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Como
fica a ciência e tecnologia, diante
deste predomínio do privado sobre
o público? Há exemplos na
América Latina que podem servir de
espelho para o Brasil?
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Pablo Gentili: Direito
à educacão significa ensino
de qualidade, não apenas acesso
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Prof. Pablo Gentili
O sistema científico e tecnológico
sempre se sustentou da educação
pública, de modo que a crise da educação
pública também é uma crise
do sistema científico-tecnológico
nacional, num país que, apesar de estar
na periferia, tem desenvolvimento na área
de tecnologia invejável para muitos do
Primeiro Mundo. O Governo favoreceu, estimulou,
criou condições para que este processo
se aprofundasse. Mas a questão é
se o futuro governo fará o mesmo ou tentará
criar critérios regulatórios um
pouco mais sérios.
Também não podemos desconhecer
que a comunidade econômica européia
está atenta. Temos uma relação
assimétrica no trânsito internacional,
tanto que perdemos a posição como
a décima economia. Não tivemos capacidade
de negociar a inserção de produtos
nos mercados internacionais, por causa das restrições.
O governo americano faz disso um emblema. O japonês
não coloca um quilo de arroz nos Estados
Unidos, sem que passe pelas travas burocráticas,
impostos enormes. Essa mesma proteção
que os Estados Unidos têm em sua política
internacional, nós não temos para
as nossas e a fraqueza de nossos programas é
muito grande.
Por isso, um governo que se posicionar neste
contexto internacional de forma fraca, atendendo
à desregulamentação, como
foi este último governo, infelizmente promoverá
uma ampliação deste sistema e a
conseqüência disso será como
na selva, onde ganha o mais forte.
Prof. José Raymundo Romêo
Em qualquer lugar no mundo, o momento é
da sociedade do conhecimento, quem detiver conhecimento
terá um nível de vida melhor. Agora
o que esta iniciativa privada, se entrar, vai
fazer neste sentido? É uma coisa que precisa
ser discutida, debatida, até dentro da
comunidade universitária brasileira. As
universidades públicas ficaram muito fechadas
nas suas questões conjunturais e se esqueceram
de criar essa base conceitual, que é importante
para dizer para a sociedade e para o governo o
que ela representa. O que distingue o pobre, seja
ele povo ou país, do rico, não é
só o fato de ele não ter desenvolvimento.
É o fato de ele ser excluído da
criação e do benefício do
conhecimento.
Profª Angela Siqueira
Uma outra forma de intervenção dos
grupos privados no ensino superior é no
controle do financiamento da ciência e tecnologia.
Tanto que há o acordo das patentes. A partir
do momento que o governo não financia as
pesquisas e deixa essa questão nas mãos
da iniciativa privada, ela passa a determinar
o que vai ser pesquisado, como e quando vai ser
divulgado.
Prof. José Raymundo Romêo
Tivemos, em um passado recente, uma parceira das
universidades no campo da ciência e tecnologia,
que eram as estatais. A Embratel fazia pesquisa
junto com as universidades. E agora, quem vai
fazer isso?
A gente nunca vai poder discutir a universidade,
sem uma discussão do modelo econômico
vigente no mundo. A gente nunca vai poder dissociar
essas coisas que, hoje, condenam o mundo a ser
dividido, não pelo Muro de Berlim, mas
em cada cidade, em cada país, em cada região,
em cada estado, num mundo de pobres e ricos. Uns
que vão ter o domínio da tecnologia
e continuar mandando, e outros que vão
ser dependentes.
Profª Angela Siqueira
O último documento do BM e da Unesco de
2000, para a política de ensino superior
dos países em desenvolvimento, coloca claramente
essa divisão. Para as pessoas mais pobres,
o ensino superior seria um pós-secundário
educacional, um ensino rápido, de dois
anos, e que deveria ser ministrado por instituições
privadas. E grandes empresas que controlam sistemas
de comunicação, como a Microsoft,
estão se associando a esses tipos de cursos.
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Isso
não é positivo, no sentido
do acesso ao mundo do trabalho?
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Prof. José Raymundo Romêo
Se for assim, vamos fazer escolas técnicas
e fechar as universidades, porque é mais
barato. Vamos fazer escola técnica, curso
por correspondência, e colocar o diploma
na parede. O ethos universitário é
insubstituível, o aluno universitário
não é para ser treinado, não
é para ganhar uma profissão, é
para ser um cidadão, tem que sair preparado
para a cidadania, para a vida, para transformar
a sociedade.
Juscelino (Kubitschek) dizia que alguns homens
plantam carvalho, outros plantam couve. Temos
um governo plantador de couve, poliglota, mas
plantador de couve, que quer colheita imediata.
