passou quatro
anos nos Estados Unidos estudando as relações
do Banco Mundial com o ensino; José Raymundo
Romêo, conselheiro da Universidade das Nações
Unidas, entidade educacional vinculada à
ONU; e Pablo Gentili, um argentino que há
dez anos deslocou-se para o Brasil, tornando-se
pesquisador do CNPq e coordenador, na Uerj, do
Observatório Latino-Americano de Políticas
Educacionais.
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Qual
o interesse dos investidores internacionais
no sistema educacional dos países
em desenvolvimento?
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Angela Siqueira
Pesquisadora das
relações entre o
ensino superior e
as agências
multinacionais
de investimento
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Profª Angela Siqueira
Desde a década de 80 o Banco Mundial se
empenha em que os países gastem menos com
educação e saúde, em termos
de enxugamento do Estado. Isso abre o mercado
para o capital estrangeiro. A educação
é vista como um grande setor de expansão
e de lucros. O BM, em documento apresentado em
abril, fala que o mercado educacional tem gastos
estimados em R$ 2 trilhões de dólares
em sua estrutura.
A população dos países desenvolvidos
é envelhecida e não cresce tanto
quanto a dos países subdesenvolvidos, que
se tornaram um mercado em potencial. A educação
básica e o pré-escolar ainda são
vistos como áreas ligadas ao Estado, mas
as empresas estão interessadas em vender
serviços educacionais e também produtos.
Mas o foco maior é no ensino superior,
que na visão deles não é
uma obrigação do Estado, mas apenas
uma mercadoria.
A oferta é de cursos rápidos e
baratos, bastante lucrativos. Nos países
desenvolvidos houve uma redução
de recursos para as universidades. Isso faz que
se tenha que abrir para outros mercados e os países
menos desenvolvidos, com população
crescente e de baixa escolaridade, ficaram muito
visados. A educação que trazem é
fraca, desqualificada e com cursos online, que
nada têm a ver com a realidade local.
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O interesse
é de empresas isoladas, ou parte
de organismos voltados para políticas
públicas, como o FMI e o Banco Mundial?
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Profª Angela Siqueira
Parte das duas frentes, mas num trabalho de certa
forma desarticulado. Os organismos internacionais,
principalmente o BM, passou a exigir, para fazer
acordos, que os países adotassem uma administração
empresarial no setor educacional, reduzindo gastos.
Isto fez que a oferta, principalmente no ensino
superior, fosse reduzida. Sem expansão,
o mercado fica aberto para as empresas.

Pablo Gentili
Coordenador
do Observatório
Latino-Americano
de Políticas
Educacionais e
pesquisador/CNPq
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Prof. Pablo Gentili
Cada vez mais a Organização
Mundial do Comércio reconhece a educação
como serviço. Ela passou a ser objeto de
discussão comercial nos tratados internacionais.
Se tenho uma empresa de consultoria, posso abrir
uma sede dessa empresa na Argentina, no Uruguai,
porque é mais difícil para os países
do Sul abrirem em países do Norte; mas
se tenho uma universidade, a possibilidade de
abrir uma subsidiária em outro país,
em termos jurídicos, sofre uma série
de impedimentos, e as articulações
para a liberalização foi o que levou
a educação para o campo das relações
comerciais entre os países.
A questão, hoje, é em que medida
a lei é aberta para facilitar essa circulação
de empresas. Embora seja um processo muito periférico,
o deslocamento de instituições em
algumas cidades do interior do Brasil já
existe. No Sul, várias pessoas estão
fazendo doutorado em Educação em
universidades européias. Claro que com
uma qualidade muito diferente. A Universidade
de Salamanca (Espanha) tem uma enorme penetração
no sul do país, só que os estudantes
nunca foram a Salamanca, não falam espanhol,
mas fazem seu doutorado na instituição.
Essa seria uma forma de transnacionalização
do serviço universitário, ainda
que de forma precária, por enquanto.
As universidades argentinas também oferecem
diploma de doutorado e algumas já colocaram
unidades nas regiões de fronteira, para
que se atravesse a ponte e se faça um curso
de Medicina lá.
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A preocupação
dos meios acadêmicos está direcionada
para o ensino a distância, hoje bastante
facilitado pela tecnologia. Mas a informação
que os senhores trazem é que essa
educação sem fronteiras vem
se dando em nível presencial. Com
a abertura do mercado, esta é a tendência?
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Prof. Pablo Gentili
Existem também universidades, principalmente
americanas, que oferecem cursos de pós-graduação
virtuais, mas estamos num patamar inicial. Na
Argentina, essa tendência de abertura de
sedes de universidades estrangeiras no país
começou no governo (Raul) Alfonsín.
Deu uma parada por causa da crise, mas a situação
do dólar vai estimular seu retorno.
Hoje você pode fazer um curso de pós-graduação
na Universidade de Bolonha (Itália), sem
sair de Buenos Aires. São lucrativos, porque
o custo de manutenção é muito
barato, e são muito procurados.
