|
Dez por cento da população brasileira
são compostos por pessoas muito ricas.
Cinqüenta por cento formam outro grupo: o
de pessoas muito pobres. Quarenta por cento ficam
numa posição intermediária
e não estão nem no céu, nem
na terra: é a chamada classe média.
Segundo o IBGE, o número de matrículas
dos mais ricos subiu, nas universidades brasileiras,
de 45,6% para 48% entre 1992 e 1999. As matrículas
dos mais pobres despencaram, no mesmo período,
de 8,5% para 6,9%.
Isto mostra que o crescimento das vagas em
76,2% não tornou o ensino superior mais
acessível. Pelo menos não para todos,
porque a turma pobre que conclui o ensino médio
continua, em extensa maioria, do lado de fora
das universidades. Mas esta é uma realidade
que tem os dias contados, já que o instituto
terá um gráfico diferente para mostrar,
quando os resultados das políticas de cotas,
implementadas no Estado do Rio pela Lei 3.524/2000
e pelo Decreto 29.090/2001, aparecerem nas estatísticas.
A lei reserva, na Uerj, um percentual de vagas
para estudantes que saíram de escolas públicas.
Já o decreto estende o benefício
àqueles que se identificam como afro-descendentes.
Trata-se de políticas que têm como
finalidade minimizar o índice de ausência
de negros e pobres do privilegiado campus do saber
e do conhecimento.
São medidas polêmicas, cujo desdobramento
ainda é um ponto de interrogação.
Para uns, a política de cotas vai abrir
as portas da universidade para estudantes muito
politizados, mas sem o conhecimento necessário
para que levem os estudos adiante. Outros, porém,
acreditam que as experiências compartilhadas
entre ricos e pobres, e a miscigenação
dos saberes diferenciados é que farão
surgir uma nova universidade, esta sim pública,
democrática e justa.
Para levantar as possíveis conseqüências
destas novas políticas de acesso, Folha
Dirigida convidou para o debate frei David Raimundo
dos Santos, a professora Nilda Teves e o estudante
Alan Muniz Frick para um debate. Alan é
marxista e amplia a questão para a luta
de classes; frei David, por sua vez, sinaliza
predominantemente para as dívidas da sociedade
com sua fração étnica; e
Nilda defende a qualidade, independentemente da
cor da pele e da conta bancária dos estudantes
que querem um diploma de terceiro grau.
|
Como vêem
as políticas de acesso ao ensino
superior no Brasil?
|

Alan Frick
Estudante de
História
e presidente
da UNE (União
Nacional dos
Estudantes)
|
Alan Muniz Frick
É importante a gente delimitar o campo.
Uma coisa é acesso ao ensino superior,
outra coisa é acesso à universidade
pública e gratuita. A UEE pensa em universidade
como uma casa de espírito, como diz o professor
Carlos Lessa (reitor da UFRJ). Ela é uma
casa de debates, de pesquisa científica
e de tecnologia, e o acesso a esta universidade
é bastante limitado. A gente tem cerca
de 900 mil estudantes dentro de universidades
públicas federais, municipais e
estaduais e os que estudaram em escolas
particulares de melhor qualidade é que
têm facilidade para entrar.
Não só o número de vagas
é limitado, como a forma de acesso é
excludente, porque o vestibular avalia o conhecimento
de forma mecânica. O vestibular não
exige uma visão holística da realidade
e está alheio ao grau de argumentação
que as pessoas têm. Estamos muito atrasados
nas políticas de acesso à universidade.

Frei David
É padre da Ordem de
São Francisco.
Fundou e preside
a Educafro (Educação
para Carentes e
Afro-descendentes)
|
Frei David Raimundo dos Santos
O país não optou, não investiu
na formação superior do nosso povo.
Só o Estado do Rio forma, no ensino médio,
mais de 280 mil alunos todos os anos, e a rede
pública universitária não
oferece mais do que 20 mil vagas. O acesso também
traz um vício muito grande, um descomprometimento
muito grande, porque as universidades insistem
em selecionar o aluno por acúmulo de saber
acadêmico, e não por capacidade.
Os alunos ingressam porque pagaram um cursinho
caro, que apenas os capacita a fazer um vestibular.
Ele passa, mas um ano depois corre o risco de
ficar reprovado, se for submetido à mesma
prova. É uma violência contra a Nação,
especialmente contra os pobres. O sistema abraçou
a meritocracia de maneira descompromissada com
a justiça social. Qualquer país
do mundo sabe que a universidade pública
deve estar ligada a compromisso social.
