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O Conselho de Reitores Universitários
Brasileiros (Crub) lançou, há dois
anos, um programa de avaliação das
universidades, com diretrizes diferentes das que
norteiam o Exame Nacional de Cursos, o Provão.
Baseado na concepção de avaliação
de países desenvolvidos como França,
Inglaterra e Estados Unidos, este programa consiste
em fazer um estudo aprofundado do perfil da universidade,
e apresentar soluções para que utilize
adequadamente seu potencial, administrativo e
acadêmico, em busca de melhor resultado
qualitativo.
Dezenove instituições de todas
as regiões brasileiras, públicas
e privadas, aderiram ao programa a UniRio
e a Salgado de Oliveira, do Rio de Janeiro, estão
entre elas e terão seus serviços
avaliados por uma equipe que tem nomes como José
Raymundo Romêo, Jandir Zanotelli, Flávio
Fava de Moraes, Isaac Roytman, Antonio Celso,
Felipe Serpa e Clélia Traveiro Brandão,
todos com larga experiência na área
de gestão universitária.
Para falar das bases que orientam este programa,
Folha Dirigida ouviu um de seus criadores, Ricardo
Martins, 49 anos, consultor legislativo na área
de Educação da Câmara Federal
e professor da Faculdade de Educação
da Universidade de Brasília (UnB).
FOLHA DIRIGIDA Qual conceito
de avaliação orienta o programa
do Crub?
Ricardo Martins É uma avaliação
abrangente, compreensiva e relativista, com o
compromisso de lançar um olhar para a universidade
como um todo e esclarecer a percepção
que a instituição tem de si mesma.
Essa avaliação é relativista
na medida em que não está preocupada
em fazer comparações, formular ranking
ou estabelecer qualquer tipo de graduação
entre as universidades participantes. O objetivo
é olhar para as instituições
em si, no seu conjunto, e verificar de que forma
elas estão atendendo e podem melhor atender
ao que se propõem. Esta concepção
está presente em vários sistemas
de avaliação no mundo de hoje, nas
associações norte-americanas, no
comitê nacional de avaliação
da França, na agência de avaliação
britânica. Gosto muito de fazer um paralelo
com a prática que era desenvolvida pelo
que chamavam antigamente de Conselho de Reitores
das Universidades Européias, que é
chamado hoje de Associação Européia
de Universidades.
FOLHA DIRIGIDA Em que esta avaliação
se diferencia do Provão?
Ricardo Martins O Provão,
hoje, é um componente de um sistema de
avaliação que o MEC, por competência
legal, deve desenvolver. Mas o Provão se
limita a avaliar o desempenho dos alunos concluintes
em relação a conteúdos previamente
estabelecidos em testes de conhecimentos definidos.
Associada ao Provão, vem a avaliação
das condições de oferta dos cursos
de graduação. O Provão é
uma avaliação setorial de cursos
de graduação através do desempenho
dos alunos e, acoplado a ele, faz a avaliação
do ensino, dos equipamentos e da proposta pedagógica.
Então, uma coisa é a avaliação
de cursos e do ensino desses cursos, que é
o Provão. Outra coisa é uma avaliação
mais abrangente, que pega a instituição
em todas as suas dimensões.
FOLHA DIRIGIDA Esse projeto
teria sido inspirado no Paiub?
Ricardo Martins Não é
que tenha sido inspirado, mas tem semelhanças
importantes. Ele teria ido na mesma direção.
O Paiub foi um programa que acabou sendo sustentado
pelo MEC durante um bom tempo, mas não
é que ele tenha sido concebido pelo ministério.
Na verdade, foi um grupo de universidades que
acabou formando uma parceria, tendo o MEC como
sustentação.
FOLHA DIRIGIDA Por que o Paiub
não decolou?
Ricardo Martins Até onde
as experiências foram implementadas, ele
deu muito certo. Universidades do Norte, do Nordeste,
do Sudeste fizeram vários projetos interessantes
de desenvolvimento a partir do Paiub. A Universidade
de Brasília foi uma delas. O meu entendimento
é que, ao desenvolver o Sistema Nacional
de Avaliação da Educação
Brasileira, que é de responsabilidade do
Governo federal segundo a Lei 9.131/95, o ministério
foi fazendo a opção por novas estratégias
de avaliação, e o Paiub acabou sendo
deixado de lado. Acho que foi feita uma opção
política e metodológica em termos
de avaliação.
FOLHA DIRIGIDA Qual é
a metodologia utilizada?
Ricardo Martins Pedimos a cada universidade
que faça uma análise do seu perfil
e indique, por exemplo, sua missão, as
dimensões de ensino, pesquisa e relações
externas, que engloba extensão e toda parte
de presença pública da instituição
em sua comunidade.
FOLHA DIRIGIDA A pesquisa deve
ter lugar cativo na universidade?
