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A teologia da libertação como uma prática pedagógica

Ele diz que a Educação é fundamental para a gestação de pessoas
capazes de erguer uma sociedade em novas bases


Leonardo Boff: “A inteligência brasileira tem uma dívida enorme com o povo”
 

A Teologia da Libertação não tem uma vertente pedagógica. Na concepção de seu maior difusor, Leonardo Boff, ela é uma pedagogia que encontrou sua expressão/ação no pensamento de pedagogos como Paulo Freire, autor de Educação como Prática da Liberdade e Pedagogia do Oprimido. Ela não é, contudo, a pedagogia do ensinar como se faz. Com esta prática ela já nasceu rompida, porque o que pretende — e pratica — é formular conceitos a partir das vivências, é provocar o desejo de saber, é instigar a transformação do conhecimento em criação, tudo com um objetivo muito claro, solidamente definido: superar as relações de desigualdade entre pessoas e grupos. Não seria inadequado dizer que é uma pedagogia dialética, porque é cristã, mas fundamentada em conceitos marxistas.

Nesta entrevista à Folha Dirigida Boff analisa, sob a luz desta teologia, fatos pontuais da educação dos dias atuais, como reserva de vagas, ensino religioso, formação para a cidadania, e qualidade e condições de trabalho do professor. Sobre o ensino da religião nas escolas, esta pedagogia é esperançosa, mas aposta na inversão do foco. Ela defende que as escolas encontrem uma forma de iniciar os estudantes na experiência espiritual, mas esclarece que espiritualidade não é saber e pensar sobre Deus, mas senti-lo no coração.
Leonardo Boff tem 62 anos e o mesmo número de livros publicados. Sua origem é italiana. O pai foi um intelectual profundamente religioso e ecumênico. A mãe morreu analfabeta e profundamente cristã.

Cresceu embalado pelas contradições. Aos 12 anos foi para o seminário. Aos 45, era deportado da fé católica pelo Vaticano. No início dos anos 90 o mesmo Vaticano tentou articular seu reingresso, mas ele preferiu a liberdade, demitindo-se do cargo de padre.

Hoje denomina-se teólogo leigo e eventualmente faz um casamento, um batizado, encomenda uma alma desencarnada. Darcy Ribeiro, por exemplo, se recusou a morrer antes de ter com ele uma “conversa metafísica” sobre a morte. Não encontrar alguém, em seu cultíssimo círculo de amigos, com quem pudesse abordar tema de tamanha profundidade foi a última queixa de Darcy. E Boff foi lá para socorrê-lo, e para sacramentar seu vínculo espiritual com a educação.

Folha Dirigida — A Teologia da Libertação tem um conceito elaborado de educação?
Leonardo Boff — A Teologia da Libertação é, antes de mais nada, uma pedagogia, é como fazer que o oprimido se faça sujeito de sua própria libertação, e como ele, com seus grupos, pode elaborar um projeto alternativo, no qual se superem as relações desiguais entre as pessoas, os gêneros e na sociedade. Por isso a Teologia da Libertação tem entre seus fundadores Paulo Freire, autor da Pedagogia do Oprimido e da Educação como Prática de Liberdade. A prática da liberdade se chama libertação, vale dizer: a ação que liberta a liberdade cativa, para que ela faça a sua obra, que é estabelecer relações de cooperação e de amorização, relações essas que são a base da nova sociedade. A educação libertadora parte sempre da prática dos oprimidos, valoriza tudo o que pode deles, ajuda-os a identificar e a corrigir os erros e equívocos, especialmente fortalece sua autonomia e corrobora na formulação de um projeto pessoal e social de vida.

Folha Dirigida — Qual o papel da educação no processo de libertação dos povos oprimidos?
Boff — O papel da educação é fundamental na gestação do homem e da mulher novos, capazes de gerar estruturas e hábitos não opressivos e inauguradores de relações onde não seja tão difícil o amor social e a convivência fraterna. Se não conseguirmos gestar pessoas liberadas, não se alcançará nunca a libertação ansiada. A educação libertadora quer criar operadores de crítica e de transformação da realidade e não agentes reprodutores do sistema imperante. Não visa a criar consumidores dos bens culturais dados, mas cidadãos livres e criativos, plasmadores de seu próprio destino.