Um outro dado nos causa uma certa vergonha: o
governo federal entregou o ensino superior ao
mercado, de modo que quem tem muito dinheiro está
investindo em novas universidades, cobrando preços
conforme o mercado. Uma faculdade da Zona Sul
oferece o curso de Direito com um preço
e com professores de alto nível. Essa mesma
faculdade, se oferece o curso na periferia, o
preço é inferior e contrata qualquer
professor. São atos sujos e as autoridades
assistem a isso sem nada fazerem.
A Nação está sendo irresponsável
quando não avalia a permanência desses
alunos, tanto da rede pública quanto da
particular. Estive com a equipe da USP (Universidade
de São Paulo), em São Paulo, e depois
de muito aperto nos foi revelado que o índice
de evasão naquela universidade ultrapassa
45%. Isso é um crime contra o dinheiro
público! Na última reunião
estadual do Projeto Educafro, com quase 500 pessoas,
recebemos a visita de um diretor de uma universidade
particular de classe média alta. Após
a reunião ele falou: Olha, frei,
nós temos uma rede de 15 unidades e estamos
fazendo um projeto de readequação
à realidade, e as 30 turmas que abrimos
no primeiro ano estão sendo reduzidas a
10, porque estamos com uma evasão muito
grande. Perguntamos o motivo da evasão
e ele disse: Em torno de 5% são doenças
ou problemas de família e, em 95%, o problema
é financeiro. Os estudantes não
têm como pagar. As autoridades assistem
a isso e insistem em entregar o ensino público
ao mercado.

Nilda Teves
Professora
universitária.
Na UFRJ, integrou
a equipe que, há
10 anos, defendia
reserva para pobres
|
Profª Nilda Teves
O Brasil ainda não definiu um projeto de
universidade comprometido com esse país.
Isso tem implicações muito mais
sérias do que a gente possa pensar quando
se discute a era do conhecimento. O fosso que
se cava entre os países altamente desenvolvidos
e os países periféricos, de tecnologia
dependente, sem produção do conhecimento,
é muito grande. Diante disso, a universidade
tem um papel fundamental para o desenvolvimento
do país. Ou a universidade assume isso,
ou vai ter um desdobramento muito sério
nos próximos 20 anos.
O Celso Furtado dizia o seguinte: Dois
crimes levam um país. Um é a extração
predatória dos recursos naturais, porque
são recursos não renováveis;
o outro é a acefalia de uma geração.
A privatização não, porque
é política. Um governo privatiza,
vem outro e estatiza. Mas nós vivemos um
momento de produção da acefalia,
que se vem enraizando em diferentes escalões.
Ao mesmo tempo que se universaliza o ensino, com
todas as crianças na escola; ao mesmo tempo
que se criam o Bolsa-Escola e uma série
de medidas para, aparentemente, resolver o problema
da criança em fase escolar, depara-se com
queda da qualidade dos 1º e 2º graus,
que é gravíssima. E essa coisa que
vem mal chega como uma avalanche na porta da universidade.
Quando nós lutamos há 10 anos,
na gestão do Horácio Macedo, na
UFRJ, por uma reserva de 20% das vagas para estudantes
das escolas públicas, pensávamos
que com isso iríamos alavancar o ensino
público. Agora o que temos no Estado do
Rio é a Nova-Escola, que gratifica o professor
se houver um elevado índice de aprovação.
É uma aberração, porque estimula
que se maquiem os resultados para melhorar o salário.
|
A Nova-Escola
e a aprovação automática
contribuem para a queda da qualidade do
ensino?
|
Profª Nilda
As crianças estão chegando à
oitava série analfabetas. O problema é
muito mais sério do que se possa avaliar.
Antes a gente culpava a Lei 5.692, que é
da ditadura. Mas o que vivemos hoje é um
crime de lesa-pátria, de uma geração
que não sabe escrever, que não opera
com dois ou três algarismos em uma conta
de multiplicar. Estamos vivendo apenas o reflexo
dessa coisa que passa raspando. Quando fui superintendente
de educação na UFRJ, verifiquei
que havia uma evasão de 40%, 45%, e o determinante
não era poder ou não poder pagar,
porque a universidade é gratuita. Fizemos
um rastreamento, por amostragem, e consegui encontrar
alguns nós que favoreciam a evasão.
Nos cursos de Ciência e Tecnologia, Cálculo
e Física eram a causa. Comecei a rastrear
esses alunos e ver como entravam na universidade:
faziam prova de múltipla escolha. Foi com
esses dados que a UFRJ levantou a bandeira dos
vestibulares isolados. Depois a Uerj e a UFF aderiram
e se espalhou pelo Brasil.