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Os professores
são italianos ou argentinos?
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Prof. Pablo Gentili
São argentinos contratados de forma temporária.
O crescimento da circulação de capital
estrangeiro pelo ensino superior é crescente.
A capacidade reguladora do Estado vai diminuindo
e o poder destes grupos, de interferência
nas políticas locais, vai aumentando.
A revista Exame publicou em sua capa matéria
que dizia: O meganegócio da educação,
R$90 bilhões, movimenta o sistema privado
de educação no Brasil. Isso
desperta o interesse dos grupos estrangeiros.
E os grupos locais, vendo seu mercado disputado,
começam a buscar alianças com os
estrangeiros. Isso impõe uma situação
muito complexa e muito difícil para a educação
pública e para a construção
de um projeto de educação nacional.

José Raymundo Romêo
Membro do Conselho
Latino-Americano da
Universidade das
Nações Unidas (UNU)
e do Conselho de
Reitores Brasileiros
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Prof. José Raymundo Romêo
Desde a década de 80 estes organismos exigem
que os países em desenvolvimento não
apliquem recursos na educação superior,
e sim na fundamental. Eu participei de uma reunião
no Zimbabwe (África) em 1987, em que o
BM apresentou um documento à Associação
Internacional das Universidades apontando no sentido
de priorizar o ensino fundamental.
O primeiro-ministro do Zimbabwe dissecou o trabalho
e chegou à conclusão de que, para
o país, era preferível aplicar recursos
na educação superior do que na educação
básica. Ele argumentou que não adiantava
um país de pessoas alfabetizadas, que não
conseguisse transformar suas riquezas potenciais
em riquezas reais que beneficiassem a população.
O caminho apontado pelo banco era de dependência
e de dominação. Mas isso foi-se
expandindo pela América Latina, sobretudo
no Brasil da última década.
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Existe
alguma iniciativa concreta, no sentido de
grupos estrangeiros atuarem no Brasil através
de alianças com instituições
locais?
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Prof. José Raymundo Romêo
Existem grupos fazendo estudos prospectivos no
Brasil, testando o mercado. Mas eu acho muito
difícil, porque os donos de universidades
não se entendem tanto, não conseguem
sequer fazer algo em conjunto até para
melhorar a situação de suas instituições.
Preferem uma guerra mercadológica entre
eles, sem muita ética, e os governos favorecem.
A Associação Internacional de Presidentes
das Universidades se reuniu este ano na Austrália
e firmou uma posição de que a educação
superior é um bem público, que tem
que contribuir para o desenvolvimento sustentável
de um povo. O conteúdo foi enviado a vários
ministros e, no Brasil, eu enviei para o ministro
Paulo Renato. Não sei se ele leu.
Mas há uma grande pressão sobre
a OMC, para não considerar a educação
como serviço.
Profª Angela Siqueira
Mas essa pressão é do Japão,
para contrabalançar os Estados Unidos,
a Nova Zelândia e a Austrália.
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Os senhores
acreditam que a política do MEC é
limitar a oferta no ensino superior, para
favorecer o capital internacional privado?
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Profª Angela Siqueira
Eu não posso falar de intencionalidade
explícita, mas o BM propôs, em 1991,
uma reforma no ensino superior, justificando que
a universidade baseada em pesquisa é dispendiosa
para os países do Terceiro Mundo.
O Brasil é apontado nos documentos internacionais
como um exemplo de expansão do ensino privado,
principalmente superior. São poucos os
países no mundo que têm essa proporção
de alunos no ensino privado, como o Brasil. Na
década de 60, tínhamos 30% no ensino
privado e mais ou menos 70% no público.
Hoje é o inverso. O que não se discute
é a qualidade do serviço. O que
houve foi a expansão de institutos superiores
de educação, com cursos baratos,
nas áreas Social e Humana. Poucas oferecem
Medicina, Engenharia ou Física, que são
cursos caros.
Aqui no Brasil já existem associações
de grupos estrangeiros, como o Apolo, o Pitágoras
e o Objetivo. E no centro de Niterói há
vários núcleos de universidades
privadas com cursos superiores como se fossem
cursinhos, em uma salinha pequena, sem biblioteca
e sem laboratórios.
Prof. Pablo Gentili
O MEC deu inúmeros sinais de favorecimento
a grupos privados e, ao mesmo tempo, outros sinais
de desfavorecimento ao ensino público,
haja vista que nós tivemos um crescimento
extraordinário do número de matrículas
nesta década e, ao mesmo tempo, temos decadência,
sucateamento, crise profunda, em todos os sentidos,
nas universidades públicas. Este crescimento
do mercado foi capitalizado por grupos privados,
que cresceram transformando instituições
supostamente de ensino superior em depósitos
de alunos, em supermercados de diplomas.
Continua>>
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