Ricardo Martins No conceito de universidade,
sim. Agora, se a pesquisa é feita mais
em uns departamentos do que em outros, este é
um processo que a própria instituição
deve avaliar. Uma das coisas que gostaria de dizer
é que a metodologia não estabelece
parâmetros, patamares mínimos, um
figurino ao qual a universidade deva se adequar.
Na verdade, o que a metodologia quer é
que a universidade elabore seu retrato. Ela deve
estabelecer seu próprio retrato e de que
forma pode melhorar este perfil para desempenhar
melhor a educação.
FOLHA DIRIGIDA Em quanto tempo
a universidade começa a ver resultados?
Ricardo Martins Temos duas universidades
que já encaminharam seus estudos prontos
para a comissão de coordenação
e já estão prontas para receber
uma comissão externa. Elas conseguiram
realizar seus estudos, no período de oito
meses, aproximadamente. Agora vão receber
uma comissão externa para fazer a análise.
Teremos dois tipos de conclusão por parte
das comissões: aquilo que a universidade
está fazendo muito bem, e que merece ser
destacado, indicando as razões pelas quais
a comissão percebe que esses projetos são
válidos, pois isso pode servir de elemento
de divulgação. E apontaríamos
aquilo que a universidade faz bem, mas pode melhorar.
Outro ponto é indicar aquilo que a universidade,
em princípio, estaria desenvolvendo e que
precisaria ser modificado para que possa atender
melhor a missão a que se propõe.
FOLHA DIRIGIDA Podem aderir
instituições públicas e particulares?
Qual o custo?
Ricardo Martins Sim, o programa
é do Conselho de Reitores, do qual ligação
administrativa. A idéia é que a
universidade financie as atividades relativas
a todas as etapas que mencionei. O auto-estudo
e a visita da comissão externa de avaliação.
Não temos os dados atualizados, mas, quando
elaboramos o projeto inicial, estimamos que fosse
uma comissão de cinco a dez membros. Imaginamos
que a universidade gastaria em todo o processo
alguma coisa entre R$ 30 mil e R$ 40 mil, o que
é bastante barato em termos de custos.
FOLHA DIRIGIDA Não é
um custo elevado, tendo em vista os altos índices
de inadimplência?
Ricardo Martins Será que
a inadimplência está realmente comprometendo
a vida das universidades? Não sei. E não
penso que seja uma coisa muito complicada, principalmente
porque esse valor não é desembolsado
de uma única vez.
FOLHA DIRIGIDA Qual é
o interesse das universidades ao buscarem essa
avaliação?
Ricardo Martins Eu parto do princípio
de que as universidades que procuram este programa
estão buscando o serviço oferecido,
que é uma metodologia que permita a melhoria
de seu desempenho institucional. A idéia
é que a universidade possa se enxergar
melhor, que ela tenha uma avaliação
externa, através de uma comissão
montada por uma instituição que
representa o conjunto das universidades, e que
pode contribuir para sua melhoria e seu aperfeiçoamento.
Não tenho dúvida de que, aí,
há um componente de visibilidade, na medida
em que a universidade se expõe a uma avaliação,
ela poderá estar expondo ao país
o que ela tiver de bom, as soluções
criativas que ela encontrou para os problemas
que enfrenta e as decisões estratégicas
que está tomando para superar as dificuldades.
FOLHA DIRIGIDA O processo de
avaliações pelo qual passa o sistema
de ensino brasileiro é garantia de que
a educação caminha para um futuro
de qualidade?
Ricardo Martins Avaliação
sempre há e a pior delas é aquela
que não é explícita, que
é feita, por debaixo dos panos, através
de conversas não formalizadas. Então,
no momento em que você tem no país
um movimento, que não é de hoje,
que se iniciou há quase 30 anos, tudo aquilo
que vai para a formalização do sistema
de avaliação é positivo.
Claro que, ao caminhar, você tem algumas
dificuldades, alguns problemas. Pode haver discordância,
pontos de vista de enfoque metodológico,
questões de natureza técnica e até
mesmo questões de política. No entanto,
o fato de nós estarmos com essa multiplicidade
de experiências de avaliação
no país é extremamente positivo.
FOLHA DIRIGIDA As universidades
devem estar voltadas para si próprias ou
para a sociedade?
Ricardo Martins Elas devem estar
voltadas para si mesmas na sua missão,
que é estar voltada para a sociedade. Não
é uma questão de olhar para o próprio
umbigo. Ela não vai estar preocupada em
ocupar a primeira, segunda ou terceira posições,
porque o objetivo do sistema não é
esse. Ela não vai estar preocupada se será
sancionada ou não para determinado tipo
de característica. Na verdade, o objetivo
é construir o perfil da universidade e
atender da melhor forma possível a sua
missão, à tarefa a qual é
chamada a desempenhar no seu meio, na sua comunidade.
Não é uma novidade brasileira, mas
uma coisa que, no Brasil, ainda não foi
implementada.
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