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Imitação barata


Edgar Flexa Ribeiro é educador

 

Além de tudo o que está sendo dito acerca da adoção do regime de cotas para ingresso nas universidades, que tende a se espalhar a outros setores e em benefício dos mais variados grupos, há um outro aspecto que talvez deva ser também considerado. Cada sociedade - ou povo, país ou outra denominação que se prefira - tem sua identidade formada pelos processos culturais, sociais, políticos e históricos pelos quais passou. E é no processo de formação de cada sociedade que vão ser encontradas as origens dos problemas que ela enfrenta hoje. As soluções a que cada sociedade chegou para enfrentá-los é específica a essa sua formação. Não há duas sociedades iguais, e as formas de lidar com os problemas não podem ser impunemente transferidas de uma para outra.

Mesmo nestes tempos de globalização e Internet ainda não se conseguiu fazer desaparecer as identidades nacionais. Dançamos os mesmos ritmos, mas o funk brasileiro não é o funk americano, nem o reggae americano é igual ao jamaicano. A bossa-nova de ninguém é igual a nossa, o bolero latino-americano não é igual ao nosso. Sobretudo porque, como são manifestações de identidade, um não pode assumir a do outro sem distorcê-la.

É claro que as culturas se mesclam e se realimentam umas às outras. Afinal, a aldeia global existe porque se faz em tempo real o livre trânsito das idéias, o que assegura à Humanidade uma gama de opções como nunca houve no passado. Não há aí mimetismo cultural ou subserviência, há troca.

Mas o mero servilismo cultural permanece sendo uma das mais óbvias e típicas manifestações de dependência das sociedades periféricas que, no afã de se mostrarem mais próximas do centro ao qual estão submetidas, imitam canhestramente o que entendem ou pensam entender que está se passando por lá.
Isso surge quando uma sociedade adota para si a solução que outra encontrou para problema social semelhante, mas não igual. Nesses casos, como um problema social não se reproduz da mesma forma e com as mesmas características em sociedades diferentes, a solução a que uma chega não se ajustará exatamente ao problema da outra. Ao contrário, a solução importada só serve para agravar o problema ou criar um problema novo.

Veja-se a situação do negro no Brasil e a política de cotas fundadas na etnia que se tenta transpor dos Estados Unidos para cá, como instrumento de acesso ao ensino superior em instituições mantidas pelo poder público. Ninguém ignora a discriminação no Brasil. Mas a história do negro brasileiro, sua posição e trajetória social são iguais à do negro norte-americano?

São diferentes em vários e importantes aspectos, a começar do fato de que a partir da abolição da escravatura não se conheceu aqui o que nos Estados Unidos veio a ser um regime institucionalizado de segregação racial.

Nunca houve um bonde para branco e outro bonde para negro. Houve escola em que o negro não era aceito ou à qual não tinha acesso por uma infinidade de razões, inclusive - mas não exclusivamente - raciais.

Mas a rede pública de ensino, por exemplo, já desde o final do Império não discriminava brancos e negros. O nível de alfabetização para votar não era medido diferentemente para negros e brancos, e ninguém foi barrado por ser negro para exercício de cargos ou funções públicas. Os botequins abrigavam uns e outros, e juntos bebiam a mesma cerveja ou cachaça, e usavam o mesmo banheiro. E desde cedo foi difícil dizer no Brasil exatamente o que era cada grau de mestiçagem, quem era só branco e quanto de negro cada um tinha.

É importante ressaltar que isso não é dito na intenção de sugerir que brancos e negros no Brasil foram ou são tratados da mesma forma, ou para negar a existência da discriminação racial. Mas para registrar que a forma de tratamento dado à questão racial foi diferente aqui do que ocorreu nos Estados Unidos. E para afirmar que - ao contrário do que podem pensar alguns - nem tudo que é bom para os Estados Unidos é igualmente bom para o Brasil.

Pode ser que lá a política de cotas tenha sido, e seja ainda, boa. Não tem importância alguma para nós, é problema deles. Mas essa medida alienígena, estrangeira, um plágio servil, que surgiu lá fora para resolver um problema diferente daquele que temos, transforma-se num problema em si mesmo, uma encrenca nova, inédita, da qual não precisávamos e que, certamente no caso do acesso ao ensino público, representa na verdade um grande retrocesso no longo caminho percorrido na integração racial do país.
Sim, pois uma vez instituído o regime de cotas em um caso, aonde vamos chegar? Perante as nossas leis, as nossas instituições, se há cotas para negros, pode-se pensar em cotas para nordestinos, em outras situações?

E assim, de demagogia em demagogia, vamos nos enredando na teia que nós mesmos tecemos. E importando problemas novos, sem enfrentar de verdade os que já temos.

 
 
 
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