|
Além de tudo o que está sendo dito
acerca da adoção do regime de cotas
para ingresso nas universidades, que tende a se
espalhar a outros setores e em benefício
dos mais variados grupos, há um outro aspecto
que talvez deva ser também considerado.
Cada sociedade - ou povo, país ou outra
denominação que se prefira - tem
sua identidade formada pelos processos culturais,
sociais, políticos e históricos
pelos quais passou. E é no processo de
formação de cada sociedade que vão
ser encontradas as origens dos problemas que ela
enfrenta hoje. As soluções a que
cada sociedade chegou para enfrentá-los
é específica a essa sua formação.
Não há duas sociedades iguais, e
as formas de lidar com os problemas não
podem ser impunemente transferidas de uma para
outra.
Mesmo nestes tempos de globalização
e Internet ainda não se conseguiu fazer
desaparecer as identidades nacionais. Dançamos
os mesmos ritmos, mas o funk brasileiro não
é o funk americano, nem o reggae americano
é igual ao jamaicano. A bossa-nova de ninguém
é igual a nossa, o bolero latino-americano
não é igual ao nosso. Sobretudo
porque, como são manifestações
de identidade, um não pode assumir a do
outro sem distorcê-la.
É claro que as culturas se mesclam e se
realimentam umas às outras. Afinal, a aldeia
global existe porque se faz em tempo real o livre
trânsito das idéias, o que assegura
à Humanidade uma gama de opções
como nunca houve no passado. Não há
aí mimetismo cultural ou subserviência,
há troca.
Mas o mero servilismo cultural permanece sendo
uma das mais óbvias e típicas manifestações
de dependência das sociedades periféricas
que, no afã de se mostrarem mais próximas
do centro ao qual estão submetidas, imitam
canhestramente o que entendem ou pensam entender
que está se passando por lá.
Isso surge quando uma sociedade adota para si
a solução que outra encontrou para
problema social semelhante, mas não igual.
Nesses casos, como um problema social não
se reproduz da mesma forma e com as mesmas características
em sociedades diferentes, a solução
a que uma chega não se ajustará
exatamente ao problema da outra. Ao contrário,
a solução importada só serve
para agravar o problema ou criar um problema novo.
Veja-se a situação do negro no
Brasil e a política de cotas fundadas na
etnia que se tenta transpor dos Estados Unidos
para cá, como instrumento de acesso ao
ensino superior em instituições
mantidas pelo poder público. Ninguém
ignora a discriminação no Brasil.
Mas a história do negro brasileiro, sua
posição e trajetória social
são iguais à do negro norte-americano?
São diferentes em vários e importantes
aspectos, a começar do fato de que a partir
da abolição da escravatura não
se conheceu aqui o que nos Estados Unidos veio
a ser um regime institucionalizado de segregação
racial.
Nunca houve um bonde para branco e outro bonde
para negro. Houve escola em que o negro não
era aceito ou à qual não tinha acesso
por uma infinidade de razões, inclusive
- mas não exclusivamente - raciais.
Mas a rede pública de ensino, por exemplo,
já desde o final do Império não
discriminava brancos e negros. O nível
de alfabetização para votar não
era medido diferentemente para negros e brancos,
e ninguém foi barrado por ser negro para
exercício de cargos ou funções
públicas. Os botequins abrigavam uns e
outros, e juntos bebiam a mesma cerveja ou cachaça,
e usavam o mesmo banheiro. E desde cedo foi difícil
dizer no Brasil exatamente o que era cada grau
de mestiçagem, quem era só branco
e quanto de negro cada um tinha.
É importante ressaltar que isso não
é dito na intenção de sugerir
que brancos e negros no Brasil foram ou são
tratados da mesma forma, ou para negar a existência
da discriminação racial. Mas para
registrar que a forma de tratamento dado à
questão racial foi diferente aqui do que
ocorreu nos Estados Unidos. E para afirmar que
- ao contrário do que podem pensar alguns
- nem tudo que é bom para os Estados Unidos
é igualmente bom para o Brasil.
Pode ser que lá a política de cotas
tenha sido, e seja ainda, boa. Não tem
importância alguma para nós, é
problema deles. Mas essa medida alienígena,
estrangeira, um plágio servil, que surgiu
lá fora para resolver um problema diferente
daquele que temos, transforma-se num problema
em si mesmo, uma encrenca nova, inédita,
da qual não precisávamos e que,
certamente no caso do acesso ao ensino público,
representa na verdade um grande retrocesso no
longo caminho percorrido na integração
racial do país.
Sim, pois uma vez instituído o regime de
cotas em um caso, aonde vamos chegar? Perante
as nossas leis, as nossas instituições,
se há cotas para negros, pode-se pensar
em cotas para nordestinos, em outras situações?
E assim, de demagogia em demagogia, vamos nos
enredando na teia que nós mesmos tecemos.
E importando problemas novos, sem enfrentar de
verdade os que já temos.
|