Folha Dirigida — O que pensa sobre a reserva de vagas para grupos étnicos e para originários de escolas públicas?
Boff — Não tenho muita clareza nesta questão complexa. Mas a situo dentro de um arco mais amplo. A sociedade brasileira, especialmente as classes dominantes, possuem uma dívida social e humana até hoje jamais paga para com aqueles que foram seus escravos durante quatro séculos de nossa história. Hoje eles perfazem cerca de 60 milhões de habitantes, os brasileiros afro-descendentes. Ao serem libertos, foram jogados da senzala diretamente à favela, sem terem recebido um pedaço de terra, um instrumento de trabalho ou qualquer outra compensação. Foi uma perversidade cujas conseqüências pesam enormemente sobre a população negra e pobre do Brasil até os dias de hoje, na forma como habitam, na saúde, na educação, no cultivo das artes e ofícios. A reforma agrária deveria começar, primeiramente, com a concessão de terras a eles. Deveriam ser os primeiros a participarem de projetos de moradia e, por que não, de educação? São políticas compensatórias que respondem, minimamente, pela injustiça histórica praticada e ainda não corrigida.

É dentro deste contexto que vejo a política de reserva de vagas para grupos afro-brasileiros. Por que ser contra uma correção mínima de uma discriminação histórica que procura ser compensada? Mas esse passo é apenas um, de uma política mais global de inserção das populações penalizadas pela exclusão, em razão do sistema historicamente montado de exploração, sistema estruturalmente anti-social e discriminador. Se fizéssemos uma transformação estrutural da sociedade brasileira, não seriam necessárias políticas compensatórias como esta de reserva de vagas para negros e pobres que, na verdade, são políticas pobres para com os pobres.

Folha Dirigida — Como avalia o fato de este movimento estar sendo liderado, no Brasil, por representantes da Igreja Católica? No caso, frei David Raimundo dos Santos, um dos principais representantes da Educafro.
Boff — Os grupos da igreja, especialmente aqueles que vêm da Teologia da Libertação, se fizeram mais sensíveis às questões da injustiça social e histórica. É natural que eles tenham encabeçado esta causa e a tenham levado avante com excelentes resultados, sem ressentimentos e amarguras, mas com uma perspectiva humanística e integradora. Não apenas oferecem serviços de educação, mas procuram resgatar a identidade negada, alimentar sonhos libertários e potencializar a auto-estima dos estudantes negros.

Folha Dirigida — O que é fundamental existir na escola para que, ao sair dela, o aluno leve consigo seu certificado de cidadania. De qual instrumento a escola deve dispor para formar cidadãos conscientes de seus valores sociais, morais, culturais, éticos e étnicos?
Boff — A melhor formação para a cidadania é aquela em que o estudante seja confrontado com as realidades nuas e cruas à sua volta. A realidade complexa e, não raro contraditória, obriga a pensar. O estudante interage com ela, aprende a identificar as causas dos problemas sociais, identifica valores vividos pela população e, no diálogo, busca alterntivas viáveis. Esse processo de ligação escola-comunidade significa uma verdadeira escola de democracia participativa. Ele forja os cidadãos adequados a essa forma de relacionamento, considerado como o melhor excogitado pela filosofia política.

Folha Dirigida — Acredita que o ensino religioso nas escolas possa contribuir com a formação para a cidadania? Na sua opinião, de que forma este ensino deve ser praticado? O que o senhor sugere, para evitar que se transforme em doutrina de uma só religião?
Boff — A religião, qualquer que seja, favorece valores decisivos para o convívio humano, como o amor à verdade, o repúdio à mentira e à corrupção, a indignação em face da injustiça, a valorização da solidariedade, do altruísmo, do amor e do perdão entre as pessoas e o respeito à natureza. A religião religa tudo à fonte de onde vêm todos os seres e confere um sentido transcendente à história do ser humano e do universo. Ela é fonte de utopias e sonhos, necessários para dar sentido às práticas humanas. Nesse sentido, privar os alunos da religião é privá-los de uma fonte de sentido e de valores que enriquecem a vida humana e podem ser decisivos em momentos de crise existencial ou social.