Temos 96% de alunos nas escolas, mas fazendo o
quê? Temos mais alunos nas universidade,
fazendo Direito, Administração,
mas de que maneira? Isso é estelionato.
Profª Angela Siqueira
Os norte-americanos também são falaciosos
quando dizem que 80% da população
têm nível superior, porque eles têm
um sistema que forma em dois anos.
Prof. Pablo Gentili
A experiência latino-americana demonstra
que o crescimento do ensino privado é diretamente
proporcional às perdas em todos os níveis,
não apenas no universitário. A famosa
universalização que o mercado promove
se dá apenas em uma direção.
E nada garante que ter 96% das crianças
nas escolas significa que o direito à educação
se universalizou. Direito à educacão
significa ensino de qualidade, não apenas
acesso e permanência. Os novos senhores
da educação, hoje, interferem nas
políticas educacionais e, em alguns casos,
chegam a mandar mais do que o ministro.
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A concorrência
não exige, não garante qualidade?
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Prof. Pablo Gentili
Isso na educação é um mito.
A concorrência piora a qualidade. Qualquer
uma das instituições privadas que
foram referência do ensino no país,
hoje, pela obrigação da competitividade,
se tornaram piores, não valorizando os
professores, implantando salários mais
baixos. Essa regulamentação que
o MEC colocou, com relação ao número
de doutores, é uma ficção.
Contrata professores-doutores que não dão
aulas e os que seguem dando aulas têm muito
baixa qualificação, são substitutos
de formação muito precária.
Prof. José Raymundo Romêo
É um mito também em outros setores.
Como é que o produtor rural pequeno, que
nunca viu veterinário, agrônomo,
que faz aquilo artesanalmente, porque aprendeu
com seus pais, vai melhorar com competição?
Isso é uma falácia.
Profª Angela Siqueira
E no nosso caso, é uma competição
sem pesquisa, sem investimento e com abertura
de mercado. Muitas universidades famosas nos Estados
Unidos, como Harvard, oferecem cursos no exterior,
mas não são os mesmos de lá.
São todos contestados, de baixa qualidade.
Prof. José Raymundo Romêo
Caímos na questão que o Pablo falou,
de instituições argentinas que vêm
ao Brasil dar mestrado, doutorado.
Prof. Pablo Gentili
O que na Argentina é reconhecido como de
mediana qualidade faz sucesso no Brasil. O que
estamos vendo de forma muito clara em outros países
da América Latina, como o México,
por exemplo, é que a ampliação
do mercado em países com fraca regulamentação
e com fraco controle público gera corrupção.
Alguns anos atrás, quando se discutia o
financiamento educacional, o tema da corrupção
não aparecia. Podia aparecer no sentido
da má utilização dos recursos
públicos por parte dos ministros, de alguns
secretários, mas hoje um dos grandes temas
é a corrupção, seja ela ativa
ou passiva.
Um caso que estamos vivendo recentemente é
com o BNDES, que abre uma linha de crédito
para investimento em infra-estrutura universitária,
e coloca como pré-condição
a obrigação de penhorar bens da
instituição que quer acesso ao crédito.
Só a universidade privada poderá
obter este crédito, porque o reitor da
UFF, por exemplo, não pode dar como garantia
o campus do Gragoatá, que é um patrimônio
da União. Moral da história: os
fundos públicos, os recursos do BNDES,
foram todos para construir esses enormes prédios
que vemos por aí.
Angela Siqueira: A
maioria das universidades federais foi criada
perto dos quartéis
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Profª Angela Siqueira
O Banco Mundial também está nisso,
porque ao mesmo tempo que forçou o governo
a reduzir os gastos fortaleceu o Internet Financial
Corporation (IFC), que é o braço
privatizante do BM e visa a incentivar a expansão
do setor privado da educação. Eles
produziram um documento em 1989 sobre a estratégia
para o investimento em educação
privada, e uma das propostas é justamente
o enfraquecimento das regulações
dos países, no sentido de ter uma maior
abertura do mercado e de conseguir maior transferência
dos recursos públicos para o setor privado,
através de financiamentos.
O BNDES é citado como um dos aliados nessa
perspectiva de financiamento ao setor privado.
O Internet Financial vem lutando para estabelecer
a abertura do mercado de educação
na OMC. Isso aconteceu no Canadá, porque
antes de fazer o acordo do Nafta foi feito um
acordo entre Estados Unidos e Canadá, e
o Canadá sofreu muito. Só 25% dos
livros didáticos canadenses são
produzidos lá, o resto vem dos Estados
Unidos. São fabricados no México,
mas são vendidos por empresas americanas.