Os que abandonavam a universidade por causa de
Física, procurávamos saber como
se tinham saído no vestibular. Alunos de
Física tinham gabaritado Inglês,
feito boa prova de Português e acertado
duas questões em Física. O que traziam
desta disciplina não permitia que acompanhassem
sequer a fase inicial do curso, que exigia um
conhecimento muito mais profundo do que o cursinho
tinha dado. Isso nos mostra que, além do
código de linguagem, há o patrimônio
cultural. Os que se saíam muito bem tinham
pais engenheiros, eram filhos de físicos.
Aos outros, faltava conhecimento, conteúdo
de conhecimento de Física e de Matemática.
Hoje eu vejo que a universidade pública
não aderiu ao Saeb, que é um projeto
para eliminar o vestibular, ou seja: de acompanhar
o estudante durante todo o tempo e, em um determinado
momento, avaliá-lo em diferentes áreas
do conhecimento e direcioná-lo para determinadas
escolhas, como se faz na Alemanha, um verdadeiro
vocacional. Não estou fazendo apologia
dos países europeus, estou dizendo como
é que eles têm foco na educação.
O vestibular no Brasil é realmente um
ato de violência. A universidade, quando
está selecionando seus alunos, o faz em
várias dimensões perversas, porque
o problema não é só entrar,
mas também ficar lá dentro. Muitos
filhos de classe média entram mas não
ficam, e quem me garante que o filho de pobre
entrará e ficará?
|
O governo
de Anthony Garotinho oficializou a reserva
para estudantes de escola pública.
Este mesmo governo aplicou o programa Nova-Escola,
cujos mecanismos, segundo análise
da professora Nilda, desvinculam a aprovação
da apreensão de conteúdo.
Pode-se dizer que o Governo decidiu reservar
vagas na universidade para os estudantes
que o sistema público não
preparou adequadamente? Quais os possíveis
resultados desta política?
|
Frei David
O fato é que setores do governo já
perceberam que o atual sistema de acesso é
violento e não tem como continuar. Não
acredito que as duas coisas estejam muito ligadas.
A reserva de vagas vem trabalhar numa coisa que
a universidade praticamente cruzou os braços,
que é a questão da justiça
social. Eu vejo a reserva de vagas como uma provocação
à sociedade, para recolocar o bonde no
trilho. Defendo a reserva de vagas como algo temporário,
que deve durar o tempo necessário para
botar a Nação no eixo certo.
O dado novo é que a reserva de vagas foi
implantada, está mexendo com a realidade
e questionando toda a sociedade, que tende a se
sentir incomodada. A primeira leitura é
que a reserva de vagas vai encher a universidade
de pessoas incapazes. Com certeza é uma
posição racista e discriminatória,
porque quem fala isso imagina o saber formalizado
nos bancos escolares, enquanto que, hoje em dia,
com a televisão, com o mundo moderno, isso
não é 15% do saber real do cidadão.
Esse erro está sendo atacado.
Para provar esse erro apresento dois fatos concretos:
alunos dos pré-vestibulares comunitários
do Rio de Janeiro e de São Paulo, e de
outros lugares do Brasil, prestaram quatro ou
cinco vestibulares para Medicina na Uerj e em
outras universidades, e não foram classificados.
Por quê? Porque o método está
baseado no acúmulo do saber e não
na capacidade. Estes mesmos alunos passaram por
um sistema, disputaram bolsas para Cuba, não
disputaram por esse sistema do acúmulo
de saber, mas da capacidade, e foram classificados.
Foram para Cuba e um ano depois todos do projeto
das entidades comunitárias estão
entre os dez melhores alunos. E nas escolas que
estão há alunos de mais de 30 países.
Vendo os brasileiros pobres, afro-descendentes
a maioria, vivenciando uma realidade e vencendo,
eu concluo: o Brasil está matando e jogando
no lixo pessoas pobres. Futuros bons médicos
estão deixando de se formar, estão
sendo marginalizados porque não têm
o acúmulo do saber acadêmico.
|
Há
como comparar desempenho escolar em sistemas
distintos?
|
Frei David
Tudo bem, vamos a outro exemplo: aqui no Rio de
Janeiro a PUC iniciou, em 1993, uma parceria com
os pré-vestibulares comunitários.
Alunos que prestaram vestibular na Uerj, na UFRJ,
na Uni-Rio, e foram eliminados, passaram na PUC,
que fez um levantamento do perfil desses alunos,
somou suas notas e dividiu pelo número
total de alunos. Pegou os alunos pagantes, de
classe média alta, somou e dividiu suas
notas. O resultado foi fantástico: a média
dos alunos do projeto comunitário é
superior a dos alunos pagantes, que vêm
de colégios bons.