Por outra parte, mais importante do que a religião com seus dogmas e ritos, às vezes enrijecidos, é a espiritualidade. Espiritualidade não é saber e pensar sobre Deus, mas senti-lo no coração. É ter a coragem de falar a Ele na oração e na meditação e dar-se conta de que estamos sempre acompanhados por Ele, não como por um juiz perquiridor, mas por um Pai que é também Mãe de infinita bondade. Essa dimensão, que é antropológica e não monopólio das religiões e igrejas, deve pertencer à formação integral do ser humano. As escolas deveriam ver uma forma de iniciar os estudantes à experiência espiritual. Talvez convidando representantes dos vários credos presentes na região e discutindo textos ou filmes que tratam da religião e de seu sentido humano.

Folha Dirigida — O senhor acredita que uma educação de qualidade depende, fundamentalmente, de investimentos e do nível salarial dos professores?
Boff — Uma educação de qualidade não vive apenas de generosidade e criatividade de seus operadores. Ela precisa de uma infra-estrutura adequada que desonera os educadores de demasiadas preocupações com a sobrevivência e lhes forneça os instrumentos para realizar a obra educativa. Educar, já se disse, não é encher uma vasilha vazia, mas acender uma luz nas mentes dos educandos. Honrar essa missão implica que se mantenha um nível digno de salários e que haja investimentos fortes nos processos educativos. Sem a educação nenhum povo deu o salto de qualidade rumo a sua autonomia e ao pleno desenvolvimento.

Folha Dirigida — Como vê o papel da universidade na sociedade?
Boff — A inteligência brasileira tem uma dívida enorme com o povo. Poucos temos, e é um direito termos, o afortunado privilégio de chegar a estudos mais avançados. As universidades são as chocadeiras de um sistema que se reproduz a si mesmo, criando seus quadros. Poucas universidades criaram a cidadania acadêmica, política, fizeram a aliança entre a inteligência e a miséria. Acho que este é o desafio, promover o casamento dos excluídos, humilhados e ofendidos de nossa história com a inteligência; articular o saber popular, feito de experiência e luta, com o saber acadêmico, feito de crítica e ciência. Dois saberes diferentes, mas úteis para construir um país mais rico.

Todos na universidade devem ser um pouco anticultura, antiuniversidade, contra a universidade que atende aos interesses de um sistema de profundas desigualdades. Temos que resgatar aquela memória ancestral, medieval, das universidade que era um lugar onde todos os saberes tinham lugar, porque o saber tem que passar por um filtro crítico, tem que se confrontar com outro, para ser plenamente humano e construtivo, e não ideológico, obedecendo ao interesse de pessoas que têm mais força.

Isso é o apanágio de toda a tradição ocidental de universidade, que foi reafirmada pela grande reforma das universidades alemãs em 1908, 1909, e que quando Napoleão (Bonaparte) assumiu, se espalhou por todas as universidades do mundo. A universidade contemporânea nasce da crítica das ideologias e da crítica de como a sociedade se constrói. A grande contribuição que a tradição marxista trouxe foi discutir o caráter ideológico de todos os saberes, porque ideologia não é o saber, mas a forma como se usa o saber. Podemos fazer uso desse saber para legitimar privilégios, para consolidar interesses, ou pode ser um saber crítico, que coloca no centro a sociedade. O desafio é fazer o estudante sair da universidade com a cidadania enriquecida, a crítica mais atenta e organicamente vinculados àqueles que nunca tiveram o privilégio de freqüentar uma escola, de sequer entrar no espaço de uma universidade. Que ela seja uma arma para inventar um outro Brasil, mas não queremos inventar a partir da universidade, mas com a universidade junto, organicamente ligada àqueles que estão lutando por seus direitos. As grandes nações européias, o próprio Estados Unidos, a Coréia arrasada pela guerra, um país mais atrasado do que nós, o Japão liquidado pelas bombas, se tornaram grandes países porque souberam unir todos os saberes para formar um povo que tinha um sonho de uma outra nação.

 
 
 
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