Isso tem conseqüências não só
para a educação, mas em termos da
própria cultura, porque os livros são
completamente dissociados dos valores canadenses.
Se isso aconteceu com o Canadá, que era
forte, imagine com o Brasil.
Prof. Pablo Gentili
Essa é uma tendência que vamos sofrer
e é um alerta para as políticas
públicas do futuro governo. Não
é que tenhamos um caso específico
de corrupção na educação
porque somos eminentemente corruptos latino-americanos,
é porque este crescimento desenfreado do
mercado cria falta de controle e se sustenta sobre
bases profundamente fracas em termos dos valores
republicanos.
E isso não ocorre só na universidade.
Essa tendência vai afetar todo o sistema,
porque entrando pela universidade, que é
o mercado mais imediato, mais dinâmico em
termos de circulação de capital,
também vai entrar no ensino fundamental
e uma das formas é através do livro
didático.
Aqui no Brasil não vimos muito isso, pela
especificidade lingüística do país,
mas na Argentina, no Peru, no Uruguai, no México,
a reforma curricular é feita sobre as mesmas
bases de sustentação. E os intelectuais
que trabalharam na reforma destes países
são, possivelmente, os mesmos que trabalharam
no Brasil. Muitos dos documentos da base da reforma
curricular brasileira foram impressos em espanhol,
a partir dos trabalhos feitos naqueles países,
com os mesmos profissionais, com a diferença
que, nos outros países chamados de ibero-americanos,
de língua espanhola, as editoras espanholas,
que já tinham uma presença significativa,
hoje têm presença quase total, comprando
as editoras nacionais falidas, ou produzindo os
livros didáticos associados às reformas.
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Existe
algum mecanismo que preserve o Programa
Nacional do Livro Didático? Não
se tem conhecimento de editoras estrangeiras
nas concorrências do MEC. São
todas empresas nacionais.
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Profª Angela Siqueira
A proposta do livro didático aqui no Brasil,
que foi financiada pelo BM, estava ligada ao Projeto
Nordeste. Aliás, na Conferência de
Educação para Todos tinha gente
do BM, do Banco Interamericano, da Unesco, e houve
uma discussão acalorada sobre o livro didático.
O BM enfatizava que era preciso criar livros mais
baratos. A proposta era para a região nordeste,
mas eles estavam muito mais preocupados com custo,
do que com conteúdo. Em vez de discutir
a referência regional, estavam preocupados
com capa, distribuição, essas coisas
mais operacionais, mais financeiras.
Prof. Pablo Gentili
Pensar que o Brasil ainda não entrou, não
significa que não vai entrar, porque é
um grande mercado. Fornecer software à
rede pública de qualquer país é
um mercado extraordinário.
Profª Angela Siqueira
Isso foi apresentado no World Education Market,
em 2000, que fala do crescimento do comércio
de serviços na área de educação.
Eles mencionam o gasto pequeno com o ensino ao
redor do mundo, mas, mesmo com esse gasto pequeno,
é um mercado em potencial. A China, por
exemplo, gasta 4,71 dólares por aluno,
porque tem milhares matriculados. Isso gera um
gasto de 900 milhões de dólares.
A China é o maior mercado potencial, na
perspectiva para 2009.
Prof. José Raymundo Romêo
Falta uma política mais consistente. Só
há políticas isoladas. Quem comanda
essa política no país? O Conselho
Nacional de Educação virou um cartório,
o ministério não tem uma inteligência,
o ministro investiu no marketing, através
dessas avaliações...
Profª Angela Siqueira
Mas o ministro está muito envolvido com
os organismos internacionais, em termos de ser
um vendedor de serviços.
Prof. José Raymundo Romêo
E certamente envolvido com o setor particular.
Não adianta discutir educação
fora do contexto econômico internacional.
A base para formar sociedades mais justas é
a universidade, e para serem eficientes elas têm
que ter bibliotecas atualizadas, base de informática,
equipamentos para laboratório. Temos uma
das maiores biodiversidades do mundo, mas, se
não tivermos equipamentos para formar pessoas
para a pesquisa, não vamos conseguir nada.
Para mudar o rumos disso tem que ser criado um
fundo internacional, que a Unesco poderia manejar,
para a educação superior, para que
ela seja mais igual no mundo. Outro ponto que
eu queria abordar é que não sou
contra a universidade particular, mas ela tem
que ser pública nas suas finalidades, não
pode ser um comércio. Nos Estados Unidos
ela tem um papel importante, embora lá
as universidades sejam majoritariamente estatais.
Profª Angela Siqueira
Mas grande parte dos seus recursos são
públicos.
Continua>>
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