Com isso, não dá para dizer que
o aluno que entra com reserva de vagas é
desqualificado, porque estamos outra vez cometendo
o erro de eleger o vestibular como instrumento
máximo de seleção. E o vestibular
que temos é injusto, porque avalia, em
média, só 15% do saber do estudante.
E os outros 85%, ficam onde?
Alan
O sistema capitalista tem uma máquina de
despolitização, de desconstrução
da memória, de descaracterização
do ser humano, que é absurda. A nossa memória,
que era mais ligada aos valores com todos
os problemas e todas as divergências políticas
e teóricas que eu possa vir a ter desses
valores , hoje é mais imediata, é
do consumo, valoriza o que você pode ter
amanhã. Na verdade, o que o sistema propõe
como participação na sociedade é
o consumo mais vil e mais banal possível.
Acho que isso faz parte dessa questão.
A educação e a economia são
elementos interligados e, na verdade, não
tem como fragmentar uma questão da outra.
Nesse jogo, a educaçao tem o sentido da
mercantilização.
O que se compra é um status quo para ter
a possibilidade de participar daquilo que é
o ideal da sociedade, que é o que a gente
vê nas novelas. E isso acaba criando um
senso comum, inclusive dentro da educação,
dentro das escolas, porque as crianças,
os adolescentes, crescem vendo aquilo e é
o que vai refletir neles. Como é que um
ser humano vai ter ambição, vai
ter um sonho de transformar e desenvolver o país,
quando os sonhos colocados durante toda a vida
dele é o consumo imediato? Ele não
vai estar preocupado em desenvolver uma teoria
aritmética, uma fórmula de irrigação,
ou uma fórmula de reciclagem. O que ele
vai procurar é uma forma mais rápida
de entrar no mercado de trabalho e se tornar uma
pessoa conhecida e popular.
É essa a percepção de mundo
colocada para a gente e é ela que a gente
tem de desconstruir, porque a construção
da memória é um rolo compressor,
está dentro dos livros de história,
está dentro das famílias, está
dentro das escolas, está dentro das universidades,
dentro de todas as instituições
nacionais. Essa é uma questão importante
e não é nenhuma teoria da conspiração.
Tanto que, hoje, a Organização Mundial
do Comércio e os Estados Unidos tendenciam
para que o ensino seja um serviço. Querem
que nos tornemos uma massa acéfala, incapaz
de produzir.
|
O Exame
Nacional do Ensino Médio (Enem) pode
substituir a reserva?
|
Alan
O Enem é mais uma política pública
equivocada e de má-fé para tratar
o ensino público. Na verdade, é
mais um elemento para privatizar as universidades,
já que boa parte das que aceitam o Enem
não tem uma democracia interna capaz de
fazer esse tipo de discussão. As que adotam
são as universidades particulares e boa
parte delas é um supermercado.
Quanto à reserva de vagas, como política
compensatória vem no sentido de sanar questões
sociais fundamentais. Hoje é realidade
que boa parte da população
cerca de 97% não tem acesso à
universidade, não cursou uma universidade,
e dos que entram, só 1% conclui. Significa
que são recursos jogados no lixo. Então
a reserva de vagas vem em um sentido de estar
sanando, a curto prazo, esse problema, e ao mesmo
tempo é uma grande provocação
à sociedade.
Sobre Cuba, eu gostaria de salientar que o país
tem outra concepção de educação
e, com certeza, não vai negar ninguém
que vá para lá. Em Cuba a capacidade
de raciocínio sobre a realidade objetiva
é muito mais importante do que o que exige
o vestibular.
Sobre a questão dos afro-descendentes,
acho que ela desloca o eixo central da discussão.
Uma coisa é a reserva de vagas, outra coisa
é a reserva por etnia, e a gente ainda
não discutiu isso profundamente na UEE.
Mas eu penso que, reservando vagas na universidade
para as escolas públicas, como grande parte
dos estudantes de escola pública é
pobre e é negra, a gente perde um eixo,
sem ter fortalecido o outro. Outro ponto é
a afro-descendência. Todo mundo aqui é
afro-descendente e falar nisso é também
um deslocamento. Hoje 2% da população
brasileira não são mais negra, é
pura, isso se for, porque a gente tem um grau
de miscigenação, um grau de mistura
muito grande. Eu acho que os afro-descendentes
são os filhos e netos diretos dos escravos
vindos da África; porque nós, na
minha opinião, somos brasileiros.
Continua>>
|